120 decibéis (dB)

 

 



       Não sei ao certo se sou eu quem acorda antes do silêncio ou se é o silêncio quem desperta um instante antes de mim, para que eu possa, durante alguns segundos apenas, continuar acreditando que ainda pertenço ao mundo, e a verdade é que existe uma diferença quase imperceptível entre o momento em que abro os olhos e aquele outro em que a cidade se lembra de existir, uma diferença tão diminuta que talvez nenhum outro homem fosse capaz de percebê-la, mas que para mim representa o único intervalo suportável da realidade, um breve território onde a existência ainda não se converteu em agressão, onde o ar parece conservar uma pureza antiga, anterior às máquinas, anterior às vozes, anterior a essa estranha necessidade humana de preencher o vazio com sons, como se o silêncio fosse doença contagiosa e o barulho uma espécie de remédio inventado apenas para que ninguém tivesse de escutar a própria consciência. Permaneço imóvel durante esse curto lapso, deitado sob o teto branco do apartamento, respirando com a cautela de quem teme produzir ruído até dentro do próprio corpo, que também o sangue possui uma sonoridade secreta e há dias em que ameaça denunciar-se através de pulsações que ressoam atrás dos olhos, nas têmporas, no fundo da garganta, dias em que tenho a impressão absurda de que o coração esqueceu a função de bombear a vida para se dedicar inteiramente à tarefa de fabricar pequenos impactos contra as minhas costelas. Jamais o faz de uma só vez, que o sofrimento nunca teve a delicadeza de se apresentar inteiro, prefere aproximar-se devagar, como uma infiltração que primeiro escurece um canto da parede para depois tomar conta da casa toda, e assim escuto o elevador deslizando pelos cabos metálicos muitos andares acima de mim, um clique discreto anuncia a abertura de uma porta, logo depois o som seco de um trinco, um par de chinelos atravessa o corredor, alguém deixa cair uma colher sobre a pia, um cano antigo desperta com um estalo parecido ao de um osso deslocando-se dentro de um corpo envelhecido, a descarga de um apartamento distante atravessa paredes, pisos, colunas de concreto, e chega até mim já transformada numa corrente subterrânea que corre por baixo do meu crânio, e ainda nem amanheceu de todo e o edifício inteiro já se converteu numa criatura enorme feita de milhares de pequenos ruídos que respiram, rangem, vibram, se dilatam e se contraem, como se cada apartamento fosse um órgão diferente de um animal cuja vida inteira dependesse do movimento incessante dos seus habitantes. As pessoas julgam que só ouvem aquilo para onde dirigem a atenção, nunca compreenderam que a atenção também pode ser uma condenação, e eu não escolho ouvir, sou escolhido pelos sons, eles encontram-me mesmo quando escondo o rosto entre as mãos, mesmo quando fecho as janelas, mesmo quando cubro as orelhas com travesseiros grossos ou fico sentado horas a fio sem mover um músculo, à espera de que o mundo se esqueça de mim, que o som tem uma inteligência perversa, descobre frestas invisíveis, contorna obstáculos, desce pelos canos, vibra pelas vigas, caminha pelos fios elétricos, penetra a matéria como se toda a substância tivesse sido criada apenas para o transportar até aos meus ouvidos, e há dias em que imagino o universo inteiro como uma imensa caixa de ressonância construída para amplificar a dor de uns poucos condenados a ouvir aquilo que os demais aprenderam a ignorar.

