quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Liceu Cândido Cruz

   

     
    A coordenação do Liceu Cândido Cruz tinha como uma de suas prioridades a entrega do histórico das disciplinas estendidas sempre na data estipulada. Recebi o meu acompanhado com selo amarelo de advertências - uma cor pálida como o amarelo para representar melhor o sentido de advertências, de perigo, mais adequado do que o vermelho, como normalmente é utilizado para provocar alarme ou algum desespero nos alunos. Sim, fiquei temeroso, como normalmente seria de ficar. As notas pendulando, ora para uma média de aprovação, ora para uma fração abstrusa de uma possível reprovação. Final do primeiro semestre do último ano do ensino médio, poucos planos, apenas sonhos indecisos, confusos, pouco entusiasmo como foram os outros finais de ano letivo. Lembro quando não existiam essas disciplinas estendidas, era mais fácil. O Centro de Adesão ao Conhecimento instaurou o Plano Base de Conhecimento Humano (PBCH), propondo melhorias no entendimento sobre nossa espécie. Lembro que época todos largaram suas predileções políticas para acreditar no enlouquecimento do então ministro da educação Ameríndio Figueroa, que de tão visionário acabava por despertar um considerável desconforto nos mais conservadores. O Liceu Cândido Cruz foi escolhido como primeira instituição de ensino no país para receber o projeto. Um teste ser feito em um prazo de quatro anos. pertenci a primeira turma que colheu o Plano Base. 
           Bons tempos aqueles em que não precisávamos passar horas refletindo sobre solidão, assunto demorado, lento, dramático, ter “solidão” como componente curricular nas escolas fazia parte do Plano Base de Conhecimento Humano, no princípio imaginei, “seria fácil, ate empolgante”, mas depois começaram a surgir os entraves, o tema estava permeado de tabus, incertezas, material didático restrito, confuso, pouca aplicabilidade, sistemas docente despreparado para acolher disciplinas como esta e outras que estariam prestes a serem implantadas. Seria o conhecimento desse estado de isolamento, provocado por imensuráveis motivos, que ate as mais desbravadas ciências da psique, ou a povoas suas origens em dimensões metafisicas, possível de ser aplicado e desenvolvido nas instituições de ensino. Perguntas que todos faziam uma para o outro ou para si mesmo. Séries fundamentais e intermediarias recebias os primeiros compêndios. Lembro que eram recebidos com tom de receio. Em meia a devaneios ou delírios – visto que na época era o que quase todos acreditavam - provocados pelo ímpeto dos sonhos do então ministro Ameríndio Figueroa de instaurar as reformas do Plano Base de Conhecimento Humano, deixou escapas que de imediato não haviam profissionais de ensino capacitados, especialização em solidão para professores, quem iria adivinhar experimentação desse tipo poderia ser aplicada. Sistematizar o estado de isolamento, essa penumbra que invadia os sentidos e que muitas vezes pode ser provocado distorções na própria mente de quem a carrega, ainda um mistério, não seria tarefa simples, estava muito distante das ciências de calculo ou estudos da língua. Não se pode ver a solidão. É certo que ela sempre infligiu o espirito humano, sempre orbitando nosso cotidiano.
       

