sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Dúvida





 
      Sua única reação, visto que sua natureza não lhe permitia ter outra, foi permanecer parado, observando os estados das feições do escrevente. Os movimentos do datilógrafo diminuíram nos últimos dias. O bater dos dedos nas teclas perdendo força e intensidade, enfraquecendo a sonância da sineta que tilintava ao final da pauta. O escrevente esticava os braços, esticando-os num gesto enfadonho. Recolhia a maquina. Desta vez, fugindo ao costume, não retirou a pagina. Permitia-se estar perante um ângulo de vista de um personagem incompleto. Sim. Não tinha concluído sua história. Olhava para pauta, esbouçando uma pergunta silenciosa. Franzia as sobrancelhas, escondendo sua vergonha de perguntar o fazer com uma história que não seria terminada. Encolhido a um escriba que argumentava com o espaço vazio que ele mesmo criou. Sufocando-se em sintomas nauseantes de frustações. Tocou as bordas e teclas da máquina por alguns instantes. Ajustava alguns livros que estava fora de ordem, admitindo para si que a história morrerias, cairia no esquecimento por falta de uma conclusão que satisfizesse qualquer editor mais rigoroso. Questionava sobre o bloqueio. O por quê da opacidade das palavras. Era rigoroso com seus trabalhos. O que produzia obedecia a sincronia rigorosa do começo, meio e fim. O ardor da cronologia não afetava suas conclusões.

    Se entregou, inconscientemente, a convencionalidade de sua escrita por anos. Um desses surtos de conclusão de texto - pensava ironicamente. Imaginava seu personagem perdido em risadas discretas e escrotas, se divertindo pela falta de um placebo imaginativo.  O escriba convencional sempre se apoiará na piedade de seus personagens, imaginava com uma imagem sonora que não sessava de produzir sentidos desde o instante que resolveu parar de escrever. Era tarde, noite, madrugada, breu tranquilo. Faltava-lhe sono. Depois de um sobressalto, retirou a máquina de escrever do local onde deveria ficar condicionada por longo tempo e a levou para o alpendre. Tornou a reler o que havia datilografado, suspeitando da própria qualidade das palavras que usou para tecer os pormenores aforismáticos que tenha-lhe surgido e que, possivelmente, trariam algum retorno qualitativo a história. Esteve ele com os olhos preso às páginas, engenhando os alicerces da uma persona que só ganharia formas nos olhos que um leitor. Ceticismo para construir significados em caracteres, era o que acreditava, esquecendo que a imaginação é penumbra que acolhe o inexistente, mortifica o explicável. Não acreditava no insólito da alma. Mas seus temores surgiam, desapareciam e lhe chamavam, numa discrepância compulsiva, no qual reinava o próprio um vício circular. 
     
     No plano em branco podia se comunicar com as outras paginas, ou melhor, com outros sintagmas, seus sentidos transfigurando e inexoráveis. Mesmo ele, formado do próprio substrato das palavras, desconhecia as razões que o formaram, mas conhecia sua missão, se é que existia uma em conformidade inata. Olhando para solidão do escriba, que estava perdido em seu labirinto das dúvidas. Não anotava, nem tocava as teclas. Parou no meio do paragrafo onde lhe tecia característica, simulando valorações, onerando adjetivos nas costas de um ser desqualificado desde quando datilografou os primeiros substantivos. Não há pureza no substantivo humano. O escriba tardou a perceber. Na vigésima página descobria sua desonestidade. Dez dias mergulhado no abismo inverossímil dos adjetivos. Tecendo um personagem que conhecia a si mesmo, melhor que o escriba. Poupando-se em concelhos, pois personagens incompletos não geravam voz. Assim não poderia avisar-lhe sobre o que realmente deveria escrever. Tinha escarnido na alma, se não, ela mesma, contorcendo-se por poucos verbetes que deveria ter escrito, mas não os escreveu. Se existisse uma voz, poderia o ser da página incompleta dizer que lhe faltava fúria, que ele havia esquecido dessa matéria que produz o mal dizer - cuspa suas cóleras mais profundas e mais verossímeis nos espaços adiante, nas linhas por vir, não sinta vergonha da fúria, essa irá construir os tipos que procura – fervilhava o ímpeto do personagem incompleto.

