Novembro - Capítulo VII

 

 VII

 

O regresso à metrópole, depois da viagem a São Romão da Serra, teve qualquer coisa de um despertar brusco, daqueles despertares que sucedem a um sonho muito intenso e nos deixam, durante horas, com a sensação de que o sonho era mais real do que o quarto onde acordamos, do que a cama onde estamos deitados, do que a luz coada pelas persianas que anuncia o princípio de mais um dia. Durante os dias que se seguiram à visita a Costantini, e foram dias que se arrastaram com uma lentidão exasperante, como se o tempo, que na serra correra com a fluidez de um rio de montanha, tivesse estagnado ao chegar à cidade, transformando-se numa poça de água parada onde se refletiam, distorcidas, as imagens do que tínhamos vivido, eu não conseguia pensar noutra coisa senão nas palavras do velho professor, na sua distinção entre o espetáculo que aliena e o espetáculo que interpela, e na responsabilidade que ele depositara sobre os nossos ombros com a naturalidade de quem passa um testemunho, uma responsabilidade que eu aceitara sem hesitar, mas cujas implicações práticas ainda não conseguia medir em toda a sua extensão. A pesquisa, que até então fora, para mim, uma atividade paralela, uma espécie de segundo ofício que eu exercia nas horas vagas e nos fins de semana, tornou-se subitamente o centro da minha vida, o eixo em torno do qual tudo o resto gravitava, e o departamento, com os seus processos e os seus carimbos e as suas salas de espera, passou a parecer-me um cenário de cartão, uma fachada atrás da qual a verdadeira vida, a vida que pulsava nos cadernos de Lúcia e nas palavras de Costantini e nas perguntas de Érica, se desenrolava sem que ninguém, exceto nós, tivesse consciência dela.

 

Foi nesse estado de espírito, suspenso entre a exaltação da descoberta e a angústia da responsabilidade, que recebi, numa manhã em que a chuva fustigava as janelas do departamento com uma violência que parecia pessoal, como se o tempo estivesse zangado com a cidade e quisesse castigá-la, um telefonema de Érica que mudaria, uma vez mais, o curso da investigação. A voz dela, do outro lado da linha, tinha uma urgência que eu não lhe conhecia, uma urgência que não era a do entusiasmo intelectual, que essa eu já conhecia bem, mas a da inquietação, a do pressentimento, a da suspeita que se vai confirmando à medida que as peças se encaixam e que a figura que elas compõem se revela mais terrível do que se imaginara. Disse-me que precisava de me ver com urgência, que descobrira qualquer coisa nos papéis de Costantini, qualquer coisa que não estava nos livros publicados mas nas notas marginais, nos rascunhos, nas cartas que ele escrevera e nunca enviara, e que essa descoberta lançava uma luz nova, e perturbadora, sobre o caso de Lúcia, sobre o Viaduto de Santa Cruz do Calvário, sobre a própria cidade onde vivíamos e que, afinal, conhecíamos muito menos do que julgávamos. Marcámos encontro nessa mesma tarde, no apartamento dela, e desliguei o telefone com a sensação, que já se tornara familiar mas que nem por isso era menos desconfortável, de que o chão que eu pisava era mais frágil do que parecia, e de que, a qualquer momento, uma nova fenda se podia abrir sob os meus pés.

 

Cheguei ao sótão de Érica ao final da tarde, com a roupa encharcada pela chuva que não cessara e que transformara as ruas em rios de asfalto onde os carros avançavam com a lentidão dos barcos num porto, e encontrei-a debruçada sobre a sua mesa de trabalho, rodeada de papéis que eu não reconheci, papéis amarelados, de diferentes tamanhos e texturas, uns manuscritos, outros datilografados, outros ainda recortes de jornais tão antigos que o papel se desfazia ao toque, e todos eles cobertos de anotações a lápis, com a letra inconfundível de Costantini, uma letra miúda e inclinada, difícil de decifrar, que parecia ter sido escrita com pressa, como se o pensamento fosse mais rápido do que a mão e esta se visse obrigada a correr para o acompanhar. Érica levantou os olhos quando eu entrei, e o que vi neles, antes mesmo de ela dizer uma palavra, foi uma mistura de excitação e de medo, a excitação de quem encontrou uma pista que pode conduzir a algum lado, e o medo de que esse algum lado seja um lugar onde não se quer chegar, um lugar de onde não se pode regressar, um lugar que, uma vez visitado, nos transforma de tal modo que já não somos os mesmos que entraram.

