Novembro - Capítulo X

 

X

 

A Associação Costantini, que nascera como uma ideia quase abstrata, uma daquelas ideias que se lançam ao ar numa noite de insónia e que, na manhã seguinte, já não parecem tão boas, ganhou, nos meses que se seguiram à sua fundação, uma concretude que me surpreendeu, a mim que sempre desconfiara das instituições e que vira, ao longo de uma carreira inteira passada no Departamento de Amparo Social, como as melhores intenções se desfaziam no labirinto da burocracia, como os projetos mais generosos se corrompiam ao contacto com o poder, como as pessoas, quando se organizavam, tendiam a reproduzir as mesmas hierarquias, as mesmas injustiças, as mesmas mesquinhices que diziam combater. Mas a Associação, talvez por ser pequena, talvez por ser nova, talvez por ser fundada sobre a dor e não sobre a ambição, escapou, pelo menos durante aqueles primeiros tempos, a essa maldição, e cresceu com a vitalidade das coisas que nascem de uma necessidade genuína, como uma planta que, contra todas as probabilidades, encontra uma fenda no betão e lança raízes, e floresce, e dá frutos, desafiando a esterilidade do solo onde foi plantada.

 

O sótão de Érica, que durante anos fora o seu refúgio de investigadora solitária, o seu mosteiro laico onde ela se dedicava, com a paciência de uma monge copista, à leitura e à anotação dos textos de Costantini, transformou-se, gradualmente, num centro de acolhimento, num lugar de encontro, numa sede improvisada onde as estantes de livros conviviam com as cadeiras desirmanadas que trazíamos de nossas casas, com os cartazes que alguém desenhara à mão e pendurara nas paredes, com os panfletos que distribuíamos nas ruas e nas escolas e nos hospitais, panfletos que não falavam de prevenção do suicídio com a linguagem asséptica dos organismos oficiais, mas que usavam as palavras dos próprios sobreviventes, as palavras de Miguel, de Helena, de Lúcia, de todos os que tinham estado à beira do abismo e que, de algum modo, tinham conseguido recuar, ou tinham sido empurrados para trás pela mão de alguém que, no momento certo, lhes estendera um café, um cobertor, uma escuta.

 

A Associação organizava-se em torno de três eixos, que Érica, com o seu gosto pelas classificações, definira numa tarde de brainstorming coletivo, daquelas tardes que se prolongavam pela noite dentro e em que todos falavam ao mesmo tempo e as ideias se atropelavam umas às outras como crianças que correm para o recreio. O primeiro eixo era o da presença, que consistia na continuação e na ampliação das vigílias, não apenas no Viaduto de Santa Cruz do Calvário, mas noutros pontos da cidade que a cartografia de Costantini identificara como lugares fatais, essas zonas de concentração de suicídios que o velho professor mapeara com a precisão de um geógrafo e que nós, agora, percorríamos como quem percorre as estações de uma via-sacra, com a diferença de que a nossa via-sacra não celebrava a morte, mas a vida, e não procurava a redenção no além, mas no aquém, no aqui, no agora, na mão que se aperta, no olhar que se cruza, na palavra que se diz e que, ao ser dita, quebra o silêncio que precede o salto.

 

O segundo eixo era o da memória, e consistia na recolha, na preservação e na divulgação dos testemunhos dos que tinham partido e dos que tinham ficado, não como quem coleciona troféus mórbidos, mas como quem constrói um memorial, um monumento imaterial que honrasse os mortos não pela forma como morreram, mas pela forma como viveram, e que servisse, ao mesmo tempo, de advertência para os vivos, de prova de que o suicídio, por mais que fosse apresentado como um ato de libertação, era sempre uma derrota, uma ferida que se abria na carne da comunidade e que nunca cicatrizava completamente. Helena, que se tornara a guardiã desse arquivo, dedicava-lhe as horas que o seu trabalho de professora lhe deixava livres, e o seu apartamento, um terceiro andar numa rua tranquila do bairro antigo, enchera-se de caixas e de pastas e de cassetes, como o apartamento de Tobias se enchera com os papéis de Lúcia, e eu pensava, ao visitá-la, que a cidade estava cheia desses arquivos domésticos, desses museus da dor que as famílias construíam em segredo, como se a dor, quando guardada, se tornasse suportável, ou como se a memória, quando organizada, perdesse um pouco do seu veneno.

