Novembro - Capítulo IX

 

IX

 

Com o passar dos meses, e foram meses que se contaram primeiro pelos dedos das mãos e depois pelos nós de uma corda que se ia desenrolando sem que lhe víssemos o fim, a vigília do viaduto transformou-se, de um projeto improvisado que existia apenas na vontade de duas pessoas e na memória de uma morta, numa instituição informal, numa comunidade difusa, numa rede de afetos e de cuidados que se estendia muito para além do banco de cimento onde nos sentávamos e das noites de terça-feira que lhe havíamos consagrado. O que começara por ser um ato de expiação, uma tentativa de responder à interpelação de Lúcia e de Costantini, tornou-se, sem que eu soubesse exatamente quando nem como se dera a transição, o centro em torno do qual a minha vida se reorganizava, o ponto fixo num universo que, até então, girara em falso, como um planeta que perdeu a sua órbita e vagueia pelo espaço à espera de um corpo celeste que o atraia e lhe devolva um sentido de direção. O departamento, com os seus processos e as suas rotinas, passou a ser o intervalo entre as vigílias, o tempo que eu preenchia mecanicamente enquanto esperava que a noite chegasse e que eu pudesse, finalmente, subir ao viaduto e ocupar o meu lugar no banco, um lugar que, com o tempo, se tornara tão familiar como a minha própria sala de estar, e que, no entanto, nunca deixava de me surpreender, porque cada noite trazia consigo uma história nova, um rosto novo, uma dor nova, e o viaduto, que à luz do dia era apenas uma estrutura de betão, adquiria, à noite, a qualidade de um confessionário laico, de um consultório sentimental a céu aberto, de um palco onde já não era a morte que se representava, mas a vida, com as suas feridas e as suas cicatrizes, com os seus fracassos e as suas pequenas vitórias.

 

Érica, que durante o dia continuava a sua pesquisa, a sua sistematização de dados, a sua redação de artigos que talvez nunca fossem publicados, mas que ela escrevia com o rigor de quem acredita que o conhecimento, mesmo quando não serve para nada de imediatamente prático, é uma forma de homenagem, tornou-se, nas noites de vigília, uma figura diferente, uma figura que eu não conhecia e que me comovia pela sua capacidade de se despir da couraça académica e de se oferecer, nua e indefesa, à dor dos outros. Não que ela abandonasse a sua inteligência, a sua cultura, a sua capacidade de análise; mas usava-as de outra maneira, como um médico usa o seu bisturi não para dissecar, mas para curar, com uma precisão que era, ao mesmo tempo, técnica e humana, científica e empática. Aprendera, ao longo das noites, uma linguagem nova, uma linguagem que não era a dos livros nem a dos relatórios, mas a das pausas, a dos silêncios, a dos olhares que dizem mais do que as palavras, a dos gestos mínimos que, num contexto de desespero, adquirem uma significação imensa: a mão que se pousa sobre um ombro, a caneca de café que se oferece sem que ninguém a tenha pedido, o cobertor que se ajusta sobre os joelhos de um desconhecido que tirita de frio e de medo.

 

Miguel, o nosso primeiro visitante, o nosso primeiro resgatado, se é que se podia usar essa palavra sem soar a heroísmo barato, tornara-se uma presença constante, quase uma instituição dentro da instituição, e a sua transformação, lenta mas visível, era para mim a prova de que a vigília não era em vão, de que a presença humana, a escuta atenta, a comunidade de afetos, podiam, de facto, fazer a diferença entre a vida e a morte, entre o salto e o passo atrás, entre o abismo e o regresso a casa. Já não vinha ao viaduto para pensar em saltar, dizia ele, e a sua voz, ao dizê-lo, tinha uma firmeza que não era a da negação, mas a da superação; vinha para ajudar, para estar presente, para oferecer aos outros o que um dia lhe oferecêramos a ele, e essa transição, de socorrido a socorrista, de paciente a terapeuta, de sobrevivente a guardião, era, para mim, a confirmação de que a vigília criara algo de novo, algo que não existia antes e que, agora que existia, se tornava indispensável.