 

Explicou-me, com a voz um pouco trémula, que passara os últimos dias a examinar o arquivo pessoal de Costantini, um arquivo que ela obtivera, anos antes, através de um contacto na universidade onde ele lecionara, e que guardara sem nunca o ter estudado a fundo, por uma espécie de respeito supersticioso, como se aqueles papéis contivessem uma revelação que ela não estava preparada para receber. O arquivo, disse ela, continha material que Costantini nunca publicara, e que talvez nunca tivesse tencionado publicar, reflexões demasiado íntimas, hipóteses demasiado arriscadas, especulações que roçavam o esotérico e que um académico prudente, por mais heterodoxo que fosse, preferia manter na gaveta. Entre esse material, havia uma série de cadernos dedicados ao que Costantini chamava, com uma expressão que me fez estremecer, a cartografia dos lugares fatais, um mapeamento minucioso dos locais onde, ao longo de décadas, se tinham verificado suicídios públicos na metrópole, com uma atenção particular aos viadutos, às pontes, aos pontos elevados que a cidade oferecia como palcos naturais para o espetáculo da morte voluntária.

 

Costantini, explicou Érica, não se limitara a registar os locais; registara também as datas, as horas, as condições meteorológicas, a idade e o sexo das vítimas, e, sempre que possível, o método utilizado e a presença ou ausência de testemunhas, de câmaras, de transmissões. E o que emergia desse registo, quando se olhava para ele com a atenção que merecia, era um padrão que, uma vez visto, se tornava impossível de ignorar: os suicídios não se distribuíam aleatoriamente pela cidade, como seria de esperar se fossem o resultado de decisões puramente individuais, mas concentravam-se em certos locais, em certas horas, em certas condições, como se obedecessem a uma lógica que não era a da psicologia individual, mas a de qualquer coisa de mais vasto e de mais obscuro, qualquer coisa que Costantini, nas suas notas, designava por o espírito do lugar, uma expressão que ele tomava de empréstimo aos antigos, que acreditavam que cada lugar tinha um génio, uma entidade tutelar que o habitava e que determinava o destino dos que ali viviam ou ali morriam.

 

O Viaduto de Santa Cruz do Calvário, disse Érica, e a sua voz baixou ainda mais, como se as paredes tivessem ouvidos, ocupava um lugar central nessa cartografia. Não era o local com mais suicídios, que esse título pertencia a uma ponte do outro lado da cidade, uma ponte de ferro construída no século dezanove e que, talvez por isso, exercia um fascínio romântico que os viadutos de betão não possuíam. Mas era o local, e era aqui que residia a descoberta de Érica, o local onde os suicídios apresentavam, de forma mais nítida e mais consistente, as características que definiam o que Costantini chamava de espetáculo total, uma forma de autoaniquilamento que conjugava todos os elementos da representação teatral — cenário, figurino, texto, público — e que parecia, aos olhos do investigador, menos um ato de desespero do que uma obra de arte mórbida, uma instalação efémera que utilizava o corpo como material e a cidade como galeria.

 

