terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Concerto de Egberto Gismonti no Recife (I parte)

     Estava esperando as cortinas se abrirem. Engano. Não havia cortinas. Pois esperava, não por minha verdadeira vontade, o excesso em meio à simplicidade – assim como são os pensamentos perdidos entre muitos pensamentos. E aquelas cortinas que imaginei, de um anfiteatro isolado, perdidos entre ruas estreitas e escuras – o comércio dormia -, eram na verdade as portas da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Mas é certo pensar que naquele vespertino vestido de noite aquela igreja já não mais focava como igreja? Que o profano e o sagrado tramitavam numa acústica quase perfeita, de algarismos melódicos, como fantasmas espreitando outros fantasmas? Tudo se misturava. Não havia formas definidas. Abstrato como deveria ser, silencioso como as almas dos “Homens Pretos”, que entre suas paredes deslaçavam, acordariam de seu sono para povoar aquele salão carregado de instrumentos intrusos, porque eram suas realmente. Não acordariam aborrecidos com os aplausos. Pois aqueles aplausos também era para Baden Powell, que também via de longe, ou de perto, quem sabe. Aquelas notas despertaram tudo que dormia: contentamento, lembranças e o dia belo que estar por vir, pois naquele momento era noite.
        Não pude entrar. Confesso. Pois não havia, lá dentro, espaço que suportasse os meros curiosos e os que ansiavam há muito tempo para ver e ouvir. Mas é de música que falo. Não foi necessário mais que um sentido para perceber que o espaço que não existia dentro, se expandia fora. Para meu espanto, e talvez para o espanto daqueles que estavam comigo, descobri que gostava daquela música mais do que imaginava. As melodias me deixaram consciente. Melodias de uma música tranquila: “O palhaço”, que instantes calou alegrias e tristezas. Pois dormíamos enquanto Os Homens Pretos celebravam e desfrutavam seus prazeres. Enquanto nós, surdos por aquela música, não podíamos fazer outra coisa, a não ser ficarmos quietos; ouvido e mendigando com nossos olhos por lugar aonde pudéssemos ouvir e também ver. Porque só ouvir era pouco. Porque noite de concerto. Concerte de Egberto Gismonti.
         Os Homens Pretos nos viram e as portas se abriram. Podemos ver afinal.                          

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Garrafeiro (conto)


     Não pude ver as mistura que fazia - ele jamais permitiu que ninguém visse, era um segredo, o seu segredo, e sempre carregando, creio, a certeza de que todos os segredos são tão frágeis e traventos quanto o próprio ato de carrega-lo.
     Era o Garrafeiro de Santa Luiza, e não mais que isso. Pois era daquele jeito que gostava de ser chamado, “o Garrafeiro”, apenas. Passava o dia sentado à beira de um calor de brasas, mexendo um caldeirão com uma colher grande de madeira. Quem o visse, com sua indumentária apregoada por trapos, colocaria moedas no chão onde repousava seu corpo, sem antes lhe perguntar sobre suas necessidades ou conveniências neste mundo. Seu cheiro não era menos desagradável que os vapores que saiam do caldeirão e o cercavam – poderia ser noite, poderia ser dia, os vapores sempre e o cercavam.
       Desde quando o vi pela primeira vez, percebi que nunca tinha qualquer preocupação com sua própria aparência ou com seus hábitos. Urinava aonde as decências da necessidade pediam, visto que não havia, para ele lugar mais digno para se urinar do que um poste ou um pé-de-parede qualquer. Cuspia sem os pudores da boa educação, o que seria mais estranho se assim não o fizesse: cuspia quando via alguns monumentos de pretextos duvidosos. Escarrava nos jardins mais belos da cidade. E sempre que fazia isso, aparentava leveza de espírito. Que não lhe permitam caminhar no Éden, ou nos Jardins Babilônicos - e um pedido sempre fiz aos poderes onipresentes: permitir que alguém veja o que o Garrafeiro de Santa Luiza mistura naquele caldeirão. Mas os pedidos nunca eram ouvidos. Quem sabe não seria o Garrafeiro o próprio guardador das almas inquietas, como a minha que sempre foi apreensiva desde o momento em que gritou a palavra “futuro” nos cantos da minha cabeça. É sempre possível estar em desprezo com a vida comum. Disseram uma vez que o Garrafeiro de Santa Luiza curava este tipo de desprezo. Que aquilo que mexia era uma mistura santificada. Outros, com um tipo estranho de benevolência, oriundo talvez dos próprios caprichos da espécie humana, diziam que aquilo era macumba, magia negra, serviço do além, essas coisas que todos dizem quando admitem que existe o que não existe. Uma vez ele sorriu quando lhe chamaram de louco. Outra vez sorriu mais ainda quando lhe chamaram imundo. Outra vez lhe falaram que cresciam vermes de mosca onde ele pisava, que não havia nenhuma beleza nas coisas que fazia. Disseram que se continuasse a fazer aquelas misturas fedorentas, que nauseava qualquer pessoa que passasse por perto, acabaria sendo linchado. Lembro que para cada ameaça, insulto ou desprezo que lhe ofertavam retribuía com um sorriso indiferente. E a cada sorriso que este propunha, maior era o aborrecimento dos moradores. Tentaram uma vez leva-lo para os limites de Santa Luiza: amarraram seus pés e mãos e o colocaram na carroceria de um caminhão. Mas quem dera que, para aqueles que não desejavam ver sua presença, os limites da cidade fossem tão distante quando o desejo de que um dia o Garrafeiro deixasse de existir. Não entendo por que os habitantes de Santa Luiza tinha tanto desdém pelo Garrafeiro, ou que seja mais cândido: nunca entendi por que um caldeirão fedorento transtornava tanto aquelas pessoas. O certo era que ninguém podia ver a mistura que fazia, era sue segredo. Mas com o passar do tempo os segredos se enfraquecem, cansam de serem segredos. E o Garrafeiro, assim como muitos, não era dono de seus próprios segredos. Ao momento que minha persistência em descobrir quais os fins para sua vida; de suas intenções neste mundo; quais os anseios para a formula misteriosa contida em seu caldeirão. Acabei, como todo acaso que se considere acaso, descobrindo que não existia mistura alguma. A formula para curar almas inquietas não existia. Ele, vencido pela teimosia dos segredos que não querem ser segredos, e também, quem sabe, pela minha persistência em orbitar seu ofício, acabou revelando seu pequeno mundo. Não existia mistura de substância; não eram encantamentos; não era a cura para as almas inquietas. Sem hesitação, pois não havia mais segredos, despeja ao chão aquela fervura, formada por toda sorte de objetos que ele mesmo encontrava pela cidade: garrafas, colheres, copos quebrados, enfim, tudo que era sólido e que pertencia a universo equivocado do lixo. Nos dias que se seguiram, não se tinha mais notícias do Garrafeiro de Santa Luiza. Acredito que tem partido por não existirem mais em santa Luiza objetos que pudessem ser fervidos. Os incômodos de sua presença e de seu caldeirão desapareceram, e com ele todos os serviços de esterilização do lixo que Santa Luiza produzia. Nos dias que se seguiram, não se tinha mais noticias do Garrafeiro de Santa Luiza.                                                                 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Uma direção (crônica)

