quinta-feira, 18 de julho de 2013

Hospedeiro

     

     
     

   De repente um sopapo no estômago, um calafrio que escorria de seu abdômen até chegar à artéria do pescoço. Caótica sensação claustrofóbica, destas que nos golpeia, que nos engole, nos tornas tão frágeis que ao desespero tornamos rendidos. Aquela sensação de querer segurar até as mãos do mais cínico dos homens. Mas tinha que admitir: Não deixou de ser alertado de seu problema. Sempre repetindo naquela teimosia, a réplica obscura que poucos entendiam.
       - Para que adiar essa morte? – Repetia, debatendo com a pouca força que lhe restava, tentando soltar-se das mãos que o arrastavam para a porta do Viveiro. - Por que adiar esse momento único em minha vida. Sou consciente que não tenho mais tempo.
       Após aquele tombo sobre a ramagem do Viveiro, todos achava que não tornaria. A pele do rosto azulada, sua transpiração fétida, como se aquele aqueles órgão já estivessem em putrefação, e os sintomas que mais lhe causavam incômodo era aquela sensação nauseante que lhe faziam golfar as últimas raspas de bile do tubo digestivo.   
       - Não quero voltar a tomar aquelas injeções! Quero voltar ao Viveiro!
       Novamente, esse lugar que rogava imperativamente. Naquele instante, antes mesmo que pudesse exaltar uma injuria condenando a todos, fez seu corpo, já carcomido, um pedido que há meses desejava.
       - Quero passar esse inverno sem tomar essas malditas injeções!
       Mas seu corpo não aguentaria até o final do inverno. Seria devorado até a última fibra de carne, sobrando apenas à brancura dos ossos. Não sabia até quantas estações: se conseguiria alcançar a quarta ou aquela quinta, esta sem pé nem cabeça que se escondia. Que um dia lhe veio com um significado, a mistura de todas as estações, de todos os sentidos escondidos, mas é claro. Podendo ser imaginada por aqueles ditos como loucos. Esta que embriaga e move os pensamentos mais disformes, ou mais coerentes.       
         - Lá no Viveiro posso sentir o sangue correndo, meu e dos outros; posso ver a coloração avermelhada da carne dos meus dedos. Não me neguem estar entre os vivos, não me neguem estar vivo. Meus sentidos existem, meus desejos existem. Posso respirar sem sentir esse odor. Tenho vícios, quero leva-los comigo, quero respirá-los, deixe-me aludir minha ignorância, não me falem sobre essa mentira: a de que estou vivo. Pois nunca estive. Todos sabem que uma verdade confronta e uma mentira conforta, mas negam saber. É essa vicissitude que nos faz esconder, nos resguarda do fato de que estamos mortos. Sim, penso mais quando sinto essa morte aproximando. Não quero apodrecer ao excesso da lírica, e nem acordar com essa ressaca de vinho estragado vinda dos lábios embriagantes dessa Dona Esperança, essa senhora que nos arqueia com sua retórica da espera. Sim. Espero. Há muito que espero que este narciso, aqui dentro, corroa como tem de ser, a ver nesse estranho reflexo de espelho d’água embaçar minha imagem. Espero ver este curso d’água, espero ver meu rosto se misturar com leito lá em baixo, submerso, silencioso, escondido, intocado. Sim, quero desistir desta espera. Quero ausentar-me dessa lucidez, desta noção de verdade. E enquanto fico preso neste sumário sem vida, esqueço que as folhas do Viveiro ou estão murchas ou mortas.             
        Sentado a porta do Viveiro, a se perder naquele instante em que mais uma vez alguém ao seu lado o lembrava das injeções e da chance de aproveitar o inverno que estava por vir, mas que se diga que uma chance sempre se perdeu no conjunto dos verbetes das abstrações.
         -Tem que cumprir os horários, esse seu tratamento não pode ser suspenso em hipótese alguma, já estou lhe repetindo isso mil vezes e você continua a me ignorar.

          Enquanto a voz entoava aquela continua afirmação, aqueles pés quase sem circulação valsavam sobre a ramagem seca, enquanto seus ouvidos escutavam aquele córrego escorrendo suas águas através dos veios do Viveiro. É certo que não percorremos com a mesma quantidade de passos a mesma distância, que não pisamos nas mesmas pegadas, mesmo repetindo o mesmo trajeto. Ora! Quem irá convencer este homem que ele, ali naquele estado, distraído, estava mesmo vivo do que morto? Sim, ele sempre soube que as folhas do Viveiro sempre estiveram murchas, sentia que não estaria mais consciente quando o inverno chegasse, ou quando deixasse de apostar suas chances nas abstrações. A ramagem estalava seca e quebradiça, tentando suportar aquele corpo que caia até chegar à altura das criaturas que rastejam. Desvendava que seu último folego como sendo um hospedeiro a ser tragado pela terra.  