 

Foi Miguel quem, numa noite de dezembro em que o frio se tornara tão intenso que o café gelava nas canecas antes de podermos bebê-lo, nos apresentou a uma mulher que mudaria, uma vez mais, o curso da nossa investigação e da nossa prática. Chamava-se Helena, tinha cinquenta e quatro anos, era professora de literatura num liceu dos subúrbios, e trazia consigo, para além de uma dor que se adivinhava na profundidade das olheiras e na curvatura dos ombros, uma história que era, ao mesmo tempo, única e universal, pessoal e coletiva, e que se inseria, como uma peça que faltava, no puzzle que andávamos a montar. Helena, contou-nos ela com uma voz que o hábito da sala de aula tornara pausada e clara, mas que a emoção, por vezes, fazia vacilar, perdera o filho único, um rapaz de dezanove anos chamado David, que se lançara do Viaduto de Santa Cruz do Calvário havia precisamente dois anos, numa noite de primavera, sem deixar carta, sem deixar explicação, sem deixar nada senão um quarto arrumado, uma cama feita, um computador onde os seus amigos, depois da sua morte, tinham encontrado uma pasta escondida, uma pasta com um nome enigmático, Projeto Final, que continha dezenas de vídeos de suicídios públicos, meticulosamente organizados por data, por local, por método, como se o rapaz estivesse a fazer uma pesquisa, uma recolha de material para uma obra que nunca chegou a realizar.

 

A descoberta dessa pasta, disse Helena, e as suas mãos, ao dizê-lo, apertavam a caneca de café com uma força que lhe branqueava os nós dos dedos, fora o momento mais terrível da sua vida, mais terrível até do que o momento em que a polícia lhe batera à porta para lhe dar a notícia, porque a notícia, por mais devastadora que fosse, era apenas um facto, um acontecimento, uma linha de demarcação entre o antes e o depois, ao passo que a pasta, com os seus vídeos e as suas classificações e as suas anotações, era uma janela aberta para o interior do filho, para o seu mundo secreto, para os meses de sofrimento silencioso que tinham precedido o salto e de que ela, a mãe, a pessoa que supostamente o conhecia melhor do que ninguém, não suspeitara nada, absolutamente nada. E o que a atormentava, disse ela com os olhos fixos no nevoeiro que subia do rio, não era apenas a morte do filho, que essa era uma ferida que nunca cicatrizaria, mas a sensação, que a perseguia dia e noite, de que David não se matara sozinho, de que alguém, ou alguma coisa, o empurrara, não no sentido físico, que o salto fora dado pelas suas próprias pernas, mas no sentido moral, psicológico, espiritual, e de que essa alguma coisa eram precisamente os vídeos que ele colecionara, os vídeos que ele vira e revira até à exaustão, os vídeos que o tinham convencido, lenta e insidiosamente, de que o suicídio não era uma tragédia, mas uma obra, não era um fim, mas uma realização, não era uma derrota, mas um triunfo.

 

Esta revelação de Helena, feita com uma lucidez que só a dor muito profunda, a dor que já passou a fase do choque e entrou na fase da análise, pode proporcionar, veio confirmar, de um modo que nenhum artigo académico poderia igualar, a tese de Costantini sobre o contágio cenográfico, e veio também dar uma nova dimensão à nossa compreensão do fenómeno que estudávamos. Já não se tratava apenas de descrever o espetáculo do autoaniquilamento, de analisar as suas cenas, os seus cenários, os seus espectadores; tratava-se agora de perceber que o espetáculo não era apenas um efeito, uma consequência, uma manifestação exterior de uma decisão interior; era também uma causa, um motor, um agente ativo que recrutava os seus atores entre os espectadores mais vulneráveis, que os treinava, que os preparava, que os convencia, e que os lançava, finalmente, do parapeito, com a mesma naturalidade com que uma escola de teatro lança os seus alunos para o palco depois de anos de formação. David, o filho de Helena, não era um suicida que se tornara espectador; era um espectador que se tornara suicida, e essa distinção, que à primeira vista podia parecer subtil, era na verdade fundamental, porque invertia a relação de causalidade que tínhamos assumido até então e nos obrigava a olhar para o fenómeno de uma perspetiva inteiramente nova.

 

Pedi a Helena, com a delicadeza de quem sabe que está a pedir um sacrifício, que me falasse mais do filho, da sua personalidade, dos seus interesses, dos seus hábitos, e ela, que parecia aliviada por poder falar dele, por poder pronunciar o seu nome em voz alta sem que os outros desviassem o olhar, sem que mudassem de assunto, sem que fizessem aquele silêncio embaraçado que as pessoas fazem quando se menciona um morto, contou-me que David era um rapaz sensível, introvertido, que passava horas no quarto, a ler, a escrever, a navegar na internet, e que, nos últimos meses, se interessara por fotografia e por cinema, ao ponto de ter pedido uma câmara como prenda de anos, uma câmara que ele usava para filmar a cidade, os seus viadutos, as suas pontes, os seus telhados, ângulos insólitos que surpreendiam pela sua beleza e que, vistos agora, à luz do que aconteceu depois, adquiriam uma dimensão sinistra, como se o rapaz estivesse a fazer o levantamento dos locais onde poderia filmar a sua própria morte. A pasta Projeto Final, que a polícia devolvera a Helena depois de concluída a investigação, e que ela guardara sem nunca ter coragem de a abrir, continha, para além dos vídeos, um caderno de anotações, um caderno que ela me trouxera, na esperança de que eu, que estudava o fenómeno, pudesse encontrar nele alguma resposta, alguma explicação, alguma chave que lhe permitisse compreender o que levara o seu filho a saltar.

