Novembro - Capítulo IV

 

IV

 

O endereço que Tobias Nogueira me deixara, escrito à pressa num pedaço de papel que eu guardara na carteira e que se fora dobrando e desdobrando ao longo dos dias seguintes, com as marcas de suor e de uso que o papel adquire quando é consultado muitas vezes e guardado outras tantas, conduziu-me, numa manhã de setembro em que o outono começava a insinuar-se mais pela qualidade da luz do que pela temperatura, a um bairro que eu não frequentava, um daqueles bairros que os mapas oficiais designam por zona residencial consolidada e que os habitantes, com a sabedoria involuntária de quem conhece o terreno por o pisar, chamam simplesmente de bairro antigo, um labirinto de ruas estreitas onde os prédios, de quatro ou cinco andares, se inclinavam ligeiramente uns para os outros, como se, cansados de se manterem de pé durante décadas, procurassem apoio mútuo para não desabarem, e onde a roupa pendurada nas varandas, as gaiolas de canários suspensas das janelas, o cheiro a pão quente que saía das padarias e o rumor abafado das televisões que se ouviam através das paredes finas compunham uma paisagem que era, ao mesmo tempo, íntima e estranha, acolhedora e opressiva, como só as paisagens urbanas muito densamente habitadas conseguem ser. O prédio de Tobias ficava no fundo de uma rua sem saída, uma rua que terminava contra um muro de tijolo onde alguém pintara, com tinta vermelha já desbotada pelas chuvas, uma frase que dizia o silêncio também grita, e eu detive-me diante dessa frase durante um momento que não soube medir, porque me pareceu, com a força das coincidências que não são coincidências, uma súmula involuntária de tudo o que nos ocupava desde o início da pesquisa, o grito que não se ouve, a voz que não se escuta, a morte que fala mais alto do que a vida e que, no entanto, não diz nada que se possa entender completamente.

 

Tobias recebeu-me à porta do apartamento, um terceiro andar sem elevador, com as escadas tão gastas que os degraus tinham no centro uma concavidade polida por gerações de passos, e conduziu-me a uma sala pequena mas arrumada com um cuidado que roçava a obsessão, cada objeto no seu lugar, cada superfície limpa, cada almofada do sofá perfeitamente centrada, como se a ordem exterior fosse uma defesa contra o caos interior, uma muralha erguida contra a desordem da memória e do luto. Nas paredes, várias fotografias de Lúcia, emolduradas com simplicidade mas dispostas com uma intenção evidente, como os ícones que se veneram nos altares domésticos, mostravam-na em diferentes fases da vida: criança de tranças e joelhos esfolados, adolescente de sorriso tímido e cabelo rebelde, mulher feita de olhar intenso e queixo erguido, sempre com aquela mesma expressão que eu identificara nas fotografias que Érica me mostrara, uma expressão que não era de tristeza, não era de alegria, era de uma lucidez que parecia ver para além do que a câmara registava. Numa das fotografias, a que ocupava o centro da disposição e que tinha uma vela acesa diante de si, Lúcia aparecia de pé sobre o Viaduto de Santa Cruz do Calvário, não na atitude de quem se prepara para saltar, mas na de quem visita um lugar significativo, com um sorriso que agora, à luz do que aconteceu depois, se tornava insuportavelmente ambíguo, e eu perguntei a Tobias, com a delicadeza de quem sabe que está a pisar terreno minado, quando fora tirada aquela fotografia, e ele respondeu, sem desviar os olhos da imagem, que fora tirada precisamente um ano antes do salto, numa tarde de domingo em que Lúcia insistira em levá-lo ao viaduto para lhe mostrar a vista mais bonita da cidade, e que ele, na altura, não dera importância ao passeio, julgara que era apenas um capricho de irmã, uma daquelas ideias que as pessoas têm e que não significam nada, e que agora, todos os dias, se perguntava como pudera ser tão cego, como pudera não ver o que estava à frente dos seus olhos, como pudera não perceber que a irmã o estava a despedir-se sem o dizer, a mostrar-lhe o lugar que escolhera para morrer sem que ele suspeitasse de nada.