                                                         Edson Moura em 26/06/2013

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Geometria do Servo


                                               
  “É o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
- Macbeths da patológica vigília,[...]”
(Augusto dos Anjos)

     
Um minerador condenado às trevas. Seria este o final de um drama; o mais comum dentre os desfechos daqueles antagonistas, extremado por algum espectador; a sentença de veredicto que por fim de um processo que condenou alguém – visto que o tempo de qualquer sentença se perpetua se arrasta por toda a viva, prisão maior que nossos lembranças não existe, a não ser, dentro de qualquer evidência, que as esqueçamos, mas assim o for estaria nos alto-sentenciando a uma dislexia de lembranças, ainda não há, dentro da literatura dos estudos neurológicos, um estudo de caso que tenha analisado tal fenômeno dos distúrbios cerebrais. “Um minerador condenado às trevas”, também, não é titulo de nenhum filme, e não pouco o titulo de romance que foi lançado recentemente, apesar do atrativo do título pelos amantes das temáticas solipisitas. Seria sim, por principio, uma redundante menção a quem vivia nos mundos subterrâneos e soturnos da CP Metais, uma das maiores empresas de mineração do minério de cobre, visto e desvisto em demasia no complexo emaranhado de redes e conexões de fios que ligam e interligam os milhares de aparelhos elétricos - relevando aqui um acréscimo considerável nas estatísticas demográficas, que não dardara muito a alcançar os bilhões. O minerador condenado às trevas não foi e não será diferente daqueles que fazem parte de montante que sempre usufruiu dos cômodos deste minério tão comum em qualquer lar do globo terrestre, mas antes pode-se afirmar que o trabalho nas galerias preenchia as oito horas que constava nas casulas do contrato, entre muitas outras casulas que passavam desapercebida a sua própria atenção, se que sua atenção desejasse ler o restante do contrato,                 
      Existem exceções, como em tudo, por proveniência das cautelas contratuais, é evidente. E ali estava uma oportunidade que só a natureza das exceções pode oferecer, as omitem quem convir omiti-las, usufruem convir animar-se aos pés das conveniências de rápido proveito. Sempre foi assim desde o momento que a palavra troca ganhou sentido de obsequio e perdeu o sentido a sempre lhe atribuíram desde sua remota origem: quid pro quo. Faria alguns favores aqui, outro acola, e outro quando as providências chamarem por ele. O supervisor da mineração era um dos que menos o minerador condenado às trevas estimava, mas precisava de sua falta de talento para que seus fins fosse posto na lista das condições, visto que os meios já se perdiam no trajeto reminiscente dos precaveres. Que há muito tempo a troca de tuno, dia e noite não faziam a menor diferença. Exceto pelo simples de um detalhe contratual, constava que nos períodos de trabalho noturnos a jornada de trabalho deveria ser reduzida para seis, duas horas a menos dos que preferiam trabalhar nos períodos diurnos. Quando, em termos de sentido de sobrevivência, era pelas convicções dos exercícios de seu relógio biológico, visto que ainda não consta na consciência dos estudam as posturas que estudam as adaptações do homem ao meio de que existem as possibilidades de relevar o costume de um operário de trocar o dia pela noite, seria este um argumento que ainda esteja em antepenúltima analise, não tão provável que os evolucionistas se esqueceram dos mineradores, estes estros seres que habitam os subterrâneos úmidos e mal iluminados, ou pela simples possibilidade de ver o dia na perspectiva do dia, com a exceção, pelo santificado vosso sono, das seis ou sete horas que terias para descansar. Aqui já bem menos aproveitas pela sujeição escravista de poder ver e sentir três ou três horas e meia da luz sola, mesmo estando estas em vespertino dos mais neblinados, concordando no ditado recém-inventado, se fartasse nos prazeres dos dias chuvosos é porque sempre vivestes nas trevas. Talvez este tenha sido este seu meio para chegar aos que estava em molduras de destino, propositadamente, calculado como um estratagema dentro do sistema de estratégias que é feito os interesses recíprocos. Colocou poucas horas de luz do dia como compensação. Carregava a inquietude de saber, dentro das equações assim feitas por estatísticos da empresa de mineração, que as expectativas, melhor ponderando, a contagem regressiva para as incertezas se os mineiros iriam viver ou não até suas respectivas e merecidas aposentadorias. Uma incerteza não é menos nem mais que um reticente comendador de provisões, uma aliada da cautela, e também, uma antítese onde a claridade da certeza não penetra. De fato, antes de existir as felicitações de uma certeza deve existir a obscuridade das incertezas. Não há vencedores nessa oscilação de retóricas. O minerador sabia, pela retórica da certeza, que os dados estatísticos sobre as expectativas de vida dos operários eram incertos. Se iria morrer os subterrâneos da CP Metais, antes, iria desfrutar de poucas horas ao sol; tentar esquecer que existia uma noite, pois este já deverias está farto de tanta escuridão na mesma proporção que recebia o avisos para os manutenções que iria fazer durante seu turno. E para estes estavam voltados sua total atenção.
