120 decibéis (dB)
Não
sei ao certo se sou eu quem acorda antes do silêncio ou se é o silêncio quem
desperta um instante antes de mim, para que eu possa, durante alguns segundos
apenas, continuar acreditando que ainda pertenço ao mundo, e a verdade é que
existe uma diferença quase imperceptível entre o momento em que abro os olhos e
aquele outro em que a cidade se lembra de existir, uma diferença tão diminuta
que talvez nenhum outro homem fosse capaz de percebê-la, mas que para mim
representa o único intervalo suportável da realidade, um breve território onde
a existência ainda não se converteu em agressão, onde o ar parece conservar uma
pureza antiga, anterior às máquinas, anterior às vozes, anterior a essa
estranha necessidade humana de preencher o vazio com sons, como se o silêncio
fosse doença contagiosa e o barulho uma espécie de remédio inventado apenas
para que ninguém tivesse de escutar a própria consciência. Permaneço imóvel
durante esse curto lapso, deitado sob o teto branco do apartamento, respirando
com a cautela de quem teme produzir ruído até dentro do próprio corpo, que
também o sangue possui uma sonoridade secreta e há dias em que ameaça
denunciar-se através de pulsações que ressoam atrás dos olhos, nas têmporas, no
fundo da garganta, dias em que tenho a impressão absurda de que o coração
esqueceu a função de bombear a vida para se dedicar inteiramente à tarefa de
fabricar pequenos impactos contra as minhas costelas. Jamais o faz de uma só
vez, que o sofrimento nunca teve a delicadeza de se apresentar inteiro, prefere
aproximar-se devagar, como uma infiltração que primeiro escurece um canto da
parede para depois tomar conta da casa toda, e assim escuto o elevador deslizando
pelos cabos metálicos muitos andares acima de mim, um clique discreto anuncia a
abertura de uma porta, logo depois o som seco de um trinco, um par de chinelos
atravessa o corredor, alguém deixa cair uma colher sobre a pia, um cano antigo
desperta com um estalo parecido ao de um osso deslocando-se dentro de um corpo
envelhecido, a descarga de um apartamento distante atravessa paredes, pisos,
colunas de concreto, e chega até mim já transformada numa corrente subterrânea
que corre por baixo do meu crânio, e ainda nem amanheceu de todo e o edifício
inteiro já se converteu numa criatura enorme feita de milhares de pequenos
ruídos que respiram, rangem, vibram, se dilatam e se contraem, como se cada
apartamento fosse um órgão diferente de um animal cuja vida inteira dependesse
do movimento incessante dos seus habitantes. As pessoas julgam que só ouvem
aquilo para onde dirigem a atenção, nunca compreenderam que a atenção também
pode ser uma condenação, e eu não escolho ouvir, sou escolhido pelos sons, eles
encontram-me mesmo quando escondo o rosto entre as mãos, mesmo quando fecho as
janelas, mesmo quando cubro as orelhas com travesseiros grossos ou fico sentado
horas a fio sem mover um músculo, à espera de que o mundo se esqueça de mim,
que o som tem uma inteligência perversa, descobre frestas invisíveis, contorna
obstáculos, desce pelos canos, vibra pelas vigas, caminha pelos fios elétricos,
penetra a matéria como se toda a substância tivesse sido criada apenas para o
transportar até aos meus ouvidos, e há dias em que imagino o universo inteiro
como uma imensa caixa de ressonância construída para amplificar a dor de uns
poucos condenados a ouvir aquilo que os demais aprenderam a ignorar.
