A mão, agora, não é mais a mesma que desceu o pincel pela última vez. É uma mão que pousa sobre a mesa, uma superfície indiferente que não guarda memória dos gestos nem dos humores que a precederam. Os dedos abrem-se, lentamente, como se tivessem de aprender de novo a distância entre si, como se o espaço entre cada falange fosse um abismo que a consciência, por um instante, medisse sem esperança de o transpor. O pintor não se levanta. Continua de rosto voltado para a terra, mas os olhos, esses já não enxergam o chão vítreo, nem as raízes em forma de dedos, nem as bolhas que rebentam como lágrimas. Os olhos agora veem o avesso do que viram: veem a memória do céu rosa e amarelo antes que houvesse céu, olham a superfície do papel antes que a mancha lhe tocasse, veem o lugar vazio onde a mão ainda vai demorar-se, e veem, sobretudo, que esse lugar vazio é o único lugar onde o mundo, alguma vez, esteve a salvo de si mesmo.

     E nesse lugar vazio, algo começa. Não é uma forma, não é uma cor, não é ainda um nome que a língua possa reter. É apenas uma fenda ínfima no tempo, um intervalo entre dois gestos, uma pausa que se alonga até se tornar ela própria a substância de tudo o que ainda não foi pintado, e que, uma vez pintado, se perderá para sempre, porque a tinta fixa mas também mata, porque o gesto que perpetua é o mesmo que soterra, porque o olhar que se demora sobre uma coisa a converte em coisa morta, e o pintor o sabe, e é esse saber que agora lhe pesa nos ombros como um céu de chumbo sobre um campo que nunca viu a sementeira. O pintor respira. O ar entra-lhe devagar, como se também ele tivesse de aprender o caminho dos pulmões, como se o corpo todo fosse uma paisagem ainda por reconhecer, ou já por esquecer, porque reconhecer é também perder a inocência do primeiro olhar, e o pintor, há muito, perdeu-a.

       A mão volta a mover-se. Mas não é o mesmo movimento: agora é mais lento, mais cauteloso, mais carregado da consciência de que todo o gesto é uma perda irremissível. A mão hesita como quem tateia na penumbra uma superfície que não vê, mas sabe que lá está, indiferente, aguardando a violência da tinta. O pincel hesita, afasta-se do papel, aproxima-se de novo, e nessa hesitação inscreve-se qualquer coisa que os gestos anteriores não continham, um princípio de dúvida, um tremor de incertezas, e antes o reconhecimento de que há sempre mais mundo do que a mão pode abarcar, e que a mão, ao tentar abarcá-lo, o reduz à sua própria finitude, à sua própria miséria de membro que se crê criador, mas não passa de instrumento de uma vontade que já não sabe o que quer. O pintor fecha os olhos outra vez, e quando os abre, já não está só.

       Por detrás dele, ou talvez dentro dele, uma voz que não pronuncia palavras, uma respiração que não é a sua, um peso que não pesa, mas que oprime. É a terra que sobe até ao seu rosto, ou é o seu rosto que desce ainda mais fundo, para além da turfa, para além das bolhas de gás, para um sítio onde as raízes já não são mãos, mas qualquer coisa anterior a qualquer mão, qualquer coisa que ainda não aprendeu a agarrar, a sugar, a romper, e que talvez nunca aprenda, porque aprender é também perder a pureza da necessidade cega. Aí, o pintor vê o que não pode ser pintado: a lentidão absoluta, a germinação sem tempo, a semente que ainda não é semente porque a semente já é promessa e aqui não há promessa, há apenas o intervalo escuro entre uma coisa e a sua possibilidade, o abismo que separa o que é do que poderia ter sido, e esse abismo é tudo o que resta quando a mão se cala.

        A mão desenha esse intervalo. Desenha-o como um vazio entre dois caules, como uma sombra que não provém de nenhuma luz, como uma dobra na superfície do papel que o papel não tem. E nesse vazio, as ervas tremem de outro modo, não porque o vento as toque, mas porque o próprio tempo as atravessa com a lentidão de uma seiva que já não sabe se quer subir ou descer, porque já não há querer, apenas o movimento cego de uma matéria que obedece a leis que a matéria ignora. As folhas largas que encerravam a escuridão interior abrem-se, e não há criança perturbadora dentro delas, há apenas mais escuridão, mais folhas, mais abertura que não conduz a parte nenhuma — porque não há parte nenhuma para onde conduzir, não há destino, não há termo, há apenas a repetição infinda do mesmo gesto de abrir-se e fechar-se, de crescer e apodrecer, de ser e de não ser no mesmo instante em que a tinta as fixa para sempre na mentira da permanência. O pintor suspira. O pintor entende que não se trata de continuar, mas de recomeçar sempre do mesmo ponto sem nunca repeti-lo, e que esse recomeço é a forma mais atroz da condenação, porque o que se recomeça nunca se termina, e o que nunca se termina é o testemunho da insuficiência, da falência irremediável de todo o gesto que aspira à totalidade.

