Novembro - Capítulo IV
IV
O
endereço que Tobias Nogueira me deixara, escrito à pressa num pedaço de papel
que eu guardara na carteira e que se fora dobrando e desdobrando ao longo dos
dias seguintes, com as marcas de suor e de uso que o papel adquire quando é
consultado muitas vezes e guardado outras tantas, conduziu-me, numa manhã de
setembro em que o outono começava a insinuar-se mais pela qualidade da luz do
que pela temperatura, a um bairro que eu não frequentava, um daqueles bairros que
os mapas oficiais designam por zona residencial consolidada e que os
habitantes, com a sabedoria involuntária de quem conhece o terreno por o pisar,
chamam simplesmente de bairro antigo, um labirinto de ruas estreitas onde os
prédios, de quatro ou cinco andares, se inclinavam ligeiramente uns para os
outros, como se, cansados de se manterem de pé durante décadas, procurassem
apoio mútuo para não desabarem, e onde a roupa pendurada nas varandas, as
gaiolas de canários suspensas das janelas, o cheiro a pão quente que saía das
padarias e o rumor abafado das televisões que se ouviam através das paredes
finas compunham uma paisagem que era, ao mesmo tempo, íntima e estranha,
acolhedora e opressiva, como só as paisagens urbanas muito densamente habitadas
conseguem ser. O prédio de Tobias ficava no fundo de uma rua sem saída, uma rua
que terminava contra um muro de tijolo onde alguém pintara, com tinta vermelha
já desbotada pelas chuvas, uma frase que dizia o silêncio também grita, e eu
detive-me diante dessa frase durante um momento que não soube medir, porque me
pareceu, com a força das coincidências que não são coincidências, uma súmula
involuntária de tudo o que nos ocupava desde o início da pesquisa, o grito que
não se ouve, a voz que não se escuta, a morte que fala mais alto do que a vida
e que, no entanto, não diz nada que se possa entender completamente.
Tobias
recebeu-me à porta do apartamento, um terceiro andar sem elevador, com as
escadas tão gastas que os degraus tinham no centro uma concavidade polida por
gerações de passos, e conduziu-me a uma sala pequena mas arrumada com um
cuidado que roçava a obsessão, cada objeto no seu lugar, cada superfície limpa,
cada almofada do sofá perfeitamente centrada, como se a ordem exterior fosse
uma defesa contra o caos interior, uma muralha erguida contra a desordem da
memória e do luto. Nas paredes, várias fotografias de Lúcia, emolduradas com
simplicidade mas dispostas com uma intenção evidente, como os ícones que se
veneram nos altares domésticos, mostravam-na em diferentes fases da vida:
criança de tranças e joelhos esfolados, adolescente de sorriso tímido e cabelo
rebelde, mulher feita de olhar intenso e queixo erguido, sempre com aquela
mesma expressão que eu identificara nas fotografias que Érica me mostrara, uma
expressão que não era de tristeza, não era de alegria, era de uma lucidez que
parecia ver para além do que a câmara registava. Numa das fotografias, a que
ocupava o centro da disposição e que tinha uma vela acesa diante de si, Lúcia
aparecia de pé sobre o Viaduto de Santa Cruz do Calvário, não na atitude de
quem se prepara para saltar, mas na de quem visita um lugar significativo, com
um sorriso que agora, à luz do que aconteceu depois, se tornava
insuportavelmente ambíguo, e eu perguntei a Tobias, com a delicadeza de quem
sabe que está a pisar terreno minado, quando fora tirada aquela fotografia, e
ele respondeu, sem desviar os olhos da imagem, que fora tirada precisamente um
ano antes do salto, numa tarde de domingo em que Lúcia insistira em levá-lo ao
viaduto para lhe mostrar a vista mais bonita da cidade, e que ele, na altura,
não dera importância ao passeio, julgara que era apenas um capricho de irmã,
uma daquelas ideias que as pessoas têm e que não significam nada, e que agora,
todos os dias, se perguntava como pudera ser tão cego, como pudera não ver o
que estava à frente dos seus olhos, como pudera não perceber que a irmã o
estava a despedir-se sem o dizer, a mostrar-lhe o lugar que escolhera para
morrer sem que ele suspeitasse de nada.