          Os médicos deram um nome àquilo que me acompanha desde a adolescência, misofonia, e a palavra tem uma elegância clínica que me incomoda profundamente, porque reduz uma catástrofe íntima a uma combinação ordenada de sílabas, como se fosse possível domesticar o sofrimento apenas classificando-o, e sempre que alguém a pronuncia diante de mim sinto a estranha impressão de que a minha dor foi cuidadosamente arquivada, catalogada, numerada, e devolvida ao mundo com aparência de ciência. Nenhuma palavra explica o que acontece quando uma porta bate no apartamento vizinho e o corpo inteiro reage como se uma pedra o tivesse atravessado, nenhuma definição regista o modo como o choro distante de uma criança se expande até ocupar todo o pensamento, nenhum diagnóstico traduz a violência de uma mota acelerando na rua, porque o som não fica do lado de fora, invade, instala-se, reproduz-se sem descanso na memória auditiva, continua a existir muito depois de ter cessado, como cicatriz que insiste em doer ainda que a ferida já não esteja aberta. Foi por isso que transformei este apartamento numa espécie de segunda pele, as paredes desapareceram sob camadas sucessivas de isolamento acústico, cortiça, espuma de alta densidade, painéis absorventes, tecidos espessos, tapetes, estantes cheias de livros, todo o material capaz de enfraquecer a violência do mundo encontrou lugar entre estes cómodos estreitos, e há quem imagine que vivo cercado de objetos sem compreender que na verdade vivo cercado de barreiras, que cada livro encostado à parede representa menos um desejo de leitura do que uma tentativa desesperada de conter uma onda invisível, que cada cortina pesada funciona como muralha erguida contra um inimigo que ninguém consegue ver, sem que nenhuma dessas defesas ofereça alguma vez vitória definitiva, apenas prolongam a batalha. Talvez por isso tenha aprendido a amar os livros antes mesmo de compreender as suas histórias, que eles não fazem exigências sonoras, permanecem imóveis, pacientes, à espera apenas de que os olhos lhes percorram as páginas, nunca interrompem, nunca levantam a voz, nunca competem entre si, um livro conhece a disciplina do silêncio da mesma forma que uma árvore conhece a disciplina da sombra, e entre estas estantes encontrei autores mortos há séculos que me fizeram companhia com uma delicadeza que os vivos jamais conseguiram, descobri que certas frases têm o poder misterioso de criar uma espécie de silêncio interior, como se algumas palavras não tivessem sido escritas para serem ouvidas mas para amortecer o ruído do próprio pensamento, e há tardes em que passo horas sem virar uma página, seguro o livro aberto sobre o colo e fico a contemplar uma única linha, não porque deixe de a compreender, mas porque ela cria à minha volta um espaço onde nenhum som consegue entrar por inteiro.

      Existe, porém, um mistério que nunca consegui explicar, que enquanto o mundo parece feito de lâminas acústicas destinadas a dilacerar os sentidos, há uma forma de som diante da qual o sofrimento inexplicavelmente recua, e não sei porquê, nunca encontrei médico capaz de dar resposta que me satisfizesse, mas quando a música clássica começa a preencher o apartamento algo em mim deixa de lutar, a doença não desaparece, tampouco se desfaz a hipervigilância que me acompanha desde sempre, mas as notas surgem como se obedecessem a uma ordem invisível que nenhuma buzina, nenhuma conversa, nenhum motor conheceu jamais, não me atravessam como projéteis, aproximam-se como quem pede licença para existir, talvez porque a música não pretenda conquistar espaço, talvez porque aceite conviver com o silêncio em vez de o destruir, e enquanto todos os outros sons parecem disputar violentamente a posse do ar, cada acorde apenas ocupa o lugar que lhe pertence, sem expulsar o anterior, sem esmagar o seguinte, como se existisse entre as notas uma ética secreta, uma forma de convivência que os homens perderam muito antes de terem inventado as cidades. Houve um tempo em que imaginei que o sofrimento pudesse ser educado, que a juventude fabrica ilusões com a mesma facilidade com que o inverno fabrica sombras mais compridas, e durante muitos anos acreditei que bastaria expor-me aos ruídos com a disciplina de um asceta para que, pouco a pouco, o corpo desistisse daquela resistência absurda. Os homens repetiam frases que decerto julgavam reconfortantes, diziam que tudo era questão de hábito, que o cérebro acabaria por aprender, que eu precisava de sair mais, de conhecer gente, de frequentar lugares movimentados, de enfrentar aquilo que me assustava, como se o medo fosse mesmo o nome do que me acontecia, sem nunca terem sabido distinguir o medo da dor, que o medo pode vencer-se porque nasce da expectativa, ao passo que a dor se instala precisamente quando a expectativa já fracassou, e eu não temia o ruído da cidade, conhecia-o intimamente, conhecia-o antes mesmo de atravessar a soleira do prédio, como um condenado conhece a direção da lâmina antes de ela lhe encontrar o pescoço, sem surpresa nenhuma, apenas com a certeza de que cada passo em direção ao exterior corresponderia a uma sucessão de pequenas mutilações invisíveis, incapazes de deixar sangue sobre a pele mas suficientemente profundas para transformar uma caminhada de poucos minutos numa travessia que consumia todas as minhas forças.

