quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

                           Doutrina do Papel, posteriori desconhecida  (crônica)
                                                           “O invisível não é irreal: o real que não é visto.”
                                                                                                                                       ( Murilo Mendes) 

     Um dos mais intrigantes comportamentos do ser humano - no direcionamento para valores culturais contemporâneos – é o exótico e misterioso, por assim dizer, fascínio pelo “lixo” e pelas “cavernas”. Para a semântica dos dicionários ‘lixo’ é tudo aquilo que jogamos fora por não ter mais nenhum valor ou utilidade. Posto aqui que os valores afetivos ou de estima por algo, incluído, no mais ríspido e reticente dos pronomes, “alguém”, também possa ser colocado na metáfora deste teorema confuso de significados, não menos distante desta esfinge encontramos as cavernas que só será posta nesta crônica pelo seu teor filosófico, nada menos, nada mais, onde por simples justificativa social/histórica ainda estamos a pestanejar em suas sombras, dormindo ao som de uma sonata após termos nossa tristeza furtada por hipnóticos aforismos que dentro da realidade que cada um constrói não surti nenhum efeito, as sombras continuarão a existir.
      Conheci, certa vez, um personagem muito distinto, visto a distinção, em se tratando de pessoas, carrega em seu sentido tanto elogios quanto afrontas, dependemos da sombra que carregamos, mas dentro deste relato veremos a distinção como afeiçoamento das circunstâncias, Basílio, não era filho de uma aristocracia e nem tão pouco um burguês autônomo, mas de certo, tinha em seu teor genético um gene capitalista, distinto como as sobras o são. Basílio tinha nove anos, seu pai, não me importei em pergunta-lhe o nome, visto que não os vejo mais, tem pouca importância para este texto, mas é bom lembrar que este pai, cujo nome supostamente soaria aos olhos da grande massa de pessoas dotadas um grau de racionalidade como “Senhor Ninguém”, para quem os via constantemente, nas dias que tinha sua presença em nossa rua, seu nome era o “Pai de Basílio”, que por notoriedade era muito educado. Iam de calçada em calçada, catando papelão, papel ou qualquer variedade de matéria, em sua diversidade de nomes, coposta por celulose. Estacionaram a carroça de frete a minha casa e de imediato começaram colher seu sustento. Até onde minha limitada memória alcance, dentro da cotação do lixo em moeda nacional, o quilo de matéria de celulose era vendido a vinte centavos de real – ao câmbio exterior, creio que chegasse aos sete centavos de dólar, nos cálculos monetários da União Europeia deva alcançar cinco centavos, seguindo uma estimativa mais otimista, ignoro a importância em espécie da celulose no restante da esfera terrestre, mas algo pode ser dito com precisão: quanto maior fosse à quantidade de papel ou papelão que Basílio e seu pai coletasse, maior seria suas perspectivas de uma remuneração considerável. Conquiste a estima de ambos permitindo-lhes que catassem sem qualquer tipo de resignos, posto aqui em cheque, o teor valorativo dos profissionais da reciclagem, que alcançou as telas do cinema em documentários pertinentes aos que asseiam pelas elaboração mais documentações extraordinárias. Há de imaginarmos que Basílio e seu pai (‘Senhor Ninguém’ ou ‘Pai de Basílio) recebendo considerações em Cannes de atores e diretores renomados, nestes instantes esfíngicos em que a cotação da celulose alcança, de alguma forma, a cifra de milhões; há de imaginarmos, também, o seria das artes sem a função ricamente figurativa do lixo; e ainda, há de imaginarmos o que seria das ciência humanas sem as abstrações geradas pela inspiração antropológica dos catadores; e por último, mas não por fim, há de imaginarmos o seria da literatura sem os catadores.
