quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Liceu Cândido Cruz

   

     
    A coordenação do Liceu Cândido Cruz tinha como uma de suas prioridades a entrega do histórico das disciplinas estendidas sempre na data estipulada. Recebi o meu acompanhado com selo amarelo de advertências - uma cor pálida como o amarelo para representar melhor o sentido de advertências, de perigo, mais adequado do que o vermelho, como normalmente é utilizado para provocar alarme ou algum desespero nos alunos. Sim, fiquei temeroso, como normalmente seria de ficar. As notas pendulando, ora para uma média de aprovação, ora para uma fração abstrusa de uma possível reprovação. Final do primeiro semestre do último ano do ensino médio, poucos planos, apenas sonhos indecisos, confusos, pouco entusiasmo como foram os outros finais de ano letivo. Lembro quando não existiam essas disciplinas estendidas, era mais fácil. O Centro de Adesão ao Conhecimento instaurou o Plano Base de Conhecimento Humano (PBCH), propondo melhorias no entendimento sobre nossa espécie. Lembro que época todos largaram suas predileções políticas para acreditar no enlouquecimento do então ministro da educação Ameríndio Figueroa, que de tão visionário acabava por despertar um considerável desconforto nos mais conservadores. O Liceu Cândido Cruz foi escolhido como primeira instituição de ensino no país para receber o projeto. Um teste ser feito em um prazo de quatro anos. pertenci a primeira turma que colheu o Plano Base. 
           Bons tempos aqueles em que não precisávamos passar horas refletindo sobre solidão, assunto demorado, lento, dramático, ter “solidão” como componente curricular nas escolas fazia parte do Plano Base de Conhecimento Humano, no princípio imaginei, “seria fácil, ate empolgante”, mas depois começaram a surgir os entraves, o tema estava permeado de tabus, incertezas, material didático restrito, confuso, pouca aplicabilidade, sistemas docente despreparado para acolher disciplinas como esta e outras que estariam prestes a serem implantadas. Seria o conhecimento desse estado de isolamento, provocado por imensuráveis motivos, que ate as mais desbravadas ciências da psique, ou a povoas suas origens em dimensões metafisicas, possível de ser aplicado e desenvolvido nas instituições de ensino. Perguntas que todos faziam uma para o outro ou para si mesmo. Séries fundamentais e intermediarias recebias os primeiros compêndios. Lembro que eram recebidos com tom de receio. Em meia a devaneios ou delírios – visto que na época era o que quase todos acreditavam - provocados pelo ímpeto dos sonhos do então ministro Ameríndio Figueroa de instaurar as reformas do Plano Base de Conhecimento Humano, deixou escapas que de imediato não haviam profissionais de ensino capacitados, especialização em solidão para professores, quem iria adivinhar experimentação desse tipo poderia ser aplicada. Sistematizar o estado de isolamento, essa penumbra que invadia os sentidos e que muitas vezes pode ser provocado distorções na própria mente de quem a carrega, ainda um mistério, não seria tarefa simples, estava muito distante das ciências de calculo ou estudos da língua. Não se pode ver a solidão. É certo que ela sempre infligiu o espirito humano, sempre orbitando nosso cotidiano.
       