       Não demoraria muito até o por do sol e o inicio do expediente. O veiculo que recolhia os mineradores aproximava com o ruído do motor e junta a este uma ligeira vazão de fumaça que saia dos escapamentos laterais que se erguiam acima da cabine. O homem que conduzia o veiculo, seja por familiaridade ou simples impulso comunicativo, avisava com antecedência das distorções ocorridas no sistema de máquinas. Mas ansioso esta para contar sobre veios recém-descobertos e que deixaram todos que estavam presentes no momento, estáticos. Um veio cuja luminosidade da calcopirita se estendia por quilômetros de galerias, aonde se tinha uma impressão e expectativa de terem descoberto uma nova paisagem subterrânea. Mas aqui, neste fragmento de relato de rápida viagem, não despertava grandes interesses no mineiro. Este, tão acostumado com todas aquelas galerias de paredes esmaltadas com sulfeto de cobre que não demorou mais do que alguns segundos para se sua concentração se atenuasse para o problema em voga. Qual seria a melhor maneira de terminar de resolver os trabalhos com o recorrente problema. Pois o maquinário mais antigo e mais propício a apresentar defeitos era sempre colocado nas galerias mais profundas. Visto que livros de esquematização do maquinário ainda não tinham sido absorvidos por completo. Ao ver o núcleo residencial se afastando não conseguia para de pensar em duas questões; por que deixou de meditar sobre sua vida fora dos subterrâneos e por que não conseguia para de pensar na vida dentro das gigantescas galerias das minas. Por mais aproximação tenham estas duas questões, estava meditando sobre duas vidas totalmente diferentes. Uma que vai e outro que submerge. Como uma moradia em um mausoléu de paredes ornamentadas de verde de sulfeto de cobre. Passava em seus pensamentos este fragmento, esta parte de sua vida ainda desconhecida, certamente existia uma terceira vida, a vida em seus pensamentos, onde morria, onde a morte lhe escapava, onde a morte lhe desejava, onde ele desejava a morte dos pensamentos. O núcleo residencial desaparecia por completo, talvez fosse isso, uma terceira vida que transcorria entre o núcleo residencial e os portões da CP Metais. Já não era mais dia, e fumaça dos escapamentos se misturava com a paisagem noturna, e a estas, também, não podiam ver os resíduos grassos de carbono, jogados através das chaminés das fundições. Antes mesmo do veiculo estacionas, um funcionário se encontrava próximo ao acostamento, com prancheta em punhos, de fisionomia circunspecta, a esperar algo ou alguém, que deveria ser esta sua função desde muito tempo naquela empresa. Era o supervisor que tão pouca estima tinha pelo minerador, e que nunca hesitou em demonstrar tamanha aversão; a excessiva exigência quanto suas obrigações, que desde já, citemos de passagem, as leis de obediência dos antigos feudos sempre nos foram legadas, subtraído apenas o posicionamento das divindades, que não se encontram mais nos altares de um vassalo, mas sim, na dispersa lista de operários de patrões contida nos arquivos do escrito administrativo da empresa. É por fato não consumado que a as relações de suserania e vassalagem tenha transpassado os séculos, evoluindo e moldando-se até cominarem no mesmo regime de obediência servil, ponderando, é claro, a existência das relações trabalhista. Onipresença quântica sempre ensaiada através das titulações, códigos numéricos e a assinaturas em lacunas pré-concebidas. Pois não muito distas colocamos nosso nossa alma nas linhas de um documento, dado em sua carteira de trabalho que solipcismo geocêntrico nunca deixou de ser a melhor via para a observação das relações subordinativas, se é existe, realmente, na subjacência do espirito outra via, não se conhece. O minerador sempre deixou em evidencia, através de suas reações silenciosas, para aquele supervisor de poucos elogios, que não irai se irritar pelas excessivas tentativas de esboçar conflitos. Viver naquelas galerias subterrâneas seis horas por expediente, fracionados em sete dias por semana, trinta dias por mês e trezentos e sessenta e cisco dias por anos, dentro desta estranha organização de tempo que os ajustes das partículas da criação do universo não presumiu que existiria. Provavelmente o minerado não parou de imaginas que até o dia de sua aposentadoria não representaria nada mais que um aglomerado de moléculas de carbono na infinidade cósmica, ou um nome representado por um código numérico em uma lista de códigos numéricos devidamente acomodados em alguma gaveta empoeirada no escritório administrativo daquela empresa, local onde, provavelmente, jamais iria conhecer. E isso pouco importarias, já que em suas obrigações conhecer os pormenores que regiam as lógicas das evoluções do universo, mas as normas que eram exigidas pelo departamento de segurança; o uso constante de capacete, cinto de ferramentas, botas, uniforme da empresa e as devidas cautelas no manuseio das máquinas, o seria de uma empresa se seus funcionários não cuidassem do aparato que manteria vivo seu funcionamento.
        Recebeu ordens sobres e orientações sobre as prospecções das galerias recém-descobertas. Visto que o motorista da condução dos operários já havia alarmado a vultosa novidade, que em si, já não lhe causava mais espanto.                                                                                                                                                                   