 

Ofereceu-me café, que eu aceitei, e enquanto o preparava na cozinha, uma cozinha minúscula onde os azulejos antigos, de um verde-água que já não se fabricava, tinham pequenas falhas que revelavam o reboco por baixo, falou-me de Lúcia com uma fluência que sugeria que a história já fora contada muitas vezes, ou que, pelo menos, fora ensaiada em silêncio, na solidão das noites de insónia, vezes sem conta, como se a repetição pudesse, de algum modo, domesticar a dor, torná-la suportável, convertê-la numa narrativa que se pudesse contar sem que a voz se partisse a cada frase. Lúcia, disse ele, fora sempre a mais inteligente dos dois, a mais sensível, a que lia livros que ninguém mais lia, a que se emocionava com coisas que os outros não viam, um pôr-do-sol particularmente intenso, uma folha que caía da árvore com uma lentidão que parecia coreografada, uma música que passava na rádio e que a fazia chorar sem que ela soubesse explicar porquê, e essa sensibilidade, que na infância era motivo de ternura familiar, tornara-se, na idade adulta, uma ferida aberta que o mundo se encarregava de salpicar de limão todos os dias, porque o mundo, disse Tobias com uma lucidez que me surpreendeu, não foi feito para as pessoas sensíveis, foi feito para as pessoas que conseguem andar de headphones nos ouvidos sem se importarem com o ruído que as rodeia, e a Lúcia, coitada, ouvia tudo, via tudo, sentia tudo, e o peso de sentir tudo acabou por ser maior do que a força que ela tinha para o suportar.

 

Perguntei-lhe, depois de um gole de café que me queimou a língua e que eu fingi não sentir, pela carta, pela exigência de publicação no jornal, pelo gesto de transformar uma despedida privada num manifesto público, e Tobias, em vez de responder diretamente, levantou-se e dirigiu-se a um armário de onde retirou uma caixa de cartão, uma caixa vulgar, daquelas que se usam para guardar papéis velhos, com os cantos reforçados por fita adesiva amarelada pelo tempo, e colocou-ma no colo com o cuidado de quem deposita uma relíquia. Ali dentro, explicou-me, estava tudo o que Lúcia deixara, não apenas a carta, mas os diários, as agendas, os cadernos de anotações, as cartas nunca enviadas, os bilhetes de cinema, as fotografias rasgadas e depois coladas, os poemas escritos em guardanapos de papel, toda uma arqueologia íntima que ele ainda não tivera coragem de organizar, porque organizar seria, de algum modo, encerrar, e encerrar era uma palavra que ele não conseguia pronunciar sem que a garganta se lhe apertasse. Pedi-lhe autorização para abrir a caixa, e ele concedeu-ma com um aceno de cabeça que era, ao mesmo tempo, uma autorização e uma desistência, como se me estivesse a passar um testemunho que já não tinha forças para carregar, e eu abri a caixa com a lentidão dos gestos que se sabem irreversíveis, como quem abre uma porta que, uma vez franqueada, não poderá ser fechada da mesma maneira, e mergulhei naquele universo de papel e tinta que cheirava a pó e a ausência.

 

O primeiro caderno que me veio às mãos, um caderno de capa preta com as bordas gastas e uma etiqueta onde se lia, com a letra redonda que eu já conhecia da carta, Caderno das Coisas Que Não Se Dizem, revelou-se, à medida que o folheava com a avidez de quem procura uma chave e teme encontrá-la, um documento de uma densidade psicológica que me deixou, durante longos minutos, incapaz de articular qualquer pensamento que não fosse o da mais pura estupefação. Não era um diário comum, desses que registam os acontecimentos do dia a dia com a fidelidade monótona de um livro de bordo, era, antes, uma meditação contínua sobre a impossibilidade de comunicar, sobre o muro invisível que se erguia entre ela e os outros, sobre a sensação, que voltava com a regularidade das marés, de estar a falar uma língua que ninguém entendia, de estar a gritar num quarto insonorizado, de estar a morrer de sede no meio de um oceano de palavras que não serviam para matar a sede porque as palavras, dizia ela numa passagem que transcrevi mentalmente e que me acompanharia durante muito tempo, são como a água do mar, quanto mais se bebe mais sede se tem, e no fim bebe-se tanta que se morre intoxicado por aquilo que deveria salvar-nos.