       Vi Basílio contentar-se com volumes de listas telefônicas, pois estas, sendo um compacto de centenas de laudas, são pesadas e ocupam pouco espaço na carroça, contentava-se com o imprevisto, e não muito dista, com a sua astúcia de catador, com olhos atentos a outros catadores não menos astutos, o turno para o trabalho iniciava-se as 17:00 horas, momento que todos colocavam o lixo para fora de suas casas. Um vizinho, talvez cansado de tanta nostalgia quanto suas práticas de leitura, depositou junto aos entulhos de uma reforma que deveria está fazendo uma seta te livros velhos, de antemão confirmei que eram livros de seus estudos primários e secundários. Realmente aquele personagem, que agora faz parte deste texto, estava cansado de nostalgias escolares. Não demorou muito para este nos convidasse com um súbito “por favor”, tanto Basílio, o “Pai de Basílio e eu, para ajuda-lo a desentulhar sua casa, oferecendo em troco aos catadores todas as tranqueiras que eles por ventura achassem utilidade, a mim ofereceria um “obrigado amigo”, visto que a palavra amigo em muitos casos é empregada para designas nossa prestatividade para com o próximo, mesmo que esta proximidade não dure mais que o tempo do obséquio. Uma coisa foi certa naquele momento: aprendi, através de uma rápida conversa com o Pai de Basílio, todo o processo de reciclagem de papel, desde o umidecimento até a moagem e pasteurização. Basílio, com discrição, folheava os livro que personagem intruso havia posto no entulho. Sem discrição o maior dos denunciadores sobre nossos intentos, ou pelo menos uma antecipação de alguns desejos.
        Sobre o processamento de reciclagem de lixo não me tornei grande conhecedor, admito que estava mais interessado no gesto de Basílio, ao vê-lo transpassar cada página daqueles livros como se estivesse a descobrir um dom que antes estivera perdido ou escondido de si. Quem sabe já tivesse este dom descoberto? Quem sabe estivesse a ignorar sua vontade por conhecimento? Quem sabe Basílio tivesse poupado aqueles manuais de estudos primário e secundário da moagem, separado em canto da carroça para então formar sua pequena biblioteca e desfrutar de um autoconhecimento advindo de entulhos de personagem agora, creio, longe de qualquer saudosismo?
       Nunca perguntei a Basílio o que ele fez com aqueles livros. Deveria tê-lo feito. Tudo que pude perguntar, dentro de uma débil descrição e de minha ridícula cautela em se tratando de perguntas, foi até que ano escolar Basílio tinha chegado. Ao nobre leitor esta informação não posso dispor, pelo vinculo de uma promessa a o “Catador de Letras” que era como deveria ser intitulado este micro opúsculo sobre papeis, que sabe, se na construção de outro relato eu não o faça.
       Não tardemos muito a compreender que a grande excitação das histórias que criamos estão expostas numa realidade que corre defronte débeis olhares sobre pequenos e sorrateiros detalhes, será preciso que nosso corpo sinta essa alquimia transitaste ainda escondida. Nada teremos de criativo enquanto insistirmos em reproduzir uma realidade asseada a conceitos já existente.  Em palavras menos redundantes e enfadonhas: não há um distanciamento muito grande entre Cavernas e Lixo, entre Sombras e Conhecimento. É por mérito que Basílio e seu pai tenham descoberto uma nova linha de conhecimento, que possa, que sabe, servir para reforçar as ciência humanas. Distante das cavernas está a Doutrina do Papel.                 

                                                                     Edson Moura -17.04.2009          

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

                            A Luneta  1985 - 1986  (crônica)
                                                                    A meu pai (In memoriam)
        Imagino que grande parte das histórias de ficção-científicas surja do desejo de seus criadores de construir uma realidade onde as aparentes impossibilidades das ciências alcance um fascínio dos leitores e deles próprios. É certo dizer que estas impossibilidades são na verdade um desejo latente por aquilo que estar por vir, de um futuro – seja ele uma parábola artística do irreal, ou uma necessidades de expressar descobertas de um conhecimento possível em uma realidade ainda não existente, mas que toma substancia, por assim dizer, desperta nossa racionalidade para as expectativas, instiga nossa curiosidade, mesmo que estas sejam exageros da uma criatividade artística, é claro nos seus aspectos mais positivos. E este gênero, em constante peregrinação nos espaços infinitos dos nossos