 

O terceiro eixo, e este era o mais ambicioso e o mais difícil, era o da contra-narrativa, e consistia na produção de um discurso alternativo ao discurso dominante que circulava nos fóruns e nos vídeos e nas redes sociais, um discurso que não estetizasse a morte, que não a romantizasse, que não a apresentasse como uma obra de arte, mas que também não a demonizasse, que não a escondesse, que não a transformasse num tabu. Era um equilíbrio difícil, quase impossível, e muitas foram as discussões que tivemos sobre como alcançá-lo, sobre que palavras usar, que imagens mostrar, que tom adotar, porque a linha que separava a denúncia do espetáculo e a sua reprodução involuntária era tão ténue que, por vezes, a pisávamos sem dar por isso, e só nos dávamos conta do erro quando já era tarde, quando alguém nos apontava que um dos nossos panfletos, uma das nossas publicações, uma das nossas intervenções públicas, continha, afinal, a mesma estética que pretendíamos combater, a mesma fascinação pelo abismo, a mesma sedução pela imagem do corpo que cai.

 

Miguel, que desde a sua primeira noite no viaduto se tornara uma espécie de discípulo, de filho adotivo, de irmão mais novo de todos nós, revelou-se, neste terceiro eixo, um colaborador inestimável, precisamente por ser a pessoa que estivera do outro lado, que consumira os vídeos, que frequentara os fóruns, que sentira na pele o fascínio do abismo e que, de algum modo, ainda o sentia, como um alcoólico que deixou de beber mas que nunca deixou de sentir a sede. Era ele quem nos ajudava a compreender o que atraía os jovens como David, o filho de Helena, para aquela cultura de morte, que palavras os seduziam, que imagens os fascinavam, que argumentos os convenciam, e era também ele quem nos ensinava, com a humildade de quem sabe que a sua cura é sempre provisória, que a luta contra o fascínio do abismo não se ganhava de uma vez por todas, mas se travava todos os dias, todas as horas, todos os minutos, como uma maré que sobe e desce e que é preciso vigiar constantemente, porque o perigo não estava no mar, mas na distração do vigia.

 

Foi Miguel quem nos sugeriu, numa das reuniões da Associação, que não nos limitássemos a denunciar os vídeos e os fóruns e as redes sociais, mas que usássemos as mesmas ferramentas, as mesmas plataformas, a mesma linguagem, para fazer passar uma mensagem diferente, uma mensagem que não falasse de morte, mas de vida, que não mostrasse o salto, mas o passo atrás, que não glorificasse o fim, mas celebrasse a continuação. A sugestão foi recebida com ceticismo, como eram recebidas todas as sugestões de Miguel, que ainda carregava o estigma de ter sido um espetador fascinado e que, por isso, era visto por alguns, sobretudo pelos que se tinham juntado à Associação mais recentemente e não o conheciam bem, com uma desconfiança que ele próprio compreendia e aceitava, como se aceita uma cicatriz, como um lembrete de que o passado não se apaga. Mas Érica, que tinha um faro infalível para as boas ideias, mesmo quando vinham de fontes inesperadas, agarrou a sugestão de Miguel e desenvolveu-a, com o seu rigor de sempre, num projeto que chamámos, com um nome que era uma homenagem a Costantini e à sua frase sobre a janela e o palco, Janelas Abertas, e que consistia numa série de vídeos, curtos, de cinco ou seis minutos, que seriam publicados nas mesmas plataformas onde os vídeos de suicídio circulavam, mas que, em vez de mostrarem corpos a cair, mostrariam rostos, vozes, histórias de pessoas que tinham estado à beira do precipício e que, por uma razão ou por outra, tinham recuado.

