quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O Exílio de Babel

   


    
     Em “O Exílio de Babel”, de Ângelo Monteiro, percebemos traços metafísicos é só um dos principais ingredientes de sua arte poética, carregada de existencialismo, cuidadosamente lapidada com a formar do soneto clássico, isso, contudo, sem deixar de ser um contemporâneo. Em “O Exílio de Babel” temos escopos filosóficos em forma, de sonetos. Todos compactados. Um atento aforista em busca da condição humana, para, enfim, condiciona-la em ânforas poética. Notadamente, no que tange o fenômeno literário, sua reação estética, é encontrar o ponto de equilíbrio de seu discurso e os elementos linguísticos que servem para alçar a atenção o garimpeiro de construções semântico-sintático do texto conciso e rico em criatividade em metalinguagem, e logo na estirpe de sua obra isso se manifesta:

“Ah! o exílio da alma em qualquer língua
E a palavra atingida sempre aquém.
As bocas de água viva estão à mingua
E a poesia não morre por ninguém.

Floresce o nada em todos os canteiros
E uma rosa se estiola. Para quem?
Tombam de solidão negros ponteiros
A apontarem um tempo que não vem.

E porque ao chão olhar te desconstelas
Dos que te querem clara, e te irrevelas
Àquele que teu fogo em si retém?

Mas nesse fogo como a busca é fria
Mas nesse vôo como se esvazia
A asa que se volve sem o além.”

A labutação a ferros como podemos metaforizar o trabalho de escritura de Ângelo Monteiro. Mostro sua crença no trabalho braçal dos bons poetas. E este arquiteto de um mundo de imagens acústicas, vivas e deformatórias, como alguém que constrói, desconstrói reconstrói a própria realidade poética. No entanto, também, o que teoricamente, poderíamos dizer que é uma busca louvável pela precisão e organização lógica do texto, acrescente-se a isso o esforço pelo rigor na observação quase científica do “objeto poético”. Seus sonetos. Seus pequenos vasos gregos metafísicos- existenciais:

“Pela insônia navego como um astro
Desorbitado e a noite em mim avança
Com seus braços de polvo e alabastro
Tentando estrangular minha Esperança.”
    
      É quando o leitor se depara com uma espécie de labirinto taciturno, tautológicos, cujas saídas dão-se no vazio dos sentidos. Por outro lado, a adoção de um tom coloquial nos coloca firmes quanto as intenções do autor, nesse calidoscópio soturno e, ao mesmo tempo, rico em uma linguagem retórica com um forte tom de transcendência da realidade:

“Meu sonho dilata a vida ausente
E os fantasmas que invento ficarão
Por isso do meu sangue viverão
Para a além do meu corpo do poente.”


“O Exílio de Babel”, do poeta Ângelo Monteiro busca por uma gama mais ampla de leitores, pois existe uma riquíssima teia de interpretações, em que podemos nos aprofundarmos mais e mais nos fios de seus sentidos.


                       

                                                                           
                                                             


Agradecimentos a Amiga e escritora Zuleide Duarte por ter me presenteado com essa fantástica obra.   




                                                                       Edson Moura 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Incógnito


       
   

  
 
E.Moura
   O cão gritava morte com os olhos, multiplicava o arregalar como se a tristeza já não lhe existisse. Os pêlos empinavam, brotando pontiagudos e disformes, os caninos torcidos pelo grunhido surdo que o instinto lhe ofertou naquele momento. Recuava um movimente, mas sem completar um passo de retrocesso. A sua frente, o porteiro, escorado as parras de ferro do portão, caia, lentamente, tentando lhe disse “procure alguém, rápido”. Um estranho, que transpirava medo, dois disparos com a arma desconexos, não havia lógica da mira.