        A palma minúscula das gramíneas, que ele defendeu da morte, do vento rápido, da inundação que derruba, agora defende-se sozinha. Defende-se dele, da sua mão, do seu olhar que a fixou no papel como quem fixa um inseto em resina, e nessa defesa há uma ironia que o pintor não pode deixar de reconhecer, porque ele próprio se defende há anos do mesmo olhar, da mesma fixação, da mesma violência de querer que o mundo seja outro, que o mundo seja mais do que aquilo que é. Há uma revolta silenciosa nas hastes que se desviam, nas folhas que se voltam para outro lado, nas raízes que se aprofundam para escapar à superfície onde ele as quis eternizar, e essa revolta é a única coisa verdadeira que resta naquele papel, a única coisa que não foi traída pelo gesto. O pintor sorri, se é que se pode chamar sorriso a essa ligeira contração dos lábios que mal tocam a terra, um sorriso que é menos alegria do que o reconhecimento amargo de que toda a criação é, no fundo, uma traição, ao real que se abandona, à imagem que se impõe, ao tempo que se interrompe para que a eternidade, essa impostora, ocupe o seu lugar. O pintor deixa de querer. Abandona a defesa, abandona a minúcia, abandona a obrigação de nomear o que os homens um dia nomearão com cem apelativos diferentes, porque nomear é também violentar, é também reduzir à indigência do conceito aquilo que é inesgotável e, por isso mesmo, inominável.

       

"..." E.Moura. - Óleo sobre tela 

E então, só então, quando a mão já não defende nem fixa, quando o pincel já não sabe se é instrumento ou ramo, quando o pintor já não distingue o seu rosto do chão vítreo onde os olhos vogam, então as ervas tornam-se o que sempre foram: não imagem, não nome, não promessa, mas apenas aquilo que cresce enquanto o pintor se retira, enquanto a mão pousa definitivamente, enquanto o céu rosa e amarelo começa lentamente a desfazer-se ,não porque o pintor o tenha apagado, mas porque ele cumpriu o seu ofício: durou o tempo de um olhar, e o olhar, agora, cansou-se de si mesmo, cansou-se de ver, cansou-se de ser a fresta por onde o mundo se anuncia para logo se retirar. O céu desfaz-se como se nunca tivesse sido pintado, e essa é a verdade que a tinta sempre ocultou: que não há permanência, que não há fixidez, que tudo o que a mão toca está já em vias de se perder, e que a perda é o único movimento que nunca cessa.

      O pintor levanta-se. O rosto deixa na terra uma marca húmida, uma depressão que a água da turfa haverá de encher em breve, apagando o último vestígio da sua passagem — como se ele nunca tivesse estado ali, como se aquele longo confronto com a vegetação, com a luz, com a matéria informe do mundo, tivesse sido apenas o delírio de um corpo que se julgou centro quando não era senão margem, e uma margem que a maré, indiferente, deverão cobrir. A mesa está diante dele, o papel está sobre a mesa, mas ele não olha para o papel. Olha para as mãos, para as veias que se cruzam sob a pele como as nervuras das folhas que pintou, para as falanges que se articulam como os caules que sustentaram os cachos leves, e vê nelas a mesma precariedade, a mesma contingência, o mesmo destino de coisa que se desfaz no instante em que se crê definitiva. E pensa, sem palavras, que talvez ele próprio seja uma dessas coisas que os homens nomearão um dia com cem nomes diferentes, consoante o lugar onde nasçam e os homens que os habitem, e que nenhum desses nomes o salvará de ser apenas aquilo que foi: um olhar que se debruçou sobre o mundo e viu, no fundo do mundo, o seu próprio vazio.