 

A produção desses vídeos, que ocupou grande parte do nosso tempo durante os meses que se seguiram, foi uma das experiências mais exigentes e mais gratificantes de toda a minha vida, uma experiência que me obrigou a aprender coisas que nunca imaginara aprender, coisas como iluminação, enquadramento, montagem, sonoplastia, todo um vocabulário técnico que eu, funcionário público envelhecido na rotina dos processos e dos carimbos, jamais sonhara dominar, e que agora dominava, não com a perícia de um profissional, mas com a competência suficiente de um amador dedicado, que era, aliás, o que todos nós éramos, amadores, no sentido etimológico da palavra, pessoas que faziam o que faziam por amor, não por dinheiro, não por fama, não por reconhecimento, mas por uma necessidade interior que não se explicava, apenas se sentia.

 

Os protagonistas dos vídeos eram os membros da própria Associação, que se voluntariavam para dar o seu testemunho, para contar a sua história, para mostrar o seu rosto, e cada gravação era um ato de coragem que me comovia até às lágrimas, porque eu sabia, por conhecer essas pessoas intimamente, o que lhes custava expor-se daquela maneira, abrir as suas feridas diante de uma câmara, falar das suas tentativas de suicídio, das suas ideações, das suas noites de desespero, e fazê-lo não para se vitimizarem, não para se gloriarem, mas para ajudar outros, outros que estavam agora onde eles tinham estado e que precisavam de ouvir, de alguém que tinha passado pelo mesmo, que a saída existia, que o túnel tinha fim, que a luz ao fundo não era a de um comboio que se aproximava, mas a do sol que nascia depois da noite mais escura.

 

Helena foi a primeira a oferecer-se, e o seu testemunho, que gravámos no seu apartamento, rodeados pelas caixas de papéis do filho, foi de uma crueza que nos deixou a todos em silêncio durante vários minutos depois de a câmara se desligar. Falou de David, da sua inteligência, da sua sensibilidade, da sua paixão pela fotografia, e falou também da sua própria cegueira, da sua incapacidade de ver o que estava à frente dos seus olhos, dos sinais que o filho lhe dera e que ela não soubera interpretar, e disse, com uma voz que não tremia mas que estava carregada de uma tristeza tão densa que parecia uma substância física, uma substância que se podia tocar, que o seu testemunho não era um ato de expiação, que ela não acreditava na expiação, mas um ato de amor, um amor que a morte não interrompera e que agora se dirigia a outros filhos, a outros Davids, a outros jovens que estavam a ser seduzidos pela mesma cultura que seduzira o seu, e que ela, se pudesse salvar um só, um único, sentiria que a morte do seu filho não tinha sido em vão, que havia, no meio de tanto absurdo, um sentido, por mais frágil que fosse.

 

Miguel também deu o seu testemunho, e o dele, ao contrário do de Helena, que era sereno e contido, foi um testemunho agitado, quase febril, como se as palavras lhe saíssem aos borbotões, como se tivesse estado a reprimi-las durante muito tempo e agora, diante da câmara, as deixasse fluir sem filtro, sem censura, sem vergonha. Falou da sua obsessão pelos vídeos, do seu fascínio pelo abismo, das noites que passara no viaduto, sozinho, a olhar para o vazio e a imaginar o salto, e falou também do momento em que nos encontrara, a Érica e a mim, sentados no banco com as nossas canecas de café e os nossos cobertores, e de como esse encontro, que poderia ter sido banal, que poderia ter sido apenas mais uma noite de insónia, se tornara o momento de viragem da sua vida, o momento em que percebera que não estava sozinho, que havia outras pessoas que sofriam como ele, que havia uma comunidade, uma família, um lugar onde a sua dor era reconhecida e acolhida, e que esse reconhecimento, esse acolhimento, tinham sido mais poderosos do que o apelo do abismo, mais poderosos do que a sedução do espetáculo, mais poderosos do que a voz que sussurrava no parapeito e lhe dizia para saltar.