      
    Lembro-me do primeiro dia de aula da disciplina. Professor Jean Martines nos entregou um esbouço contendo o conteúdo das aulas. Imagens das pinturas de Edward Hopper ilustravam os textos. Me chamou a atenção de imediato, pois estava familiarizado com algumas, provocando em mim um certo transpirar de alívio. Um pintor que retratava a solidão na modernidade, dizia Jean Martines. Quanto aos textos: poucos fragmentos, citações de grande pensadores que, dentro de suas obras, abordaram o estado de isolamento. Mesmo conduzindo as aulas, era possível perceber em sua fala um ausência de segurança. O próprio Jean Martines poderia não saber ao certo o que estava fazendo. Talvez ele mesmo nunca teria experimentado a assunto que tentava abordar. Nossos depoimentos eram o verdadeiro fio condutor das aulas. Não estava ele preparado para abordar ou, pelo mesmo, tentar uma interpretação dos pensadores. Talvez tenha percebido que se deparava com relatos de experiências. Viu-se impregnado de duvidas. O suor encharcava-lhe a camisa. Todos percebiam. Pobre professor Jean Martines, se encontrava sozinho, perdido em dúvidas, cercado pelos olhares atentos e julgadores dos alunos. Sua imaginação a lhe trair ao instigar pensamentos de incapacidade, ou de falta de controle. Tropeçava nos próprios sapatos. Inventava histórias sobre metodologias espalhafatosas que aprendida não sei onde. Era seu fim, juguem ironicamente. Dos inomináveis e inumeráveis estados de isolamento que podemos experimentar, Professor Jean Martinez talvez estivesse vivendo. Em dada aula, não lembro qual, a percepção coletiva indagou Jean Martinez, começamos a sugerir como poderias ser os trabalhos para avaliação, antes que o céu pudesse eclipsar por completo sobre sua cabeça, ou o chão sob seus pés atolar-lhe em profunda perdição de conhecimento, pedi permissão para falar, uma rara atitude, dessas que fossa de tempos em tempos. Sugeri que procurássemos outros textos, na biblioteca ou em nossas casas, que pudessem trazer um acréscimo as discursões. Nunca fui um bom aluno. Era o mais velho da classe, devido a desistências ou reprovações. Não era o melhor aluno, mas poderia me considerar o mais maduro, assim sendo, podei perceber o teor e a importância do que estava acontecendo. Estávamos tendo a oportunidade de aprofundamos em nossas mais intensas, e quase confessionais, investigações sobre nós mesmos. Talvez tenhas descoberto algo que até então não percebia, gostava de observar a alma humana sobre outros ângulos. Na ocasião, o professor Jean Martinez, percebeu a pertinência da sugestão que dei. Rendeu-se pela urgência, porque não lhe restou, de imediato, mais opções. Mas teve este a oportunidade de não retorcer-se ao a breve instante de controle e maestria do aluno intrusivo. Os poucos segundos de atenção de todos que eu havia conquistado se perderam na maestria de como Jean Martinez tomou por rédeas minha ideia. Reciclou-a. É claro, não teria intenção de me colocar como salvador da aula, ou de tê-lo ajudado em seu obscuro momento de ausência de ideias. Pesquisar e elaborar um breve texto, foi a tarefa barganhada entre os alunos e Jean Martinez.
       Na correria pensei em expor a carta de Pedro Américo me deixou. Nunca descobri que tipo de mal o infligia. Lembro dele como alguém que a poucos minutos estive me despedido com um ‘até logo’. Falava pouco sobre si mesmo. Poucos amigos, ou tinha como predileção a política cautelosa da desconfiança, uma boa política preventiva para uns, mas para outros era mais desses estranhos apáticos e excêntricos que ficava a vagar pelos corredores do Liceu Cândido Cruz, sozinho e com os pensamentos em outras dimensões ou em outras épocas. Sendo alvo dos constantes cochichos maliciosos, fruto talvez de alguma antipatia gerada pelo seu estado de silêncio. O que mais se podia observar na escrita da que carta que me deixou era o tom de uma atmosfera desértica que se colocava. Metáforas como planícies ou quilométricas estradas compunham sua ambientação. Qualquer senário que não se pudesse ver onde termina parecia lhe transmitir sentidos, optava sempre por estas, e escrevia que sempre percebia quando estava diante finitude dos objetivos lhe causava desconforto, inquietações, medo. Sentia medo quando se colocava diante da possibilidade de ter chegado ao final da jornada. Sentia medo da plenitude, pois esse significava o final de tudo, que outras jornadas poderiam não existiriam. Preferia o indefinível. O incolor lhe atraia. As repetições lhe eram doentias. O desconexitividade das coisas lhe desafiavam. O abstrato era confortante. Talvez por isso gostasse de pinturas impressionistas, ou de qualquer resultada advindo do imaginário mais espontâneo. O Liceu Cândido Cruz não era mais seu lugar. De fato pelo que pude entender de sua carta qualquer lugar não seria. Pra onde ele fosso seria perseguido por questões que nem mesmo ele seria capaz de responder, quais sabores deveria experimentar, quais prazeres deveria viver, quais paisagens deveriam ser vistas, color ou incolor, qual caminho deveria seguir, quais perguntas deveria responder, ou quais respostas deveriam ser dadas, quem deveria receber seus afetos, o que são sonhos, o que ele realmente procurava, onde encontrar, como encontrar a si mesmo, estariam as pessoas a sua volta fixadas a uma ilusão de um mundo que corre uma ordem, estaria ele preso dentro de corpo com algum distúrbio psiquiátrico. Escreveu na carta que se sentia como se caminhasse em uma estrada cercada em ambos as lados por telões que exibiam a todo instante imagem de todos os cotidianos que já viveu, imagens de pessoas que ele conheceu, imagens de palavras ouvidas ou lidas, imagem de melodias ouvidas, uma estrada que nunca chegava a algum destino, uma histórias sem desfecho, que estivesse sempre a ser narrada, interruptamente.

       Curiosos: agora, anos após sua partida, foi que o projeto experimental do ministro Ameríndio Figueroa, após as reformas do Plano Base, como a aplicação das disciplinas estendias, e como suas possíveis reesposas venho perceber que Pedro Américo poderia está vivendo em algum tipo de estado de isolamento. Quem sabe se ele não seria um dos melhores alunos do componente curricular “solidão”, ministrando aulas e construindo uma carreira e conquistando carreira de sucesso (é claro que isso é só ais um dos meus devaneios, afinal, nutrir devaneios não é crime), mas seria quase certo que ele haveria de fluir mais o que sentia. De desvendar e redescobrir uma inteligência que poucas conheciam: Pedro Américo conheceu uma fração de si mesmo, há de ressaltar que são raros os que se atrevem a observar. Pedro Américo conhecia como poucos o estado de isolamento. A história dele me garantiu uma boa média, ao mesmo instante que garantiu a Jean Martinez uma orientação para trabalhar toda a disciplina durante o ano letivo, é claro sem que me tenha ofertado qualquer bonificação nas notas ou alguma predileção como aluno.
         O Plano Base, e as disciplinas estendidas será extintas nos próximo ano. Os motivos que deram foi a falta de viabilidade do projeto: alto custo;  ministro da educação Ameríndio Figueroa foi encontrado morto seu apartamento, com a suspeita de suicídio. Mas na realidade a indústria da saúde enfrentava, nos anos em que o plano base foi posto em prática, uma gigantesca queda na sua arrecadação, psicólogos, psiquiatras e indústria farmacêutica amargavam prejuízo quase incalculáveis. Afinal ter como disciplinas como: solidão, medo, sentidos, memória, morte. Serem aplicadas nas escola poderia de alguma forma influencias nossos sentido pela existência. Ficará na minha memória esse tempo que a escola nos preparava para conhecermos o que, certamente, iriamos a conhecer no futuro, talvez estaríamos preparados, talvez não. Mas aqueles poucos anos, aqueles em que a “sombra do conhecimento” sobre nos mesmos pairou sobre nossas consciências, assustando, abstraindo a ordem das coisas. O Plano Base seria extinto, o Liceu Cândido Cruz enfrentava o quase fechamento devido ao termino do projeto.  Mas eu havia completado a média que precisava. Não é isso que todos queriam?     