Os médicos deram um nome àquilo que
me acompanha desde a adolescência, misofonia, e a palavra tem uma elegância
clínica que me incomoda profundamente, porque reduz uma catástrofe íntima a uma
combinação ordenada de sílabas, como se fosse possível domesticar o sofrimento
apenas classificando-o, e sempre que alguém a pronuncia diante de mim sinto a
estranha impressão de que a minha dor foi cuidadosamente arquivada, catalogada,
numerada, e devolvida ao mundo com aparência de ciência. Nenhuma palavra explica
o que acontece quando uma porta bate no apartamento vizinho e o corpo inteiro
reage como se uma pedra o tivesse atravessado, nenhuma definição regista o modo
como o choro distante de uma criança se expande até ocupar todo o pensamento,
nenhum diagnóstico traduz a violência de uma mota acelerando na rua, porque o
som não fica do lado de fora, invade, instala-se, reproduz-se sem descanso na
memória auditiva, continua a existir muito depois de ter cessado, como cicatriz
que insiste em doer ainda que a ferida já não esteja aberta. Foi por isso que
transformei este apartamento numa espécie de segunda pele, as paredes
desapareceram sob camadas sucessivas de isolamento acústico, cortiça, espuma de
alta densidade, painéis absorventes, tecidos espessos, tapetes, estantes cheias
de livros, todo o material capaz de enfraquecer a violência do mundo encontrou
lugar entre estes cómodos estreitos, e há quem imagine que vivo cercado de
objetos sem compreender que na verdade vivo cercado de barreiras, que cada
livro encostado à parede representa menos um desejo de leitura do que uma
tentativa desesperada de conter uma onda invisível, que cada cortina pesada
funciona como muralha erguida contra um inimigo que ninguém consegue ver, sem
que nenhuma dessas defesas ofereça alguma vez vitória definitiva, apenas
prolongam a batalha. Talvez por isso tenha aprendido a amar os livros antes
mesmo de compreender as suas histórias, que eles não fazem exigências sonoras,
permanecem imóveis, pacientes, à espera apenas de que os olhos lhes percorram
as páginas, nunca interrompem, nunca levantam a voz, nunca competem entre si,
um livro conhece a disciplina do silêncio da mesma forma que uma árvore conhece
a disciplina da sombra, e entre estas estantes encontrei autores mortos há
séculos que me fizeram companhia com uma delicadeza que os vivos jamais
conseguiram, descobri que certas frases têm o poder misterioso de criar uma
espécie de silêncio interior, como se algumas palavras não tivessem sido
escritas para serem ouvidas mas para amortecer o ruído do próprio pensamento, e
há tardes em que passo horas sem virar uma página, seguro o livro aberto sobre
o colo e fico a contemplar uma única linha, não porque deixe de a compreender,
mas porque ela cria à minha volta um espaço onde nenhum som consegue entrar por
inteiro.
Existe, porém, um mistério que nunca
consegui explicar, que enquanto o mundo parece feito de lâminas acústicas
destinadas a dilacerar os sentidos, há uma forma de som diante da qual o
sofrimento inexplicavelmente recua, e não sei porquê, nunca encontrei médico
capaz de dar resposta que me satisfizesse, mas quando a música clássica começa
a preencher o apartamento algo em mim deixa de lutar, a doença não desaparece,
tampouco se desfaz a hipervigilância que me acompanha desde sempre, mas as
notas surgem como se obedecessem a uma ordem invisível que nenhuma buzina,
nenhuma conversa, nenhum motor conheceu jamais, não me atravessam como
projéteis, aproximam-se como quem pede licença para existir, talvez porque a
música não pretenda conquistar espaço, talvez porque aceite conviver com o
silêncio em vez de o destruir, e enquanto todos os outros sons parecem disputar
violentamente a posse do ar, cada acorde apenas ocupa o lugar que lhe pertence,
sem expulsar o anterior, sem esmagar o seguinte, como se existisse entre as
notas uma ética secreta, uma forma de convivência que os homens perderam muito
antes de terem inventado as cidades. Houve um tempo em que imaginei que o
sofrimento pudesse ser educado, que a juventude fabrica ilusões com a mesma
facilidade com que o inverno fabrica sombras mais compridas, e durante muitos
anos acreditei que bastaria expor-me aos ruídos com a disciplina de um asceta
para que, pouco a pouco, o corpo desistisse daquela resistência absurda. Os
homens repetiam frases que decerto julgavam reconfortantes, diziam que tudo era
questão de hábito, que o cérebro acabaria por aprender, que eu precisava de
sair mais, de conhecer gente, de frequentar lugares movimentados, de enfrentar
aquilo que me assustava, como se o medo fosse mesmo o nome do que me acontecia,
sem nunca terem sabido distinguir o medo da dor, que o medo pode vencer-se
porque nasce da expectativa, ao passo que a dor se instala precisamente quando
a expectativa já fracassou, e eu não temia o ruído da cidade, conhecia-o
intimamente, conhecia-o antes mesmo de atravessar a soleira do prédio, como um
condenado conhece a direção da lâmina antes de ela lhe encontrar o pescoço, sem
surpresa nenhuma, apenas com a certeza de que cada passo em direção ao exterior
corresponderia a uma sucessão de pequenas mutilações invisíveis, incapazes de
deixar sangue sobre a pele mas suficientemente profundas para transformar uma
caminhada de poucos minutos numa travessia que consumia todas as minhas forças.