Mais perturbador ainda, e foi aqui que a voz de Érica se tornou quase inaudível, como se as palavras que ela se preparava para dizer fossem demasiado pesadas para serem pronunciadas em voz alta, era o facto de Costantini ter registado, ao longo de mais de trinta anos de observações, um fenómeno que ele chamava de contágio cenográfico, e que consistia na tendência de certos suicídios para imitarem, com uma precisão que não podia ser acidental, os detalhes de suicídios anteriores ocorridos no mesmo local. A posição exata de onde se saltava, a hora do dia, a cor da roupa, a forma como o corpo era deixado, tudo isto se repetia de caso para caso com uma fidelidade que excluía o acaso e que sugeria, pelo contrário, uma tradição, uma escola, uma linhagem de gestos que se transmitia de suicida para suicida, não por contacto direto, que os protagonistas não se conheciam entre si, mas através de qualquer outro meio, um meio que Costantini não conseguia identificar mas cuja existência os dados confirmavam de forma inequívoca. Era como se o próprio viaduto, com a sua estrutura de betão e aço, com a sua altura vertiginosa, com a sua vista desafogada sobre a cidade, exercesse uma influência sobre aqueles que o escolhiam, uma influência que não era física, que não era mensurável com instrumentos, mas que era real, tão real como o vento que soprava no parapeito e que parecia, nas palavras de um dos autoaniquilados que Costantini citava, chamar pelo nome de quem se debruça.

 

Esta revelação, que à primeira vista poderia parecer uma curiosidade académica, um detalhe para especialistas, tinha, para nós, implicações que iam muito além do interesse teórico. Porque se o Viaduto de Santa Cruz do Calvário era, como os dados de Costantini sugeriam, um lugar onde os suicídios se repetiam segundo um padrão reconhecível, então a morte de Lúcia não era um caso isolado, mas o elo de uma cadeia que se estendia no tempo, para trás e para a frente, uma cadeia de que ela talvez tivesse consciência, a julgar pela nota sobre a janela e o palco, e na qual se inscrevera com a deliberação de quem conhece a tradição e decide dar-lhe continuidade. E se havia uma tradição, uma linhagem, uma escola, então a pergunta que se colocava era: quem eram os outros? Quem eram os que, antes de Lúcia, tinham saltado do mesmo parapeito, com o mesmo cuidado na escolha da roupa, com a mesma preocupação com a luz e com o ângulo da queda? E quem eram os que, depois dela, continuariam a saltar, alimentando com os seus corpos a fome insaciável do viaduto, essa fome de que Costantini falava nas suas notas com uma metáfora que me gelou o sangue, a do viaduto que se alimenta de almas, como se a estrutura de betão fosse um ser vivo, uma entidade dotada de vontade própria, que exigia o seu tributo periódico de vidas humanas e que, quando não o recebia, se impacientava, como um deus antigo que reclama os seus sacrifícios?

 

Érica, que me observava enquanto eu processava estas informações, com o seu olhar clínico que não perdia nada, estendeu-me uma folha de papel, uma folha que ela própria preparara, onde tinha transcrito, numa tabela meticulosa, os dados que Costantini recolhera sobre o Viaduto de Santa Cruz do Calvário ao longo das décadas. Eram datas, nomes, idades, profissões, e, sempre que disponível, uma breve descrição das circunstâncias do salto, colhida em notícias de jornal ou em relatórios policiais. A tabela, que cobria um período de quase quarenta anos, continha mais de cinquenta entradas, e o que me impressionou, ao percorrê-la com os olhos, não foi tanto o número, que era elevado mas não inesperado, dada a dimensão da cidade e a altura do viaduto, mas a recorrência de certos pormenores, pormenores que não podiam ser explicados pela simples imitação mediática, porque muitos dos casos eram anteriores à era das redes sociais, anteriores até à televisão, e no entanto apresentavam semelhanças que desafiavam a probabilidade estatística. Vários dos suicidas tinham deixado cartas, e essas cartas, que Costantini transcrevera parcialmente, utilizavam um vocabulário comum, um vocabulário que falava de passagem, de travessia, de vento, de abismo, de voo, e que ecoava, de forma perturbadora, as palavras que Lúcia escrevera na sua própria carta, como se todos lessem o mesmo texto, como se todos repetissem a mesma liturgia, como se o viaduto, ao longo dos anos, tivesse gerado a sua própria mitologia, o seu próprio cânone, a sua própria linguagem.