                                                                                       Edson Moura

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dos hábitos intrusivos

   



     
    Quando a preferências pelo barulho se transformas em aversão à preferência pelo silêncio?  Poderia iniciar com uma breve metáfora bem comportada sobre uma suposta “página em Branco” (e que ele poderias representar), ou exemplificar com uma reflexão sobre as reticências, seus usos, seus valores de sentidos e suas mistificações no uso da língua. Mas o silêncio a qual me refiro é outro, longe das carnavalescas metáforas ou exageradas intenções metafisicas. O Silêncio a qual me refiro é esse que todos, hoje, esqueceram que existe, aquele que o oposto do barulho, os altíssimos decibéis, os mecânicos, chamada contaminação sonora, agudos, médios e graves. Os mesmos decibéis incômodos que em uma crônica o escritor argentino Ernesto Sabato refletiu, como um sintoma enraizado das novas gerações. De súbito tive certo conforto: alguém diagnosticou a mesma perturbação patológica. Pensei: não estou sozinho.
          Será que existem meios para alcançar o ‘silêncio de Buda’ através da contaminação sonora? Às vezes me flagrava fazendo essa pergunta. Penso que nesse caso sou o melhor adepto da preguiça, pois me falta paciência para tentar fazê-lo. Mas acredito que tal estado de mansidão eu já tenha alcançado quanto estou em um sonâmbulo profundo ao ler qualquer livro que caia em minhas mãos, e que interesse hipnótico venha a provocar. Memorável o dia em que tive a oportunidade de por mais de quatro horas seguida lendo “A Revoada” do Garcia Márquez sem ser atormentado por qualquer tipo de intromissão sonora que não fossem os tilintares do mensageiro dos ventos, ou os, sempre bem vindos, ruídos dos pássaros ao bicarem o telhado.  Perdemos a noção de quietude ou estamos vivendo num momento em que o gosto pelo contaminação sonora, o barulho, tenha se tornado um tipo de valor almejados por quase todos, uma autoafirmação, um pré-requisito para aceitação dos grupos. Se não for adepto ao barulho, és socialmente perturbado, uma pessoa complicada, antipática, um antissocial, um estranho ou uma espécie de maníaco caladão.  Simplificando mais ainda: caso seja um adepto do silêncio, será como um vegano num rodízio de caminhoneiros em pleno sábado ao meio dia.  
       Como ficcionista, ou exercitando essa indefinida pratica de inventar histórias, poderia inventar uma realidade onde as pessoas, por consequência viral ou uma danação divina de uma oitava praga, tenha perdido a capacidade de ouvir, um tipo de apocalipse da surdes – pegando carona no incrível romance de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, poderia manufaturar um ‘Ensaio sobre a surdez’, se é que já não exista. Nunca entendi esse meu distanciamento das complicadas contaminações sonoras, talvez porque o que sempre procurei, a mansidão do inconsciente devesse ser uma consequência paulatina, um processo que se inicia com a ideia da ausência de mundo, ou pelo menos uma simulação interna de que ele não esteja em movimento. Talvez – e este ‘talvez’ seja porque nunca acreditei em certezas, e que o sentimento de decepção, fatalmente, possa acontecer quando essa ‘certeza’ não é confirmada - essa minha estranha obsessão pelo silêncio tenha da motivação para nomear, inocentemente, o titulo do meu primeiro livro de ficções “O silencio das Vespas”. Talvez o gosto e a preferência pela ausência da contaminação sonora seja algum tipo de delírios psicológico que tenha percebido.

                                                                             
                                                                                      Em 17 . 02 . 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Reaprendendo a ler Schopenhauer


         
         Será que o otimista seja um mero receoso que espreitou uma breve visão de sua própria realidade? Há tempos venho me fazendo essa pergunta. Em um mundo onde “tudo pode, e tudo é possível”, a tudo podemos ser indiferente remorso e a tudo desejamos vorazmente, onde quase tudo se configura de acordo com nossa vontade, com nossos ímpetos de apenas querer, e prono, tudo podemos. Assim sendo, o presente não seria de uma sustentável, de fácil aceitação, e o futuro não mais seria algum tipo de cavalo indomável e desgarrado, que instiga nossas ansiedades ao imaginarmos o quão podem ser cruéis as fatalidades do que está por vir, o além ou o adiante.
      
Pias (rodoviária) Foto de E.M.
      A natureza humana é um entrelaçar de medos e receios. Não há como irmos ao seu cerne sem esbarramos num complexidade de pensamentos violentos. Se não fossem os códigos civis, as exigências morais, ou mesmo a possibilidade de uma punição divina-metafisica do além morte, para conter esse aspecto onírico, estaríamos condenados a usufruímos apenas de nossa natureza primitiva? Irão dizer: “somos privilegiados com o Dom da afetividade”, mas observasse afetividade e coexistências em amimais, até mesmo mais afetividade do que entre muitos de nossa espécie. Otimismo vem como uma espécie de manto mágico para nos proteger nós mesmos, das nossas inconsistências, de nossas fatalidades sem solução. Percebo uma espécie de “ditadura do otimismo”: a obrigação inconsciente da felicidade a qualquer custo, e se você não a consiga, não terá a plenitude da vida (seja essa lá qual for). Tenho medos da receita do otimismo, pois ela me afastaria dos grandes pensadores do conhecimento observados por estes sobre nós. Confesso, experimentei otimismo uma vez, ele me colocou no mundo das abstrações.
        Ler muito é perigoso. Ler grandes pensadores é mais perigoso ainda. Pois conhece-los, ou seus trabalhos, nos coloca frente a frente com nossa existência, com nossos questionamentos, com nossos medos mais incomunicáveis (com nossos próprios demônios), sobre o que de fato estar acontecendo a nossa volta, o conhecimento nos entrega um raio-X do que realmente somos: seres violentos, seres transgressores, pisco-problemáticos, seres falhos.  Me pergunto: será que o otimismo convencional, com suas regras bem definidas e bem impostas, estão cada vez mais colocando de lado nosso interesse em aceitarmos a natureza humana, romantizando algo não somos. As pessoas estão trocando o interesse pela noção de existir (ou de existência) pelo rápido e “eficiente” otimismo de autoajuda. Trocamos Heidegger, Camus e Beauvoir, pelo palestrante motivacional dos próximos finais de semana. De tanto observar o cotidiano, estou reaprender o que de fato é o pessimismo. De tanto observar o cotidiano estou reaprendendo a ler Schopenhauer, eu sua trágica compressão sobre o desespero humano. Confesso, sempre serei pessimista quanto ao otimismo. 




