quarta-feira, 23 de julho de 2014

Transitivo

      



   
Electric dream © Edson Moura
        Prefixou seu medo. Antes de ler o parecer médico, já sabia qual seria o veredicto. Lembrou que os centros de distribuição bioquímicos não atendiam pacientes com distúrbio cinético-sensoriais. O uso difenidramina foi rigorosamente proibida nos centros cadastrado. Restava-lhe procura-la nas mãos do sapateadores, estes controlavam o mercado irregular deste a prorrogação do index serotônico. Os sintomas logo iram confundi-la: começaria e sentir os odores da clínica, ou, ao chegar a sua casa, escutar o dissimulado gosto erudito do vizinho. Sim os sentidos alheios logo iriam lhe pertencer. No último surto assimilou um parto caseiro clandestino, dores indiscretas da vizinha do quarto 209. Como prescrevia a regra em casos como este, os médicos não poderia ter um segundo contato com o paciente, visto que as causas ou meio para contrair esta doença ainda não havia sido documentada nos manuais médicos. Viver o predicado dos outros era o grande mal daquele século. Teria que vive-los ofuscando-se, fingir que eram seus, regras de conduta do index. Não existia tratamento alternativo. Mas estava consumada em sua decisão: compra difenidramina.
     
     Sim. Ela já tinha um fornecedor. Não era difícil encontra-los. Houveram épocas que muitos desconfiavam da produção clandestina governamental, assim com na extinta China, que o governo monopolizou parte da produção e distribuição do ópio. ‘A história dos inibidores de pensamentos’ foi o tratado mais difundido, mas referenciado, mais destinado à praticidade das medicinas vigentes. Houve um tempo que os portadores distúrbio cinético-sensoriais era profissionais bem remunerados, suas anomalias lhe rendiam carreiras, pois os cinco sentidos das pessoas que estavam á pouco mais de vinte ou trinta metros de distância escorriam através de vias invisíveis para seus próprios corpos.
         
        Ela podia sentir o que o que os outros sentiam. Mas junto aos prazeres estavam cóleras. O se poderias esperar do ‘século serotônico’, se não o pensamento humano: uma cópula de vícios e autocondenação às consternações. A difenidramina que comprou minutos após sair da clínica era de 100 mg, tomar três vezes ao dia, até encontrar-se saturada no corpo, depois ministra uma diariamente. Combatia os sentidos pretéritos, mas temia sua abstinência.      


                                                                                 

                                              Edson Moura, em 24/07/2014                                                                                                         

Seleção natural





Le cheval - © Edson Moura



    

    - Sinto por ele não ter nascido com olhos azuis, como os do pai. Meu sonho era que meu neto tivesse esse tom azulado, assim como os meus... lamentava a senhora ao mostrar uma pequena imagem do celular da criança que a um ano encontrava-se entre os vivos. O gene dominante da mãe agiu como a natureza o havia programado, a e recessividade do pai continuaria aleatória e indefinida. Mas era necessário que todos sorrissem, pois era um reencontro em amigos de longas datas. Era necessário que todo admirassem as imagens dos bebês recém-nascidos; cabelos claros este, cabelos escuro aquele outro, tem a fisionomia da mãe, mas temperamento do pai.
       
    - Vejam como o meu é esperto! ... declarava o senhor que interrompia a conversa para mostrar uma imagem de seu sobrinho caminhando solto, entre os brinquedos de um parque... – ele não precisa de ajuda, já faz quase tudo sozinho: caminha, quando cai, levanta sem ajuda, resmunga quando não gosta de uma coisa, ele estende a mão. Acho que vamos coloca-lo na escola mais cedo, ele é muito precoce. Quando estiver maior, fará cursos extras, participará de atividades na igreja, estudará outras línguas, se tivermos uma filha, faremos a mesma coisa, mas colocaremos ela na aula de balé. Irá estudar no exterior, abriremos uma poupança no banco para garantir tudo isso. Temos muitos planos para nossos filhos; serão vencedores... afirmava, observando as mudanças expressivas nos rostos de na pequena reunião.
     
      - E você? Não tem filhos ainda. Tem que fazer logo. É bonita, tem um rosto bonito, tem estudo, bom emprego e ganha bem. Não pode ficar só... argumentava a senhora de olhos azulados para a mais nova do grupo... tem que ver ainda com quem. Tenho tempo ainda, mas tenho que ter meu filho antes dos 30. Preciso escolher a pessoa certa para não ter decepções e poder criar meu futuro filho com segurança... completava a mais nova as afirmações da senhora de olhos azuis.

       
    - Tá quase na hora da reportagem... interrompia o senhor que estava no grupo... que reportagem?... interrogavam assustados todos da reunião... minha criação de ovelhas, estou tendo problemas: elas não estão cruzando. Será exibido uma matéria falando sobre possíveis soluções. Técnicos pecuaristas estão estudando, não posso perder. A reunião termina com a reciproca do sorriso, do adeus, do até outro dia. 





                                                                     Edson Moura, em 23/07/2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

Apneia

  


       
Sonambulo, © Edson Moura 
Falta de ar. Afogando-me num mar inatacável. Acordei cedo, e o súbito chocou-me com minha apneia. Muitas pessoas sentem isso, eu poderia prever que essa paráfrase serias dita por ¾ da população do globo terrestre, visto que extraterrenos e intraterrenos nos permitem uma falta de exatidão. Explorar toda a extensão do meu aparelho respiratório, inflando, desinflando, lembrando de olhar para o relógio da parede, observando o compasso do ponteiro dos segundos, reafirmar que não era nada, e reafirmando mais paráfrases do livro de paráfrases de auxílios, que havia comprando a preço baixo no mercado, quando esta perdido em dúvidas quanto a: se levo uma caixa de biscoitos de avelã a aquele livro em discreta promoção.
     
     O livro de paráfrases de auxílio ganhou tempo para minha atenção. Dinheiro bem gasto para que acorda com crises de apneia. Não encontrava aquelas linhas de pensamento nos assim chamados clássicos da literatura. Tenho distúrbios respiratórios e não necessidade de discorrer sobre meus tilomas inconscientes. Pulei os capítulos que falavam sobre as elucidações do futuro; não, não, não é este, não é este outro, vou marcar este capitulo aqui que o autor fala a respeito da meditação do vazio. Sim este parece ser o que procuro, talvez não haja dificuldades em procurar um substantivo que não exista.
      
     Não percebi, mas minha primeira leitura devorou o livro de paráfrases de auxílio em poucas horas. Não existiam interrogativas diretas ou indiretas. Tudo em instantes: auto inteligível, auto respondível, automático. Contar as marcações do ponteiro dos segundos aliviavam os sintomas ocos da crise de apneia, 1...,2...,3...,4...,5...,6... e, repentinamente, uma respiração completa, inflando os pulmões até completar toda sua proporção, até sentir o estalar do diagrama, e depois, lentamente, começo a sentir o refluxo sanguíneo causando sono de alívio. Não era o odor de jasmim das metáforas que sentia, mas o assim descrito ‘substantivo vazio’, não era suas cores ou adjetivos - brancas ou más, e sim, meu sangue e oxigênio sendo devolvido a minha carne. Não era o espirito de Falto quem me visitava naquela manhã de apneia, mas o livro  de paráfrases de auxílio. 





                                                     Por Edson Moura, em 22/07/2014