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Mostrando postagens de dezembro, 2025

CRESCIMENTO ECONÔMICO E HERANÇA ESCRAVOCRATA

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  CRESCIMENTO ECONÔMICO E HERANÇA ESCRAVOCRATA: A DISTINÇÃO SIMBÓLICA NA INDÚSTRIA TÊXTIL DE SANTA CRUZ DO CAPIBARIBE   Resumo   Este artigo analisa a correlação entre o vertiginoso crescimento econômico do polo têxtil de Santa Cruz do Capibaribe-PE e a manutenção de estruturas simbólicas herdadas do período escravocrata brasileiro. Através de uma revisão bibliográfica fundamentada na sociologia crítica de Jessé Souza e Florestan Fernandes, e na teoria da distinção de Pierre Bourdieu, investiga-se como a precarização do trabalho nas "facções" e a autoexploração operária perpetuam uma hierarquia social. O estudo demonstra que o discurso do empreendedorismo local muitas vezes mascara a continuidade da desvalorização do trabalho manual, característica do habitus escravista, servindo como mecanismo de distinção para as novas elites locais.   Palavras-chave: Santa Cruz do Capibaribe. Indústria Têxtil. Herança Escravocrata. Distinção Social. Precarização do Tr...

A grande mão

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                  Não se tratava, e que isto fique claro desde o princípio para que não se cometam erros de julgamento sobre o carácter de quem narra, de uma curiosidade vulgar, daquelas que fazem abrandar o passo diante de um acidente de viação para vislumbrar o brilho fugaz do sangue no asfalto, mas sim de uma necessidade quase científica, se é que a ciência pode debruçar-se sobre os abismos da alma sem perder, no processo, a sua própria razão, de compreender o mecanismo daquela engrenagem a que chamavam, com uma simplicidade aterradora, “A Grande Mão”. O nome, desprovido de subtilezas metafóricas, sugeria tanto o amparo que recolhe quanto a força que esmaga, mas a investigação a que me propus, arrastando-me pelos subterrâneos digitais e físicos de uma cidade que há muito deixara de ser um lar para se tornar um cenário, revelou que a mão não estava ali para salvar ninguém, estava ali para aplaudir. O objetivo da organizaç...

O Silêncio do Concreto na Caatinga

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         Uma Leitura Fenomenológica de Tadao Ando no Sertão Nordestino   "A arquitetura deve permanecer em silêncio   e deixar que a luz e o vento falem."   Tadao Ando     O Encontro de Dois Silêncios         A arquitetura de Tadao Ando é, essencialmente, uma arquitetura de paradoxos resolvidos: a massa pesada que flutua, o modernismo técnico que evoca o arcaico, e a influência ocidental (Le Corbusier, Louis Kahn) filtrada por uma sensibilidade oriental (o Ma, o vazio). Ao propormos a transposição hipotética dessa linguagem para o polígono das secas brasileiro, não estamos sugerindo uma colonização estética, mas um encontro de silêncios.         De um lado, temos o silêncio introspectivo do Zen-budismo, que busca no vazio a plenitude; do outro, o silêncio vasto, opressivo e resiliente do Sertão, descrito por Euclides da Cunha em Os Sertões não como um vazio de ausência, mas como...

O Alento e os Ossos

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    Vertigens Inadiável é o ímpeto, febre que não finda, Nesta busca voraz, de anseio e de agonia, Qual mística em delírio, que na alma ainda Lateja pelo abraço em santa heresia.   Sob o escombro das almas, onde o nada vinga, Fulge a rosa imortal de uma herança tardia: O sonho ancestral que no peito respinga, Frente ao abismo mudo da vã travessia.   Toda busca quando urgente, se faz efêmera, Pois o ser se consome em seu ápice ardente, Extraindo o cristal da matéria mais áspera.   E corremos no encalço do Cronos infante, Carrasco que nos foge, senhor negligente, Que nos cansa o espírito em lida constante.   Nesta marcha fustigante ao afeto prometido, Que em cansaço negamos após o degredo, Resta o sopro final de um âmago ferido.   Pois nas vísceras últimas, onde a vida é estranha, Talvez nos acolha, sem véu ou segredo, A Irmã me trevas plena que habita a montanha. Do livro de poemas: “Sinfonia para cães...

Ontologia da Vacuidade

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         Fenomenologia da Personalização: Uma Análise Crítica de "A Era do Vazio" de Gilles Lipovetsky I. Introdução: O Vazio como Categoria Sociológica      A obra L'Ère du vide: essais sur l'individualisme contemporain, publicada originalmente em 1983 por Gilles Lipovetsky, estabelece-se como um divisor de águas na hermenêutica da pós-modernidade. A relevância do autor, consolidada por sua participação em fóruns de alto prestígio intelectual como o Fronteiras do Pensamento, transcende a mera análise conjuntural para alcançar o estatuto de uma ontologia do presente. O impacto persistente desta obra reside em sua capacidade de circunscrever e sistematizar o "vazio" não como uma ausência niilista clássica, mas como uma categoria central da experiência humana contemporânea. Este vazio existencial é o sintoma de uma subjetividade que, ao se desvincular de metarrelatos e marcos transcendentais, vê-se enredada em uma carência de sent...

Agregados e a perpetuação simbólica das estruturas escravocratas

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       Originalmente concebido em 1964 como tese de doutorado defendida na USP, “O homem livre na ordem escravocrata”, de Maria Sylvia Carvalho Franco, percorreu um itinerário editorial marcado por sucessivas reimpressões até submergir em um hiato de disponibilidade nas livrarias. Durante esse período, sua sobrevivência intelectual garantiu-se pelo recurso incontornável às fotocópias, dispositivos que alimentaram gerações em cursos de História e Ciências Sociais, nos quais a obra ascendeu ao estatuto de referência paradigmática.       A investigação inaugura-se com uma interrogação ontológica fundamental para a compreensão da arquitetura social brasileira: qual o sentido imanente do trabalho escravo na produção colonial moderna? Distanciando-se das analogias fáceis, Maria Sylvia identifica uma clivagem semântica entre a escravidão clássica e a moderna que elucida os processos históricos divergentes das sociedades que as sediaram. A autora i...