                                                                                              Em 10.02.2017
        

sábado, 7 de maio de 2016

Vespertinos em Coma


Projeto editorial do meu livro de contos e novelas: "Vespertinos em Coma", trabalho publicado pela editora Penalux em 2016.




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O fim (Microconto)





Tornou-se uma poça de chorume a alimenta as rosas do túmulo.


                                                                                              Edson. M. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Metáfase


           
      
     
          Perdeu a coordenação dos dedos no momento que ajustava as últimas placas de chumbo e manganês no recipiente de fibra plastificado. Foi por um instante. Sentiu uma alfinetada cravar-lhe um zumbido nos flancos dos olhos, apertou a pálpebras com tamanha pressão que sua visão estalou riscos luminosos até cegar a uniformidade da visão. Apoiou-se na bancada de ferramentas, simulando controle sobre o inesperado surto, inflando os pulmões vagarosamente, esperando os batimentos de o coração atenuar. Os supervisores da esteira não perceberam, ou só perceberiam caso fosse perceptível um amontoado dos recipientes ao final dos trilhos da bancada e um homem fosse visto estirado ao chão a debatesse em convulsões, perceberiam quando a aparente ordem da lógica de produção estivesse alcançada algum ápice inesperado, aglomerando expectadores a sentir o sangue trafegar confortável pelas artérias, pela falto de recíproca do trágico desfecho do ajustador de placas de chumbo e manganês não recaírem sobre eles. Não recai nos planos atribuídos ao acaso, também, a função se delinquente homicida. O cloreto de amônia foi inalado durante expediente. Sim. Era esse o prognóstico, os sintomas, alertados no estatuto de segurança. Que pormenores transcendem a prudência, delimitar as necessidades, o empregos e a observações dos supervisores, sempre obscuros e sempre ambíguos.
           O montador de placas recuperava o compasso da respiração, mais três vaporadas de ar e estaria a manusear as ferramentas da bancada. Recuperar a quantificação da cota de montagem, prioridade consciente, e a esta recaia uma maior urgência, menor produção iria sentenciar seu gráfico financeiro a descontos por improdutividade, e ficaria a duas dúzias de recipientes de fibras plásticas mais distantes de suas contas para aposentadorias, no qual se livraria do cádmio e do negro acetilênico que respirou por quase duas décadas, remediando uma alforria intoxicada por lastros químicos. Os prestamentos do imóvel, mesmo com a segurança e a concretude consciente de ter seus valores monetários garantidos em suas economias pessoais, as preocupações vinham e retrocedia nas lembranças dos instantes do surto do frustrado desmaio, uma queda na pressão arterial, imaginou, provocada pela impertinente preocupação. Um operário preste a ceder a um adiamento do prazo para aposentar-se do vício da rotina. Lembrava-se da norma de conduta da fábrica: atestado médico pelo desvio dos estados da saúde provocados por imprudência não contabilizaria tempo de carreira no fichamento de trabalho. Reprimiu os cuidados alertados pelos supervisores: admitia, sim, este, ao pedir-lhe para colocar, incontáveis vezes, o filtro de ar, bloqueando a passagem dos vapores invisíveis do cloreto de amônio através de boca e narinas. Não, os carrascos não eram os supervisores. Azedume metálico na boca, as dores pontiagudas na fronte do crânio, a náusea, a bile que travava-lhe os sabores, a cintilação na vista, o desequilíbrio nos movimentos, os batimentos cardíacos, pensava, envelhecer é isso, perceber a medição do erro pelas pancadas cardíacas.
            Antes mesmo de se recuperar do surto, engolia a saliva grosso, afogando-se em toses secas. Apoiava as duas mãos na bancada novamente, fixando um olha piedoso ao primeiro que apontou atenção. Pensava. Envelhecer e essa instância sensitiva de amadurecer os remorsos, essa interligação dos sentidos através dos surtos de enfermidades. Mas tudo passa, repetia e máxima para si enquanto inflava as ultimas respirações. Lembrou mais uma vez. Envelhecer é aperfeiçoar a retórica do otimismo, escondia suas proficiências. A enfermaria, lembrou, no percurso para portaria. Sua checagem estava atrasada, levaria apenas poucos minutos para um rápido exame. Recuou as gavetas da bancada, olhou os últimos traves de segurança, a esteira parada, as placas de chumbo e manganês ajustadas nos recipientes plásticos restantes. Todos se agrupavam. O montador esperava a dispersão do aglomerado. Um a um, até restar-lhe o corredor livre. Percebia que os odor do negro de acetileno amenizava, a medida que se aproximava do pátio frontal. Confessava, perdido em outras confissões, nunca perceber esse sutileza, que esta tem esse nome pelo perpassar silencioso e gentio como carcome a percepção, que num breve descuidos de inconsciente começou a notou os comichões que salientavam sua pele. Deveria ser alérgico a cádmio, umedecia as placas de manganês no processe de montagem, não usou luvas nos últimos dias. Balbuciava sigilos antes de entra no ambulatório. É imprevisível o porvindouro, pensava com essa postura, como um álibi atenuante para qualquer diagnóstico que a atendente do ambulatório lhe prestasse. Entrou na sala que cheirava a esterilização. Suplicou com uma melancólica soturna nos olhos à imponência desdenhadora da atendente, assim se construía a reciproca: um diálogo de concordâncias de repúdio e