pensamentos, visto que a infinidade das coisas ainda é e será a melhor resposta para aquilo que ainda não compreendemos, da literatura para o cinema, e com estes impelindo secretamente em nossos inconscientes, admitamos, já fomos incentivados em algum momento de nossa viva a imitar em nossa realidade os personagens que cultuamos, sempre, acredito, continuaremos secretamente a cultua-los. Fatos da existência, aquele que nos interrogam; um fenômeno não explicável pela lógica, ou até mesmo os explicáveis, são ingredientes mais frutífero para criarmos uma pequena fuga para este futuro que sabemos não ser possível vive-lo, mas que instintos em cultivá-lo. Meu particular apego a este gênero começos a se formar bem antes de minhas práticas de leitura ganhasse maturidade, deveria ter aproximadamente cinco anos de idade. Entretanto dispunha das “películas”, do cinema para ser mais exato, creio ser este o maior facilitador das construções de imagens futuristas. Em meados de 1986 uma apoteótica euforia, advinda da passagem do cometa Halley, conquistava a atenção um considerável números de pessoas nos cinco continentes. Outro relevante da época, apesar de sua equivalência perder peso na balança das atenções, foi o possível e gradual descongelamento da “guerra fria”, que há décadas vinha se equilibrando em um fio de possibilidades de uma apocalíptica “terceira grande guerra”. Sobre a ótica destes dois fatos históricos recaia a delicada e paradoxal somatória do otimismo e o pessimismo. Foi estas duas posturas tomadas por aqueles que desejavam, e que, por certo, ainda desejam, debruçar sobre uma transcrição pendular que norteia estes dois extremos – no centro, é claro, o futuro. Aquilo que o escritor coloca nos painéis da história que está por nascer: um futuro apocalíptico, desesperançado e caótico, ou a as evoluções da das ciências e tecnologias, onde a humanidade usufrui de privilégios que em nosso presente ficamos a desejar, a descobrir que não estamos sozinhos no universo, que uma inteligência mais avançada que a nossa interaja conosco compartilhando de seu conhecimento, queira estes, não nos temam por nossa precária natureza decadente, que adormece em meio a um negligente apego pelo hediondo. Que o aforismático pensamente “humano, demasiado humano” não acrescente uma penitente busca ao pessimismo. Haverá sempre um porvir, sempre uma estima pelo futuro, que por uma lógica ‘demasiada humana’, permuta entre o otimismo ou pessimismo - o realismo, nas nossas próprias ficções-científicas, visto que todos, de alguma forma, devem possuí-las dentro de si, tem pouco espaço, pouca ressonância, e este, a estarmos fincados com os pés no chão e não nas imagens do futuro. Com cinco anos já possuía minhas histórias, que através da Luneta de meu pai via aquela fosca e acinzentada imagem do cometa Halley, era estranho para mim, admito. Era mais fácil entender as películas do cinema me explicavam: que existiria um 2001, 2010, 2025... por uma simples ironia, esquecida, talvez, pelos entusiastas pelo futuro, o Cometa Halley transcorre nossa orbita a cada 76 anos, será, até o fim de nossas vida, com tudo que estamos a imaginar, nossa melhor ficção-científica - supondo que este viva mais que nossa humanidade. Era 1986 e eu via o futuro. Usufruir enquanto tive o oportuno de fazê-lo. De fato, posso não estar vivo para vê-lo novamente. Me sinto minúsculo, estou num cosmo, com há de sentir. Tempo, tempo. Como se compõem os sentidos dos verbos. Tempo, tempo. Era 1986 e tínhamos uma Luneta.

                                                                                    Edson Moura

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

                     V Capítulo do romance  “Quinta Estação de Pintura”


      Algumas decisões são inflamadas pela ordem das circunstâncias, as tomamos desta maneira pelo caráter resignado que o inconsciente talhou e impôs sem que a notemos, qual artimanha biológica nos retrai de uma previsão consciente? Certo/errado ainda serão opções para resoluções que, talvez, nunca a tenhamos. Mas fugia a qualquer ordem o fato de Pedro ter concedido a si mesmo uma decisão de desprender seus olhos das arestas do portão leste da estação e dispor de uma franqueza com aquele homem vestido com trapos. No dia seguinte foi procurar Miguel para lhe oferecer abrigo na estação, pois não fazia o menor sentido deixá-lo ao relento, visto que já haviam se passados cinco dias sem que este demonstrasse qualquer eminente perigo. Mesmo sem o consentimento de Vitalino, esquecendo então de seu restrito pedido, iria prestar-lhe este mercê.
