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Calvário

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           O estrépito metálico ressoou com uma crueza ensurdecedora, o ruído arrebentando os espaços vazios e ricocheteando pelas paredes do quarto como um veredito adiado. A câmara, todavia, jazia vazia. O som do percutor colidindo contra o aço inativo, embora representasse a manutenção biológica da vida, trazia consigo uma ressonância perturbadora, quase profana. Momentos antes de acionar o gatilho, eu me sentia revestido por uma invulnerabilidade divina; agora, porém, com o cão do revólver martelando o vácuo do tambor, a fachada ruiu. Minhas mãos, outrora firmes, eram agora presas de um tremor incontrolável, banhadas por um suor gélido que parecia brotar das fendas da própria alma.          Ela me observava, a ansiedade pulsando sob as íris de um matiz verde-acinzentado, profundas como um oceano em tempestade. Esforcei-me para esboçar um sorriso, mas o resultado foi uma careta pálida e pusilânime. Entr...

CRESCIMENTO ECONÔMICO E HERANÇA ESCRAVOCRATA

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  CRESCIMENTO ECONÔMICO E HERANÇA ESCRAVOCRATA: A DISTINÇÃO SIMBÓLICA NA INDÚSTRIA TÊXTIL DE SANTA CRUZ DO CAPIBARIBE   Resumo   Este artigo analisa a correlação entre o vertiginoso crescimento econômico do polo têxtil de Santa Cruz do Capibaribe-PE e a manutenção de estruturas simbólicas herdadas do período escravocrata brasileiro. Através de uma revisão bibliográfica fundamentada na sociologia crítica de Jessé Souza e Florestan Fernandes, e na teoria da distinção de Pierre Bourdieu, investiga-se como a precarização do trabalho nas "facções" e a autoexploração operária perpetuam uma hierarquia social. O estudo demonstra que o discurso do empreendedorismo local muitas vezes mascara a continuidade da desvalorização do trabalho manual, característica do habitus escravista, servindo como mecanismo de distinção para as novas elites locais.   Palavras-chave: Santa Cruz do Capibaribe. Indústria Têxtil. Herança Escravocrata. Distinção Social. Precarização do Tr...

A grande mão

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                  Não se tratava, e que isto fique claro desde o princípio para que não se cometam erros de julgamento sobre o carácter de quem narra, de uma curiosidade vulgar, daquelas que fazem abrandar o passo diante de um acidente de viação para vislumbrar o brilho fugaz do sangue no asfalto, mas sim de uma necessidade quase científica, se é que a ciência pode debruçar-se sobre os abismos da alma sem perder, no processo, a sua própria razão, de compreender o mecanismo daquela engrenagem a que chamavam, com uma simplicidade aterradora, “A Grande Mão”. O nome, desprovido de subtilezas metafóricas, sugeria tanto o amparo que recolhe quanto a força que esmaga, mas a investigação a que me propus, arrastando-me pelos subterrâneos digitais e físicos de uma cidade que há muito deixara de ser um lar para se tornar um cenário, revelou que a mão não estava ali para salvar ninguém, estava ali para aplaudir. O objetivo da organizaç...

O Silêncio do Concreto na Caatinga

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         Uma Leitura Fenomenológica de Tadao Ando no Sertão Nordestino   "A arquitetura deve permanecer em silêncio   e deixar que a luz e o vento falem."   Tadao Ando     O Encontro de Dois Silêncios         A arquitetura de Tadao Ando é, essencialmente, uma arquitetura de paradoxos resolvidos: a massa pesada que flutua, o modernismo técnico que evoca o arcaico, e a influência ocidental (Le Corbusier, Louis Kahn) filtrada por uma sensibilidade oriental (o Ma, o vazio). Ao propormos a transposição hipotética dessa linguagem para o polígono das secas brasileiro, não estamos sugerindo uma colonização estética, mas um encontro de silêncios.         De um lado, temos o silêncio introspectivo do Zen-budismo, que busca no vazio a plenitude; do outro, o silêncio vasto, opressivo e resiliente do Sertão, descrito por Euclides da Cunha em Os Sertões não como um vazio de ausência, mas como...

O Alento e os Ossos

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    Vertigens Inadiável é o ímpeto, febre que não finda, Nesta busca voraz, de anseio e de agonia, Qual mística em delírio, que na alma ainda Lateja pelo abraço em santa heresia.   Sob o escombro das almas, onde o nada vinga, Fulge a rosa imortal de uma herança tardia: O sonho ancestral que no peito respinga, Frente ao abismo mudo da vã travessia.   Toda busca quando urgente, se faz efêmera, Pois o ser se consome em seu ápice ardente, Extraindo o cristal da matéria mais áspera.   E corremos no encalço do Cronos infante, Carrasco que nos foge, senhor negligente, Que nos cansa o espírito em lida constante.   Nesta marcha fustigante ao afeto prometido, Que em cansaço negamos após o degredo, Resta o sopro final de um âmago ferido.   Pois nas vísceras últimas, onde a vida é estranha, Talvez nos acolha, sem véu ou segredo, A Irmã me trevas plena que habita a montanha. Do livro de poemas: “Sinfonia para cães...

Ontologia da Vacuidade

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         Fenomenologia da Personalização: Uma Análise Crítica de "A Era do Vazio" de Gilles Lipovetsky I. Introdução: O Vazio como Categoria Sociológica      A obra L'Ère du vide: essais sur l'individualisme contemporain, publicada originalmente em 1983 por Gilles Lipovetsky, estabelece-se como um divisor de águas na hermenêutica da pós-modernidade. A relevância do autor, consolidada por sua participação em fóruns de alto prestígio intelectual como o Fronteiras do Pensamento, transcende a mera análise conjuntural para alcançar o estatuto de uma ontologia do presente. O impacto persistente desta obra reside em sua capacidade de circunscrever e sistematizar o "vazio" não como uma ausência niilista clássica, mas como uma categoria central da experiência humana contemporânea. Este vazio existencial é o sintoma de uma subjetividade que, ao se desvincular de metarrelatos e marcos transcendentais, vê-se enredada em uma carência de sent...