 

O testemunho de Miguel, uma vez publicado, teve um impacto que nenhum de nós antecipara. Em poucas semanas, o vídeo foi visto por dezenas de milhares de pessoas, partilhado, comentado, discutido, e se muitos dos comentários eram de apoio, de gratidão, de solidariedade, também os havia, e eram muitos, de escárnio, de desprezo, de acusações de fraqueza, de cobardia, de autocomiseração, os mesmos comentários que apareciam nos vídeos de suicídio, a mesma crueldade anónima, a mesma linguagem de ódio, e isso, em vez de nos desanimar, confirmou-nos que estávamos no caminho certo, que tínhamos tocado num nervo, que a nossa mensagem, por ser incómoda, por ser desafiante, por ser o contrário do que a cultura do espetáculo promovia, provocava reações, e que uma mensagem que não provoca reações é uma mensagem que não serve para nada.

 

Os meses que se seguiram foram de uma intensidade tal que, quando olho para trás, me custa a crer que tenham sido vividos por mim, por este mesmo corpo que agora se senta diante da secretária e escreve, com uma letra que a idade tornou mais trémula, as palavras que compõem este relato. A Associação cresceu, e com o crescimento vieram os problemas que o crescimento sempre traz: as divergências internas, as lutas de poder, as acusações de protagonismo, as feridas de orgulho, as palavras ditas em momentos de cólera que depois não se podiam retirar, porque as palavras, uma vez ditas, são como as pedras que se atiram a um lago, afundam-se mas deixam ondas que se propagam muito depois de a pedra ter desaparecido. Houve quem quisesse profissionalizar a Associação, quem quisesse obter financiamentos, quem quisesse estabelecer parcerias com instituições públicas e privadas, e houve quem, como eu, resistisse a essa institucionalização, com o argumento de que a força da Associação residia precisamente na sua precariedade, na sua informalidade, na sua independência, e de que, ao tornar-se uma instituição, a Associação se tornaria naquilo que combatia, uma máquina de produzir discursos, de gerir recursos, de administrar a dor como se administra uma empresa.

 

Érica, que era a alma da Associação, o seu centro gravitacional, a pessoa a quem todos recorriam quando as discussões se tornavam demasiado acesas e era preciso alguém que pusesse ordem no caos, mediava estes conflitos com uma paciência que eu não sabia que ela tinha, uma paciência que, suspeito, aprendera na sua longa convivência com os textos de Costantini, esses textos que ninguém lia e que, no entanto, continham uma sabedoria que só agora, anos depois de terem sido escritos, começava a ser reconhecida. Dizia ela, com aquela sua maneira de falar que era ao mesmo tempo firme e doce, que a Associação não era um fim em si mesma, mas um meio, um instrumento, e que o importante não era a Associação, mas as pessoas, as vidas que se salvavam, as dores que se acolhiam, as histórias que se contavam, e que, se a Associação um dia se tornasse um obstáculo a esse objetivo, então que se extinguisse, que se dissolvesse, que se desfizesse como se desfaz um castelo de areia quando a maré sobe, porque o que ficava, o que tinha de ficar, era a memória do que tínhamos feito, e essa memória, por mais efémera que fosse, era a nossa verdadeira obra, o nosso legado, a nossa herança.