       Fora, se é que há um fora, porque cada vez mais o pintor dúvida de que exista qualquer coisa para além do limite do seu olhar, qualquer coisa que não seja projeção, sombra, eco de uma substância que se retira na exata medida em que se oferece, fora, o céu continua rosa e amarelo em partes iguais, mas já não é o mesmo céu. É um céu que espera, como o papel esperou, como a mão esperou, como as raízes esperam na escuridão antes de romperem, mas essa espera é vã, porque não há nada que esperar, não há plenitude que venha preencher o intervalo, não há salvação que desça das alturas nem ascensão que suba das profundezas. Há apenas o intervalo, a pausa, a hesitação eterna entre um gesto e o gesto seguinte, entre o que se viu e o que se pintou, entre o que se pintou e o que se perdeu. O pintor guarda os pincéis, limpa a tinta da paleta, dobra lentamente o pano com que enxugou os dedos. Cada gesto é um abandono. Cada abandono é uma confirmação: a de que nada do que fez perdurará, a de que nada do que tocou lhe pertencerá, a de que ele mesmo, quando a porta se fechar, será tão esquecido como as ervas que pintou e que a tinta, com o tempo, rachar, descamar, devolver à poeira de onde vieram.

       Quando a porta se fechar atrás de si, as ervas continuarão a crescer no papel, mas crescerão para quê, para quem? O papel amarelecerá nas margens, as cores perderão a vibração, os caules finíssimos que ele defendeu da morte sucumbirão à única morte que verdadeiramente importa: a de não serem vistos. E talvez, em algum tempo futuro, um outro olhar se debruce sobre elas e tente, como ele tentou, fixar o que não pode ser fixado, nomear o que não pode ser nomeado, deter o que não cessa de fluir, e esse outro olhar fracassará como ele fracassou, porque o fracasso não é acidente, mas essência: é a condição de todo aquele que se debruça sobre o mundo e espera dele uma resposta que o mundo, porque é mudo, porque é cego, porque é indiferente, não pode dar.

         E o conto não começa então, porque o conto é apenas a ilusão de um princípio onde só há repetição, a ilusão de um meio onde só há intervalo, a ilusão de um fim onde só há o mesmo silêncio que havia antes que a primeira palavra fosse pronunciada. O pintor atravessa a sala, a mão toca a maçaneta, o metal está frio como a lâmina de uma ferramenta que há muito perdeu o fio. E nesse instante, suspenso entre o dentro e o fora, entre o que pintou e o que nunca poderá pintar, entre o que foi e o que nunca será, o pintor hesita. Hesita como hesitou o pincel sobre o papel, como hesitou o olhar sobre a erva, como hesita o tempo sobre as coisas que ele mesmo consome. E nessa hesitação, a única verdade: que não há saída, que não há entrada, que há apenas a passagem, e que a passagem, ela mesma, é o abismo.

          A porta abre-se. O pintor sai. O estúdio fica vazio, o papel fica sobre a mesa, a tinta ainda húmida brilha sob a luz que entra pela janela, uma luz que já não é rosa nem amarela, mas apenas a cor do abandono, a cor do que se entrega ao tempo sem resistência. Lá fora, o pintor caminha, mas não sabe para onde, porque o mundo, agora, é esse lugar onde não há mais nada a pintar, onde não há mais nada a ver, onde não há mais nada a ser. As ervas continuam no papel. Continuarão. E quando, muito tempo depois, alguém as encontrar, talvez pense que são apenas manchas, apenas o capricho de uma mão que já não existe, apenas o vestígio de um olhar que já se apagou. E terá razão. Não há mais nada além disso: manchas, vestígios, a lenta decomposição de tudo o que um dia se julgou eterno.

           O pintor, na rua, não olha para trás. Não há porquê. O que ficou para trás não é mais seu do que aquilo que o espera adiante, porque nada é seu, nada foi seu, nada será seu. A única posse, a única certeza, é esta: a de que a mão, um dia, moveu-se sobre o papel, e que esse movimento, agora, é apenas memória, e que a memória, em breve, será apenas esquecimento. E no esquecimento, finalmente, a paz, essa paz que o pintor, durante toda a vida, procurou no fundo das cores, no relevo das nervuras, na transparência opaca do mundo, e que não encontrou porque a paz não está no mundo, nem na tinta, nem no olhar que se demora. A paz está no momento em que o olhar se retira, em que a mão se cala, em que o mundo, enfim, deixa de ser visto para voltar a ser apenas o que sempre foi: indiferença pura, matéria inerte, o grande silêncio sobre o qual, por um instante ínfimo, se debruçou a inutilidade do sentido.


                                                                     Edson Moura em  14.09.2008

Comentários

Postagens mais visitadas