         Lembro-me da última vez em que aceitei o convite de um colega de trabalho para tomar café depois do expediente, e é curioso que a memória preserve com nitidez não o rosto dele, não as palavras que disse, nem sequer o aroma do café acabado de fazer, mas sim o estalar incessante das chávenas encontrando os pires, o atrito metálico das colheres contra a porcelana, o vapor da máquina de expresso escapando sob pressão com um sibilar de criatura ferida, o ranger das cadeiras arrastadas sem cuidado, os risos sobrepondo-se uns aos outros até se confundirem numa massa informe de vibrações, enquanto os talheres batiam nos pratos, portas se abriam e fechavam, telemóveis tocavam melodias estridentes, e uma criança, sentada duas mesas adiante, descobria a insondável alegria de bater repetidamente uma colher contra um copo de vidro. Olhei para todos aqueles rostos e vi neles uma tranquilidade que me pareceu quase sobrenatural, conversavam, sorriam, gesticulavam, interrompiam-se sem que nenhum daqueles sons lhes atravessasse o corpo com a violência com que atravessava o meu, era como observar uma espécie diferente de humanidade, dotada de um sistema nervoso cuja serenidade me parecia tão extraordinária quanto a capacidade de respirar debaixo de água, e enquanto eles discutiam banalidades eu gastava todas as energias em impedir que as mãos me tremessem sobre a mesa, em controlar a respiração, em comprimir discretamente as unhas contra a palma para deslocar a dor para um lugar que ainda pudesse governar, e quando por fim me levantei alegando uma indisposição qualquer, percebi que ninguém suspeitava da dimensão da batalha travada dentro de mim, que a doença tem essa crueldade refinada, deixar que o sofrimento permaneça invisível justamente quando se torna insuportável.

          Talvez por isso tenha deixado o emprego poucas semanas depois, inventei justificações educadas, agradeci a oportunidade, desejei prosperidade aos colegas, saí a carregar uma caixa de papelão onde cabiam alguns livros, uma fotografia antiga dos meus pais e uma pequena planta que morreu poucos dias depois de chegar ao apartamento, e durante muito tempo culpei-me por aquela morte, como se a planta tivesse absorvido qualquer coisa da atmosfera destas paredes, até compreender que certas formas de vida precisam do vento, do excesso de luz, da chuva imprevisível, da desordem do mundo, enquanto outras só sobrevivem quando conseguem reduzir a existência a um conjunto rigorosamente calculado de movimentos, e talvez eu próprio tenha deixado de pertencer ao reino dos homens para passar a integrar alguma categoria mais discreta de organismos, semelhantes aos fungos que prosperam na penumbra ou às criaturas marinhas que jamais suportariam a superfície iluminada, sem que nisso haja degradação nenhuma, apenas incompatibilidade, que os homens gostam de crer que toda a diferença se corrige com empenho suficiente, porque lhes tranquiliza imaginar um universo governado pela vontade, mas há destinos que não se deixam persuadir. O apartamento, que a princípio me pareceu esconderijo provisório, transformou-se devagar na única geografia onde o corpo reconhecia alguma possibilidade de repouso, e aprendi a distinguir a hora das ruas pela intensidade difusa das vibrações que ainda conseguiam infiltrar-se pelas paredes, às sete da manhã os motores produziam uma espécie de corrente contínua, grave e espessa, como um rio subterrâneo a escorrer sob o cimento, ao meio-dia surgiam buzinas impacientes, camiões a descarregar mercadorias, vendedores ambulantes a anunciar produtos cuja natureza eu jamais descobriria, porque as palavras me chegavam reduzidas a fragmentos indecifráveis, ao fim da tarde, quando as escolas soltavam as crianças, o ar ganhava uma textura irregular, pontilhada de gargalhadas, corridas, bolas a saltar nas calçadas, cães a responder uns aos outros de quarteirão em quarteirão, era como se a cidade respirasse por meio do som, e cada mudança de hora alterava o ritmo dessa respiração colossal, e eu escutava-a sem a ver, como um prisioneiro que aprende a imaginar o oceano só pela força das marés batendo contra rochedos invisíveis. Foi então que compreendi uma ideia que desde então me acompanha e que talvez pareça absurda aos outros, que os homens julgam morar em cidades feitas de cimento, vidro e aço, quando na verdade habitam construções erguidas de ruído, que o edifício onde vivo não se sustenta só sobre pilares, sustenta-se igualmente sobre a sucessão interminável de vozes, motores, campainhas, televisores, canos, elevadores, ferramentas, aparelhos domésticos e passos que nunca cessam por completo, e se por um capricho impossível todos os sons desaparecessem de uma vez, suspeito que os habitantes sentiriam um terror muito maior do que qualquer estrondo, descobririam que o barulho não se limita a acompanhar-lhes a vida, protege-os daquilo que verdadeiramente temem encontrar quando o mundo finalmente se cala, que o silêncio não revela apenas a ausência de som, revela a presença de nós mesmos, e talvez poucas coisas sejam tão difíceis de suportar como uma consciência sem distrações.