cortesia, com a conformidade como desfecho. “O que está sentindo,” perguntou a atendente, entregando ao montador um fichamento para ser preenchido, enquanto olhava para a enfermeira, bocejando resíduos da sua pestana, desconfiança nos ponteiros do relógio, “essa hora”, reclamava em meio ao flagrante de sua função. “Tive dores nas laterais da cabeça, hoje, no trabalho,” admitia o montador de placas. “Só isso, uma dor de cabeça passa com aspirina,” retorquia a enfermeira enquanto checava as variações da pressão arterial, “sem muito alarme para sua idade,” tranquilizava-o. “E esta inflamação, aqui,” estirou o braço, mostrando as saliências avermelhadas, que em uma segunda observação constava um farpa de pele ressecada que entre arrancava-se como uma minúscula chaga intrusa. “Deve ser uma queimadura cicatrizando, você se machucou no trabalho,” interrogava a enfermeira enquanto carimbava o receituário de seu paciente. “Pode ter sido reação alérgica ao cádmio”, sugeria esse segundo diagnóstico, ao passo que, em medicina, as hipóteses do senso comum seriam apenas são hipóteses, apenas. “Não encontrei problema, e quanto as dores de cabeça coloquei um analgésico no receituário, aqui, pegue, vá descansar.” Com pressa desdenhosa, a enfermeira, abruptamente, concluiu seu expediente.
            A fábrica fecharia os portões em poucos minutos. Saiu com os olhos fixados nas saliências da pele. Poucas horas e elas se esparramavam em tamanho. Não comichavam como uma alergia rotineira. Mas as farpas apontavam com maior abertura. Notou rachaduras nas periferias da chaga. Um aglomerado de operários se distraindo, dissolvendo álcool nas palavras que murmuravam. Era o momento de desconexão com realidade. Era o momento que não existia o porvir ou o medo. Onde sentidos se perdiam no sem sentido, e fluíam em nos breves instantes que colhiam a umidade da noite que caia. O montador de placas aproxima do grupo, sendo recebido com alegrias sonambulas e copos de teflon. Costumava beber umas poucas doses ante de voltar para casa, esquecer o dia de trabalho as lembras do surto que teve. Quando sentiu o segundo gole de vodca arrastando garganta à dentro perdeu as reticências de sua insegurança, despiu o braço da manga do jaleco da empresa deixando exposta a saliências, que nos momentos que seguiam o curso das horas crescia sua preocupação. “Veja, alergia a cádmio, ficou vermelho e agora está crescendo feridas.” Mostrou para o companheiro com expressão azeda, a melancolia alheia é uma porta para pretensões mais austeras. “Não vejo nada”, respondia o homem, entortando um sorriso declinado de estranhamento. A desaprovação do homem alimentava um súbito alívio. Deveria ser exagero o que via, pensou. A enfermeira e o homem melancólico não viram a anormalidade da pele, lembrou. Uma infecção subcutânea não seria, não sentia ardor de febre, deduziu. Sentiu a saliência diminuir, poderias ser um efeito produzido pela baixa luminosidade, ou a reação alérgicas não passou de lapso de medo, vestígio do surto. Interrogava a outros, em meio aos berros de gargalhas, ninguém prestou-lhe afirmativas se sim o não. Interrompia a noite na quarta dose como o costume costumava avisar que era hora de retornar para casa. Despediu-se sem maiores afetividade, apenas com leve declinar de cabeça, não mais, não menos. Maiores cortesias são quase sempre acompanhadas por desconfianças e reciprocas flébeis. Não queria se sentir como jogral que ri ao ser insulto pela desconfiança.
           Uma ofensa pela gentileza, a qual recolheria a opacidade do contragolpe. Percebia que todos o desdenhavam na brandura da camaradagem. Seria esse um dos sentidos das gentilezas, colocar rédeas no ímpeto, atenuar o frenesi da fragilidade das intepretações mais desentendidas, ou silenciar-se para pôr em curso a continuidade qualquer ordem que achava ser justa. Guardar indagações antes da aposentadoria, guardar rancores antes da aposentadoria, guardar expressões antes da aposentadoria, guardar as incapacidades antes da aposentadoria, e, para sempre lembrar, guardar as saliências antes da aposentadoria. A porta da casa rangia quando a empurrou, quebrou a tranquilidade dos cômodos vazios, diria que a ausência de algo é sempre uma maneira abstrata de preservar a ordem, diria que a escuridão dos cômodos representaria a uma calma sentida apenas em trevas, diria, quando eu ativar o interruptor e as luz acenderem, contaminando toda sua casa com ruídos luminosos, nasceria uma cosmologia retraída, implosão de inconsciência, primeiro o verbo acender, depois o desejo pelo opaco e sombrio, tudo numa calma que ele deleitava em seu próprio silêncio. Desligou alguns interruptores, deixando apenas a silhuetas de algumas moveis, olhar com a tatear das mãos. No banheiro, desarrumado e cheirando a sabão velho, despiu-se observando a lembrança das inconclusões do dia, o surto, o desdém da enfermeira e as falsas cortesias dos outros operários. Olhos sonolentos. Friccionava com sabão o loca da saliência. Pouca luz, não conseguia ver ou analisar as melhoras ou pioras. Largou-se na conformidade, a exaustão prevalecia frente aos cuidados. Seguia pelo corredor, na direção do cômodo onde estava sua cama, quando notou que na cozinha havia sinais de infiltrações pelas paredes. Observou antes de ir à fábrica as rachaduras de brotavam nas laterais da pia e fogão. Surpreendeu a si pela própria negligência. Embriagado pelo cansaço, tateou as rachaduras, investigando as infiltrações até um pedaço do acabamento descolar, deixando a cadência dos tijolos amostra.