       É certo dizer que para o pintor esfarrapado tinha o acolhimento de uma garaúna, o que seria normal para seu rito de descanso, foi desta maneira naqueles dias, caso que uma oposição daqueles que são acolhidos por caibros e telhas diria que aquele homem sedia, sem pormenores, seu próprio corpo a raízes e terra, a um caule e galhos, a ramificações e folhas, diriam: “ele não faz parte da ordem, de qualquer grupo, de natureza alguma,” diriam com a certeza equivocada de quem afirma: “conheço questões universais, e este homem vestido com trapos não tem a valia entre homens.” Diriam. Afirmariam. Exclamariam. Sem perceber a ligadura que existia, percorrendo a copa da garaúna, o telhado de suas casas e o universo desconhecido acima de suas proteções. Diriam, sem perceber que estava sobre a tutela de uma cósmica interrogação: Que aquela garaúna estava ali antes mesmo da construção daquela estação; que talvez foi germinada por intermédio das fezes de algum pássaro, tendo este a vontade instintiva de depositar seus excrementos naquele lugar, advindos de outra garaúna, quando o mesmo pássaro, certamente, buscava abrigo, descanso e alimentar-se com sementes. Que talvez esta mesmo equação tivesse se repetido, num continua ordenação natural, que vinha se desenvolvendo a milhões de anos e que fazia dos caibros e telhas dos homens de valia não menos importa que a proteção daquela garaúna, quem sabe se as horas em que Pedro esteve espreitando, cuidadosamente e sorrateiramente, na conjuntura de inquietação, indiscrição e um demasiado desígnio pretensiosos sobre aqueles quadros que o pintor esfarrapado propôs a ensinar-lhe sendo um pedido de paciência uma inútil simbiose existente entre um mestre e um aprendiz vorás por conhecimento, retendo-se por horas nas arestas do portão lateral leste onde fronteava a garaúna. Seria a curiosidade um relevante desengonçado a desvendar ora corretamente, ora cegamente, ora intuitivamente os ímpetos que nos leva a, pelo menos pelo mais, as corriqueiras ramificações dos saberes, e estes a construção do que chamamos de grandes descobertas, Pedro assim desejava; um descobridor como dizem ou como ele a si próprio queria ser, tendo em vista que sua vaidade na pintura não era menor do que a aquela que conduziram outros em seus achados no microcosmo ao macrocosmo. Assim seria, continuadamente, até quando o último descobridor abandonasse seu desejo febril por respostas. Equivalente refletir que o último curioso não deixe de existir enquanto houver processos evolutivos.                                                        
       Circulava em torno da estação, desta vez com mais intuitos, visto que a presença de Miguel já o tinha cativado na mesmo proporção que seu relevante interesse pelos quadros, e assim deveria, posto a somatória entre estado de presença e reverência ainda são os melhores atributos de uma aproximação amigável. Procurou, mas não o encontrava em parte alguma, pelo menos não até onde seus olhos e sua intuição pudessem procurar. Pedro deduzia que ele tivesse ido para algum lugar escondido dos olhos alheios para fazer suas frágeis e espontâneas necessidades gástrico/intestinais seguindo uma ordem digestiva, ou, quem sabe, cuidar da higiene de qualquer outra parte do seu corpo. Esperava que tivesse encontra algo relevo naquele platô que quilômetros de muita terra e pouca vegetação, as que existiam eram de tonalidade tão acinzentada, maturidade em demasia da própria natureza, que ficava difícil reconstituir um ambiente em sua tela que poupasse os olhos de tamanha aridez. Esperava que pudesse estar pintando, que permitisse sua aproximação. Algum segredo, alguma espanto, algum desafronta com a insistência, destas que despertam uma ou duas palavras que espera para atenuar aquela aguda curiosidade. Não mais, não menos, no recato de uma balança, esquerda e direita, sob o compassar de uma pendulo, Criação e Criador tem sua equivalência singularizada, pois, ao contrario do dizem, o criador não é menos importante do que a criação. Visto desta forma não existiria qualquer forma de ponderação que distanciaria criador e criatura, embora, ao revez, tenhamos, ao longo dos séculos, aprendido o contrario. Questão de ótica, questão de não ótica. Propondo que as declinações que constituem as ciências históricas pendem para a mítica um criador. Questão de ótica, questão de não ótica. Mas até achar respostas vindas da boca de Miguel, aquele quadro continuaria falar-lhe, sempre revelando novos relevos, novos sentidos, as sinuosidades das linhas, a escolha das cores, a forma e signos que nos naqueles instantes que esteve em sua frente.    
           Esperava em agonia, e sempre se perguntando, porque as maiores perguntas surgem num silêncio das palavras. Não pensava palavras, não pensava respostas, não pensava ideias, era mais comum, naquele momento pensar na ausência, na ausência daquilo de desejava. Estava mergulhado em perguntas. Distante era o pensamento pessimista de uma suposta partida do pintor esfarrapado, mas creiamos; otimismo e pessimismo caminham juntos. Pois este não cansava de demonstrar disparates ao seu anfitrião quando o assunto das breves conversas era pintura, iria disfarçar que compreendia seu suposto objetivo, que consistia em esperar os “outros” que tanto pronunciava, e que ainda não despertava em Pedro mais que uma distração corriqueira. Teria aquele homem abstrações continuas, talvez a idade, diriam, contato com as tintas, diriam, acumulo de conhecimento, diriam, pois, neste ultimo, se confirma a finidade metafórica entre as abstrações e o conhecimento em exerço, dirão com equivocada certeza, mas dirão.
