Novembro - Capítulo V
V
Levei
os cadernos de Lúcia a Érica na manhã seguinte, ou melhor, naquela que já era a
manhã do dia seguinte, porque o sol, quando finalmente me decidi a sair de
casa, ia já alto e a cidade fervilhava com a agitação das horas laborais, uma
agitação que me pareceu, depois da noite passada em claro a ler as palavras de
uma morta, simultaneamente familiar e estranha, como se eu próprio me tivesse
transformado, durante aquelas horas de leitura, num espectro que regressava ao
mundo dos vivos sem saber muito bem como se comportar, que palavras usar, que
gestos fazer, e foi com essa sensação de deslocamento, essa impressão de não
pertencer inteiramente ao lugar onde estava, que atravessei a cidade em direção
ao apartamento de Érica, um apartamento que eu nunca visitara e que ela me
descrevera, numa das nossas conversas telefónicas, como um sótão cheio de
livros e de pó, com uma claraboia que dá para um jardim que já não existe, e
que ficava num prédio antigo do centro, daqueles que sobreviveram às investidas
da especulação imobiliária por uma combinação de sorte, de litígios jurídicos e
de uma teimosia quase vegetal, a mesma teimosia que faz nascer ervas daninhas
nas fendas do alcatrão.
O
prédio, quando o encontrei, ao fundo de uma rua que o mapa dizia existir mas
que os meus pés insistiam em não reconhecer, revelou-se exatamente como ela o
descrevera, uma construção de fachada sóbria, com varandas de ferro que o tempo
pintara de um castanho avermelhado e uma porta de madeira maciça cuja
fechadura, visivelmente centenária, cedeu ao toque com a docilidade das coisas
que já desistiram de resistir. Subi as escadas, que rangiam a cada passo com um
som que era quase musical, como se cada degrau tivesse uma nota própria, e
cheguei ao último andar, onde uma porta entreaberta deixava escapar o cheiro
inconfundível do café acabado de fazer e o rumor de uma música que eu não
identificava, uma melodia repetitiva e hipnótica, tocada num instrumento de cordas
que tanto podia ser um alaúde como uma guitarra, e que conferia ao ambiente uma
atmosfera de recolhimento monástico que contrastava com o bulício da rua que eu
acabara de deixar.
Érica
recebeu-me com um sorriso que não chegava a disfarçar a curiosidade, uma
curiosidade que se acendeu nos seus olhos assim que ela viu a caixa de cartão
que eu trazia debaixo do braço, e conduziu-me através de um corredor estreito,
ladeado de estantes que se dobravam sob o peso dos livros, até à sala
principal, um espaço amplo onde a claraboia, que ocupava quase todo o teto,
derramava uma luz leitosa sobre uma mesa coberta de papéis, de livros abertos,
de canecas de café vazias, de marcadores coloridos, de todo um aparato de
trabalho que tinha a desordem meticulosa dos lugares onde se pensa
intensamente. Sentei-me num sofá que afundou sob o meu peso com um suspiro de
molas cansadas, e depositei a caixa sobre a mesa, sem dizer nada, porque havia
momentos, e este era um deles, em que as palavras eram não apenas desnecessárias
mas quase obscenas, como flores atiradas para cima de uma sepultura ainda
fresca. Érica compreendeu, como compreendia sempre, e limitou-se a abrir a
caixa com a mesma lentidão reverente com que eu a abrira na casa de Tobias, e a
retirar de lá o primeiro caderno, o de capa preta, que folheou durante alguns
minutos em silêncio, com os olhos a percorrerem as páginas a uma velocidade que
eu conhecia bem e que era a velocidade de quem já não lê, mas processa,
absorve, integra, como um computador que descarrega dados e os organiza em
ficheiros que mais tarde serão consultados.