Lembro-me da última vez em que aceitei
o convite de um colega de trabalho para tomar café depois do expediente, e é
curioso que a memória preserve com nitidez não o rosto dele, não as palavras
que disse, nem sequer o aroma do café acabado de fazer, mas sim o estalar
incessante das chávenas encontrando os pires, o atrito metálico das colheres
contra a porcelana, o vapor da máquina de expresso escapando sob pressão com um
sibilar de criatura ferida, o ranger das cadeiras arrastadas sem cuidado, os
risos sobrepondo-se uns aos outros até se confundirem numa massa informe de
vibrações, enquanto os talheres batiam nos pratos, portas se abriam e fechavam,
telemóveis tocavam melodias estridentes, e uma criança, sentada duas mesas
adiante, descobria a insondável alegria de bater repetidamente uma colher
contra um copo de vidro. Olhei para todos aqueles rostos e vi neles uma
tranquilidade que me pareceu quase sobrenatural, conversavam, sorriam,
gesticulavam, interrompiam-se sem que nenhum daqueles sons lhes atravessasse o
corpo com a violência com que atravessava o meu, era como observar uma espécie
diferente de humanidade, dotada de um sistema nervoso cuja serenidade me
parecia tão extraordinária quanto a capacidade de respirar debaixo de água, e
enquanto eles discutiam banalidades eu gastava todas as energias em impedir que
as mãos me tremessem sobre a mesa, em controlar a respiração, em comprimir
discretamente as unhas contra a palma para deslocar a dor para um lugar que
ainda pudesse governar, e quando por fim me levantei alegando uma indisposição
qualquer, percebi que ninguém suspeitava da dimensão da batalha travada dentro
de mim, que a doença tem essa crueldade refinada, deixar que o sofrimento
permaneça invisível justamente quando se torna insuportável.