        Mas antes mesmo de concluir sua concepção sobre o paradeiro de Miguel, este surge como por encanto do acaso. Que sempre digamos, o acaso nos conforta mais que o quase óbvio daquilo que se procura. Iria Pedro propor uma troca, mais que justo, pensaria Miguel, posto as cartas na mesa das propostas e dissimulando firmeza subjacente nas palavras.             
      - Apareceu na hora certa. Estava pensando em lhe ceder abrigo na estação ate o momento de sua partida. – A falta de constância no imperativo de Pedro denunciava a Miguel uma personalidade que o aquele aprendiz não possuía, sua natureza carecia de uma firmeza de comando. Tentou dissimular sua falha curvando sua cabeça, escondendo suas expressões que variavam de ranzinza a inocência.          
      - Nem precisava ter me dito. Eu já previa que me faria esta oferenda. Tem um caráter altruísta, pude ver quando nos encontramos ontem. – Sem mais demoras, Miguel canalizava em suas palavras as diretrizes de um comando de oralidade que desde o primeiro contato com Pedro demonstrou.  
      - Foi instintivo. – Replicava Pedro ao sentir que o elogio do seu pretensioso hospede vinha a desvendar um pouco de seu intimo, suas fraquezas. Mesmo admitindo com seu silêncio que aquela afirmação tinha veracidade, tentava de alguma maneira dissimular não tê-las. Tentava, como em uma batalha retórica, igualar suas construções enunciativas a de Miguel, o que seria visivelmente impossível, visto que as artimanhas das palavras era de imediata notoriedade, um território de difícil adequação. Miguel, de fato, tinha melhor retórica que Pedro.    
      - Posso ajudá-lo a concertar o portão?
      - É bom mesmo, se vai dormir debaixo de um teto tem que merecê-lo, ou você acha que eu sou um sujeito caridoso, como insiste em afirmar. – É fácil desvendar os motivos da irritação do pintor noturno. Miguel havia desmontado a tentativa de Pedro de camuflar seu demasiado altruísmo. Certamente este altruísmo irá corroer-se com o passar dos anos, com o contato ríspido, caso o tenha, com as sutilezas, maliciozidades da natureza humano. Certamente irá corroer-se. Não correu, nos poucos segundos de peleja de palavra que Miguel já usufruía de um abrigo, a garaúna que fronteava o portão leste da estação, também não decorreu que nestes mesmos poucos segundos, que o costume da tutela de arvore poderia está enraizado em seu cerne.                
      - Não acho. Deduzo apenas que eis um, mas tenta aparentar ser outro. É normal isso quando ainda não estamos totalmente seguro sobre nossas certezas com estranhos. Não sou e não serei teu inimigo, lhe garanto. – Reto e os braços cruzados Miguel não desconcertava sua postura. Não repelia as dissimulada tentativa de Pedro de criar uma postura que não existia. É certo, tinha mais interesse em aceitas os termos da proposta do que discordar das equivalências receptivas do futuro aprendiz.   
       Enquanto tentava retirar os pinos das dobradiças, o pintor noturno refletia para si o desejo quase incontrolável de interrogar o pintor esfarrapado sobre os segredos e as técnicas utilizadas para construir o quadro que viu. Sabia como ninguém que cada artista compõe em extremos particulares. Que os momentos de uma criação são únicos, passageiros, cada qual se mistificando aos olhos do próprio criador. Sem jamais deixar rastros que possam ser lembrados. Sentia que aquele homem, ao oferecer ajuda para consertar o portão, e que nunca ter visto antes, conhecia, de alguma maneira, alguns dos segredos que regiam arte da boa pintura. Não entendia o surgimento brusco de uma insegurança no trabalha que fazia. Talvez por estar na presença de outro pintor, mais velho e, ao que demonstra em seu trabalho, grandeza de experiência, sentia que ainda tinha muito que aprender. As lacunas não seriam poucas. Não demoraria muito para interroga-lo, levando em conta que já tinha em suas mãos a acepção advinda da ideia de que Miguel estava ali para transpor dias ou semanas.