Quando
finalmente pousou o caderno, e me olhou com uma expressão que eu não lhe vira
antes, uma expressão em que a emoção, por mais que ela se esforçasse por a
conter, transparecia na pequena ruga que se formava entre as sobrancelhas e na
forma como os seus dedos tamborilavam nervosamente sobre a capa do caderno,
disse-me, com uma voz que era mais grave do que o habitual, que aquilo que eu
lhe trouxera era, muito provavelmente, o testemunho mais completo e mais
devastador que ela alguma vez lera sobre o que poderíamos chamar, na falta de
melhor expressão, a fenomenologia da ideação suicida, a descrição minuciosa, a
partir de dentro, da experiência de quem habita a fronteira entre a vida e a morte,
entre o desejo de viver e a vontade de desaparecer, entre o apego ao mundo e a
sedução do vazio, e que esse testemunho, precisamente por ser tão completo e
tão devastador, colocava problemas éticos, metodológicos, epistemológicos, que
ela ainda não sabia como resolver, mas que teríamos de resolver juntos, porque
a pesquisa, a partir daquele momento, já não era apenas sobre o espetáculo do
autoaniquilamento, era também, e talvez sobretudo, sobre a responsabilidade de
quem recolhe esses testemunhos, de quem os lê, de quem os interpreta, de quem,
no limite, os publica e os transforma, inevitavelmente, em espetáculo, ainda
que em espetáculo de outra natureza.
Esta
observação de Érica, feita com a honestidade intelectual que eu tanto admirava
nela e que era, paradoxalmente, a mesma que a impedia de avançar sem se
interrogar, abriu entre nós uma discussão que ocupou grande parte daquela manhã
e que, olhando para trás, foi talvez a discussão mais importante de todas as
que tivemos, não porque tenha produzido respostas, que as não produziu, mas
porque formulou as perguntas com uma clareza que nenhuma de nós tinha alcançado
até então. A questão central, disse Érica, com os olhos fixos na claraboia,
como se procurasse no branco do céu uma inspiração que não encontrava nos
livros, era a seguinte: se a nossa investigação demonstrava, como de facto
demonstrava, que o autoaniquilamento contemporâneo, nas suas formas mais
extremas e mais visíveis, se configurava como um espetáculo, com as suas cenas,
os seus cenários, os seus espectadores, os seus códigos estéticos, as suas
estratégias de comunicação, então a pergunta inevitável, a pergunta que se
impunha com a força de um silogismo, era se a própria investigação, ao dar
visibilidade a esse fenómeno, ao descrevê-lo, ao analisá-lo, ao publicá-lo, não
estaria ela também a contribuir para a espetacularização que denunciava, a
acrescentar mais um palco àqueles que já existiam, a converter-se, ainda que
involuntariamente, ainda que contra a sua vontade expressa, num novo vetor do
mesmo fenómeno que pretendia criticar. Era uma pergunta que admitia várias
respostas, nenhuma delas inteiramente satisfatória, e que nos obrigava, a cada
passo, a refletir sobre o nosso próprio lugar no processo que descrevíamos,
sobre a nossa própria cumplicidade, sobre a nossa própria responsabilidade, e a
não nos refugiarmos naquela ilusão de objetividade que tantas vezes serve de
biombo aos investigadores para não verem que são, eles também, atores do drama
que analisam.
Foi
então que, num daqueles acasos que só o trabalho persistente torna possíveis, e
que, quando acontecem, parecem tão naturais que nos esquecemos de que foram
precedidos por semanas e meses de preparação, a conversa derivou para um nome
que eu já ouvira várias vezes, mas sempre de passagem, sempre como uma nota de
rodapé nas leituras que fazíamos, um nome que Érica mencionava com uma
reverência particular e que, no entanto, nunca aprofundáramos, talvez por falta
de tempo, talvez por uma intuição de que esse nome, uma vez convocado, exigiria
uma atenção que não estávamos ainda prontos a dar-lhe. O nome era Costantini,
um pensador que eu conhecia vagamente, como se conhece um ator secundário de um
filme que se viu há muitos anos, e que Érica descreveu, com o entusiasmo que
reservava para os raros autores que considerava verdadeiramente originais, como
um homem que dedicara a vida inteira, uma vida longa e solitária, discretamente
vivida entre bibliotecas e arquivos, a estudar aquilo a que ele chamava, com um
termo que ele próprio cunhara e que nunca chegara a ter grande fortuna
académica, a dramaturgia da morte voluntária. O termo era, confessou Érica, um
pouco pomposo, talvez excessivamente teatral para os padrões da academia
contemporânea, que prefere as palavras técnicas e os jargões inacessíveis às
metáforas literárias, mas tinha a virtude de capturar, com uma precisão que os
termos técnicos não alcançavam, a ideia de que o autoaniquilamento, na sua
forma pública e urbana, obedecia a uma espécie de encenação que não era
espontânea, que não era caótica, que não era o resultado bruto do desespero,
mas que seguia regras, padrões, convenções, como uma peça de teatro que, embora
representada pela primeira e última vez, respeitava uma estrutura que o suicida
conhecia, ainda que não soubesse que a conhecia, e que essa estrutura, longe de
ser universal, era culturalmente determinada, variava de época para época, de
cidade para cidade, de grupo social para grupo social, e podia, portanto, ser
estudada como se estuda um género literário ou uma forma artística, com os seus
precursores, os seus clássicos, as suas vanguardas e os seus epígonos.