 

Foi por essa altura que recebi, no meio da papelada que se acumulava sobre a minha secretária do departamento, uma carta que me deixou perplexo, uma carta com o selo da Câmara Municipal e a assinatura do vereador da cultura, um homem que eu não conhecia e que, aparentemente, me conhecia a mim, ou julgava conhecer, e que me convidava, com uma cortesia que me pareceu suspeita, para uma reunião onde se discutiria, dizia a carta, a possibilidade de uma colaboração entre a autarquia e a Associação Costantini no âmbito de um projeto de arte pública a desenvolver no Viaduto de Santa Cruz do Calvário. A carta, que li e reli várias vezes, tentando decifrar as entrelinhas, deixou-me com uma sensação de desconforto que não conseguia explicar, como se a proposta, por mais lisonjeira que fosse, escondesse uma armadilha, uma tentativa de instrumentalização, de cooptação, de transformar a nossa causa numa causa oficial, a nossa dor num espetáculo institucional, a nossa revolta num produto cultural.

 

Levei a carta a Érica, que a leu com a mesma expressão de desconfiança com que eu a lera, e discutimos longamente o que fazer, se aceitar a reunião, se recusá-la, se ignorá-la, e pesámos os prós e os contras com a meticulosidade de quem sabe que uma decisão errada pode deitar tudo a perder, todo o trabalho de anos, toda a confiança que construíramos junto das pessoas que recorriam a nós, toda a credibilidade que conquistáramos a pulso, contra o ceticismo dos académicos, a indiferença das instituições, a hostilidade dos que nos acusavam de sermos uns sentimentalistas, uns moralistas, uns inimigos da liberdade de expressão. Decidimos, por fim, que iríamos à reunião, não para aceitar fosse o que fosse, mas para ouvir, para perceber o que a Câmara pretendia, e para deixar claro, desde o primeiro momento, que a Associação não se deixaria instrumentalizar, que a nossa colaboração, se alguma vez existisse, seria nos nossos termos, e que os nossos termos eram a fidelidade à memória dos mortos e o respeito pela dor dos vivos, valores que, estávamos convencidos, não cotavam nas bolsas da política municipal.

 

A reunião, que teve lugar numa sala fria e impessoal dos paços do concelho, com uma mesa de mogno polido onde nos sentámos de um lado, como suplicantes, e o vereador e os seus assessores se sentaram do outro, como juízes, foi uma confirmação das nossas piores suspeitas. O vereador, um homem de sorriso fácil e palavras ainda mais fáceis, daqueles que falam em parcerias estratégicas e sinergias criativas e diálogo com a comunidade como se estivessem a recitar um manual de marketing político, explicou-nos que a Câmara estava a planear uma intervenção artística no Viaduto de Santa Cruz do Calvário, uma intervenção que, nas suas palavras, ressignificasse o local, que o libertasse do estigma que o peso das mortes acumuladas lhe conferira, e que a participação da Associação, com o seu conhecimento do terreno e a sua ligação às famílias das vítimas, seria um contributo inestimável para o sucesso do projeto. Quando lhe perguntámos, com a ingenuidade de quem ainda acredita que as palavras significam alguma coisa, em que consistia exatamente essa intervenção, ele respondeu, sem se perturbar, que a ideia era convidar um artista de renome internacional, um artista que trabalhava com instalações e performances, para criar uma obra que integrasse a memória dos que partiram numa experiência estética transformadora, e que essa obra, uma vez concluída, atrairia turistas, geraria receitas, poria a cidade no mapa da arte contemporânea, e, ao mesmo tempo, dissolveria a aura de tragédia que envolvia o viaduto, transformando-o, de lugar de morte, em lugar de vida, de cultura, de beleza.