 

Havia, nesse caderno, uma entrada datada de três meses antes do salto, uma entrada que ocupava várias páginas e que estava escrita com uma letra mais firme do que as restantes, como se a autora tivesse, naquele dia, encontrado uma clareza que noutros dias lhe escapava, e nela Lúcia descrevia, com uma minúcia que era quase clínica, a sensação de se observar a si própria como se fosse uma personagem de um filme, uma sensação de desdobramento que os psicólogos, explicava ela com a ironia de quem conhecia a literatura e não lhe dava crédito, chamariam de despersonalização, mas que ela preferia chamar de lucidez suprema, porque era nesses momentos, quando se via de fora, que percebia com mais nitidez a absurdidade de tudo, a absurdidade de acordar todos os dias à mesma hora, de vestir roupas que não escolhera, de dizer palavras que não sentia, de representar um papel que não pedira, de ser, no fundo, uma atriz numa peça que não lhe agradava e cujo texto não podia modificar, e perguntava-se, com uma angústia que traspassava o papel e me atingia como uma agulha, se as outras pessoas sentiam o mesmo e simplesmente o disfarçavam melhor, ou se havia nelas qualquer coisa que lhe faltava a ela, qualquer órgão invisível que produzia o sentido da vida como o pâncreas produz a insulina, e que nela, por uma falha de fabrico, estava ausente ou avariado desde o nascimento.

 

Folheei outros cadernos, outras agendas, outras folhas soltas, e fui compondo, a partir desses fragmentos dispersos, um retrato que era, ao mesmo tempo, o de uma pessoa singular e o de uma geração inteira, uma geração que crescera na promessa de que tudo era possível e que descobrira, ao chegar à idade adulta, que quase nada o era, uma geração que fora educada para o sucesso e que se deparara com a precariedade, uma geração que aprendera a expor a sua vida nas redes sociais e que se sentia, apesar disso, ou talvez por isso, mais sozinha do que qualquer geração anterior, e Lúcia, com a sua sensibilidade exacerbada, sentira tudo isso de forma mais aguda do que os outros, como um sismógrafo que regista tremores que mais ninguém percebe, e fora essa capacidade de sentir o que os outros não sentiam que a levara, primeiro, a uma solidão interior que nenhuma companhia conseguia mitigar, e depois, gradualmente, à convicção de que a única forma de furar o muro que a separava do mundo era através de um gesto que fosse tão estrondoso que o mundo, por mais surdo que estivesse, não pudesse deixar de ouvir.

 

Tobias, que me observava em silêncio enquanto eu mergulhava nos papéis da irmã, com uma expressão que era uma mistura de ansiedade e de alívio, como se a partilha daqueles documentos fosse, ao mesmo tempo, uma violação e uma libertação, levantou-se novamente e trouxe-me, desta vez, um pequeno gravador de cassetes, daqueles que já ninguém usa mas que, nas mãos de Lúcia, se tornara um instrumento de registo quase notarial, e explicou-me que a irmã, nos últimos meses, desenvolvera o hábito de gravar reflexões soltas, como se falasse para um interlocutor invisível, um interlocutor que tanto podia ser ela própria como um futuro ouvinte que ela imaginava mas que não sabia se alguma vez chegaria a existir. Colocou a cassete no gravador e premiu o botão de reprodução, e a voz de Lúcia encheu a sala com uma presença tão vívida que me pareceu, durante um instante, que ela estava ali connosco, sentada na poltrona vazia ao canto, com as pernas cruzadas e o olhar perdido no horizonte dos telhados que se via pela janela. A gravação, de uma qualidade acústica precária, com o rumor de fundo do tráfego e o chiar dos carris de um elétrico que passava ao longe, continha uma reflexão sobre o que ela chamava de a ditadura da felicidade, essa imposição social que nos obriga a estarmos sempre bem, sempre produtivos, sempre positivos, sempre a sorrir para as fotografias que publicamos, e que transforma a tristeza, a angústia, a melancolia, em doenças que precisam de ser tratadas, em desvios que precisam de ser corrigidos, em falhas que precisam de ser escondidas, como se a vida, por definição, tivesse de ser feliz, e tudo o que não fosse feliz fosse uma anomalia, um erro de fabrico, uma peça defeituosa que a máquina social se encarregava de triturar.