        Os pinos do portão estavam cravados, as dobradiças alinhadas e lubrificadas. Não rangeriam. Sem duvida que a precoce finalização daquele trabalho foi devida a ajuda de Miguel. Restavam, ainda, os outros três portões, serviço não iria faltar, os portões do norte e do sul eram de madeira, mais fáceis de concertar; portões leste e oeste eram esteirados e de ferro. Trabalho para dias. A julgar pelo tempo de edificação daquela estação, cento e vinte ou cento e cinquenta anos, visto que tal estimativa é revelada conforme o tempo que a história levou para condensar os acontecimentos da humanidade, não muito distante destes acontecimentos estava os serviços ferroviários. Maior exatidão revelaria uma comparação arquitetônica ou o começo da utilização dos esteirados portões de ferro. Maior exatidão não significava exatidão que preencha conformidade. É certo, não havia registros ou placas de bronze com qualquer tipo de datação naquela construção. Foi este assunto que se arrastou no decorrer dos trabalhos com os portões. Visto assim a quase infinita com as data de foram e as estão por vir. Um hábito que transcorre desde tempos pré-históricos, quando se contavam os dias pintando traço nas pedras utilizando pigmentação de plantas, talvez os subtempos, a que chamamos de horas, eram marcados com o poente e o entardecer do dia. De fato, entre todos os hábitos do humanos a marcação do tempo coloca-se entre os mais importantes gêneros de primeira necessidade: perguntasse ao médico quanto tempo de vida resta um paciente com enfermidade terminal; perguntasse quanto tempo irá durar os alimentos na dispensa; perguntasse quanto tempo um operário permanecerá em sua função; perguntasse quanto tempo resta para começar a terceira era de extinção, se já não estamos vivendo – a primeira e segunda, já transpassada em datações cifradas em milhes de anos. De imediato recai a importância: perguntasse sempre: “que dia é hoje”, se de imediato não fomos possuídos por outro gênero de primeira necessidade “o esquecimento”, pelo menos para Pedro. Pois ao passar uma dia e meio, sem muita exatidão, contava com a possibilidade de que Miguel já estivesse disposto a ensinar-lhe algo, esperasse, aos mais dignos de conhecimento, que trocas sem pretensões não caia em redundância irônica. Esperava uma troca por méritos. Esperava o momento certo para perguntar sobre aquele quadro, das formas que só tinha visto em equivalência em quadros de grandes pintores, intermediados por fotografias expostas na Cooperativa dos Artesãos. Como enuncia certo ditado popular: “Há momentos adequados para se perguntar ou exclamar nossos desejos”. Mas Pedro, supostamente, deveria possuir uma popularidade que não excedia a uma contagem que intercambiava com seu quase isolamento naquela região, conhecia poucos. Não esperaria aquele ditado popular fazer-lhe sentido. Sentido maior fazia-lhe buscar as perguntas que procurava. Mesmo com sua suposta aversão por parte de Miguel.                                                                                                                    
      - Queria que conta-se sobre aquela pintura de ontem.
      - A que lhe mostrei!?
      - Sim, ela mesma.
      - O que quer saber?
      - Tudo. Nunca tinha visto nada igual. Já expos em algum lugar?
      - Se me faz perguntas como estas, a faz por dois motivos: ou já esteve em vários tipos de exposições, ou nunca esteve em nenhuma.
       - Na verdade nunca estive em qualquer lugar com pintura, muito menos com pessoas que praticam pintura, tenho mais contato com os clientes da funilaria, pintura mesmo, na maior parte do meu tempo, só a dos carros. Entenda que a única pessoa que mantenho contato e que tem acesso a lugares onde expõe quadros é Ângela. Mas só tive a oportunidade de vela-la de ver uma vez. O sujeito da lotação que vem aqui é quem pega os quadros que pinto para ela vender na Cooperativa. Acho que ela não esta muito preocupada com considerações afetivas, e muito menos se minhas criações são boas ou não, desde que consiga vende-las. Muitas das pessoas que compram não querem saber quem as pintam. Caem na lábia dela como sem a menor desconfiança. Assino os quadros com ate cinco nomes diferentes, a pedido dela é claro. Gostaria de assina-los com meu, mas para Ângela o nome Pedro não tem peso artístico. Então ela me entrega uma lista de nomes de pintores franceses ou russos, e sempre revezando, em um mês uso nomes franceses, no mês seguinte, nome de pintores russos.
