quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Conserto de Egberto Gismonti no Recife (III parte)



Que o conhecimento humano ainda não concluiu a resposta sobre a pergunta: ‘Quando e onde o perdão acontece,’ é de fato a mais elementar das conclusões. O estudioso da alma dirá, em tom reticente, ‘não existir uma resposta’; o estudioso da pisque dirá, em tom reticente, ‘não existe uma resposta’; o senso comum dirá, em tom reticente, ‘não existe uma resposta’. Mas uma fenómeno podemos concluir em suas diversas certezas; quando este acontecer, sentirá seu corpo em sua plena licitude. Sentirá o dia e a noite terminando. Sentirá uma vida terminado, um coração alheio, invasor, se desfazendo em fragmentos, a correm por nossas veias como um liquido quente e atenuante. Sentirá uma remota lagrima, que escapa de seus olhos, coagulando como o pus de uma ferida que as células decidiram que era chegado o momento de trabalharem e de velarem aquela fenda que teimava em permanecer aberta. Em meio à multidão que não conseguiram um lugar estratégico para apreciar melhor o concerto que guia se repertório, com a mais absoluta fluidez, mas que não se queixavam por este inesperado pormenor, sentia que a divisão rítmica, naquele compassar de notas se tornou tão alto que já não escutava mais aquela estranha e silenciosa agitação cardíaca. Talvez os movimentos hipnóticos de Egberto na função de regente, que a cada movimento brusco me acordava dos pensamentos, me colocava naquele estranho estado da calma, que a aquela mansidão a muito distante das tempestades das magoas agora me causava estranheza. É com o açoite de um “ponto final” que se tem início as ondulações das dúvidas. Uma senhora que estava ao meu lado me perguntava sobre aquela estranha, desconcertante e bela música que estava a ouvir pela primeira vez. Sorria apenas. E se sorria era porque estava gostando, quando disfarçava o sorriso, simplesmente por respeito desnecessário de adulto, e ela esquecias que todos ali eram crianças. Sorrir para senhora em reciprocidade, mas não pela conveniência dos intuitos recíprocos, e sim, por saber que por uns poucos momentos sentindo que não mais existiam na alma, nem lágrimas nem sangue. E se terei mais a aprender sobre o incalculável momento do perdão, isso só em outro concerto saberei.
                                                         
                                                                   Edson Moura, em 11/11/2012 

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