            A casa se desfazia pela falta de cuidados, espalhado ao chão os pedaços da alvenaria apodrecida. Sua casa apodrecia. Veredicto dos fungos, umidade e calor. A curiosidade retirava se sono, a obsessão tira o sono, as descobertas latentes. Mas deixaria o desfecho para outro momento. As descobertas parasitam a serenidade, a serem estas micro gêneses das descuidadas loucuras e experimentava nas horas de noites altas. O montador de placas adormeceu esquecendo o mistifório que possa ter provocado as infiltrações da parede. Sepultado nos prazeres da ausência de sua consciência. Ausentou as preocupações nas horas que seguiram. Aquele horizonte que calmaria que nunca se lembrava, que experimentava todas as noites. Se assim lhe permitisse cairia no sono todas as horas do dia se assim lhe permitisse acordar em estado de enferma brusquidão, no ápice de cada sono para ver se os recibos das prestações da casa estavam todos em corriqueira ordem. A velhice não é sábia, pensava. Por breves intuitos percebia que o exercício de esperar o tempo não lhe trouce menos terrores, não trouce menos apreensões. Desde sempre, visto o sempre intitulava qualquer medição não percebida ou não posta em cronograma, acordava no meio da noite para revirar as gavetas a procura dos recibos das prestações da casa. Os impostos ou hipotecas eram conferidos, ritual de todas as madrugadas, perdido num labirinto de precauções. Engenhou, calado, que as noites que seguirão seria tudo diferente, tudo mudado a partir da noite que percebeu que seu sono. Uma promessa íntima era um vício entre tantos outras. Por fim a madrugada terminaria com as primeiras aluminações da alvorada chegando-lhe. Envelhecer era fatiga-se através da luta do descanso, pensava. Andou de um estremo a outra da casa, procurando pincel e cal para preparar argamassa e esconder as rachaduras na parede. Reparou que existiam outras na extensão entre a cozinha os cômodos. Outras, mais discretas, brotando dos caibros da sala principal. Faria a manutenção onde requereria maior urgência. Uma casa digna requer cuidados. Lamentava o descuido. Desde o dia que efetuou a compra, nunca se preocupou em observa as falhas do imóvel. O concreto não reclama as enfermidades do tempo, não reclama o envelhecimento, não reclama das ansiedades, e ouvia esse raciocínio as lembras no antigo dono da casa, das histórias que lhe contaram os vendedores, um solitário que morreu sem testemunhas. Seu corpo foi encontrado pelo fedor que exalava, os vizinhos encontraram seu corpo apodrecido.
             Foi consumido pela solidão, costumava ouvir essa frase dos poucos a quem prestasse alguma atenção. Apodreceu pelo isolamento. Morreu de complicações provocadas pela diabete, primeiro seu sangue, depois seus órgãos, seguido de uma cegueira parcial. Mas o senso culpou a solidão, coimo um pecado indesfrutável, é proibido estar só, dizem. Pensava estar condenado pelo mesmo senso. Que assim o fosse, repetia conformado, melhor viver pelas incertezas próprias do que pelas regras bem mensuradas do medo do porvir. Mas não deixava de sentir-se inarticulado quando lhe alertavam sobre qualquer eventual necessidade de companheirismo. Tinha de admitir que as pessoas fossem guiadas pelos ditos do senso, a desobediência é um gesto repudiado pelo simples fato de representar uma partícula do que todos nomeiam de conquista do livre-arbítrio. Sempre que alguém lhe perguntava sobre o por quê de estar vivendo em uma casa de um morto cadáver solitário, optava pela resposta mais desdenhosa que encontrava, a que não tinha outra casa de melhor acesso, é claro que a evidência da resposta mais honesta era de querer não ouvir outra voz, a não ser a sua própria, tenha em cognitivo que a liberdade ofende com escárnio os que não a tem, e sabia que seus vizinhos reprovariam sua sinceridade. O senso obrigava-lhe a mentir. Percebia que as corteses mentiras mantinham o equilibro do convívio com as pessoas do bairro, uma política que o mantinha afastado de maiores problemas causado por qualquer tipo de rumor.
              A imaginação é um campo fértil para o perjúrio. Enquanto terminava de misturar a argamassa sentia, por sutileza do súbito, os comichões roendo a pele de seu braço. Desta vez as saliências vermelhas escureciam seu tom, copilando um rubro coagulado, as rachaduras secas da periferia mostrava nas profundidade a carne, formando ranhuras venais que se bifurcavam em múltiplas vias. Largou a espátula a percorrer nos cômodos a procura de iodo e ataduras. A enfermidade agravou-se pelo descuido. Borrifava o iodo, desastrosamente, em toda extensão do ferimento, enquanto comprimia com gaze e algodão. Agora outras partes do braço apresentavam indícios de inflamação, não estava ali antes. As saliências vermelhas se alastraram como um efeito viral, ou uma infecção que não ardia. Não era dia de seu expediente na fábrica, a enfermeira não atende a operários que estivessem fora de horário de trabalho. O posto de saúde só começaria a prestar serviço ao meio dia. Iria esperar até o horário de abertura. Teria tempo para reparar as rachaduras da casa. O reboco estava pronto. Com a espátula na mão, fixava a argamassa nas deteriorações dos caibros, primeiramente. Depois seguiria para cozinha. Levando pouco tempo. Resolveria o problema das erosões da casa e seguiria para o posto de saúde. Alergia ao negro de acetilênico, concluía para si. Só poderia ser. Passou todos aqueles anos em contado, manipulando com as mãos nuas e sem a máscara de proteção. Quando por fim o último chapisco de argamassa foi expelido, sua respiração trouce um zumbido que percorria toda a circunferência do crânio. Novamente a mesma sensação sentida na fabrica. Um mulher pressiona sua mão no ombro, apoiando e perguntando interrogando seu nome. O montador de placas aponta-lhe um olhar confuso. Esquecendo as dores de cabeça que reapareceram e o assolavam novamente. “Que acontece”, perguntou ele a mulher. Ainda nauseado pelas súbitas dores, levantou em brusquidão, dissimulando vigor e tentando esconder sua enfermidade. “Não foi nada, só uma leve tonteira que senti, deve a circulação, passei muito tempo na mesma posição,” respondeu o montador de placas, com uma postura de imponência para melhor acobertar-se de um possível interrogatório. “A porta estava aberta, aí, entrei para perguntar se tinha visto as condições da frente da casa.” Espantado com a afirmação da mulher, foi averiguar que ela havia dito. De fato: a varanda estava repleta de rachaduras. Não tinha prestado maiores atenções. Ainda sobrou um pouco de argamassa. Perguntava, sussurrando “como havia reparado antes”. Não escondia sua apreensão ao ver as paredes da casa se desfazendo.
            O tempo, pensava, escapou de vista. A umidade, pensava, é uma anarquia invisível. Não prestou maiores considerações pela mulher que lhe preveniu em restaurar outra parte da casa. Tapou, grosseiramente, o quanto pode pela escassez da argamassa. Não agradeceu a mulher pelo súbito obsequio de interromper seus sintomas, ofendia-se com cortesias, repulsava demonstrando com silêncio das palavras e movimentos de aprovação com o pescoço. Mas antes que a mulher sair, mostrou-lhe as saliências da pele, última remissão antes de ir ao posto fazer os exames. “O que pode ser”. Perguntava, escondendo as culpas do seu desprezo pela mulher. “Pode ser o que” replicara a pergunta, tentando entender e analisando minunciosamente a parte do braço mostrado pelo. “Não vejo nada de estranho” respondia a mulher. “Começou ontem com uma mancha vermelha e agora está ferindo a pele. Hoje apareceram outras. Logo mais irei ao posto fazer exames”. Estendeu os detalhes esperando uma maior condolência, ou qualquer sugestão, vinda da mulher, que lhe amenizasse a ansiedade. “Não vejo nada”, insistia, cortando suas atenções para o montador de placas. Lembrou-se dos recibos de pagamento da casa, o próximo deveria ser pago antes do final do mês. A lembrança veio em plana luz do dia, fugindo da madrugada, como era o costume. A argamassa terminou e deveria comprar mais antes que os estabelecimentos baixassem as portas.
