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A mão, agora, não é mais a mesma que desceu o pincel pela última vez. É uma mão que pousa sobre a mesa, uma superfície indiferente que não guarda memória dos gestos nem dos humores que a precederam. Os dedos abrem-se, lentamente, como se tivessem de aprender de novo a distância entre si, como se o espaço entre cada falange fosse um abismo que a consciência, por um instante, medisse sem esperança de o transpor. O pintor não se levanta. Continua de rosto voltado para a terra, mas os olhos, esses já não enxergam o chão vítreo, nem as raízes em forma de dedos, nem as bolhas que rebentam como lágrimas. Os olhos agora veem o avesso do que viram: veem a memória do céu rosa e amarelo antes que houvesse céu, olham a superfície do papel antes que a mancha lhe tocasse, veem o lugar vazio onde a mão ainda vai demorar-se, e veem, sobretudo, que esse lugar vazio é o único lugar onde o mundo, alguma vez, esteve a salvo de si mesmo. ...

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