Talvez por isso tenha deixado o
emprego poucas semanas depois, inventei justificações educadas, agradeci a
oportunidade, desejei prosperidade aos colegas, saí a carregar uma caixa de
papelão onde cabiam alguns livros, uma fotografia antiga dos meus pais e uma
pequena planta que morreu poucos dias depois de chegar ao apartamento, e
durante muito tempo culpei-me por aquela morte, como se a planta tivesse
absorvido qualquer coisa da atmosfera destas paredes, até compreender que
certas formas de vida precisam do vento, do excesso de luz, da chuva
imprevisível, da desordem do mundo, enquanto outras só sobrevivem quando
conseguem reduzir a existência a um conjunto rigorosamente calculado de
movimentos, e talvez eu próprio tenha deixado de pertencer ao reino dos homens
para passar a integrar alguma categoria mais discreta de organismos,
semelhantes aos fungos que prosperam na penumbra ou às criaturas marinhas que
jamais suportariam a superfície iluminada, sem que nisso haja degradação
nenhuma, apenas incompatibilidade, que os homens gostam de crer que toda a
diferença se corrige com empenho suficiente, porque lhes tranquiliza imaginar
um universo governado pela vontade, mas há destinos que não se deixam
persuadir. O apartamento, que a princípio me pareceu esconderijo provisório,
transformou-se devagar na única geografia onde o corpo reconhecia alguma
possibilidade de repouso, e aprendi a distinguir a hora das ruas pela
intensidade difusa das vibrações que ainda conseguiam infiltrar-se pelas
paredes, às sete da manhã os motores produziam uma espécie de corrente
contínua, grave e espessa, como um rio subterrâneo a escorrer sob o cimento, ao
meio-dia surgiam buzinas impacientes, camiões a descarregar mercadorias, vendedores
ambulantes a anunciar produtos cuja natureza eu jamais descobriria, porque as
palavras me chegavam reduzidas a fragmentos indecifráveis, ao fim da tarde,
quando as escolas soltavam as crianças, o ar ganhava uma textura irregular,
pontilhada de gargalhadas, corridas, bolas a saltar nas calçadas, cães a
responder uns aos outros de quarteirão em quarteirão, era como se a cidade
respirasse por meio do som, e cada mudança de hora alterava o ritmo dessa
respiração colossal, e eu escutava-a sem a ver, como um prisioneiro que aprende
a imaginar o oceano só pela força das marés batendo contra rochedos invisíveis.
Foi então que compreendi uma ideia que desde então me acompanha e que talvez
pareça absurda aos outros, que os homens julgam morar em cidades feitas de
cimento, vidro e aço, quando na verdade habitam construções erguidas de ruído,
que o edifício onde vivo não se sustenta só sobre pilares, sustenta-se
igualmente sobre a sucessão interminável de vozes, motores, campainhas,
televisores, canos, elevadores, ferramentas, aparelhos domésticos e passos que
nunca cessam por completo, e se por um capricho impossível todos os sons
desaparecessem de uma vez, suspeito que os habitantes sentiriam um terror muito
maior do que qualquer estrondo, descobririam que o barulho não se limita a
acompanhar-lhes a vida, protege-os daquilo que verdadeiramente temem encontrar
quando o mundo finalmente se cala, que o silêncio não revela apenas a ausência
de som, revela a presença de nós mesmos, e talvez poucas coisas sejam tão
difíceis de suportar como uma consciência sem distrações.
Os livros começaram a substituir as
janelas sem que eu percebesse o instante exato dessa transformação, que toda a
mudança verdadeiramente profunda tem a delicadeza das raízes, cresce anos a fio
debaixo da superfície até que um dia descobrimos que a paisagem inteira se
alterou enquanto os olhos estavam voltados para outro lado, e não saberia dizer
qual foi o último romance que li apenas pelo prazer de seguir uma história, que
desde muito cedo passei a procurar nas páginas algo que já não pertencia
propriamente à literatura, mas à possibilidade de existir sem ser continuamente
atingido pelo mundo, havia dias em que um único parágrafo bastava para