 

E havia mais, disse Érica, e a sua mão, quando me passou outro documento, tremia ligeiramente, um tremor que ela tentava controlar mas que a traía, revelando uma emoção que as suas palavras, sempre tão medidas, se esforçavam por esconder. Entre os papéis de Costantini, ela encontrara uma referência a um caso que lhe parecera estranhamente familiar, um caso de uma mulher que se lançara do Viaduto de Santa Cruz do Calvário num dia de setembro, há precisamente vinte e três anos, e que deixara uma carta onde pedia, exatamente como Lúcia, que o seu corpo fosse recolhido com um lençol branco e que os seus sapatos lhe fossem retirados, para que chegasse descalça ao outro lado. A coincidência era demasiado precisa para ser acidental, e no entanto as duas mulheres não se conheciam, não podiam conhecer-se, porque uma morrera quando a outra era ainda uma criança, e a carta da primeira nunca fora publicada, nunca saíra do arquivo policial onde Costantini a consultara, anos depois, no âmbito da sua investigação. Como explicar então que Lúcia, vinte e três anos mais tarde, repetisse não apenas o gesto, mas as palavras, os pormenores, as exigências? Que fio invisível ligava as duas mulheres através do tempo, através da morte, através do próprio viaduto que as acolhera e que, de algum modo, as unira?

 

Esta pergunta, que Érica formulou em voz alta com a angústia de quem pressente uma resposta que não quer ouvir, abriu entre nós um campo de especulação que explorámos durante horas, numa discussão que se prolongou pela noite dentro, alimentada por café forte e por uma inquietação que não nos dava tréguas. Havia, evidentemente, a hipótese racional, a hipótese que qualquer investigador prudente adotaria, e que consistia em atribuir a coincidência ao acaso, à convergência fortuita de dois espíritos atormentados que, confrontados com a mesma situação limite, tinham chegado às mesmas conclusões e utilizado as mesmas palavras, do mesmo modo que dois náufragos, em ilhas diferentes, podem construir jangadas semelhantes porque a lógica da sobrevivência é a mesma para todos. Mas esta hipótese, por mais razoável que fosse, não nos satisfazia, porque ignorava o que os dados de Costantini mostravam com uma clareza cada vez mais difícil de refutar: os suicídios do Viaduto de Santa Cruz do Calvário não eram acontecimentos isolados, eram episódios de uma história contínua, capítulos de uma narrativa que se desenrolava ao longo de décadas e que tinha, como toda a narrativa, os seus temas recorrentes, as suas personagens-tipo, as suas variações sobre um motivo central. E se havia uma narrativa, havia um narrador, ou pelo menos uma instância narrativa, qualquer coisa que organizava os acontecimentos e lhes conferia um sentido, ainda que fosse um sentido terrível, um sentido que nenhum de nós queria aceitar mas que os factos impunham com a força da evidência.

 

Érica, que durante a discussão alternara entre o ceticismo e a perplexidade, acabou por confessar, numa daquelas confissões que se fazem de madrugada, quando o cansaço derruba as defesas e a verdade, nua e crua, se impõe sem que a possamos disfarçar, que o que mais a perturbava na descoberta de Costantini não era a coincidência entre os dois casos, por mais estranha que fosse, mas a suspeita, que ela alimentava secretamente há semanas mas que não ousara formular, de que a própria Lúcia, ao ler Costantini, ao encontrar na sua obra a descrição do espetáculo suicida, ao perceber que o Viaduto de Santa Cruz do Calvário era um palco ancestral, um lugar saturado de mortes e de significados, não se limitara a confirmar uma decisão que já tinha tomada; ela encontrara, na obra de Costantini, a justificação, a legitimação, quase a autorização para o seu gesto, como se o velho professor, sem o saber, lhe tivesse fornecido o roteiro que ela seguira, a partitura que ela executara, o libreto que ela representara até à última sílaba. E esta suspeita, se fosse verdadeira, colocava Costantini, e colocava-nos a nós, que éramos seus leitores e seus discípulos, numa posição insustentável, a posição de quem, ao descrever o espetáculo, o estava também, de algum modo, a produzir, a induzir, a perpetuar, como um cartógrafo cujos mapas não se limitam a representar o terreno, mas o modificam, o criam, o fazem existir.