    O escriba não ouvia. Mas rodeava com os olhos as teclas da máquina, observando a mecânica os caracteres invertidos dos tipos, o vício dos bons adjetivos o distanciava do primitivo que, verdadeiramente, era. Não rasgou as páginas quando teve o primeiro surto de vazio criativo. Como pode um criador surtar com a desobediência de sua obra que se rebela em não ser gerada. Escutava essa pergunta, vinda não sabia de onde. Não rasgaria as páginas, gostou a história, do enredo. O personagem não gerava uma apreso unívoco, reciproco, mas o vento no alpendre soprava-lhe piedade. Malditos ventos, sopraram as páginas, espalhavam pelo chão, algumas aos seus pés, obras embrearam debaixo da escrivaninha. Vento escroto. Gritava. Irritado, folheou as paginas do dicionário procurando verbetes que nunca tenha usado ou lido. Uma palavra condicionada ao acaso, solta, que pudesse ser uma gênese para os últimos parágrafos. Enquanto tentava reorganizar as folhas descobriu que as páginas não havia numeração, esqueceu-se de enumera-las. Demônios. Gritava baixo, olhando para os lados procurando um culpado que estivesse a espreita. Não havia ninguém. O medo inventa culpados. Sentou na dadeira de balanço e ofegou profundamente. Exaurido pela procura dos parágrafos que não queriam se concluídos e pelas páginas que agora se perdiam da ordem.     


    Era prisioneiro num pauta incompleta; uma ideia vaga como dirá aquele que encontrar as paginas amaçadas em algum armazém de detritos de papel. Os reflexos de sentidos de que foi formado, mas não poderia pronuncia-los. Maldito escriba que lhe deu ansiedade, esse vício que lhe foi incorporado quando estava sendo consentido. Queria dizer que a pureza da moral é um claustro que o sufocava. Observava o escriba se irritando e injuriando o vento pela simples inocência de soprar pautas incompletas. Sim. Era o que queria. A fúria. Sentia sede. Seu veneno, que engolia a cada minuto, sem perceber, dilacerava o sabor das injurias. Criar um apocalipse nas palavras. Desdenhar uma plenitude perseverada e cair nos veios da preguiça, ser irresponsável por minutos diários. Aconselharia ao escriba a riqueza escondida dos escárnios e maldizeres. Diria que logo ali, na estante, em meio à seleta de livros, poderia consultar no que muitos chamam de tratados sobre a existência dos substantivos humanos. A matéria que lhe faltava estava entre as conjunturas bioquímicas que reagem com os sentidos que os bons e maus adjetivos poderiam gerar. O humano que carregava o impedia de seguir adiante nas linhas do sua história. Onde estavam às fobias para lhe orienta-lo no mundo de fobias. Fobia de fúria. Aquele semblante de cão perdido miséria por elogios, por piedade, faltava adjetivos. Destes que infla nosso peito, que faz mover o ar em nossos pulmões. Fobia dos despudores dos verbos, os maus sentidos, os crédulos satânicos para atentar sua luz, que de tão imaculada truncou uma histórias nos passou finais da escrita. O desejo pela imperfeição é o colocará onde as cobras se deleitam; na imundice que lhe atribuíram os mitos. Uma metáfora das cobras - a palavra serpente se perdia na lírica. Era noite e o ser condenado nas paginas da historias ainda observava os passos, de um lado pro outro, do escriba. Ainda não fugia do desalento. Presava a história a ponto de não destruir o manuscrito. O ser preso no nas pautas, limitado apenas a ver o escriba. Nem gritos, nem conselhos. A casa das mentiras construída em substantivos e adjetivos. Nem boca nem membros para conduzir seu criador ao desfecho da história. A morte é um fim que não se pontua, livre do auto-testemunho. O escriba saca do bouço seu isqueiro, reúne as páginas e as queima. Observa o fluxo de cores em meio às chamas. Olhava. Em pavor gritou “Eram aqueles as palavras que deveriam concluir a história.”  


                   

                                                                     Edson Moura          

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

“Os Sertões” redescobertos

     
Série de ensaios-relatos sobre os ‘Novos Sertões'  
   
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© Edson Moura
Visitar Canudos, caminhando por suas ruas, pisar em seus calçamentos como alguém que, repentinamente, descobre a possibilidade de (re)descoberta de um fragmento de um passado que nos convoca a  ser (re)escrito. A memória de um conceito teórico lido em nossa literatura acadêmica, truncada para tridimensionalidade de nossos sentidos, estes, presos em uma cela de bibliográfica, conceitos teóricos, puro e simples, são incompletos sem o observável, sem o estudo do Campo. É claro, podemos desfrutarmos dos benefícios da experiência imaginaria, mas o testemunho nos coloca no fronte das observação, o assunto a ser relatado , pois a práxis da presença é o alicerce do conhecimento tanto literário quanto antropológico. O observador, protagonista de uma mundividência-investigativa-cientifica, não limita suas fonte de captação de dados somente aos olhos prostrados, fulgurosamente  ele capta odores e asperezas de superfícies. Sentir que em suas terras ainda reside os ecos de um dos maiores movimentos de contestação de uma ordem vigente: se impôs uma região, a um Estado, em seguida, a uma nação por completo.
      