            Quase no horário do atendimento no posto de saúde começar. Deixou a restauração de lado, prontificou as ordens da casa, trancou portas e janelas, avisou, ligeiramente, a algumas pessoas da vizinhança que voltaria rápido. Espera que fosse uma rotina sem maiores gravidades e que um tratamento adequado seria suficiente para prestar-lhe melhoras. Poucos pacientes na fila de espera, se cartão de seguro social estava em dias com as cobranças. A atendente do posto não lhe agradou, falava em espasmos de bruteza. “Pacientes desse posto são como crianças, tem que repetir várias vezes o mesmo conselho até que entendam,” queixava-se para as quatro direções cardeais ou para qualquer indigente que prestasse atenções. O montador de placas não poderia lhe culpar pela crueza da impaciência, poderia pensar que estivesse a tanto tempo projetando no preenchimento das fichas de pacientes seu estados de melancolia. Residências de tratamento da saúde é uma espécie de limbo, uma fronteira, sentasse perdido em dúvida ao entrar e aliviado ao sair. Cheiro de álcool e curativos, cheiro de desinfetante barato, uma copia de um quadro da santa-ceia e um crucifixo ornamentando a recepção, paredes sujas e desbotando as primeiras cascas de tinta. A recepcionista o chama com o mesmo tom de rancor que exalava contra os outros que o sequenciaram. Limitou-se apenas a responder o questionário de identificação, sem outros pormenores. Na placa fixada na parte superior da porta estava escrito ‘clínico geral’, supunha que nessa generalidade estivesse o diagnóstico, ou as causas, das saliências do montador de placas. O clínico era um homem de ações lentas, despreocupado com qualquer turbulência na rotina, sonolência nas palavras e nos olhos. Um rádio compacto com volume de som sutilmente alteado para distrai-lo com assuntos que não fossem as recorrências do posto de saúde e que não o atrapalha-se nas consultas. Pensou não haver nenhuma possiblidade do clínico exalar uma lágrima de aflição, outra vez o estranho senso que desejava clemência que o persegui a transforma-lhe naquele estado confuso de infância.
             A piedade não vigorava na postura do clínico, nem para os maus ou bons diagnósticos. Ao prestar a conclusão do exame, o clínico, disparou uma leve fúria contra o paciente a sua frente, sim, existe uma fúria leve, aquele tipo que tempestua sem agressão física: “angustia não minha especialidade, nem tão pouco delírios, o senhor não tem problemas de pele.” Diagnostico reprovado, ou a ausência da enfermidade que o montador de placas. O que seria mais confuso que um diagnóstico com a ausência de veredictos era um implicação irônica por angústia. “Mas não vou precisar tomar nem medicamento?” Perguntava preocupado com possíveis pioras. “Você não tem nada, nenhuma doença, só tem que descansar.” O clínico o acompanhava até a porta com uma simpatia dissimulada, impelindo-o com um sorriso forçado que escondia uma leve afobação em retirar um volume da sala de clínica geral. Agora um especialista lhe dizia que não existiam sintomas observáveis. Antes a enfermeira mal humorada, depois o senso banal mulher intrometida e agora o clínico. Tão vago quanto polifônico era aquela ausência de comunhão com uma verdade confusa que experimentava nas últimas horas. Saiu do posto de saúde sem despedir-se ou prestar qualquer atenção para atendente.  Lembrou que tinha que comprar argamassa para conclusão dos reparos nas paredes. Lembrava dos recibos, lembrava dos dias que restavam para sua aposentadoria, lembrava dos olhares desconfiados dos supervisores da esteira, lembrava do cádmio, do cloreto de amônia e do negro de acetileno, lembrava da casa que estava sob a vigilância da mulher que se intrometeu em seus espasmos de dores de cabeça, lembrou de olhar para o braço e continuar vendo, e quanto mais se afastava do posto de saúde mais intenso ia ficando as saliências. “Deve ser a temperatura do sol”, pensava. Na loja de alvenaria solicitava a quantidade de cal necessária para as providencias das restaurações da casa. Recuperava o controle da respiração. Tinha pressa. Tinha tarefas para o resto do dia.
          Ao estirar o braço esquerdo para entregar o pagamento ao caixa da loja de alvenaria percebia que novas saliências. Agora eram ambos os braços afetados. Perguntou a jovem, que esta lhe entregou o troco, o que ela via em seu braço, “não vejo nada”, respondia, como já havia caído no consume partiu em direções do vendedor da loja, “não vejo nada” respondia, também. Supondo pela hipótese de que outras partes do corpo, além dos braços, estivesse sob o domínio das saliências vermelhas, correu na direção do banheiro do estabelecimento, despindo-se e molhando o rosto com gestos afoitos de alguém descobrira seu ceticismo com diagnósticos de profissionais da saúde. Sim. Estava doente. Não. Não estava. Se digladiando na frente do pequeno espelho em um banheiro que entrou antes, seu rival mais infame: suas abstrações. Nem toda água enxaguando em seu rosto parecia amenizar sua tensão. A casa, lembrou. Precisava retornar o mais rápido que pudesse. Não se importava em levar, ele mesmo, os fardos de cal. Tinha pressa. O serviço de entrega da loja de alvenaria demoraria e não teria tempo de executar as restaurações, e no cronograma de sua vontade, deveria ser realizado naquele dia. Ao destrancar a porta, recuou alguns passos para conferir o tamanho das rachaduras a serem reparadas. Uma enorme lasca de reboco desabou quando estava em consulta, deixando a parede nua, com a textura dos tijolos amostra e gerando veios de rachadura em quase toda a extensão da parede.
            Continuou mexendo a massa de cal, mas ainda lembrando das saliências, que agora estava enraizando para suas pernas, tronco e pescoço. Não comichavam. Em poucas horas as saliências mudaram para erosões de pele. Assim a primeira mostrando as texturas carnosas mais profundas. Sendo tratados com iodo, algodão e gaze, envolto com ataduras ou qualquer tido de faixa que pudesse evitar exposição. Queria concluir as restaurações antes do anoitecer, mas novas deformações na caiação antiga iam surgindo conforme o montador de placas reparava outras. Anoitece e o último chapisco e atirado. Anoitece e seu corpo envolvido pelo último metro de gaze que lhe restava. Abria a gaveta dos recibos das prestações conferindo um a um, queria dormir sem ter que acordar no meio da madrugada a ter que cumprir o ritual de todas as madrugadas. Sentou no sofá e iniciou o conferir dos talões mais antigos. Percebendo que a cada foco de olhar as rachaduras aumentavam. Não tinha mais argamassa. Seu corpo afogado pelas saliências vermelha a observar sua casa num estada de metáfase do continuo. Poderia ser esse o primeiro caso em alguém se dissolve junto com a própria casa, imaginou.
          