 

Abri o caderno com a reverência de quem abre um testamento, e o que encontrei nas suas páginas, escritas com uma letra miúda e nervosa, cheia de rasuras e de setas que ligavam umas ideias às outras, era uma espécie de diário de bordo de uma viagem em direção ao abismo, uma viagem que começava com uma curiosidade quase inocente, um interesse académico pelo fenómeno do suicídio público, e que se transformava, gradualmente, numa obsessão, num fascínio, numa devoção. David, que lera os mesmos autores que nós líamos, que vira os mesmos vídeos que nós conhecíamos, que frequentara os mesmos fóruns que nós consultáramos, descrevia, com uma minúcia que era ao mesmo tempo clínica e poética, a sua progressiva conversão à estética do autoaniquilamento, a forma como as imagens que colecionava o foram dessensibilizando, a forma como o horror se foi transformando em beleza, a forma como a morte, de inimiga a temer, se foi tornando uma obra a realizar. E havia, no meio das suas anotações, uma frase que me fez estremecer, uma frase que ele escrevera com uma calma que era mais terrível do que qualquer grito, e que dizia: O que eles fizeram é arte. A arte suprema. A única que não se pode repetir. A única que consome o artista. Eu quero ser artista.

 

Esta frase, que lia em voz alta para Érica e para Helena e para Miguel, que se tinham aproximado e que ouviam em silêncio, com uma gravidade que a ocasião impunha, era a confirmação mais cabal de tudo o que tínhamos vindo a descobrir, e era também, para Helena, uma sentença, a sentença de que o seu filho não morrera por acaso, não morrera por uma crise passageira, não morrera por uma doença mental que pudesse ter sido tratada, mas morrera porque uma cultura, uma estética, uma ideologia da morte como espetáculo o tinham seduzido, o tinham convencido, o tinham recrutado para uma causa que não era a sua, mas que ele abraçara como se fosse, e que, ao abraçá-la, se tornara não apenas vítima, mas também, de algum modo, cúmplice, um soldado de um exército invisível que combatia não pela vida, mas pela morte, não pela salvação, mas pela condenação, não pelo sentido, mas pelo espetáculo.

 

Helena, que durante a leitura do caderno se mantivera em silêncio, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto sem que ela fizesse nada para as limpar, como se já não tivesse forças para fingir que era forte, perguntou-nos, com uma voz que era quase um soluço, se havia alguma coisa que pudéssemos fazer, não por ela, que ela já estava para além de qualquer consolo, mas pelos outros, pelos que ainda estavam vivos e que, como o seu filho, estavam a ser seduzidos por aquela ideologia da morte, por aquela estética do abismo, por aquela cultura do espetáculo que transformava o sofrimento em entretenimento e a morte em obra de arte. A pergunta, dirigida a nós como se fôssemos especialistas, como se tivéssemos as respostas que ela procurava, encheu-me de uma responsabilidade que era, ao mesmo tempo, um peso e uma honra, e eu, que nunca me considerara capaz de responder a perguntas daquela magnitude, vi-me a responder-lhe, com uma convicção que me surpreendeu a mim próprio, que sim, que havia algo que podíamos fazer, e que era precisamente o que estávamos a fazer: estar ali, no viaduto, noite após noite, oferecendo uma presença, uma escuta, uma alternativa, e, ao mesmo tempo, contar as histórias dos que tinham partido, não para as transformar em espetáculo, mas para as transformar em memória, em testemunho, em advertência, para que outros, ao ouvi-las, percebessem que a morte não era uma obra de arte, não era um triunfo, não era uma libertação, mas uma derrota, uma derrota de todos, da família, dos amigos, da cidade, da humanidade inteira, que perdia, com cada suicida, uma voz que não podia ser substituída, uma perspetiva que não podia ser replicada, uma vida que, por mais insignificante que parecesse aos olhos do mundo, era única e irrepetível.