A esteira que conduzia os triaques até o elevador apresentava um defeito aparentemente simples, nenhum defeito é simples, diria aqueles técnicos mais responsáveis com o papel presar aos valores de suas: um barulho que incomodava todos na sala de produção. Sem saber quanto tempo levaria para os ‘remodulares’ diagnosticassem se aquele ruído era algo de imediato conserto ou uma breve paralisia no abastecimento do elevado de superfície. Com aparência descartada pela avidez do trabalho daquelas horas, ainda não tinha terminado de conduzir os novos auxiliares que iriam efetuar a manutenção dos exaustores do teto frontal. Reclamava para o nada das péssimas condutas dos supervisores das esteiras. Antes, mais incluídos nas operações de manutenção, naqueles instantes, reticentes e imóveis, ao perpetuo abastecimento dos elevadores 35 e 36. Mas esta conduta de fluxos contínuos de blecautes de memória parecia se agravar cada vez mais nos supervisores das esteiras. Os lapsos de esquecimentos condizentes a norma 308 do livro “Importância do funcionamento da esteira” comprometia uma das tarefas mais importantes ditadas pelos Receptores de triaques: “não permitir que a esteira pare de funcionar”. Mas para os mineradores a manutenção dos exaustores de ar. Por emblemático hábito de destinar-se as horas de uma tumba tendo como adorno em sua paredes o minério de cobre que a natureza forjou por milhares de anos e que será reforjado com as altas temperaturas das fornalhas das fundições. Ainda existem no cerne da terra estas cidadelas no qual se tem pouco conhecimento, ou poucos intentos de se conhecer. A imaginação inventou os seres invisíveis, as substâncias que transformam as substâncias dos objetos e coisas, invisíveis, os pensamentos são sempre invisíveis, o que diriam das conveniências pudicas, aquelas que sempre escondemos, porque existem regras e estas consistem sempre em não serem vistas. O minerador sabia que seu único conterrâneo dentro daquela escuridão iluminada apenas pela fraca luminosidade dos florescentes lâmpadas de gás e pela lanterna em seu capacete, era não menos que ele mesmo. Mas deixar aos recantos do inconsciente o sistema de companheirismo existente desde o dia que começou a trabalhar naquelas galerias subterrâneas, um ‘desmundo’ que ele conhecia.
    O supervisor de imediato o colocou junto as suas responsabilidades do turno, visto que, intuitivamente, era um pedido desnecessário. Lembrava-se dos relatos que escutou na trajetória para o trabalho, e da cenas que transcorria, percebia as paisagens que antes escapavam de seus olhos. Percebia que estia uma terceira natureza, e naquele instante lembrou que vivia em algum ponto no universo. Perdeu-se em seus próprios pensamentos. Destes que o fazia tornasse minúsculo, destes que fazem sentido fazia ser um servo, a cumprir todas aquelas funções exigidas por um supervisor de poucos amigos, a resignar-se em imaginar como seria passar todos aqueles anos vendo o sol, naquele pálido horizonte, morrendo, deixando em seu rastro o escurecer e as sombras que cobria do a paisagem em suas volta.
       Enquanto descia através do elevador até as galerias mais profundas, era avisado sobre a falta de iluminação elétrica, não houve tempo para fazerem as devidas instalações, e que estavam utilizando lamparinas de querosene. Deveria se acostumar até a instalação da iluminação elétrica. Os tunes estavam mal iluminados. Avisou ao supervisor que não haveria condições de trabalhar em meio aquela escuridão. Enquanto espera a vinda dos outros mineradores, sozinho, naquele silêncio quebrado apenas pelo gotejar da umidade que se concentrava no teto. Sentou para descansar em colchão em trapos que algum dos operários deveria ter colocado ali, para desfrutar de algum desgarrado sono. Sono este que ele próprio não escapou de sentir, e logo, pelo cansaço da espera, cochilou em desmaio, sem perceber.                                                                 
      Acordou no meio da madrugada com o barulho das máquinas, alguém lá em cima lembrou-se de ligar os exaustores. Levantou do colchão em trapos com brusquidão, medo de uma repentina aparição daquele supervisor ranzinza.  O relógio marcava 2:40, se firmando no desconforto daquelas galerias, num lugar aonde noite nunca iria terminar, assim como a natureza as programou. Ao corpo do minerador a sensação de atordoamento corria como um típico que ainda o incomodava. Costumeiramente uma leve umidade provocada por suor era secada por uma calma brisa que aos poucos ia sendo injetada através das entradas de ar. Decidiu investigar sobre os relatos que ouviu a respeitos daquelas galerias. Desceu as escadarias de rochas húmidas, tateava com as pontas dos dedos as paredes que não eram vistas, até sentir a aproximação dos primeiros feixes de luzes.       
       Começou a fazer sentidos à descrição do motorista, será um grande espaço de silêncio das galerias de uma mina subterrânea, naquele instante que já não existe mais os a turbulência de seus pensamentos. Os corredores estreitos, onde as paredes se afunilavam e enlanguescia a cada metro que o minerador percorria. Existia luz, retidas, quem sebe, pelas texturas das paredes cobertas pelo sulfeto e cristais, instantes o foco da visão ajustava para um verde, em outro para o azul, em outro para o violeta, em outro para um brilho quimérico cuja definição não havia. Suas mãos rosavam as texturas como descobrindo um novo tatear para as mãos, como se aquele mausoléu que antes o era agora, pelo estranhamento dos sentidos, se tornou familiar. Já não sentia mais os sintomas ondulares, nem vertigem, nem vômitos, os sulfetos naquela parte eram em cristais enterrados na própria rocha. Ouviu um pequeno estrondo vindo superfície. A terra tremia violentamente. E sob seus pés o chão daquela gruta recém-descoberta, emanada de cristais desabava repentinamente. Seu corpo era fincado nas pontas dos cristais, e ele ao seu sangue escorrer naquelas formas geométricas, desmanchava-se como um servo do subterrâneo. O que restaria agora, se não esquecê-lo. Sempre existirão servos e sempre existirão geometrias. 