   O montador de placas assistia tocava as paredes notando que as formas das erosões das saliências vermelhas correspondiam com os contornos dos tijolos da parede. Tijolos rubor, escondidos. Por si, repentinamente, sentia-se atraído pelas formas dos tijolos. Começou a arrancar as rachaduras a desvendar, primeiramente toda a parede da sala. Fixado pelo espanto de ver a semelhança das rachaduras com as erosões da saliência vermelha. Separava a pele de seu corpo, assim com separava a o reboco dos tijolos até esquecer a madrugada chegou e ele não mais se preocupava em olhar os recibos das prestações, os documentos da sua aposentadoria, a mulher que interrompia suas dores de cabeça, o cádmio, o cloreto de amônia e o negro de acetileno. Não amanhecer seguinte uma mulher fixava uma placa com os dizeres “Vende-se esta casa”. Seguido de um senhor que lhe perguntava sobre a vizinhança.
        “É uma casa para quem gosta de sossego.” Respondia, caminhando na direção de um vento que soprou repentinamente.



                                                                                     Texto e fotos: Edson Moura 

domingo, 12 de abril de 2015

Exílio das Cores



Gênero - Crônica
Direção- Edson Moura
Ano - 2015
Duração - 2:50 minutos
País - Brasil
Local de Produção - Distrito de Pilar - Bahia - Brasil