A
menção a Costantini teve o efeito de um estímulo que desperta uma memória
adormecida, e eu lembrei-me subitamente de que, entre os papéis de Lúcia, havia
uma referência, uma única, breve mas enigmática, que eu lera na noite anterior
e que, na altura, não soubera interpretar. Tratava-se de uma nota marginal,
escrita a lápis na contracapa de um dos cadernos, que dizia simplesmente: Ler
Costantini outra vez. A frase sobre a janela e o palco. Urgente. Não havia
data, não havia contexto, não havia mais nenhuma referência ao autor em todo o
espólio que eu examinara, mas a palavra urgente, escrita com um traço tão firme
que o lápis quase rasgara o papel, sugeria que a leitura de Costantini não
fora, para Lúcia, um interesse académico, mas uma necessidade vital, uma
daquelas leituras que se fazem não para saber mais, mas para sobreviver mais um
dia, mais uma hora, mais um minuto, e que a frase sobre a janela e o palco, que
eu desconhecia mas que me propus procurar, continha, talvez, uma chave para
compreender o que levara Lúcia a saltar, ou, pelo menos, o modo como ela
própria compreendia o que a levara a saltar, que não era exatamente a mesma
coisa, mas que era a única coisa a que nós, os que ficámos, podíamos aspirar.
Érica,
que ouvira a minha revelação com a imobilidade atenta de um animal que fareja
uma pista, levantou-se de repente e dirigiu-se a uma estante que ocupava toda a
parede do fundo da sala, uma estante que eu não notara até então e que
continha, numa secção separada das restantes, uma coleção de volumes
encadernados de forma artesanal, com lombadas de tecido de cores diferentes e
etiquetas manuscritas que identificavam os títulos com uma caligrafia que eu
reconheci como sendo a dela. Eram as obras completas de Costantini, explicou-me
enquanto percorria as lombadas com o dedo indicador, umas publicadas em vida,
outras póstumas, outras ainda inéditas, recolhidas ao longo de anos de pesquisa
em arquivos e em bibliotecas de vários países, num trabalho de ourivesaria
filológica que ela empreendera como quem se dedica a uma missão, e que a
tornara, sem que ela o tivesse planeado, a maior especialista viva na obra de
um autor que quase ninguém lia. Retirou da prateleira um volume fino,
encadernado em tecido azul-escuro, e folheou-o com a familiaridade de quem sabe
exatamente onde encontrar o que procura, até que, depois de alguns segundos,
leu em voz alta, com uma entoação que era a de quem cita um texto sagrado, a
passagem que Lúcia referira e que eu, na minha ignorância, desconhecia: A
janela de onde se salta é, simultaneamente, o proscénio do último ato e a
moldura do quadro final. O suicida, ao escolhê-la, não escolhe apenas o lugar da
sua morte; escolhe o ângulo de visão dos que ficam, a composição da imagem que
há de perdurar nas suas retinas, a assinatura que apõe no seu último gesto.
Toda a janela que dá para o vazio é um palco em potência, e todo o peitoril,
por mais estreito que seja, contém a pergunta que a cidade faz todos os dias e
que ninguém responde: quem será o próximo a transformar o abismo em plateia?
O
silêncio que se seguiu à leitura foi de uma qualidade diferente de todos os
silêncios que tínhamos partilhado até então. Não era um silêncio de
esgotamento, nem de perplexidade, nem de tristeza, embora contivesse um pouco
de cada uma dessas coisas; era um silêncio de reconhecimento, o silêncio que se
faz quando duas pessoas percebem, ao mesmo tempo e sem necessidade de palavras,
que encontraram uma peça que faltava, uma peça que, ao ser colocada no seu
lugar, reorganiza todo o puzzle e faz com que fragmentos dispersos, que antes
pareciam não ter relação entre si, se unam para formar uma figura que, sem ser
a figura definitiva, é já uma figura que faz sentido. A frase de Costantini,
escrita décadas antes de Lúcia ter subido ao Viaduto de Santa Cruz do Calvário,
parecia descrever com uma precisão quase sobrenatural o gesto que ela
realizara, e a nota marginal que ela deixara, aquele urgente que eu lera na
contracapa do caderno, adquiria agora um significado que ia muito além do
interesse intelectual: Lúcia lera Costantini, encontrara na sua obra uma
descrição do que ela própria se preparava para fazer, e essa descrição, longe de
a dissuadir, parecia ter-lhe oferecido uma espécie de legitimação estética, uma
confirmação de que o seu gesto, por mais terrível que fosse, se inseria numa
tradição, numa linhagem, numa genealogia de gestos semelhantes que a história
da cultura registara e que a cidade, com os seus viadutos e as suas janelas e
os seus abismos, tornava possíveis e, de algum modo, quase inevitáveis.