           Os livros começaram a substituir as janelas sem que eu percebesse o instante exato dessa transformação, que toda a mudança verdadeiramente profunda tem a delicadeza das raízes, cresce anos a fio debaixo da superfície até que um dia descobrimos que a paisagem inteira se alterou enquanto os olhos estavam voltados para outro lado, e não saberia dizer qual foi o último romance que li apenas pelo prazer de seguir uma história, que desde muito cedo passei a procurar nas páginas algo que já não pertencia propriamente à literatura, mas à possibilidade de existir sem ser continuamente atingido pelo mundo, havia dias em que um único parágrafo bastava para sustentar uma tarde inteira, não pela dificuldade de o compreender, mas porque cada frase parecia abrir um compartimento silencioso dentro da consciência, um lugar onde o pensamento podia repousar antes que algum ruído voltasse a desalojá-lo. Descobri que a leitura não exige apenas atenção, exige também uma espécie de humildade diante do tempo, que os homens costumam ler como caminham pelas cidades, apressados, desejosos de chegar ao fim, convencidos de que o destino vale mais do que o percurso, e eu jamais me pude permitir semelhante pressa, que a doença me ensinou uma lentidão que nenhuma filosofia conseguiria transmitir, e passei a compreender que há frases cujo verdadeiro significado só aparece depois de longos minutos de convivência, como certas pessoas que permanecem fechadas até encontrarem um silêncio suficientemente amplo onde depositar aquilo que realmente são. Às vezes imagino que o mundo tenha confundido velocidade com plenitude, que as ruas competem consigo mesmas, os automóveis disputam uns segundos de vantagem para os entregar logo a seguir ao próximo semáforo, as pessoas falam antes de acabar de pensar, interrompem-se com uma ansiedade que denuncia não o desejo de comunicar mas o medo de serem engolidas pelo intervalo entre uma palavra e outra, e talvez seja justamente esse intervalo que me fascina, que sempre acreditei que aquilo que sustenta uma conversa não são as frases pronunciadas mas os vazios que as separam, que a música sabe disso, a literatura também, só a cidade parece ignorá-lo, receosa de qualquer espaço onde o silêncio possa crescer, como se cada pausa deixasse voltar à superfície alguma verdade antiga, e o ruído tornou-se um modo de esquecer, não produz apenas sons, produz distrações, e enquanto tudo vibra ninguém precisa de escutar a lenta erosão que se dá dentro de si. Foi essa ideia que começou a perseguir-me numa tarde de inverno em que fiquei quase duas horas a ver um feixe de luz deslizar pela estante até tocar a lombada escurecida de um volume antigo, sem que nada de particular acontecesse e ainda assim com a impressão de assistir a um acontecimento grandioso, a claridade movia-se com uma lentidão incompatível com o ritmo das cidades, desenhando sobre os livros uma geografia que só existia naquele instante e que desapareceria poucos minutos depois, e pensei que o universo preferiria talvez sempre essa velocidade discreta, a velocidade das nuvens, da poeira que se acumula sobre a madeira, do musgo a conquistar uma pedra abandonada, das rugas que se vão formando devagar em volta dos olhos, e só os homens decidiram acelerar todas as coisas, como se a morte se vencesse aumentando a velocidade da caminhada, ignorando que correr em direção ao horizonte continua a ser uma forma de permanecer dentro do mesmo mundo. Quando essas reflexões se tornam pesadas de mais, aproximo-me do aparelho de som com um cuidado quase litúrgico, nunca aperto o botão de imediato, primeiro fico uns segundos diante dele, como quem espera uma autorização invisível, depois escolho um disco, tiro-o da capa devagar, observo o reflexo opaco da superfície, e só então deixo que a agulha encontre o primeiro sulco, e há um instante de absoluto recolhimento entre o leve atrito inicial e a primeira nota, tão delicado que às vezes receio respirar para não o perturbar, e a seguir acontece qualquer coisa a que não encontro outra expressão, que a música não elimina a dor, modifica é a maneira como a dor ocupa o corpo, os sons deixam de se comportar como projéteis dispersos e passam a organizar-se segundo uma ordem que não exige defesa, cada instrumento parece reconhecer os limites do outro, nenhuma nota procura dominar a seguinte, nenhuma frequência invade violentamente o espaço da anterior, é como assistir à convivência de seres que descobriram, muito antes dos homens, que a harmonia não nasce da igualdade mas do respeito às diferenças, e talvez seja por isso que nunca sofri diante destas composições, que elas não me obrigam a suportar o caos, convidam-me antes a atravessá-lo.

