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Ø

  Ø            Se há um momento em que o desespero já não se disfarça de angústia, nem se veste de melancolia, mas torna-se respiração, o sangue que circula porque esqueceu o caminho de parar. Nessa hora, o homem já não é um desesperado entre outros. É a própria matéria do desespero, um tecido tão fino que qualquer toque de esperança o rompe. E ele prefere o rasgo. Porque o rasgo pelo menos dói. A esperança, essa, é um vício de quem ainda conta os dias. Os médicos da consciência, se existissem, não prescreveriam remédio. Prescreveriam um espelho. Mas não daqueles que devolvem o rosto, desses, o desesperado já aprendeu a desviar o olhar. Prescreveriam o espelho que mostra as costas da própria imagem, aquilo que nunca se vê porque se está sempre virado para frente. E ali, nesse avesso sem forma, o desesperado reconheceria o que sempre soube: que não há fundo. Só há o gesto de afundar, repetido até que o gesto seja a única geografia. Há os q...

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