 

A voz de Lúcia, na gravação, não tinha a entoação trémula que eu esperara, era uma voz calma, pausada, quase didática, como a de uma professora que explica uma matéria difícil a um aluno que não a compreende, e talvez fosse exatamente isso que ela estivesse a fazer, a explicar a um mundo que não a compreendia as razões pelas quais não se enquadrava, não se adaptava, não funcionava como supostamente deveria funcionar, e ao ouvi-la, ali sentado no sofá de Tobias, com a xícara de café frio esquecida na mesa e o rumor distante da cidade que entrava pela janela entreaberta, percebi que o que Lúcia fazia, nos seus diários, nas suas gravações, na sua carta ao jornal, era uma tentativa desesperada e lúcida de traduzir o intraduzível, de dizer o indizível, de comunicar uma experiência que, por definição, não podia ser comunicada, porque a experiência da dor psíquica, ao contrário da dor física, não tem palavras que a descrevam com precisão, é uma experiência que se vive na carne da alma, se me é permitida esta expressão contraditória, e que, quando se tenta pôr em palavras, se desvirtua, se banaliza, se transforma em qualquer coisa que já não é o que era, como uma fotografia de um eclipse que, por mais fiel que seja, nunca conseguirá transmitir a emoção de ver o sol desaparecer atrás da lua.

 

Perguntei a Tobias, quando a gravação terminou e o silêncio voltou a instalar-se na sala, um silêncio que era mais pesado do que antes, como se as palavras de Lúcia tivessem ocupado todo o espaço disponível e a sua ausência súbita tivesse deixado um vazio ainda maior, se ele alguma vez tentara publicar a carta da irmã no jornal, como ela pedira, e ele respondeu-me que sim, que tentara, que contactara a redação do principal diário da cidade, que falara com um editor que o recebera com uma cortesia profissional que não chegava a disfarçar o embaraço, e que o editor, depois de ler a carta com uma expressão que Tobias descreveu como a de quem morde um limão sem esperar, lhe dissera que lamentava muito, que compreendia a dor da família, mas que a política editorial do jornal não permitia a publicação de cartas de suicidas, por razões que iam desde o receio de um efeito de contágio até à proteção da privacidade dos envolvidos, passando por uma série de argumentos que, no fundo, se resumiam a um único: a morte, quando não é higienizada, quando não é tornada palatável, quando não é vestida com as roupas da estatística ou da tragédia distante, é uma coisa feia, suja, incómoda, que não fica bem na página de um jornal que as pessoas leem ao pequeno-almoço, entre um gole de leite e uma torrada com manteiga.

 

Essa recusa, compreensível do ponto de vista editorial, talvez até defensável do ponto de vista ético, tinha, no entanto, qualquer coisa de profundamente sintomático, e foi a própria Lúcia, numa das passagens do seu caderno, que me deu a chave para o entender, quando escreveu, com aquela lucidez que a caracterizava, que a sociedade que tudo mostra, que tudo exibe, que tudo transmite em direto, é a mesma que esconde a morte atrás de biombos, que a empurra para os hospitais e para as funerárias, que a torna invisível para que os vivos possam continuar a consumir sem o incómodo de se lembrarem de que são mortais, e que o seu gesto, o seu salto do viaduto, era, também, uma forma de furar esse biombo, de obrigar a sociedade a ver o que não queria ver, de devolver à morte a visibilidade que lhe fora roubada, e se o jornal se recusava a publicar a sua carta, era precisamente porque a carta, mais do que o salto, mais do que o corpo, mais do que a notícia, obrigava os leitores a olhar para a morte de frente, sem a mediação tranquilizadora dos jornalistas que transformam o horror em palavras assépticas, sem a distância segura das estatísticas que reduzem pessoas a números, sem a anestesia das fórmulas de circunstância que os jornais reservam para as tragédias distantes.

