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Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão. Mas talvez o saber não fosse senão uma outra forma de não ver. Porque o que eu queria, em criança, não era propriamente uma explicação, dessas que os adultos guardam nos livros e repetem com paciência de quem já desistiu de espantar-se. O que eu queria era um instante roubado ao mundo, um segundo em que as coisas se esquecessem de mim tão profundamente que se mostrassem enfim como são quando não há ninguém. E isso, percebo agora, nunca acontecerá. Não porque as coisas sejam espertas ou maliciosas, mas porque a solidão de uma coisa é uma ideia que não suporta testemunhas. No momento exato em que alguém a observa, mesmo que por artifício ou por acaso, essa solidão desfaz-se, como se dissolve um sonho ao abrir-se a porta do quarto. Ainda assim, continuo a pensar nas tardes da minha infância, quando me escondia atrás do sofá da sal...



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