Perguntei
a Érica se Costantini estava vivo, e ela respondeu-me que sim, que estava,
embora muito velho, muito retirado, vivendo numa cidade do interior, uma cidade
cujo nome ela mencionou e que eu não conhecia, mas que ficava a poucas horas de
viagem, e que ela própria tentara contactá-lo várias vezes, sem sucesso, porque
o homem, segundo constava, se recusava a receber visitas e a dar entrevistas, e
passava os dias a ler e a escrever, sozinho, numa casa cheia de gatos e de
livros, como um eremita que tivesse trocado o deserto pela biblioteca. A ideia
surgiu-nos, ou melhor, surgiu-me a mim, e Érica acolheu-a primeiro com ceticismo,
depois com uma hesitação que se foi transformando gradualmente em entusiasmo: e
se fôssemos procurá-lo, a Érica e eu, e lhe levássemos os cadernos de Lúcia, e
lhe perguntássemos o que pensava, o que via naqueles escritos, que relação
encontrava entre a sua teoria e a prática daquela mulher que o lera e que,
depois de o ler, se lançara de um viaduto com a sensação, talvez, de estar a
representar um papel que ele escrevera? Seria uma intromissão, certamente, e
talvez ele nos fechasse a porta na cara, como parecia fazer com todos os que o
procuravam, mas havia na nota de Lúcia, naquele urgente que ela escrevera e que
agora parecia dirigido também a nós, um apelo que não podíamos ignorar, um
apelo que vinha de alguém que já não estava e que nos pedia, do outro lado da
morte, que completássemos o percurso que ela iniciara e que não pudera
terminar.
Érica
hesitou ainda um pouco, pesando os prós e os contras com aquela sua maneira
meticulosa de avaliar todas as possibilidades antes de tomar uma decisão, mas
acabou por concordar, com a condição de que não fôssemos como investigadores,
com gravadores e questionários, mas como leitores, como discípulos, como
pessoas que tinham uma pergunta genuína a fazer e que estavam dispostas a ouvir
a resposta, fosse ela qual fosse. E assim ficou combinado: partiríamos no
sábado seguinte, de manhã cedo, num comboio regional que fazia o percurso entre
a metrópole e o interior, um comboio lento, de carruagens antigas, com bancos
de madeira e janelas que se abriam, que atravessava paisagens que pareciam
pertencer a um tempo anterior, um tempo em que as cidades não tinham ainda
engolido os campos e em que os viadutos, esses viadutos que nos obcecavam, não
passavam de pontes que uniam margens sem as transformar em palcos. Levaríamos os
cadernos de Lúcia, e levaríamos também as nossas perguntas, e levaríamos
sobretudo a esperança, que nenhum de nós confessava mas que ambos
partilhávamos, de que o velho professor, na sua sabedoria de quem passara a
vida a pensar na morte, nos pudesse dar uma resposta que não era uma solução,
que as soluções não existiam para o tipo de problemas que nos ocupavam, mas que
fosse, pelo menos, uma orientação, uma luz, ainda que ténue, no meio da
escuridão que os cadernos de Lúcia tinham aberto sob os nossos pés.
O
resto daquela semana foi consumido pelos preparativos da viagem e por uma
leitura sistemática da obra de Costantini que Érica me impôs, ou melhor, que me
sugeriu com uma insistência que não admitia recusa, e que eu cumpri com uma
avidez que me surpreendeu a mim próprio, como se aquelas páginas densas,
escritas num estilo que oscilava entre o ensaio filosófico e a prosa poética,
contivessem a resposta para perguntas que eu nem sequer sabia que tinha.