 

Essa noite, que foi a mais longa de todas as que passáramos no viaduto, marcou uma viragem na nossa vigília. A partir dali, já não estávamos apenas à espera de que alguém aparecesse, disponíveis para ouvir e para acolher; estávamos também, e cada vez mais, empenhados numa tarefa de contra-narrativa, de produção de um discurso alternativo ao discurso dominante que circulava nos fóruns e nos vídeos e nas redes sociais, um discurso que não glorificasse a morte, que não estetizasse o sofrimento, que não transformasse o suicídio numa performance a ser admirada e imitada. Era uma tarefa difícil, quase impossível, porque o discurso que combatíamos tinha a sedução das coisas proibidas, o fascínio das coisas extremas, a beleza das coisas que desafiam a ordem estabelecida; e o nosso discurso, pelo contrário, era um discurso de moderação, de contenção, de humildade, um discurso que não prometia a glória, mas apenas a sobrevivência, que não oferecia o êxtase, mas apenas a possibilidade de um dia, talvez, encontrar um sentido para a dor, ou, pelo menos, aprender a viver com ela sem ser por ela destruído.

 

Mas tínhamos, a nosso favor, uma arma que os produtores de espetáculo não tinham: a presença, o corpo, a voz, o olhar. Os vídeos que David colecionara, e que Lúcia talvez também tivesse visto, e que Miguel confessara ter visto, eram imagens, apenas imagens, imagens que se podiam ver e rever, mas que não respondiam, que não interpelavam, que não abraçavam. Nós, pelo contrário, estávamos ali, de carne e osso, com o nosso café e os nossos cobertores e as nossas imperfeições, e era essa presença, mais do que as nossas palavras, mais do que os nossos argumentos, que fazia a diferença. Porque o abismo, por mais sedutor que fosse, era impessoal, era abstrato, era uma ideia; ao passo que nós éramos reais, éramos concretos, éramos humanos, e a humanidade, quando se oferece sem reservas, tem um poder que nenhuma imagem pode igualar, o poder de recordar a quem sofre que o sofrimento não é tudo, que há, ainda, no mundo, coisas que valem a pena, coisas tão simples como um café quente numa noite fria, como uma mão que se estende sem pedir nada em troca, como uma voz que diz, com a autoridade de quem já esteve no fundo do poço e de lá saiu, que o poço não tem apenas uma saída, que a queda não é a única opção, que o espetáculo pode ser interrompido, que a narrativa pode ser reescrita, que o fim pode ser adiado, e que cada adiamento é uma vitória, por mais modesta que seja.

 

Helena, que nos ouvira com uma atenção que as lágrimas não diminuíam, pediu-nos, no final da noite, que a deixássemos ficar, que a deixássemos fazer parte da vigília, não como objeto de estudo, não como fonte de informações, mas como companheira, como cúmplice, como alguém que, tendo perdido tudo, queria ajudar a que outros não perdessem. E nós, que não tínhamos autoridade para recusar, que não tínhamos o direito de excluir, acolhemo-la com a mesma naturalidade com que tínhamos acolhido Miguel, e com que acolheríamos, nas semanas e meses seguintes, muitos outros, tantos que já não cabiam no banco do viaduto e que se sentavam no chão, encostados ao parapeito, formando um círculo de sombras que a luz dos candeeiros mal iluminava, uma assembleia de almas perdidas que se reencontravam, uma comunidade de dor que se transformava, lentamente, numa comunidade de esperança.

 

Foi por essa altura, e o tempo, como sempre sucede quando se olha para trás, se me afigura agora confuso, misturado, como um novelo de lã que o gato desfez e que não se consegue voltar a enrolar, que recebemos a notícia de que Costantini morrera. A notícia chegou-nos por uma carta, uma carta escrita à mão, com a sua letra inconfundível, que o velho professor enviara a Érica dias antes de falecer, e que ela recebeu numa manhã de janeiro, quando a neve, uma neve rara na nossa cidade, cobria os telhados com um manto branco que tudo silenciava, como se o mundo se tivesse recolhido para ouvir as últimas palavras do mestre. A carta, que Érica me leu em voz alta no sótão onde tantas vezes discutíramos, era, ao mesmo tempo, uma despedida e um testamento, um adeus e uma missão, e nela Costantini, com a lucidez dos que sabem que o fim se aproxima e que já não têm nada a perder, dizia-nos que soubera, não sabia como, das nossas vigílias, da nossa comunidade, do nosso trabalho, e que isso lhe dava uma paz que não esperara encontrar, a paz de quem vê as suas ideias não serem apenas lidas, mas vividas, não serem apenas discutidas, mas praticadas, não serem apenas citadas, mas encarnadas.