      - E ninguém nunca desconfiou!?
      - Não. Uso nomes de pintores que não existem. Nomes que ninguém conhece. Assim não há como saber de onde os quadros vêm. E também tem um porém: ela vende todos quadros, assim não falta dinheiro. Não sou bom com vendas, além do mais, ela é bastante conhecida na Cooperativa. Me habituei com essa farsa, e agora não encontro um jeito de sair. O movimento na funilaria anda ruim, e caso eu mesmo tente vender os quadros não conseguiria uma soma para sustentar nem uma cabra. Vitalino não sabe, nunca desconfiou. Tenho que aproveitar essas três semanas que ela fora para pensar em uma solução, me livra de Ângela, buscar uma nova fonte de sustento para não termos que abandonar a estação, e sair perambulando por ai como fazíamos antes de chegamos aqui e começarmos os trabalhos com os carros. No começo eram muitos, mas hoje são poucos. Os quadros é que nos sustenta. Compreende?                                                       
      - Compreendo. Mas não carregue o mundo nas costas. Terá três semanas para encontrar uma solução, e encontrará. – A afirmação de Miguel poderia sonorizar um tom de sarcasmo ligeiro e leve, mas a segurança na sua voz não permitia que Pedro entendesse como a uma tentativa de conforto cínico.
      - Acredito. – Afirmava de imediato e se retorquir um mas, o que seria, por consequência natural da não aceitação das lamurias por dificuldades, muito difícil de se esperar.
      Pedro, então seguia sua calma, como assim deveria ser, e voltou sua atenção para as ponderações sobre o conhecimento do pintor esfarrapado.
      - Me fale então sobre seus quadros, como aquele que me mostrou ontem. Fez tanta questão em mostra-lo que...               
      - Ai você quer que eu lhe ensine o que eu sei sobre pintura, estou certo? – Miguel, então, interrompia o interrogatório de Pedro, como adivinhando quais seriam suas as indagações. E nem precisava ser o melhor dos adivinhos para desvendar o que ela ansiava.              
      - Sou um pintor intuitivo. Nunca estive em escolas de arte ou coisa do tipo. Seria importante para mim se você pudesse pelo menos me contar um pouco do que sabe. Descobrir um dia desses que tenho facilidade em manusear cor violeta. Sempre gostei de retratar a noite, creio que posso ser capas de desenvolver numa técnica usando esta cor.
      - Queres pintar a noite usando uma cor que vem da luz?
      - Sim. É possível?
      - Não tenho a resposta. E mesmo que a tivesse não poderia lhe ensinar como se ensina alguém a escrever uma palavra ou simplesmente a desenhar um rosto. É conhecimento escondido, até mesmo perdido, a espera de ser encontrado. É um conhecimento seu e ao mesmo tempo não. Pertence ao cosmo, ao universo, e você tem que caçá-lo. Numa busca, que sem perceber, já foi iniciada. Só que não percebeste ainda.
       - Não poderia ser mais direto.
      - Consegue explicar de onde vêm as imagens que retrata em suas telas com frases comuns?                     
         - Não. Seria quase impossível explicar com simples palavras o que sinto quando estou perdido entres as tintas e as coisas que posso imaginar. Mas tenho a convicção de que teve que olhar para algo, um lugar que acreditou ser especial para compor aquele quadro. Um lugar escondido que julgaste estar livre de olhos pretensiosos, um lugar intocado onde fluiu seu trabalho com maior naturalidade e tamanha beleza.
      - Eis bom com deduções. Estais tentando dizer que o que pinto e oriundo de um lugar escondido, um lugar que eu possa estar mantendo em profundo segredo?
      - Sua pergunta esta acompanhada de uma proposta? Ou eu estou perdido novamente, como você mesmo adquiriu a maneira de afirmar em deduções espontâneas?
      - Não sou de ficar jogando com as palavras. Mas confesso que ultimamente, tenho estado mais tranqüilo para criar uma boa prosa. Confirmo também que suas atrevidas deduções lhe rederam um presente, ou melhor, me deram a os motivos para lhe mostrar assim que for possível.
      - Sempre me ocorreu que quando você surgiu entre os ventos empoeirados daquele dia, foi por algum motivo. Não para de andar de um lado para o outro, sempre sumindo e surgindo inesperadamente, como alguém que tem preso dentro de si, uma história a ser contada, como alguém que conhece este lugar de outrora e retorna para fazer novas testemunhas daquilo que viveu. Estou certo?