Costantini, fui descobrindo à medida que avançava na leitura, era um pensador
de um género muito particular, um desses autores que não se enquadram em
nenhuma disciplina estabelecida e que, por isso mesmo, são marginalizados pelos
especialistas e ignorados pelo grande público, mas que, para quem os lê com a
atenção que merecem, revelam uma profundidade e uma originalidade que os
colocam, sem exagero, ao lado dos grandes nomes do pensamento do século
passado. A sua tese central, que ele desenvolvera ao longo de décadas, em
livros que eram cada vez mais curtos e cada vez mais densos, como se o
pensamento, ao apurar-se, necessitasse de menos palavras para se exprimir, era
a de que o suicídio, longe de ser um ato puramente individual, era um fenómeno
profundamente social, não no sentido sociológico banal, que já Durkheim
estabelecera, mas num sentido mais radical, que ele chamava de dramatúrgico: a
sociedade, dizia Costantini, fornece aos indivíduos não apenas os motivos para
viver ou para morrer, mas também os roteiros, as cenas, os figurinos, as falas,
toda uma parafernália simbólica que o suicida utiliza, consciente ou
inconscientemente, para encenar a sua morte, e essa encenação, longe de ser um
epifenómeno, um acessório, é a própria substância do ato, aquilo que o
distingue de uma simples cessação de funções biológicas e o transforma num
acontecimento humano, carregado de significado e dirigido a um público, ainda
que esse público seja imaginário, ainda que seja apenas a posteridade, ainda
que seja apenas Deus.
O
que tornava a obra de Costantini particularmente relevante para a nossa
investigação, e o que explicava a nota de Lúcia, era a sua insistência na
dimensão urbana do fenómeno. As cidades, argumentava ele num dos seus livros
mais importantes, um volume intitulado Cenas da Morte em Público, que Érica me emprestara
e que eu lera de uma assentada, numa noite de insónia que se prolongou até de
madrugada, as cidades não são apenas o cenário onde os suicídios acontecem; são
a condição de possibilidade desses suicídios, o meio sem o qual eles não
poderiam existir na forma que assumem. É a cidade, com os seus edifícios altos,
as suas pontes, os seus viadutos, os seus metropolitanos, que fornece a
arquitetura necessária para a transformação da morte em espetáculo; é a cidade,
com as suas multidões anónimas, que fornece a plateia involuntária que todo o
espetáculo exige; é a cidade, com os seus meios de comunicação, os seus
jornais, as suas rádios, as suas televisões, e agora também as suas redes
digitais, que amplifica o gesto e o projeta para além do momento efémero da sua
realização, conferindo-lhe uma sobrevida mediática que, em muitos casos, o
suicida deseja mais do que a própria vida. E era nessa interseção entre a
cidade, o espetáculo e a morte que Costantini situava o que ele chamava, com
uma expressão que me ficou gravada na memória e que eu repetia para mim próprio
como um mantra, o teatro da desesperança, esse palco difuso e omnipresente que
a metrópole oferece aos que já não têm nada a perder, e onde cada viaduto é um
proscénio, cada passeio uma plateia, cada transeunte um crítico involuntário
que há de julgar, com os critérios que a cultura lhe forneceu, a maior ou menor
eficácia dramática do salto que acabou de presenciar.
Quanto
mais eu lia Costantini, mais me convencia de que a viagem que faríamos no sábado
não era apenas uma expedição académica, mas uma peregrinação, uma romagem aos
lugares de origem de um pensamento que, de forma silenciosa e subterrânea,
alimentara a pesquisa de Érica, inspirara o gesto de Lúcia e, agora, me
transformava a mim, que entrara naquela história como um mero funcionário
administrativo e que me via, passados estes meses todos, convertido numa
espécie de investigador amador, de detetive existencial, de perseguidor de um
sentido que se esquivava sempre que eu julgava tê-lo alcançado, como uma
miragem que recua à medida que avançamos. E foi com essa disposição de
peregrino, essa mistura de esperança e de temor que caracteriza os que se
dirigem a um santuário sem saberem se o santo os receberá ou os expulsará, que
na manhã de sábado me dirigi à estação de comboios, com uma mala leve onde
levava os cadernos de Lúcia, uma garrafa de água, um caderno de notas e o
volume de Costantini que Érica me emprestara e que eu ainda não terminara de
ler, como um aluno que continua a estudar a caminho do exame.
