Calvário

 

         O estrépito metálico ressoou com uma crueza ensurdecedora, o ruído arrebentando os espaços vazios e ricocheteando pelas paredes do quarto como um veredito adiado. A câmara, todavia, jazia vazia. O som do percutor colidindo contra o aço inativo, embora representasse a manutenção biológica da vida, trazia consigo uma ressonância perturbadora, quase profana. Momentos antes de acionar o gatilho, eu me sentia revestido por uma invulnerabilidade divina; agora, porém, com o cão do revólver martelando o vácuo do tambor, a fachada ruiu. Minhas mãos, outrora firmes, eram agora presas de um tremor incontrolável, banhadas por um suor gélido que parecia brotar das fendas da própria alma.

        Ela me observava, a ansiedade pulsando sob as íris de um matiz verde-acinzentado, profundas como um oceano em tempestade. Esforcei-me para esboçar um sorriso, mas o resultado foi uma careta pálida e pusilânime. Entreguei-lhe o artefato de ferro oxidado. Nas palmas daquelas mãos de porcelana, tão frágeis e etéreas, a arma assumia proporções monstruosas, um ídolo de metal pesado demais para tamanha delicadeza. Ela parecia desprovida de força até para erguê-la, mas a determinação é uma força silenciosa. Com um gesto preciso, deslocou o tambor, imprimiu-lhe um giro seco com um leve golpe e encerrou-o com um estalo hermético.

         “Não sejamos ingênuos”, murmurei, a voz saindo rouca, tentando preencher o silêncio mortal daquele quarto. Ninguém precisa me lembrar que o mundo está encharcado de ódio. Basta olhar lá fora: homens despedaçando homens, nossa grande e orgulhosa civilização erguida sobre os ossos de quem perdeu e sobre as florestas que queimamos. Isso é o óbvio.

          Dei um passo em direção a ela, enquanto o cano da arma subia trêmulo.

        O que é difícil de engolir, e foi aí que o velho Freud teve seu último lampejo de genialidade, é aceitar que essa destrutividade toda não é um acidente. É um instinto. E, por mais irônico que pareça, é irmão gêmeo do amor. Pense comigo: uma criança precisa aprender a amar, certo? Mas ela também precisa aprender a odiar direito. Odiar com sabedoria. Ela precisa pegar essa energia destrutiva que tem dentro de si e apontá-la para os monstros reais, não descarregá-la em quem é inofensivo. É aí que erramos. É aí que fazemos vítimas.

       O cão foi engatilhado com um clique sinistro. O cano, negro e frio, buscou o abrigo da têmpora dela.

      “ Gosto de você”, as palavras escaparam-me, pesadas como chumbo.

      Ela cerrou as pálpebras com força hercúlea e tensionou o indicador. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nada. Um sorriso nervoso e espasmódico rompeu sua face, enquanto seus tremores se assemelhavam a convulsões rítmicas.

      “Eu também”, sussurrou ela, por fim, como quem emerge de um pesadelo.

      A vitória sobre a morte infunde no homem uma prepotência perigosa, um delírio de onipotência que se enraíza com facilidade em solos já propensos à arrogância. Reassumi a posse da arma. Tomei seus lábios com uma voracidade selvagem, um beijo que era, simultaneamente, um agradecimento e um sacrifício por aquela prova de devoção absoluta. Engatilhei o calibre trinta e dois sem girar o tambor. A mecânica do destino seguiria seu curso linear; a roda de ferro apenas girou o suficiente para posicionar a câmara seguinte, perfeitamente alinhada à culatra.

      “Porque, no final das contas...” apoiei as mãos na mesa, sentindo a madeira fria sob os dedos, o revólver agora um peso morto na outra mão — ...cada um de nós escolhe como vai se matar. Alguns têm pressa, puxam o gatilho ou aceleram o carro. Outros preferem o veneno lento do cotidiano, matando-se aos poucos, dia após dia. Nós vemos isso o tempo todo, não vemos? O cirurgião vê o fígado destruído, o advogado vê o crime, o padre vê o pecado. Mas alguém precisa ver o homem inteiro. A medicina deveria curar não só o fígado, mas as nações. Aqueles olhos verde-acinzentados permaneciam fixos nos meus, testemunhas silenciosas de minha desintegração. Introduzi o cano na cavidade bucal. O gosto amargo e sulfuroso da pólvora invadiu minhas papilas. Era tarde demais para retroceder; o limiar da existência havia sido cruzado. 

Sonâmbulas - E.M.- 2022 

        No átimo de segundo que precedeu o ato, a presciência me atingiu com a força de uma revelação. Eu sabia o que sobreviria. Sangue e massa encefálica seriam projetados contra a alvura imaculada da parede às minhas costas, uma pintura expressionista de fim de festa. Estranhamente, meu pensamento divagou até a camareira do hotel e o horror que a aguardava. É fascinante a trivialidade dos pensamentos que nos assaltam no limiar do abismo.

       “A única defesa que nos resta contra esse suicídio coletivo é a inteligência” pensei, ou talvez tenha dito com o metal entre os dentes. É ter a coragem de olhar no espelho. Eu sei... minhas evidências são desiguais, talvez minha teoria tenha buracos. Mas é muito melhor ter um mapa imperfeito, uma teoria, mesmo que falsa, do que ficar no escuro atribuindo nossa desgraça à pura casualidade. O acaso nos deixa cegos. Notei o rastro de uma lágrima solitária sulcando as bochechas ossudas dela; talvez ela também compartilhasse daquela clareza fúnebre. Encarei-a no âmago de seu ser, lamentando, em um último vislumbre de consciência, o desfecho trágico daquela lua de mel.

         A sorte estava lançada. Havia pólvora em minha língua e o abismo à minha frente. Despedi-me com um gemido gutural, um último espasmo de comunicação, e uma piscadela cúmplice do olho direito. O gatilho cedeu sob a pressão do meu desejo de fim. E, antes que o silêncio se tornasse eterno, eu ainda pude ouvir o estrondo.



                                                                                     Edson Moura - 2008 

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