      
    Lembro-me do primeiro dia de aula da disciplina. Professor Jean Martines nos entregou um esbouço contendo o conteúdo das aulas. Imagens das pinturas de Edward Hopper ilustravam os textos. Me chamou a atenção de imediato, pois estava familiarizado com algumas, provocando em mim um certo transpirar de alívio. Um pintor que retratava a solidão na modernidade, dizia Jean Martines. Quanto aos textos: poucos fragmentos, citações de grande pensadores que, dentro de suas obras, abordaram o estado de isolamento. Mesmo conduzindo as aulas, era possível perceber em sua fala um ausência de segurança. O próprio Jean Martines poderia não saber ao certo o que estava fazendo. Talvez ele mesmo nunca teria experimentado a assunto que tentava abordar. Nossos depoimentos eram o verdadeiro fio condutor das aulas. Não estava ele preparado para abordar ou, pelo mesmo, tentar uma interpretação dos pensadores. Talvez tenha percebido que se deparava com relatos de experiências. Viu-se impregnado de duvidas. O suor encharcava-lhe a camisa. Todos percebiam. Pobre professor Jean Martines, se encontrava sozinho, perdido em dúvidas, cercado pelos olhares atentos e julgadores dos alunos. Sua imaginação a lhe trair ao instigar pensamentos de incapacidade, ou de falta de controle. Tropeçava nos próprios sapatos. Inventava histórias sobre metodologias espalhafatosas que aprendida não sei onde. Era seu fim, juguem ironicamente. Dos inomináveis e inumeráveis estados de isolamento que podemos experimentar, Professor Jean Martinez talvez estivesse vivendo. Em dada aula, não lembro qual, a percepção coletiva indagou Jean Martinez, começamos a sugerir como poderias ser os trabalhos para avaliação, antes que o céu pudesse eclipsar por completo sobre sua cabeça, ou o chão sob seus pés atolar-lhe em profunda perdição de conhecimento, pedi permissão para falar, uma rara atitude, dessas que fossa de tempos em tempos. Sugeri que procurássemos outros textos, na biblioteca ou em nossas casas, que pudessem trazer um acréscimo as discursões. Nunca fui um bom aluno. Era o mais velho da classe, devido a desistências ou reprovações. Não era o melhor aluno, mas poderia me considerar o mais maduro, assim sendo, podei perceber o teor e a importância do que estava acontecendo. Estávamos tendo a oportunidade de aprofundamos em nossas mais intensas, e quase confessionais, investigações sobre nós mesmos. Talvez tenhas descoberto algo que até então não percebia, gostava de observar a alma humana sobre outros ângulos. Na ocasião, o professor Jean Martinez, percebeu a pertinência da sugestão que dei. Rendeu-se pela urgência, porque não lhe restou, de imediato, mais opções. Mas teve este a oportunidade de não retorcer-se ao a breve instante de controle e maestria do aluno intrusivo. Os poucos segundos de atenção de todos que eu havia conquistado se perderam na maestria de como Jean Martinez tomou por rédeas minha ideia. Reciclou-a. É claro, não teria intenção de me colocar como salvador da aula, ou de tê-lo ajudado em seu obscuro momento de ausência de ideias. Pesquisar e elaborar um breve texto, foi a tarefa barganhada entre os alunos e Jean Martinez.
       Na correria pensei em expor a carta de Pedro Américo me deixou. Nunca descobri que tipo de mal o infligia. Lembro dele como alguém que a poucos minutos estive me despedido com um ‘até logo’. Falava pouco sobre si mesmo. Poucos amigos, ou tinha como predileção a política cautelosa da desconfiança, uma boa política preventiva para uns, mas para outros era mais desses estranhos apáticos e excêntricos que ficava a vagar pelos corredores do Liceu Cândido Cruz, sozinho e com os pensamentos em outras dimensões ou em outras épocas. Sendo alvo dos constantes cochichos maliciosos, fruto talvez de alguma antipatia gerada pelo seu estado de silêncio. O que mais se podia observar na escrita da que carta que me deixou era o tom de uma atmosfera desértica que se colocava. Metáforas como planícies ou quilométricas estradas compunham sua ambientação. Qualquer senário que não se pudesse ver onde termina parecia lhe transmitir sentidos, optava sempre por estas, e escrevia que sempre percebia quando estava diante finitude dos objetivos lhe causava desconforto, inquietações, medo. Sentia medo quando se colocava diante da possibilidade de ter chegado ao final da jornada. Sentia medo da plenitude, pois esse significava o final de tudo, que outras jornadas poderiam não existiriam. Preferia o indefinível. O incolor lhe atraia. As repetições lhe eram doentias. O desconexitividade das coisas lhe desafiavam. O abstrato era confortante. Talvez por isso gostasse de pinturas impressionistas, ou de qualquer resultada advindo do imaginário mais espontâneo. O Liceu Cândido Cruz não era mais seu lugar. De fato pelo que pude entender de sua carta qualquer lugar não seria. Pra onde ele fosso seria perseguido por questões que nem mesmo ele seria capaz de responder, quais sabores deveria experimentar, quais prazeres deveria viver, quais paisagens deveriam ser vistas, color ou incolor, qual caminho deveria seguir, quais perguntas deveria responder, ou quais respostas deveriam ser dadas, quem deveria receber seus afetos, o que são sonhos, o que ele realmente procurava, onde encontrar, como encontrar a si mesmo, estariam as pessoas a sua volta fixadas a uma ilusão de um mundo que corre uma ordem, estaria ele preso dentro de corpo com algum distúrbio psiquiátrico. Escreveu na carta que se sentia como se caminhasse em uma estrada cercada em ambos as lados por telões que exibiam a todo instante imagem de todos os cotidianos que já viveu, imagens de pessoas que ele conheceu, imagens de palavras ouvidas ou lidas, imagem de melodias ouvidas, uma estrada que nunca chegava a algum destino, uma histórias sem desfecho, que estivesse sempre a ser narrada, interruptamente.