 

Dizia ele, na sua carta, que a dramaturgia da morte voluntária, que ele estudara durante toda a vida como um fenómeno a descrever, se revelava agora, à luz do que nós fazíamos, como um fenómeno a combater, e que a melhor forma de o combater não era a censura, não era a proibição, não era a repressão, mas a criação de espaços onde a morte pudesse ser olhada de frente, sem véus, sem metáforas, sem estetizações, e onde a vida, por contraste, pudesse ser afirmada não como um dever, não como uma obrigação, mas como uma possibilidade, uma oportunidade, um dom que, por mais frágil que fosse, merecia ser vivido até ao fim. E terminava a carta com uma frase que era, ao mesmo tempo, uma bênção e uma advertência, e que eu guardo comigo, transcrita num papel que trago sempre na carteira, como um talismã contra o desânimo: O espetáculo da morte é poderoso, mas o espetáculo da vida, quando encenado com a mesma dedicação, com a mesma atenção ao detalhe, com a mesma vontade de chegar ao outro, é ainda mais poderoso, porque a morte é sempre a mesma, ao passo que a vida é sempre diferente, sempre nova, sempre surpreendente. Não se esqueçam disso. E não se esqueçam de mim, como eu não me esqueci de vocês.

 

A morte de Costantini, por mais esperada que fosse, dada a sua idade avançada, foi para nós um golpe duro, um daqueles golpes que não derrubam, mas que deixam uma marca, uma cicatriz que o tempo não apaga, apenas torna suportável. Érica, que perdera não apenas um mestre, mas um pai simbólico, um interlocutor invisível com quem dialogava há anos, fechou-se em casa durante uma semana, uma semana em que não atendeu o telefone, não respondeu a mensagens, não apareceu no viaduto, e eu, que conhecia a profundidade da sua dor, respeitei o seu silêncio, mas fui, todas as noites, sentar-me no banco do viaduto, sozinho, mantendo a vigília, mantendo a chama acesa, como um faroleiro que continua a acender o farol mesmo quando sabe que não há navios no horizonte, apenas porque o farol, aceso, é um símbolo, uma promessa, uma afirmação de que a escuridão não venceu, de que há, ainda, alguém que vela.

 

Quando Érica regressou, estava mais magra, mais pálida, mas havia nos seus olhos uma determinação nova, uma determinação que eu não lhe vira antes e que me pareceu ser o fruto amargo da perda, a transformação da dor em ação, do luto em compromisso. Disse-me, com uma firmeza que não admitia réplica, que a morte de Costantini a libertara da sua dívida para com ele, e que agora, livre dessa dívida, podia dedicar-se inteiramente ao que ele próprio lhe pedira na carta: a criação de espaços onde a morte pudesse ser olhada de frente e a vida pudesse ser afirmada. E foi assim que, nas semanas que se seguiram, começámos a planear o que viria a ser o nosso projeto mais ambicioso, um projeto que nasceu da vigília e que a transcendia, um projeto que Costantini, se fosse vivo, talvez aprovasse, e que consistia em transformar a nossa comunidade informal de sobreviventes e de guardiães numa associação, com nome, com sede, com estatutos, com projetos, uma associação que se dedicaria a estudar, a prevenir, a combater o fenómeno do autoaniquilamento espetacularizado, não com a linguagem técnica dos especialistas, mas com a linguagem humana dos que viveram a dor na própria carne e sobreviveram para a contar.

 

Chamámos-lhe, com uma reverência que era também uma homenagem, Associação Costantini, e o nome, que a princípio nos pareceu talvez demasiado pessoal, demasiado centrado na figura do mestre, revelou-se, com o tempo, uma escolha acertada, porque Costantini, para além do homem que fora, tornara-se um símbolo, uma bandeira, um nome que invocava, para quem o conhecia, a ideia de que o conhecimento, quando unido à compaixão, podia salvar vidas, e de que a investigação, quando posta ao serviço da comunidade, podia transformar a realidade em vez de apenas a descrever. A associação, que começou por funcionar no sótão de Érica, entre livros e gatos e papéis, cresceu rapidamente, alimentada pelo boca-a-boca, pela rede de contactos que a vigília criara, pela necessidade, que se revelou muito maior do que imaginávamos, de um espaço onde as pessoas pudessem falar da morte sem serem julgadas, onde pudessem chorar os seus mortos sem serem apressadas, onde pudessem encontrar, na partilha da dor, um alívio que a solidão não proporcionava, e onde pudessem, sobretudo, aprender a viver, a viver apesar de tudo, a viver com a ferida, a viver com a saudade, a viver com a certeza de que o sol, por mais escura que fosse a noite, acabava sempre por nascer.

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