 

A resposta de Érica, que ouvi com o coração aos saltos, foi de uma clareza e de uma contundência que deixaram o vereador momentaneamente sem fala, o que, para um político profissional, é um feito considerável. Disse ela, com uma voz que não elevou mas que se tornou, por isso mesmo, ainda mais incisiva, que o viaduto não era um lugar que precisasse de ser ressignificado por um artista qualquer, por mais renome internacional que tivesse; que o viaduto já tinha um significado, um significado que lhe fora conferido pelas dezenas de pessoas que ali morreram e pelas centenas que as choravam; que esse significado não era belo, não era turístico, não era rentável, mas era real, era autêntico, era sagrado, e que transformá-lo numa instalação artística, numa atração cultural, num espetáculo, era exatamente o mesmo tipo de espetacularização que tínhamos combatido durante todos aqueles anos, só que agora promovida não por anónimos na internet, mas pela própria Câmara Municipal, com a agravante de que a Câmara, ao contrário dos anónimos, tinha poder, tinha dinheiro, tinha legitimidade, e que a sua legitimidade, em vez de ser usada para proteger os vulneráveis, estava a ser usada para lucrar com a sua morte.

 

O vereador tentou ainda argumentar, com aquele tom condescendente que os políticos usam quando querem acalmar os ânimos, que a arte tinha o poder de curar, que a beleza podia redimir o sofrimento, que a intervenção artística era, no fundo, uma homenagem, uma celebração, uma forma de manter viva a memória dos que partiram. Mas Érica, que não se deixava embalar por palavras bonitas, respondeu-lhe que a melhor homenagem que se podia prestar aos mortos não era transformar o lugar da sua morte num parque temático, mas sim preservá-lo como lugar de memória, de luto, de reflexão, e, sobretudo, continuar o trabalho que a Associação fazia, o trabalho de estar presente, de ouvir, de acolher, de prevenir, um trabalho que não dava lucro, que não gerava notícias, que não atraía turistas, mas que salvava vidas, e que, se a Câmara queria mesmo colaborar connosco, que colaborasse nesse trabalho, com meios, com recursos, com apoio logístico, e não com espetáculos de arte contemporânea que, sob o pretexto de homenagear os mortos, os profanavam.

 

Saímos da reunião com a sensação de que a guerra, que julgáramos travada nos fóruns e nas redes sociais, se travava agora num campo muito mais vasto, e de que o inimigo, que julgáramos conhecer, tinha muitas faces, algumas delas surpreendentemente próximas, surpreendentemente respeitáveis, surpreendentemente bem-intencionadas. Porque o vereador, e eu não duvidava disso, acreditava sinceramente que a sua ideia era boa, acreditava que a arte podia curar, acreditava que a beleza podia redimir, e era essa crença, essa convicção inabalável na sua própria bondade, que o tornava mais perigoso do que os cínicos, do que os cruéis, do que os indiferentes, porque os cínicos e os cruéis e os indiferentes, pelo menos, não se disfarçavam de salvadores, não se apresentavam como benfeitores, não pretendiam transformar a nossa dor num produto cultural com a desculpa de a estarem a curar.

 

A recusa da Associação, que foi noticiada nos jornais locais com um tom que oscilava entre a incompreensão e a crítica, valeu-nos uma vaga de ataques, de acusações de sermos uns radicais, uns puristas, uns inimigos do progresso, uns saudosistas que queriam manter o viaduto como um monumento à morte, como se a nossa vigília, a nossa presença, a nossa Associação, fossem uma celebração do suicídio e não uma luta contra ele. Mas valeu-nos também, e isso foi o que mais nos importou, o apoio silencioso dos que nos conheciam, dos que nos frequentavam, dos que sabiam, por experiência própria, que a dor não se curava com espetáculos, que a memória não se honrava com instalações artísticas, que a morte não se vencia com turismo cultural, e que o único antídoto para a espetacularização da morte era a presença, a escuta, a comunidade, a solidariedade, todas essas coisas que não davam lucro, que não saíam nos jornais, que não ganhavam prémios, mas que, no silêncio das noites de vigília, no vapor do café partilhado, no aperto de mão que se prolongava um pouco mais do que o costume, mantinham viva a chama que Costantini acendera e que nós, seus discípulos, tínhamos jurado não deixar apagar.

 

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