       Curiosos: agora, anos após sua partida, foi que o projeto experimental do ministro Ameríndio Figueroa, após as reformas do Plano Base, como a aplicação das disciplinas estendias, e como suas possíveis reesposas venho perceber que Pedro Américo poderia está vivendo em algum tipo de estado de isolamento. Quem sabe se ele não seria um dos melhores alunos do componente curricular “solidão”, ministrando aulas e construindo uma carreira e conquistando carreira de sucesso (é claro que isso é só ais um dos meus devaneios, afinal, nutrir devaneios não é crime), mas seria quase certo que ele haveria de fluir mais o que sentia. De desvendar e redescobrir uma inteligência que poucas conheciam: Pedro Américo conheceu uma fração de si mesmo, há de ressaltar que são raros os que se atrevem a observar. Pedro Américo conhecia como poucos o estado de isolamento. A história dele me garantiu uma boa média, ao mesmo instante que garantiu a Jean Martinez uma orientação para trabalhar toda a disciplina durante o ano letivo, é claro sem que me tenha ofertado qualquer bonificação nas notas ou alguma predileção como aluno.
         O Plano Base, e as disciplinas estendidas será extintas nos próximo ano. Os motivos que deram foi a falta de viabilidade do projeto: alto custo;  ministro da educação Ameríndio Figueroa foi encontrado morto seu apartamento, com a suspeita de suicídio. Mas na realidade a indústria da saúde enfrentava, nos anos em que o plano base foi posto em prática, uma gigantesca queda na sua arrecadação, psicólogos, psiquiatras e indústria farmacêutica amargavam prejuízo quase incalculáveis. Afinal ter como disciplinas como: solidão, medo, sentidos, memória, morte. Serem aplicadas nas escola poderia de alguma forma influencias nossos sentido pela existência. Ficará na minha memória esse tempo que a escola nos preparava para conhecermos o que, certamente, iriamos a conhecer no futuro, talvez estaríamos preparados, talvez não. Mas aqueles poucos anos, aqueles em que a “sombra do conhecimento” sobre nos mesmos pairou sobre nossas consciências, assustando, abstraindo a ordem das coisas. O Plano Base seria extinto, o Liceu Cândido Cruz enfrentava o quase fechamento devido ao termino do projeto.  Mas eu havia completado a média que precisava. Não é isso que todos queriam?     




                                                                                       Edson Moura

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dos hábitos intrusivos

   



     
    Quando a preferências pelo barulho se transformas em aversão à preferência pelo silêncio?  Poderia iniciar com uma breve metáfora bem comportada sobre uma suposta “página em Branco” (e que ele poderias representar), ou exemplificar com uma reflexão sobre as reticências, seus usos, seus valores de sentidos e suas mistificações no uso da língua. Mas o silêncio a qual me refiro é outro, longe das carnavalescas metáforas ou exageradas intenções metafisicas. O Silêncio a qual me refiro é esse que todos, hoje, esqueceram que existe, aquele que o oposto do barulho, os altíssimos decibéis, os mecânicos, chamada contaminação sonora, agudos, médios e graves. Os mesmos decibéis incômodos que em uma crônica o escritor argentino Ernesto Sabato refletiu, como um sintoma enraizado das novas gerações. De súbito tive certo conforto: alguém diagnosticou a mesma perturbação patológica. Pensei: não estou sozinho.
          Será que existem meios para alcançar o ‘silêncio de Buda’ através da contaminação sonora? Às vezes me flagrava fazendo essa pergunta. Penso que nesse caso sou o melhor adepto da preguiça, pois me falta paciência para tentar fazê-lo. Mas acredito que tal estado de mansidão eu já tenha alcançado quanto estou em um sonâmbulo profundo ao ler qualquer livro que caia em minhas mãos, e que interesse hipnótico venha a provocar. Memorável o dia em que tive a oportunidade de por mais de quatro horas seguida lendo “A Revoada” do Garcia Márquez sem ser atormentado por qualquer tipo de intromissão sonora que não fossem os tilintares do mensageiro dos ventos, ou os, sempre bem vindos, ruídos dos pássaros ao bicarem o telhado.  Perdemos a noção de quietude ou estamos vivendo num momento em que o gosto pelo contaminação sonora, o barulho, tenha se tornado um tipo de valor almejados por quase todos, uma autoafirmação, um pré-requisito para aceitação dos grupos. Se não for adepto ao barulho, és socialmente perturbado, uma pessoa complicada, antipática, um antissocial, um estranho ou uma espécie de maníaco caladão.  Simplificando mais ainda: caso seja um adepto do silêncio, será como um vegano num rodízio de caminhoneiros em pleno sábado ao meio dia.  
       Como ficcionista, ou exercitando essa indefinida pratica de inventar histórias, poderia inventar uma realidade onde as pessoas, por consequência viral ou uma danação divina de uma oitava praga, tenha perdido a capacidade de ouvir, um tipo de apocalipse da surdes – pegando carona no incrível romance de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, poderia manufaturar um ‘Ensaio sobre a surdez’, se é que já não exista. Nunca entendi esse meu distanciamento das complicadas contaminações sonoras, talvez porque o que sempre procurei, a mansidão do inconsciente devesse ser uma consequência paulatina, um processo que se inicia com a ideia da ausência de mundo, ou pelo menos uma simulação interna de que ele não esteja em movimento. Talvez – e este ‘talvez’ seja porque nunca acreditei em certezas, e que o sentimento de decepção, fatalmente, possa acontecer quando essa ‘certeza’ não é confirmada - essa minha estranha obsessão pelo silêncio tenha da motivação para nomear, inocentemente, o titulo do meu primeiro livro de ficções “O silencio das Vespas”. Talvez o gosto e a preferência pela ausência da contaminação sonora seja algum tipo de delírios psicológico que tenha percebido.