sustentar uma tarde inteira, não pela dificuldade de o compreender, mas porque
cada frase parecia abrir um compartimento silencioso dentro da consciência, um
lugar onde o pensamento podia repousar antes que algum ruído voltasse a
desalojá-lo. Descobri que a leitura não exige apenas atenção, exige também uma
espécie de humildade diante do tempo, que os homens costumam ler como caminham
pelas cidades, apressados, desejosos de chegar ao fim, convencidos de que o
destino vale mais do que o percurso, e eu jamais me pude permitir semelhante
pressa, que a doença me ensinou uma lentidão que nenhuma filosofia conseguiria
transmitir, e passei a compreender que há frases cujo verdadeiro significado só
aparece depois de longos minutos de convivência, como certas pessoas que
permanecem fechadas até encontrarem um silêncio suficientemente amplo onde
depositar aquilo que realmente são. Às vezes imagino que o mundo tenha
confundido velocidade com plenitude, que as ruas competem consigo mesmas, os
automóveis disputam uns segundos de vantagem para os entregar logo a seguir ao
próximo semáforo, as pessoas falam antes de acabar de pensar, interrompem-se
com uma ansiedade que denuncia não o desejo de comunicar mas o medo de serem
engolidas pelo intervalo entre uma palavra e outra, e talvez seja justamente
esse intervalo que me fascina, que sempre acreditei que aquilo que sustenta uma
conversa não são as frases pronunciadas mas os vazios que as separam, que a
música sabe disso, a literatura também, só a cidade parece ignorá-lo, receosa
de qualquer espaço onde o silêncio possa crescer, como se cada pausa deixasse
voltar à superfície alguma verdade antiga, e o ruído tornou-se um modo de
esquecer, não produz apenas sons, produz distrações, e enquanto tudo vibra
ninguém precisa de escutar a lenta erosão que se dá dentro de si. Foi essa
ideia que começou a perseguir-me numa tarde de inverno em que fiquei quase duas
horas a ver um feixe de luz deslizar pela estante até tocar a lombada
escurecida de um volume antigo, sem que nada de particular acontecesse e ainda
assim com a impressão de assistir a um acontecimento grandioso, a claridade
movia-se com uma lentidão incompatível com o ritmo das cidades, desenhando
sobre os livros uma geografia que só existia naquele instante e que
desapareceria poucos minutos depois, e pensei que o universo preferiria talvez
sempre essa velocidade discreta, a velocidade das nuvens, da poeira que se
acumula sobre a madeira, do musgo a conquistar uma pedra abandonada, das rugas
que se vão formando devagar em volta dos olhos, e só os homens decidiram acelerar
todas as coisas, como se a morte se vencesse aumentando a velocidade da
caminhada, ignorando que correr em direção ao horizonte continua a ser uma
forma de permanecer dentro do mesmo mundo. Quando essas reflexões se tornam
pesadas de mais, aproximo-me do aparelho de som com um cuidado quase litúrgico,
nunca aperto o botão de imediato, primeiro fico uns segundos diante dele, como
quem espera uma autorização invisível, depois escolho um disco, tiro-o da capa
devagar, observo o reflexo opaco da superfície, e só então deixo que a agulha
encontre o primeiro sulco, e há um instante de absoluto recolhimento entre o
leve atrito inicial e a primeira nota, tão delicado que às vezes receio
respirar para não o perturbar, e a seguir acontece qualquer coisa a que não
encontro outra expressão, que a música não elimina a dor, modifica é a maneira
como a dor ocupa o corpo, os sons deixam de se comportar como projéteis
dispersos e passam a organizar-se segundo uma ordem que não exige defesa, cada
instrumento parece reconhecer os limites do outro, nenhuma nota procura dominar
a seguinte, nenhuma frequência invade violentamente o espaço da anterior, é
como assistir à convivência de seres que descobriram, muito antes dos homens,
que a harmonia não nasce da igualdade mas do respeito às diferenças, e talvez
seja por isso que nunca sofri diante destas composições, que elas não me
obrigam a suportar o caos, convidam-me antes a atravessá-lo.