      - Sim está.
      - Disse que eu tinha ganhado um presente, e que este só poderia ser mostrado. Creio que tenha relação ao meu interesse em aprender com o seu conhecimento de pintura. Pretende me ensinar?                 
      - Existem fenômenos neste lugar, melhor dizendo, nesta região onde mora que ocorrem e que você não percebe. Convenhamos admitir que nada e criado sem um propósito. Quando descobriu que poderia usar a cor violeta para pintar a noite apenas libertou as torrentes de criações que estavam aprisionadas dentro de sua alma. Algo que não pode ser explicado, no mínimo mostrado. Mas mostrado de uma forma que terás que me acompanhar numa pequena jornada a lugares pouco conhecidos para gente desta região.
      - Lugares!? Conheço tudo por aqui.
      - Tem certeza?  
      - Costumo perambular por ai o tempo todo, creio que não exista paisagem num raio que minhas pernas e meu fôlego possam alcançar. E se deixei passa, despercebido, alguma imagem provavelmente não tenha algo a ver estes fenômenos que você diz. As coisas que eu consiga sentir é para mim um fenômeno? Mantenho-me alerta para estes sentidos quando estou produzindo meus quadros.
      - Então iremos amanha. É uma caminha da de dois dias. Prepare sua bagagem e seis instintos, pois irá precisar deles mais que nunca.
      - Por que não partimos hoje, ao entardecer. Fazendo isso adiantamos o tempo da viagem.
      - Fazendo isso, deixaremos para trás a outra pessoa que irá conosco.
      Pensativo, Pedro continuava a martelar os pinos da dobradiça do portão. Seus pensamentos, que não eram pouco, quase que o separava de suas obrigações. Teria além dos portões cinco quadros para terminar – encomenda santificada por Ângela, a uma obrigação de valor considerável -, e dois carros para lixar a ferrugem, aplicar a massa destes, esperar solidificar, para em seguida lixar novamente, misturar as tintas.
       Miguel havia prometido a Pedro uma jornada. Não lhe recaia uma exigência, posto que em suas três décadas de idade já havia passado por muitos lugares, em uma afirmativa mais resumida, não queria sair da estação. Todavia, não deixou de mergulhar nos estreitos corredores da desconfiança, como seria comum fazê-lo. Se deveria conhecer o mundo daquele pintor, que se escondia como ele mesmo insistia em afirmar, num lugar aonde o alcance seria impossível sem sua ajuda. Não há argumentos numa peleja em que o veredito é uma certeza intrínseca, iria com Miguel mesmo sendo sua resposta a insistência fosse um não. Havia, realmente, uma empolgação que parecia ser maior que o comprometimento aos pedidos de Vitelino. De um dia para o outro aos fatos aconteciam: estranhos, insólitos, confusos e perceptíveis. A conversa que teve sobre pintura, algo longe de acontecer, com o amigo sócio da funilaria; a descoberta da cor violeta; o surgimento de Miguel; a outra pessoa que estava para chagar e nos acompanhar em uma jornada através daquela vastidão que todas as manhãs ele, na beirada dum patamar de pedras esculpida pela natureza, apreciava para colher respostas para si mesmo; uma pergunta que não via nem ouvia, mas sabia que estava lá, a sua espera. Miguel, o pintor esfarrapado, veio, quem sabe, para dar-lhe uma resposta? Ou será tudo obra de uma imaginação frutífera. Sem notemos, os delírios adventícios, ainda que produzidos por distúrbios nas regras cognitivas e nervosa, esclerose ou os diversos delírios esquizofrênicos, despertam entidades asiladas das chamadas logísticas cépticas. A maior destes delírios, por assim dizer, seria o surgimento das ideias. Em grande parte quase proféticas, como as que Miguel coloca ainda insistia em contar. 
        Pedro notava que o vento zumbia mais alto à medida que o tempo corria. Zumbia melodias confusas, sons circulantes, ora leste, ora oeste, ora norte, ora sul, nunca a mesma cadencia. Nos momentos que os ventos se agitavam, algo parecia acompanhá-los, e em sua poeira condensavam novas vidas e novas histórias. Naquela mesma manhã eles arrastavam para a estação a presença de Maria Albuquerque – a escultora. E os pormenores de sua presença não seriam tão pequenos quanto os ensejos da presença de Miguel. Se havia uma explicação para a vinda de tantas visitas, Pedro provavelmente não a tinha.

                                                                                               Edson Moura