Calvário
O estrépito metálico ressoou com uma crueza ensurdecedora, o ruído arrebentando os espaços vazios e ricocheteando pelas paredes do quarto como um veredito adiado. A câmara, todavia, jazia vazia. O som do percutor colidindo contra o aço inativo, embora representasse a manutenção biológica da vida, trazia consigo uma ressonância perturbadora, quase profana. Momentos antes de acionar o gatilho, eu me sentia revestido por uma invulnerabilidade divina; agora, porém, com o cão do revólver martelando o vácuo do tambor, a fachada ruiu. Minhas mãos, outrora firmes, eram agora presas de um tremor incontrolável, banhadas por um suor gélido que parecia brotar das fendas da própria alma. Ela me observava, a ansiedade pulsando sob as íris de um matiz verde-acinzentado, profundas como um oceano em tempestade. Esforcei-me para esboçar um sorriso, mas o resultado foi uma careta pálida e pusilânime. Entr...