Em certos movimentos lentos das
cordas tenho a estranha impressão de que o silêncio não desapareceu, apenas
mudou de forma, continua presente entre os acordes, sustentando-os
discretamente, impedindo que desabem uns sobre os outros, e passei anos a perguntar
aos médicos porque acontecia isto, recebi hipóteses, gráficos, nomes de regiões
cerebrais, explicações sobre processamento auditivo, neurotransmissores,
filtros sensoriais, agradeci a todas elas, ainda que nenhuma me parecesse capaz
de alcançar aquilo que sinto, que a ciência explica admiravelmente os
mecanismos das coisas, mas o sofrimento quase sempre começa onde as explicações
terminam, e talvez não haja resposta porque a pergunta esteja mal formulada,
talvez eu não devesse perguntar porque a música não me fere, mas porque os
outros sons se esqueceram de que também podiam ser belos. À medida que estas
notas percorrem o apartamento, sinto que as paredes deixam de cumprir apenas a
função de isolar o exterior, tornam-se caixas de ressonância de uma memória que
desconheço possuir, não recordo factos precisos, recordo uma sensação impossível
de situar no tempo, como se antes mesmo de nascer eu já tivesse conhecido um
mundo onde nenhum ruído se desperdiçava, onde cada vibração encontrava
naturalmente o seu lugar, e talvez seja apenas imaginação, talvez toda a
nostalgia não seja senão o desejo de regressar a um lugar que nunca existiu, e
ainda assim continuo a escutar até que a última nota se dissolva devagar no ar,
e quando o silêncio volta percebo que já não é exatamente o mesmo de antes,
traz consigo uma claridade interior que dura poucos minutos, suficiente apenas
para eu voltar a acreditar, ainda que provisoriamente, que viver talvez não
seja suportar o barulho do mundo mas continuar a procurar, entre milhões de
sons hostis, aquele único capaz de nos reconciliar com a existência. Quando
procuro descobrir em que momento comecei a compreender que havia uma fissura
entre mim e o resto das pessoas, a memória não me devolve um acontecimento
preciso, mas uma sucessão de pequenas cenas cuja importância só muito depois se
revelou, como essas estrelas cuja luz demora tantos anos a chegar à Terra que,
quando finalmente as vemos, já talvez tenham deixado de existir. A infância
costuma descrever-se como território de inocência, ainda que eu desconfie de
que seja apenas o período em que ainda ignoramos o nome das nossas condenações,
e recordo a sala de aula aquecida pelo sol da tarde, as carteiras de madeira
riscadas por gerações de mãos inquietas, o giz a partir-se entre os dedos da
professora, a poeira branca suspensa diante da janela como se o ar tivesse
ganho consistência, e recordo sobretudo o relógio pendurado acima do quadro,
não porque me interessassem as horas, mas porque o mecanismo interno produzia
um tique-taque tão discreto que nenhum dos meus colegas parecia notá-lo, e para
mim aquele som tinha a obstinação de uma gota a cair sem parar sobre uma pedra,
não era alto, nunca foi questão de intensidade, era uma persistência impossível
de afastar, e enquanto a professora escrevia verbos e equações, enquanto as
crianças conversavam baixinho ou escondiam bilhetes umas das outras, eu ficava
preso dentro daquele compasso mecânico, cada segundo a transformar-se num
impacto diminuto que encontrava o seguinte antes mesmo de desaparecer, e houve
dias em que saí da escola incapaz de lembrar uma só palavra da aula, mas ainda
a ouvir o relógio dentro da cabeça, como se alguém o tivesse instalado atrás
dos meus olhos. Nessa altura acreditava que todos sentiam o mesmo e apenas eram
mais corajosos do que eu, e essa hipótese sustentou-me a infância durante anos,
via os colegas a correr pelo pátio no recreio, a gritar, a empurrar-se, a rir
com a espontaneidade de quem ocupa naturalmente o próprio corpo, e imaginava
que suportavam heroicamente uma dor igual à minha, havia nessa fantasia
qualquer coisa de admirável, eu achava-os extraordinários, dotados de uma
resistência que me faltava, até que um dia perguntei casualmente a um deles se
o barulho do ventilador da sala também lhe dava dor de cabeça, e ele olhou para
mim sem entender a pergunta, pensei que não me tivesse ouvido, repeti-a, ele
encostou o ouvido à grade metálica do aparelho, ouviu uns segundos e respondeu,
com a simplicidade das crianças, que nunca tinha reparado naquele som, nunca
tinha reparado, e passei semanas a tentar perceber como é que alguém podia
conviver meses a fio com uma presença sonora contínua sem sequer a notar, a
resposta era tão absurda para mim como seria para outro afirmar que conseguia
esquecer a luz do sol ou a própria respiração, e foi nesse instante que surgiu,
ainda sem palavras, a suspeita de que eu habitava uma realidade ligeiramente
desencontrada da realidade dos demais.