       Mas houve tempo, sim. O estranho, na moto, como um centauro simbiótico, retirou o capacete, ofereceu-lhe boa noite, ofereceu-lhe a imagem do seu rosto, ate o porteira, sobre o olhar atento do seu cão, perceber que havia caído no fio do mito cortes a cortesia do centauro simbiótico lhe fez sangrar. O cão ouvia o som estourado, seu estômago, já mastigado pela fome da noite, assistia confuso a queda do seu dono. O odor de pólvora e sangue misturava a razão instintiva do olfato. Ainda reticentes pelas palavras do seu dono caído, que não gritava, não chamava pelo seu nome, uma palavra dita desde o seu nascimento. Murmurava gemidos afogados pelo sangue que escorria de sua boca. O tiro certeiro ao romper a fragilidade de uma artéria. Testemunha o último suspiro do porteiro. Lábia os dedos do homem, agora, com a vida fugindo-lhe pelos ferimentos. Farejava forte. Latia como quem esperasse o som do sem seu nome. Tinha um nome, não só “aquele cachorro do porteiro”.
       Todavia só o porteiro o chamava através do seu nome. Não. Seu último suspiro não foi o nome de um ser de sua espécie, alguém que o ajudaria, visto que, uma artéria rasgada por uma bala, lhe estimava uma aceitação da morte, ou, nem uma fervorosa súplica lírica, pomposa, com adornos de absolvição de suas culpas, penúria morta, pois um nome não podia pronunciar. E agora seu próprio narrador esvaia em golfados de sangue. O cão empurrava seu braço com o focinho, tentando arranca-lhe um nome. Confuso, de lado para outro, circundava como alguém que esperava outros virem levanta-lo. Latia alto. E agora mais afoito. Procurava no meio da noite uma ajuda para seu dono. O porteia já não respirava. Não tentava o chamar pelo nome. Um nome que desaparecia pelo ferimento da jugular. Olhava para os espaços da rua onde centauro simbiótico afunilou sua própria presença. Gentio dialética soturna, que banhava com o sangue do porteiro o chão onde lhe servia comida e água. Acostumado a ouviu a voz do porteiro pronunciar seu nome três ou quatro vezes. Curiosos os afastavam. Carros se aproximam e o afugentam com fortes clarões e, juntamente, com sirenes o afugentavam, confuso para seu canto, sem lhe perguntarem o que havia visto. O que diria os olhos de um cão, faminto pela presença de seu dono, ou confuso por não estar mais sendo invocado através dos sons que o chamavam. Perdido. Latia forte para aos curiosos que se amontoavam, talvez, diria que tem um nome que o dialeto dos cães não podem pronunciar na língua dos seres humanos. Seu idioma era a expressão dos sentidos, ensinaram os sons de um nome.                                                                                                                
        Enquanto ouvia os moradores dos apartamentos murmurando o nome do seu dono, poderia imaginar que veio o fim de sua vida ante da morte de seu nome. O que dirá o cão para si: que seu nome morreu primeiro, e sua vida continuava. Os moradores o afugentavam: ‘sai daí, cachorro, sai pra lá’. Afugentado, deitado num canto escuro, encolhido pelo frio, olhava para os confins da rua, refletindo sobre o centauro simbiótico que levou seu nome. Quem via o cão deitados, poderia dizer; ‘o cão está esperando o dono, ele não sabe que ele está morto’. Não o cão não esperava o dono. Apenas esperava o centauro simbiótico.  



   
                                                                                                                                                     Edson Moura



                     

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Microf(r)icções





Quando em fim, comecei a ler com olhos e mente voltados para a experiência imaginária de ler os microcontos que tesem as paginas de “Microf(r)icçôes”, de Janaison Macedo Luiz, percebi o grande ponto chave da micronarrativa: a concisão, em poucos caracteres, que a criatividade do escritor para concatenar enredo, trama, histórias, narratividade; o subtexto, ou intertexto, os ápices de uma situação do cotidiano, um retrato (ou autorretrato). Sim com quantidade mínima de caracteres pode prender o leitor atento e sensível em uma gama considerável de tempo, construindo os elementos percebidos por ele próprio. Não só como crítico, mas também com produtor de textos ficcionais, tomei gosto pelas micronarrativas:

    “Encontro

 Fui de encontro ao muro. E ao encontro da morte.”

O foco narrativo sempre adequando-se ao estilo dos personagens. Começo e desfecho para cada história. A Flash Fictions, com toda carga do finais trágicos nos quais costumam prender os leitores, a deixa-los imaginando quem era o personagem, em que este estava envolvido, e ate mesmo, porque não, aos olhos dos leitores críticos, possíveis finais a serem discutidos cognitivamente. A pergunta fundamental é: como é possível um texto tão pequeno causar tanto impacto? Em outra instância, como é possível um texto entre 40 e 200 caracteres produzir um efeito no leitor tal qual um conto convencional, muitas vezes custa a eletivar? Aliás, será que este último produz tal efeito? Mais ainda, será possível narrar uma história e se fazer compreender com tão poucos elementos?   Em outra história:

“Inquietação

Via pessoas, via espíritos.
E se inquietava ao pensar no que não conseguiria ver.”