                                                                             
                                                                                      Em 17 . 02 . 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Reaprendendo a ler Schopenhauer


         
         Será que o otimista seja um mero receoso que espreitou uma breve visão de sua própria realidade? Há tempos venho me fazendo essa pergunta. Em um mundo onde “tudo pode, e tudo é possível”, a tudo podemos ser indiferente remorso e a tudo desejamos vorazmente, onde quase tudo se configura de acordo com nossa vontade, com nossos ímpetos de apenas querer, e prono, tudo podemos. Assim sendo, o presente não seria de uma sustentável, de fácil aceitação, e o futuro não mais seria algum tipo de cavalo indomável e desgarrado, que instiga nossas ansiedades ao imaginarmos o quão podem ser cruéis as fatalidades do que está por vir, o além ou o adiante.
      
Pias (rodoviária) Foto de E.M.
      A natureza humana é um entrelaçar de medos e receios. Não há como irmos ao seu cerne sem esbarramos num complexidade de pensamentos violentos. Se não fossem os códigos civis, as exigências morais, ou mesmo a possibilidade de uma punição divina-metafisica do além morte, para conter esse aspecto onírico, estaríamos condenados a usufruímos apenas de nossa natureza primitiva? Irão dizer: “somos privilegiados com o Dom da afetividade”, mas observasse afetividade e coexistências em amimais, até mesmo mais afetividade do que entre muitos de nossa espécie. Otimismo vem como uma espécie de manto mágico para nos proteger nós mesmos, das nossas inconsistências, de nossas fatalidades sem solução. Percebo uma espécie de “ditadura do otimismo”: a obrigação inconsciente da felicidade a qualquer custo, e se você não a consiga, não terá a plenitude da vida (seja essa lá qual for). Tenho medos da receita do otimismo, pois ela me afastaria dos grandes pensadores do conhecimento observados por estes sobre nós. Confesso, experimentei otimismo uma vez, ele me colocou no mundo das abstrações.
        Ler muito é perigoso. Ler grandes pensadores é mais perigoso ainda. Pois conhece-los, ou seus trabalhos, nos coloca frente a frente com nossa existência, com nossos questionamentos, com nossos medos mais incomunicáveis (com nossos próprios demônios), sobre o que de fato estar acontecendo a nossa volta, o conhecimento nos entrega um raio-X do que realmente somos: seres violentos, seres transgressores, pisco-problemáticos, seres falhos.  Me pergunto: será que o otimismo convencional, com suas regras bem definidas e bem impostas, estão cada vez mais colocando de lado nosso interesse em aceitarmos a natureza humana, romantizando algo não somos. As pessoas estão trocando o interesse pela noção de existir (ou de existência) pelo rápido e “eficiente” otimismo de autoajuda. Trocamos Heidegger, Camus e Beauvoir, pelo palestrante motivacional dos próximos finais de semana. De tanto observar o cotidiano, estou reaprender o que de fato é o pessimismo. De tanto observar o cotidiano estou reaprendendo a ler Schopenhauer, eu sua trágica compressão sobre o desespero humano. Confesso, sempre serei pessimista quanto ao otimismo. 




                                                                                              Em 10.02.2017