 

Tobias, que esgotara as suas forças nessa tentativa de publicação e que, depois da recusa, se recolhera ao silêncio do luto privado, sem a catarse pública que a irmã desejara, perguntou-me se eu achava que a carta ainda podia ser publicada, se havia algum sentido em insistir, se a pesquisa de Érica podia, de alguma forma, servir de veículo para as palavras de Lúcia, e eu, que não tinha uma resposta pronta, que não sabia se a publicação seria um ato de justiça ou uma violação póstuma, limitei-me a dizer-lhe que ia pensar, que ia falar com Érica, que íamos encontrar uma forma de honrar a vontade de Lúcia sem a transformar num espetáculo que ela própria, apesar de tudo, talvez não desejasse, porque uma coisa era querer ser lida, outra, muito diferente, era querer ser consumida, e a linha que separava as duas coisas, ténue como um fio de seda, era a mesma linha que separava o testemunho do voyeurismo, a partilha da exploração, a comunicação da obscenidade.

 

Despedi-me de Tobias ao princípio da tarde, com a promessa de que voltaria, de que não o deixaria sozinho com a caixa de papéis e de cassetes e de memórias, e desci as escadas do prédio com a sensação de que trazia comigo um peso que não era físico mas que se fazia sentir em cada passo, como se os cadernos de Lúcia, que Tobias insistira em emprestar-me, tivessem a densidade do chumbo e a temperatura do gelo, e ao sair para a rua, com a luz do sol a ferir-me os olhos depois da penumbra do apartamento, reparei que a frase pintada no muro, o silêncio também grita, ganhara, entretanto, uma camada nova de significado, porque o silêncio de Lúcia, o silêncio que se seguira ao impacto do corpo contra o asfalto, era tudo menos silencioso, gritava das páginas dos cadernos, gritava das cassetes que Tobias guardara, gritava da carta que o jornal se recusara a publicar, e esse grito póstumo, essa voz que sobrevivia à morte, era, no fundo, a realização do que ela quisera, uma realização imperfeita, truncada, mas ainda assim uma realização, porque as suas palavras, embora não tivessem chegado às bancas de jornal, tinham chegado a mim, e através de mim chegariam a Érica, e através de Érica chegariam talvez a outros, num circuito de transmissão que era mais lento e mais restrito do que o que ela imaginara, mas que, ainda assim, mantinha viva a sua voz, como uma brasa que se conserva debaixo das cinzas e que, com o sopro certo, pode reacender-se.

 

Caminhei sem destino pelas ruas do bairro antigo, com a caixa de papéis debaixo do braço e a cabeça cheia de palavras que não eram minhas, e fui dar a uma praça que eu não conhecia, uma praça onde havia um coreto velho, desses que já não se usam senão para os pombos pousarem, e onde um grupo de crianças jogava à bola com uma baliza improvisada, feita de mochilas e de pedras, e as suas vozes, os seus risos, as suas correrias, contrastavam de tal modo com o que eu trazia comigo que me senti, durante um instante, um habitante de dois mundos incompatíveis, o mundo dos vivos, que correm e riem e jogam à bola, e o mundo dos que já não estão, mas que, de algum modo, continuam a falar, a escrever, a gritar, e percebi, com uma nitidez que era quase uma dor física, que o trabalho de Érica, e agora também o meu, consistia precisamente em fazer a ponte entre esses dois mundos, em traduzir a linguagem dos que partiram para a linguagem dos que ficaram, em tornar audível o grito que, de outra forma, se perderia no ruído da cidade, e que essa tarefa, por mais modesta que fosse, por mais limitada que fosse, era talvez a única coisa que podíamos fazer, não para salvar os que já se tinham ido, que esses já estavam para além de qualquer salvação, mas para que os que ficavam pudessem, ao menos, ouvir o que os outros tinham a dizer, e, ao ouvi-lo, compreender qualquer coisa sobre si próprios e sobre a cidade que habitavam.

 

Quando finalmente regressei a casa, já o sol se pusera e as primeiras luzes da noite começavam a acender-se nas janelas dos prédios, pequenos retângulos de luz amarela que pontuavam a escuridão como um código morse indecifrável, sentei-me à secretária e despejei sobre o tampo o conteúdo da caixa de Tobias, os cadernos, as cartas, as fotografias, as cassetes, e fiquei muito tempo a olhar para aquele espólio de uma vida interrompida, sem saber por onde começar, sem saber se era legítimo começar, sem saber se a minha intromissão na intimidade de Lúcia não era, ela também, uma forma de voyeurismo, uma violação mascarada de interesse científico, uma maneira de transformar o sofrimento alheio em matéria de estudo, e foi então que me lembrei de uma frase que Érica dissera numa das nossas conversas, uma frase que na altura não me parecera particularmente significativa e que agora, à luz daquilo que eu tinha nas mãos, adquiria um sentido novo: a única forma de respeitar verdadeiramente os mortos é escutá-los, e a única forma de os escutar é ler o que deixaram escrito, ouvir o que deixaram gravado, olhar o que deixaram fotografado, porque os mortos, ao contrário do que se pensa, não estão calados, nós é que somos surdos.