A
estação, àquela hora da manhã, estava quase deserta, e a luz que entrava pelas
grandes janelas de vidro, uma luz ainda pálida e um pouco fria, típica das
primeiras horas de um dia de outono, dava ao lugar uma atmosfera irreal, como
se a estação fosse um cenário de teatro que ainda não recebera os seus atores,
um palco vazio onde só faltava que alguém entrasse para começar a
representação. Érica esperava-me junto à bilheteira, com um casaco comprido que
lhe dava um ar de personagem saída de um romance russo, e trazia consigo uma
pasta de cabedal envelhecido que eu nunca vira antes e que, soube depois,
continha as suas anotações pessoais sobre Costantini, anos de leituras e de
reflexões condensados em folhas datilografadas e em esquemas desenhados à mão,
uma espécie de mapa do tesouro intelectual que ela construíra ao longo do seu
percurso e que agora se preparava para partilhar comigo. Comprámos os bilhetes
e sentámo-nos num banco de madeira, à espera de que o comboio fosse anunciado,
e ficámos em silêncio durante um bom bocado, um silêncio que era, ao mesmo
tempo, um recolhimento e uma comunhão, o silêncio de duas pessoas que já não
precisam de falar para saber o que a outra está a pensar, e eu senti, naquele
momento, uma gratidão imensa por Érica, uma gratidão que não era apenas
intelectual, mas pessoal, humana, porque ela me abrira as portas de um mundo
que eu não sabia que existia e me permitira, ao fazê-lo, dar um sentido novo à
minha própria vida, uma vida que, antes de a conhecer, se resumia à rotina do
departamento, ao desfilar dos processos sobre a secretária, à acumulação dos
dias que se sucediam uns aos outros sem que nada os distinguisse
verdadeiramente, como folhas de um calendário que se arrancam sem as ler.
O
comboio chegou com a pontualidade solene das coisas que não têm pressa, uma
máquina antiga, de um azul desbotado, que bufava e chiava como um animal
cansado, e instalámo-nos numa carruagem quase vazia, onde o cheiro a pó e a
madeira velha se misturava com o aroma do café que um dos poucos passageiros
bebia de um termo. À medida que o comboio se afastava da cidade, e a paisagem
urbana dava lugar a uma paisagem de campos e de pequenas povoações, com as suas
igrejas de torre quadrada e os seus cemitérios de ciprestes, senti que me
afastava também, simbolicamente, da pesquisa tal como a conhecêramos até então,
e me aproximava de qualquer coisa de novo, de qualquer coisa que ainda não
sabia nomear mas que pressentia, com aquela forma de conhecimento antecipado
que não passa pela razão, que seria decisivo, não apenas para a investigação,
mas para mim, para a minha compreensão do que andava a fazer e do que andava a
procurar. Érica, ao meu lado, fechara os olhos e parecia dormir, mas a sua mão
direita, pousada sobre a pasta de cabedal, tamborilava suavemente, num ritmo
que era o da sua respiração, e eu soube, sem que ela mo dissesse, que ela
estava tão desperta como eu, e que o seu espírito, como o meu, já tinha chegado
ao destino muito antes de o comboio lá chegar.
Olhei
pela janela e vi, ao longe, um viaduto que atravessava um vale, um viaduto de
betão, irmão mais novo do Viaduto de Santa Cruz do Calvário, e imaginei, sem
querer, o corpo de alguém a cair daquela altura, um corpo que não existia senão
na minha imaginação, mas que, naquele momento, me pareceu mais real do que os
passageiros que dormitavam nos bancos à minha volta, e percebi que a
investigação, ao fim destes meses, me transformara irreversivelmente, me
tornara incapaz de olhar para um viaduto sem ver um palco, de olhar para uma
janela sem ver um proscénio, de olhar para uma multidão sem ver uma plateia, e
que essa transformação, que tinha qualquer coisa de maldição e qualquer coisa
de dom, era a marca que o conhecimento imprime nos que o procuram, a ferida que
se abre quando se levanta o véu que cobre as coisas e se olha para o que está
por baixo, e que, uma vez vista, não pode ser des-vista, como não se pode
apagar uma cicatriz, como não se pode esquecer o rosto de uma pessoa amada,
como não se pode, por mais que se tente, deixar de ouvir as palavras de uma
morta que nos pede, do outro lado do silêncio, que não viremos a página, que
não fechemos o livro, que continuemos a ler até ao fim, mesmo que o fim não
exista, mesmo que o fim seja apenas o ponto onde desistimos de procurar.


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