          Em certos movimentos lentos das cordas tenho a estranha impressão de que o silêncio não desapareceu, apenas mudou de forma, continua presente entre os acordes, sustentando-os discretamente, impedindo que desabem uns sobre os outros, e passei anos a perguntar aos médicos porque acontecia isto, recebi hipóteses, gráficos, nomes de regiões cerebrais, explicações sobre processamento auditivo, neurotransmissores, filtros sensoriais, agradeci a todas elas, ainda que nenhuma me parecesse capaz de alcançar aquilo que sinto, que a ciência explica admiravelmente os mecanismos das coisas, mas o sofrimento quase sempre começa onde as explicações terminam, e talvez não haja resposta porque a pergunta esteja mal formulada, talvez eu não devesse perguntar porque a música não me fere, mas porque os outros sons se esqueceram de que também podiam ser belos. À medida que estas notas percorrem o apartamento, sinto que as paredes deixam de cumprir apenas a função de isolar o exterior, tornam-se caixas de ressonância de uma memória que desconheço possuir, não recordo factos precisos, recordo uma sensação impossível de situar no tempo, como se antes mesmo de nascer eu já tivesse conhecido um mundo onde nenhum ruído se desperdiçava, onde cada vibração encontrava naturalmente o seu lugar, e talvez seja apenas imaginação, talvez toda a nostalgia não seja senão o desejo de regressar a um lugar que nunca existiu, e ainda assim continuo a escutar até que a última nota se dissolva devagar no ar, e quando o silêncio volta percebo que já não é exatamente o mesmo de antes, traz consigo uma claridade interior que dura poucos minutos, suficiente apenas para eu voltar a acreditar, ainda que provisoriamente, que viver talvez não seja suportar o barulho do mundo mas continuar a procurar, entre milhões de sons hostis, aquele único capaz de nos reconciliar com a existência. Quando procuro descobrir em que momento comecei a compreender que havia uma fissura entre mim e o resto das pessoas, a memória não me devolve um acontecimento preciso, mas uma sucessão de pequenas cenas cuja importância só muito depois se revelou, como essas estrelas cuja luz demora tantos anos a chegar à Terra que, quando finalmente as vemos, já talvez tenham deixado de existir. A infância costuma descrever-se como território de inocência, ainda que eu desconfie de que seja apenas o período em que ainda ignoramos o nome das nossas condenações, e recordo a sala de aula aquecida pelo sol da tarde, as carteiras de madeira riscadas por gerações de mãos inquietas, o giz a partir-se entre os dedos da professora, a poeira branca suspensa diante da janela como se o ar tivesse ganho consistência, e recordo sobretudo o relógio pendurado acima do quadro, não porque me interessassem as horas, mas porque o mecanismo interno produzia um tique-taque tão discreto que nenhum dos meus colegas parecia notá-lo, e para mim aquele som tinha a obstinação de uma gota a cair sem parar sobre uma pedra, não era alto, nunca foi questão de intensidade, era uma persistência impossível de afastar, e enquanto a professora escrevia verbos e equações, enquanto as crianças conversavam baixinho ou escondiam bilhetes umas das outras, eu ficava preso dentro daquele compasso mecânico, cada segundo a transformar-se num impacto diminuto que encontrava o seguinte antes mesmo de desaparecer, e houve dias em que saí da escola incapaz de lembrar uma só palavra da aula, mas ainda a ouvir o relógio dentro da cabeça, como se alguém o tivesse instalado atrás dos meus olhos. Nessa altura acreditava que todos sentiam o mesmo e apenas eram mais corajosos do que eu, e essa hipótese sustentou-me a infância durante anos, via os colegas a correr pelo pátio no recreio, a gritar, a empurrar-se, a rir com a espontaneidade de quem ocupa naturalmente o próprio corpo, e imaginava que suportavam heroicamente uma dor igual à minha, havia nessa fantasia qualquer coisa de admirável, eu achava-os extraordinários, dotados de uma resistência que me faltava, até que um dia perguntei casualmente a um deles se o barulho do ventilador da sala também lhe dava dor de cabeça, e ele olhou para mim sem entender a pergunta, pensei que não me tivesse ouvido, repeti-a, ele encostou o ouvido à grade metálica do aparelho, ouviu uns segundos e respondeu, com a simplicidade das crianças, que nunca tinha reparado naquele som, nunca tinha reparado, e passei semanas a tentar perceber como é que alguém podia conviver meses a fio com uma presença sonora contínua sem sequer a notar, a resposta era tão absurda para mim como seria para outro afirmar que conseguia esquecer a luz do sol ou a própria respiração, e foi nesse instante que surgiu, ainda sem palavras, a suspeita de que eu habitava uma realidade ligeiramente desencontrada da realidade dos demais.