Os meus pais demoraram a perceber, não
por indiferença, mas porque o sofrimento invisível costuma esconder-se atrás de
comportamentos que parecem apenas excentricidades, a minha mãe achava que eu
era demasiado sensível, o meu pai achava que me faltava firmeza, ambos tentavam
ajudar da única maneira que conheciam, insistindo para que eu enfrentasse
aquilo que me incomodava, levavam-me a festas de anos, a reuniões de família, a
parques cheios de crianças, convencidos de que a convivência resolveria tudo, e
eu aceitava em silêncio, não por obediência mas porque ainda tinha esperança de
que estivessem certos, talvez existisse mesmo um ponto a partir do qual o corpo
desistisse de sofrer, talvez houvesse um limiar invisível e bastasse
atravessá-lo, mas cada tentativa acabava sempre da mesma maneira, as vozes
começavam a sobrepor-se até deixarem de ter sentido, os pratos batiam na mesa,
os balões rebentavam, as portas batiam, os talheres tilintavam, os cães
ladravam ao longe, alguém ligava a liquidificadora na cozinha, outra pessoa
aumentava o som da televisão para acompanhar um jogo, e eu sentia a estranha
impressão de que o mundo inteiro tinha decidido comprimir-se dentro da minha
cabeça, e não era só desconforto, era uma dissolução gradual da capacidade de
pensar, as palavras perdiam o contorno, os rostos deixavam de ser
reconhecíveis, restava apenas uma massa sonora a crescer à minha volta como a
água que devagar invade um quarto fechado. Foi numa dessas festas que descobri
um hábito que me acompanha até hoje, que enquanto os adultos conversavam e as
crianças corriam no quintal, encontrei uma pequena biblioteca esquecida no
corredor da casa, não era grande, talvez cinquenta ou sessenta livros sobre
prateleiras de madeira escurecida, entrei só para fugir do tumulto, fiquei ali
quase uma hora, e nunca esquecerei a sensação, não era exatamente silêncio,
porque ainda chegavam ecos distantes da festa, mas os livros pareciam absorver
parte daquele excesso, como se cada volume retirasse do ar uma parcela da
violência que havia lá fora, passei os dedos pelas lombadas sem escolher nenhum
título, bastava estar cercado por eles, havia naquele cómodo uma serenidade que
não dependia da ausência absoluta de sons mas da presença de algo que os
reorganizava, e talvez tenha sido ali, muito antes de o formular como
pensamento, que compreendi que certos lugares protegem não pelas paredes que
têm mas pela forma como transformam a nossa percepção do mundo, e desde então
toda a biblioteca me pareceu menos um depósito de livros do que um abrigo
construído devagar por milhares de páginas dispostas umas ao lado das outras,
como se cada frase escrita ao longo dos séculos acrescentasse uma nova camada
de silêncio à arquitetura invisível desses espaços. Hoje pergunto a mim mesmo
se a minha vida teria seguido outro caminho se alguém, naquela infância,
tivesse conseguido explicar-me que eu não estava partido, apenas ouvia de
maneira diferente, mas a pergunta fica sem resposta, que o tempo tem essa
crueldade singular, deixar-nos compreender o passado só quando já não há
hipótese nenhuma de o mudar, resta-me observá-lo de longe, como quem contempla
uma casa onde viveu muitos anos e percebe, tarde demais, que todas as janelas
estavam voltadas para uma paisagem que já ninguém mais via.
Edson Moura em 16 de Janeiro de 2014


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