 

Peguei no primeiro caderno, o de capa preta, e comecei a ler desde o início, desta vez com a lentidão que o texto merecia, anotando passagens, sublinhando frases, tentando reconstituir o percurso que levara Lúcia da infância povoada de sonhos à idade adulta sitiada pelo desespero, e à medida que lia, e que as horas passavam sem que eu desse por elas, fui percebendo que o que Lúcia descrevia não era, como eu ingenuamente supusera, uma experiência excecional, um caso patológico, uma anomalia psicológica, mas antes uma experiência que, de forma mais ou menos intensa, mais ou menos consciente, mais ou menos confessada, era partilhada por uma quantidade imensa de pessoas que viviam na metrópole, pessoas que se sentiam sós no meio da multidão, que se sentiam invisíveis no meio da hipervisibilidade, que se sentiam mudas no meio da saturação de palavras, e que o seu gesto final, o salto do viaduto, não era senão a expressão levada ao extremo de uma condição que era a de todos, a condição de quem habita uma cidade que promete tudo e que, no entanto, não dá nada, ou dá apenas o suficiente para que se continue a desejar o que não se tem, como uma cenoura suspensa diante de um burro que nunca a alcança, mas que nunca deixa de andar.

 

Lúcia escrevera, numa das entradas mais antigas do caderno, uma entrada que datava dos seus vinte e poucos anos, quando ainda havia nos seus textos uma réstia de esperança que as entradas posteriores se encarregariam de extinguir, que a cidade é uma amante ciumenta, que exige tudo e não dá nada em troca, que nos suga a energia e nos devolve exaustão, que nos promete encontros e nos entrega solidão, que nos acena com futuros radiantes e nos conduz a becos sem saída, e que, no entanto, não se pode viver fora dela, porque fora dela não há nada, ou aquilo que há é tão assustador como o que há dentro, só que sem a beleza das luzes acesas e o consolo das multidões anónimas, e essa ambivalência, esse amor-ódio pela cidade que era, no fundo, um amor-ódio pela própria vida, percorria todas as páginas do caderno como um baixo contínuo, uma nota grave que soava por baixo de todas as outras e que lhes dava, a todas, um tom de desespero que nenhuma alegria passageira conseguia disfarçar.

 

A certa altura da madrugada, com os olhos a arder e a cabeça a latejar, levantei-me da secretária e fui à janela, e olhei para a cidade que se estendia lá em baixo, um tapete de luzes trémulas que pulsava com uma respiração própria, e pensei em todos os que, naquele preciso momento, estavam acordados como eu, a olhar pela janela, a pensar na vida, a perguntar-se se valia a pena, a medir a distância entre o parapeito e o chão, a ensaiar mentalmente um salto que talvez nunca dessem, ou que talvez dessem amanhã, ou depois, ou um dia, e percebi que a pesquisa de Érica, e a minha própria imersão nos papéis de Lúcia, não eram exercícios académicos, não eram passatempos de intelectuais, eram, no sentido mais literal e mais urgente da palavra, uma questão de vida ou de morte, uma tentativa de compreender para que servia viver quando viver doía, e de encontrar, nessa compreensão, uma resposta que não passasse pelo viaduto, uma resposta que não passasse pelo salto, uma resposta que não passasse pela transformação da morte em espetáculo, porque o espetáculo, por mais grandioso que fosse, por mais espectadores que tivesse, acabava sempre da mesma maneira, com o corpo no asfalto e o silêncio que se seguia ao impacto, um silêncio que, ao contrário do que a frase no muro dizia, já não gritava, apenas se estendia, como uma mancha de óleo sobre a água, até cobrir tudo.

 

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