    Caso o leitor reclame da suposta falta de tempo para debruçar-se sobre ficções com teor existencialista, eis que a micronarrativa acima pondera os dramas humanas de uma personagem em constante questionamento sua realidade, ou, para ser mas construtivo, permitamos que o próprio leitor investigue os microcosmos contidos em cada personagem que compõem  “Microf(r)icçôes”

        “Microf(r)icçôes”, de Janaison Macedo, é leitura recomendada para todos aqueles que buscam conhecer autores “Indie”, independentes. Autores que acreditam na exploração de novos conceitos da literatura contemporânea brasileira.                


                                                                      Edson Moura



“Microf(r)icçôes”, de Janaison Macedo Luiz.  Seu livro fará parte do Projeto “Pilar Literário”. Iniciativa que tem o objetivo incentivar eventos artísticos-literário nos Distrito de Pilar, no Sertão Baiano.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

38 anos (microconto)



Descobria que as fotografias e lembranças da infância não eram suas.




                                                   E. Moura

Vertigem (microconto)



Contou cada segundo antes de enterrar-se no próprio corpo.



E.Moura

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Carcará (microconto)




Não estava cansado. Descobri que não podia segurar o tempo.



                                                                                           Edson Moura

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Ciclista

      


     
     Em “O Ciclista”, do escrito e ilustrador Walther Moreira SantosHistória narrada pela Edgar, que conta suas lembranças, vivências e planos sobre Ceres, Caio e o veio narrativo que alça o leito desde a estirpe do romance: o ciclista. Caracteriza-se pela intensidade dos momentos internos dos personagens, a própria subjetividade entra crises e descobertas. O espírito, perdido no labirinto da memória, o autora usufrui de elementos narrativos e linguísticos concisos e, ao mesmo tempo, no que tange a pisque dos personagem, uma descrição minuciosas, uma narrativa carregada de sinestesia, onde os sentidos se fundem com o próprio , próprios das estruturas poéticas:
    
    “Tão logo o Ciclista entre, começa a chover. Às vezes acontece. De repente, uma tarde límpida, uma tarde atípica. Carregada de um frio que, de tão agradável, dir-se-ia morno. Uma tarde retirada de um outono de um país do leste. Coisas dessas cidades sem estação definida”   
      
    Uma sinuosidade narrativa entre momentos cênicos, contidas no próprio estilo dos personagens construídas na estrutura textual, ao mesmo tempo que que o autor  visualiza e complementa a narrativa através de fotografias, traduzindo uma ‘conversa hibrida’ entre texto e imagem, aproximando de uma narrativa contemporânea.  
    
    A prosa de “o Ciclista” é leve, seu texto discorre com fluência e fluidez nos meandros da protagonista, na sua visão de mundo e interação com os demais personagens. Uma história contada como uma busca ao estado de presença, a sentir o ‘eu’ verdadeiro, o caminho da compaixão e do perdão, um pequeno encontro com o conhecimento budista tão forte entre as temáticas que o narrador adota, é claro, entre outras correntes de pensamento filosófico, contudo, sempre com o foco:
    
    “Seguir o Caminho significados ser benévolo com tudo aquilo que vive, livrar-se da malevolência, da inveja e da ira; pensar na lei da causa e efeito e dominar os sentimentos; pronunciar apenas palavras francas e sinceras; pautar-se pelo em toda conduta. Se assim proceder, aquele trilha a Caminho se assemelhará ao suave da brisa”
  
   “O Ciclista”, de Walther Moreira Santos, é leitura recomendada para todos aqueles que buscam sentir empatia, dor, tristeza, intensidade, o enredo de um romance e, também desejam conhecer e aprofundarem com os autores que estão formando cenário literário atual. Romance sintonizado com literatura contemporânea dos autores brasileiros.  


                                                                                                 

                                                                                                           Edson Moura









  “O Ciclista”, de Walther Moreira Santos Seu livro fará parte do Projeto “Pilar Literário”. Iniciativa que tem o objetivo incentivar eventos artísticos-literário nos Distrito de Pilar, no Sertão Baiano.