120 decibéis (dB)
Não sei ao certo se sou eu quem acorda antes do silêncio ou se é o silêncio quem desperta um instante antes de mim, para que eu possa, durante alguns segundos apenas, continuar acreditando que ainda pertenço ao mundo, e a verdade é que existe uma diferença quase imperceptível entre o momento em que abro os olhos e aquele outro em que a cidade se lembra de existir, uma diferença tão diminuta que talvez nenhum outro homem fosse capaz de percebê-la, mas que para mim representa o único intervalo suportável da realidade, um breve território onde a existência ainda não se converteu em agressão, onde o ar parece conservar uma pureza antiga, anterior às máquinas, anterior às vozes, anterior a essa estranha necessidade humana de preencher o vazio com sons, como se o silêncio fosse doença contagiosa e o barulho uma espécie de remédio inventado apenas para que ninguém tivesse de escutar a própria consciência. Permaneço imóvel durante esse curto...
.png)