   Os trabalhos de um narrador ficcional, sempre buscando uma impressão conotativa de seu testemunho, sede lugar rebuscamento do pesquisador. Minunciosamente, catalogando esse contado, transformando-o em relato de um viajante, assim como Darwin, aprofundando-se no cerne da “Terra do Fogo”, descrevendo e enumerando detalhes sobre “As Ilhas Canarias”. O narrador de uma pesquisa etnográfica-literária, germinando e produzindo os veios de raízes ainda desformes e fincados num plano de terras fecundas, mas que necessitadas um cultivo cuidadoso e constante.  
© Edson Moura
       
      Assim surge desse labirinto de referencial bibliográfico multidisciplinar, um chão de histórias, de vozes passadas – bibliográfica, relatos e sombras de um povo quase esquecido- e vozes presente – a gente viva, com que podemos sentar e conversar sobre seus testemunhos da vida do cotidiano local, este, o ponto de partida. Rios de narrativas fluindo, Uma paisagem inexorável no largo da imaginação, brotando do ímpio da própria realidade observável, um estado de presença às vezes calmo, passivo a contemplação, às vezes tenebrosa, às vezes bela, às vezes confusa e opulenta e onerosa. A paisagem de Canudos, esse imenso sertão de dentro, influxo de um social e psicológico tão bem descrito na poesia-prosa de Guimarães Rosa, fala dessa realidade tangível, ainda que metaforizada. “Os Sertões” mostrou jornalístico-literariamente, uma grande tratado da configuração social-étnico-ideológico brasileira. O sertão, o sertanejo, os homens e mulheres pisando o seco do sol, aqueles que buscam seu Terra prometida, esta é Belo Monte, recanto dos oprimidos, o “anticristo republicano” metaforizando uma elite opressora. O rigor analítico-estrutural dirá que o fato “Os Sertões” é um de nossos grandes legados antropológico.   



                         

                                                Edson Moura
 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Barnabé de Brasília






Porque é comum ao ser humano questionar sobre o amanhã sem se inteirar plenamente do hoje e, menos ainda, considerar o já existido no ontem; que são poucos aqueles que se atêm na contemplação dos minutos compondo horas, os dias fazendo meses, os anos escrevendo a história.

E mesmo a história, são mínimos os que, sobre ela, se deixaram ficar em reflexão, pois temos o mal costume de, ao comtemplarmos uma obra – qual seja – não consideramos quem (ou quais) a fez (ou fizeram). O gigantismo de uma pirâmide, por exemplo, cria o mistério, o misticismo, a solidão de uma era, mas certamente não nos leva a pensar os blocos de pedra que a fizeram, se pedra é apenas pedra. No entanto, quando essa mesma pedra é trabalhada pela mão do homem nem bloco de faces perfeitas, ai inicia- a primeira transformação que – junto a tantos outros blocos – dão forma e resultado a uma obra de arte eterna; sem contar que esquecemos (ou não lembramos mais) daquele que o projetou e nem dos que a construiu. Por esse motivo é que sabemos ver as coisas, embora sejamos míopes no enxergar da própria razão daquela existência.

Flavio Bruno Von Sperling se deu ao trabalho de escriba entre nós. Como um Barnabé, viveu Brasília na total concepção da palavra, posto que lá estava no primeiro momento em que, saída dos projetos Lúcio Costa e Niemeyer, a capital ganhava estrutura física – “pedra sobre pedra”- na construção de um momento ao novo Brasil, no cerrado da sua própria solidão geográfica e a desnudar-se meio aos índios e animais selvagens para, finalmente, mesmo que esta não se concretize por completa vestir-se de esperança e de progresso.
  
O Barnabé Flávio, ao escrever suas memórias, nos permite viajar com ele no tempo das simples memórias se, para cada (re)encontro com uma pessoas que lhe chegavam á mente, anotara pormenores: uma fala, um gesto, um causo, uma qualquer coisa que fique na emoção de qualquer dia poeirento, porem gravados no coração de um homem sensível e múltiplo; cantor lírico e membro de família importante con(vivendo) com pessoas tão desiguais e dispares envolvidas num só ideal daquele que, em mil dias, almejava fazer a maior obra deste século.

E por não pretender nos largar apenas um livro de memórias apenas na cronologia dos fatos, eis O Barnabé de Brasília, em síntese, uma hilariante recordação de um verdadeiro Barnabé que soube, na sua altivez e simplicidade, amealhar os momentos difíceis, os momentos jocosos e o dia-a-dia de um cotidiano em que a rotina de um árduo trabalho não ficou apena sob a poeira de uma obra de ebulição no Planalto Central, mas em pó de ouro no sentimento deste escritor que agora que fez um plantio nos tempos de suas emoções confessas.

Como já disseram que o essencial não se vê com os olhos , é preciso buscar com o coração, Flávio Bruno Von Sperling viu a “pirâmide” mas, antes, enxergou as pedras do caminho erguendo um monumento nacional. O Barnabé de Brasília será, para sempre, um aplauso nosso, na raríssima oportunidade que nos é dada um re/visão aos ontens de nosso país. Um livro para ser lido e pensando em sua dimensão.   

                                                              
                                                          Maxs Portes