                                                                                                        

                                                      Edson Moura em 08/08/2012

domingo, 7 de julho de 2013

Corrosão

-- Acordei sob o olhar atento e fruído do demônio,  costumeiramente. Este olhar que todos chamam de fruto doce da ociosidade, de preguiça, de tranquilidade demoníaca. Senti esse medo: o de não se colocar sob os olhos do demônio  Este que não conheço, mas que me deixa inquieto, que contemplo sem agir, sem o action moderno. Sim. Me sito preguiçoso quando essa personagem de meu imaginário vem a compartilhar sua presença. Essa áurea que embriaga. Sinto seus efeitos peremptórios, que me fazem desistir de minha escravidão elucidada por uma ilusão de labutar a cada segundo. Minha contemplação dormia, dormia num sono sem sentido. Labore o silêncio e irão condenar-lhe as parábolas da improdutividade das palavras, labore a falácia e irá esquecer o que existe para ser colhido. O demônio que surgia e me olhava atento, me avisava sobre existência, me avisava sobre o que seria exigido. O demônio que surgia me alertava os perigos de estar escravo sob esses olhos da inreflecção; que penso pouco e trabalho muito. O demônio que surgia me alertava que estava a deixar de existir. Mas irão afirmar: é só um demônio preguiçoso, que ele está corroendo sua maneira ativa de ser. Irão me alerta: escravidão é uma não verdade que nunca deixará de ser escravidão.   


                                                                        Edson Moura em 11/03/2006