 

Lembrei-me, ao ouvir esta confissão de Érica, de uma passagem de um livro de Costantini que lera na semana anterior, uma passagem que na altura me parecera obscura e que agora, à luz do que discutíamos, adquiria um sentido sinistro. Dizia ele, numa das suas digressões filosóficas, que o conhecimento é uma forma de poder, e o poder é uma forma de responsabilidade, e a responsabilidade é uma forma de culpa, e que aquele que estuda o suicídio, que o descreve, que o analisa, que o classifica, está, de algum modo, a cometê-lo, porque o suicídio, uma vez nomeado, uma vez descrito, uma vez tornado inteligível, torna-se possível, torna-se pensável, torna-se, para alguns, desejável. Costantini, ao escrever sobre o Viaduto de Santa Cruz do Calvário, ao cartografar as suas mortes, ao analisar os seus padrões, ao nomear os seus protagonistas, não se limitara a observar um fenómeno; criara, sem o querer, uma tradição, uma mitologia, uma narrativa que outros, como Lúcia, tinham lido e seguido, como se lê e se segue um guia turístico, um manual de instruções, um livro de receitas para a morte.

 

Esta constatação, que nos atingiu a ambos com a força de um soco no estômago, mergulhou-nos num silêncio prolongado, o silêncio dos que se veem confrontados com as consequências imprevistas dos seus atos, e que percebem, tarde demais, que o que fizeram com as melhores intenções pode ter gerado o contrário do que pretendiam. Érica, mais do que eu, sentia o peso dessa responsabilidade, porque era ela a especialista em Costantini, era ela que dedicara a sua vida a estudá-lo e a divulgá-lo, era ela que, ao emprestar os seus livros a outros, ao publicar artigos sobre a sua obra, ao organizar conferências e seminários, contribuíra, ainda que involuntariamente, para que as suas ideias chegassem a pessoas como Lúcia, pessoas que não as liam como quem lê um texto académico, mas como quem procura uma resposta para uma pergunta que já não pode ser adiada. E no entanto, disse ela, com uma lucidez que a dor não diminuía, antes pelo contrário, aguçava, a alternativa ao conhecimento não era a ignorância feliz, era a ignorância simplesmente, e a ignorância, ao contrário do que se pensa, não protege ninguém, apenas torna o sofrimento mais cego, mais mudo, mais solitário. Se Lúcia encontrara em Costantini uma linguagem para exprimir o seu sofrimento, uma estrutura para dar forma ao seu gesto, uma tradição que a acolhesse e que lhe desse, na hora suprema, a sensação de que não estava sozinha, de que o seu salto era também um regresso a casa, então talvez o que Costantini lhe dera não fosse uma receita para a morte, mas um consolo para a vida que lhe restava, por mais curta que fosse, e esse consolo, por mais paradoxal que parecesse, era um bem, um dom, uma dádiva que ela recebera e que retribuíra com o seu testemunho, com a sua carta, com a sua exigência de ser lida e de ser ouvida.

 

Foi então, no meio dessa noite de confissões e de descobertas, que decidimos, com uma determinação que nascia do desespero mas que se transmutava em coragem, que a investigação não podia continuar a ser apenas uma investigação. Tinha de se tornar qualquer coisa de diferente, qualquer coisa que ainda não sabíamos nomear, mas que implicava um compromisso, um engajamento, uma descida ao terreno que não era mais o terreno seguro da academia, mas o terreno movediço da ação, da intervenção, da tentativa de quebrar a cadeia de contágio que Costantini documentara e que, de algum modo, nós próprios tínhamos ajudado a perpetuar. Tínhamos de ir ao Viaduto de Santa Cruz do Calvário, não como observadores, que isso já tínhamos feito, mas como qualquer coisa de diferente, qualquer coisa que ainda não existia mas que tínhamos de inventar: vigias, sentinelas, guardiães de um lugar que, à força de mortes acumuladas, se tornara um santuário às avessas, um altar onde o sacrifício se repetia com a regularidade das estações, e onde cada nova vítima, ao repetir o gesto das vítimas anteriores, reforçava o poder do lugar e tornava mais provável a vítima seguinte. Tínhamos de interromper a narrativa, de introduzir nela um elemento novo, um elemento que não estava previsto no guião que o viaduto, ou o espírito do lugar, ou fosse o que fosse que governava aquela sequência de mortes, escrevera e reescrevera ao longo de décadas. Tínhamos de nos tornar, numa palavra que Costantini usara numa das suas notas e que Érica me leu em voz alta, com uma solenidade que a hora e o contexto tornavam adequada, antídotos, seres humanos que, pela sua simples presença, pela sua atenção, pela sua recusa em desviar o olhar, pudessem neutralizar o veneno que o lugar segregava, pudessem oferecer aos que ali subiam com a intenção de saltar uma alternativa, uma possibilidade que o guião não previa, uma linha de fuga que quebrasse a repetição e inaugurasse, talvez, uma história diferente.