 
       Tudo começou com um receio; o receio de estar muito longe. Creio que sem este, jamais haveria o que narrar. É obvio que foi sempre o próprio desconhecido o maior protagonista das histórias sobre nossos medos, ou qualquer tipo fenômeno incógnito que provoque o espanto. Seriam estes os próprios impulsionadores da curiosidade em testemunhar o que está além do que não podemos ver? Descobri que não é mais do que a imagem de um longo caminho para aguçar nossos ímpetos mais secretos. 
       Quando o vi, totalmente vazio e deserto, após percorrer alguns décimos de quilômetros, olhei para trás e lembrei que os caminhos se bifurcavam em vários pontos da estrada. Devo, por motivos que às vezes fogem do controle, ter esquecido este detalhe não menos importante. Provavelmente, estava mergulhado nos delírios cômicos de algum pensamento. É claro que equívocos como este acontecem, quando não estamos acostumados andar em determinadas estradas – aquelas desconhecidas – é claro que respostas escuras nos venham, a tentar nos guiar por caminhos alheios de nosso próprio conforto. É sempre mais fácil e menos confuso olhar para os caminhos que já conhecemos e para as imagens que já estão guardadas: as mesmas árvores, as mesmas casas, as mesmas pessoas, os mesmos sentidos que nossa ínfima sabedoria sobre aquilo que temos de profundo. Enfim, se enfartar no previsível. É sempre mais fácil reter-se na desistência, ou sufocar a curiosidade na medíocre atmosfera daqueles que não criam novos rumos para um mesmo fim. Certamente o proprietário daquele caminho, tão distante para meus olhos, não iria me privar de saciar minhas curiosidades: para onde estou indo? Qual seu fim? Não iria me privar de ver aonde aquela estrada me conduziria, e eu não iria voltar por causa dum receio qualquer: que a distância sempre apavora. Normalmente, elas sempre apavoram.
         Mas de onde vem esta bendita e ruidosa curiosidade?! Por que as longas distâncias fascinam? Ora, cansei de explorar os mesmos caminhos, usando horários diferentes para ocultar os mistérios que não existiam mais, e enganar minha ansiedade pelo desconhecido. Assim como um papel em branco, o desconhecido deve ser preenchido com palavra e descobertas. Que mal há em transpor as longas distâncias.
         Veio um silêncio – creio que exista algum tipo de silêncio que quase sempre antecedo as decisões. Há aqueles preferem enfrentar o desespero, trilhando caminhos egoicos com passos altruístas, tendo o solidão como martírio. Podem sem duvida, num turbilhão de aflições cômicas, quase sempre exageradas, como costumo afirmar, deixar corroer o que antes era completo, aquela certeza de que existirão sempre em nosso curtíssimo espaço cósmico caminhos difíceis e talhados com sombras. E mais do que isto, se privar sempre a ensinar novas formas de se lidar com o mundo a nossa volta.
     Quanto a minha escolha!? Arrisque enfrentar o receio e ver a continuação daquele caminho. Este, preciso confessar, não era nem mais nem menos do que os caminhos que percorro todas as manhãs. Era domingo e todos dormiam.

                                                                     
            

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O silêncio das Vespas


Em O Silêncio das Vespas, o autor arquiteta narrativas com um olhar que capta cotidianos ambíguos e fantasiosos, explorando narrativas carregadas de um imaginário trágico e misterioso. Em suas páginas, representações ásperas de devaneios criados pelo inconsciente de personagens que não conseguem separar passado e presente: “Ela aguardava todas as noites a sua volta, sentada na rede de balanço, sentindo o vazio, como alma sem rumo. Com ansiedades de sentimentos que não amadureciam com o passar dos dias, com vestidos engomados e cheirando a ventos passados”. Na construção psicológica dos personagens, surgem conflitos vindos de acontecimentos do passado, mostrando narrativas que misturam realidade e mitos oriundos da relação intrínseca do tempo com a alma: “Não haveria como voltar, afinal, tudo passa. Mas havia conquistado a liberdade de estar ali, à beira de um rio de tempo, observando suas águas correrem na direção que a natureza impusera, observava, apenas”.


Editora Baraúna http://www.livrariabarauna.com.br/