      Os meus pais demoraram a perceber, não por indiferença, mas porque o sofrimento invisível costuma esconder-se atrás de comportamentos que parecem apenas excentricidades, a minha mãe achava que eu era demasiado sensível, o meu pai achava que me faltava firmeza, ambos tentavam ajudar da única maneira que conheciam, insistindo para que eu enfrentasse aquilo que me incomodava, levavam-me a festas de anos, a reuniões de família, a parques cheios de crianças, convencidos de que a convivência resolveria tudo, e eu aceitava em silêncio, não por obediência mas porque ainda tinha esperança de que estivessem certos, talvez existisse mesmo um ponto a partir do qual o corpo desistisse de sofrer, talvez houvesse um limiar invisível e bastasse atravessá-lo, mas cada tentativa acabava sempre da mesma maneira, as vozes começavam a sobrepor-se até deixarem de ter sentido, os pratos batiam na mesa, os balões rebentavam, as portas batiam, os talheres tilintavam, os cães ladravam ao longe, alguém ligava a liquidificadora na cozinha, outra pessoa aumentava o som da televisão para acompanhar um jogo, e eu sentia a estranha impressão de que o mundo inteiro tinha decidido comprimir-se dentro da minha cabeça, e não era só desconforto, era uma dissolução gradual da capacidade de pensar, as palavras perdiam o contorno, os rostos deixavam de ser reconhecíveis, restava apenas uma massa sonora a crescer à minha volta como a água que devagar invade um quarto fechado. Foi numa dessas festas que descobri um hábito que me acompanha até hoje, que enquanto os adultos conversavam e as crianças corriam no quintal, encontrei uma pequena biblioteca esquecida no corredor da casa, não era grande, talvez cinquenta ou sessenta livros sobre prateleiras de madeira escurecida, entrei só para fugir do tumulto, fiquei ali quase uma hora, e nunca esquecerei a sensação, não era exatamente silêncio, porque ainda chegavam ecos distantes da festa, mas os livros pareciam absorver parte daquele excesso, como se cada volume retirasse do ar uma parcela da violência que havia lá fora, passei os dedos pelas lombadas sem escolher nenhum título, bastava estar cercado por eles, havia naquele cómodo uma serenidade que não dependia da ausência absoluta de sons mas da presença de algo que os reorganizava, e talvez tenha sido ali, muito antes de o formular como pensamento, que compreendi que certos lugares protegem não pelas paredes que têm mas pela forma como transformam a nossa percepção do mundo, e desde então toda a biblioteca me pareceu menos um depósito de livros do que um abrigo construído devagar por milhares de páginas dispostas umas ao lado das outras, como se cada frase escrita ao longo dos séculos acrescentasse uma nova camada de silêncio à arquitetura invisível desses espaços. Hoje pergunto a mim mesmo se a minha vida teria seguido outro caminho se alguém, naquela infância, tivesse conseguido explicar-me que eu não estava partido, apenas ouvia de maneira diferente, mas a pergunta fica sem resposta, que o tempo tem essa crueldade singular, deixar-nos compreender o passado só quando já não há hipótese nenhuma de o mudar, resta-me observá-lo de longe, como quem contempla uma casa onde viveu muitos anos e percebe, tarde demais, que todas as janelas estavam voltadas para uma paisagem que já ninguém mais via.



Edson Moura em 16 de Janeiro de 2014

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