 

A ideia, assim formulada, tinha qualquer coisa de quixotesco, e eu próprio, ao ouvi-la da boca de Érica, senti uma ponta de ceticismo, o ceticismo do funcionário público que ainda havia em mim e que resistia, com a força da inércia, a tudo o que se afastasse da rotina e do protocolo. Que podíamos nós fazer, duas pessoas sem formação específica, sem recursos, sem autoridade, contra uma força que operava há décadas e que ceifara dezenas de vidas? Que podia a nossa presença, a nossa vigilância, a nossa palavra, contra o apelo do vazio, contra a sedução do abismo, contra a voz que, segundo os testemunhos recolhidos por Costantini, sussurrava no parapeito e chamava pelo nome? Mas depois, à medida que a noite avançava e que o café arrefecia nas canecas e que a chuva, lá fora, amainava gradualmente, fui percebendo que a pergunta não era o que podíamos fazer, mas o que devíamos fazer, e que a resposta a essa pergunta não dependia da probabilidade de sucesso, mas da obrigação de tentar. Porque se havia uma hipótese, por mais remota que fosse, de que a nossa presença no viaduto pudesse salvar uma vida, uma única vida, então não tínhamos o direito de nos refugiarmos no ceticismo, na prudência, na desculpa de que não éramos competentes, de que aquilo não era connosco, de que havia instituições e profissionais e protocolos para lidar com aqueles casos, porque as instituições e os profissionais e os protocolos, como sabíamos de sobra, não tinham impedido Lúcia de saltar, nem tinham impedido a mulher do lençol branco vinte e três anos antes, nem impediriam os que viriam depois, se nada fosse feito para quebrar o ciclo.

 

Assim nasceu, naquela noite de chuva e de café frio, o que viríamos a chamar, com uma ironia que não disfarçava a gravidade do propósito, a vigília do viaduto, um compromisso que assumimos um com o outro e com a memória de Lúcia, e que consistia em passar, a partir da semana seguinte, uma noite por semana no Viaduto de Santa Cruz do Calvário, não para observar, não para estudar, não para recolher dados, mas simplesmente para estar, para estar presentes, para estar atentos, para estar disponíveis, para que ninguém que ali subisse com a intenção de saltar o fizesse sem que alguém lhe dirigisse a palavra, sem que alguém lhe oferecesse um café, sem que alguém lhe dissesse, com a simplicidade das coisas que não precisam de ser provadas, que a sua vida, por mais desesperada que parecesse, tinha valor, tinha sentido, tinha importância para alguém, mesmo que esse alguém fosse um estranho que se sentava num banco de cimento à espera de que o sol nascesse. Era uma ideia modesta, quase insignificante, e tínhamos plena consciência de que os nossos esforços podiam ser em vão, de que podíamos passar anos sem que ninguém aparecesse, ou pior, de que alguém podia aparecer e saltar apesar de tudo, apesar da nossa presença, apesar das nossas palavras, apesar do café e do pão e do cobertor que levávamos na mochila, e que esse fracasso, se ocorresse, nos destruiria de uma forma que o fracasso académico, com os seus artigos rejeitados e as suas conferências vazias, nunca poderia destruir. Mas o fracasso, dissemos um ao outro com a convicção dos que já não têm nada a perder, era um risco que tínhamos de correr, porque o risco contrário, o risco de não fazer nada, de ficar em casa a escrever artigos enquanto as pessoas saltavam dos viadutos, era um risco que já não podíamos suportar.

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