Ofereceu-me
café, que eu aceitei, e enquanto o preparava na cozinha, uma cozinha minúscula
onde os azulejos antigos, de um verde-água que já não se fabricava, tinham
pequenas falhas que revelavam o reboco por baixo, falou-me de Lúcia com uma
fluência que sugeria que a história já fora contada muitas vezes, ou que, pelo
menos, fora ensaiada em silêncio, na solidão das noites de insónia, vezes sem
conta, como se a repetição pudesse, de algum modo, domesticar a dor, torná-la
suportável, convertê-la numa narrativa que se pudesse contar sem que a voz se
partisse a cada frase. Lúcia, disse ele, fora sempre a mais inteligente dos
dois, a mais sensível, a que lia livros que ninguém mais lia, a que se
emocionava com coisas que os outros não viam, um pôr-do-sol particularmente intenso,
uma folha que caía da árvore com uma lentidão que parecia coreografada, uma
música que passava na rádio e que a fazia chorar sem que ela soubesse explicar
porquê, e essa sensibilidade, que na infância era motivo de ternura familiar,
tornara-se, na idade adulta, uma ferida aberta que o mundo se encarregava de
salpicar de limão todos os dias, porque o mundo, disse Tobias com uma lucidez
que me surpreendeu, não foi feito para as pessoas sensíveis, foi feito para as
pessoas que conseguem andar de headphones nos ouvidos sem se importarem com o
ruído que as rodeia, e a Lúcia, coitada, ouvia tudo, via tudo, sentia tudo, e o
peso de sentir tudo acabou por ser maior do que a força que ela tinha para o
suportar.
Perguntei-lhe,
depois de um gole de café que me queimou a língua e que eu fingi não sentir,
pela carta, pela exigência de publicação no jornal, pelo gesto de transformar
uma despedida privada num manifesto público, e Tobias, em vez de responder
diretamente, levantou-se e dirigiu-se a um armário de onde retirou uma caixa de
cartão, uma caixa vulgar, daquelas que se usam para guardar papéis velhos, com
os cantos reforçados por fita adesiva amarelada pelo tempo, e colocou-ma no
colo com o cuidado de quem deposita uma relíquia. Ali dentro, explicou-me, estava
tudo o que Lúcia deixara, não apenas a carta, mas os diários, as agendas, os
cadernos de anotações, as cartas nunca enviadas, os bilhetes de cinema, as
fotografias rasgadas e depois coladas, os poemas escritos em guardanapos de
papel, toda uma arqueologia íntima que ele ainda não tivera coragem de
organizar, porque organizar seria, de algum modo, encerrar, e encerrar era uma
palavra que ele não conseguia pronunciar sem que a garganta se lhe apertasse.
Pedi-lhe autorização para abrir a caixa, e ele concedeu-ma com um aceno de
cabeça que era, ao mesmo tempo, uma autorização e uma desistência, como se me
estivesse a passar um testemunho que já não tinha forças para carregar, e eu
abri a caixa com a lentidão dos gestos que se sabem irreversíveis, como quem abre
uma porta que, uma vez franqueada, não poderá ser fechada da mesma maneira, e
mergulhei naquele universo de papel e tinta que cheirava a pó e a ausência.
O
primeiro caderno que me veio às mãos, um caderno de capa preta com as bordas
gastas e uma etiqueta onde se lia, com a letra redonda que eu já conhecia da
carta, Caderno das Coisas Que Não Se Dizem, revelou-se, à medida que o folheava
com a avidez de quem procura uma chave e teme encontrá-la, um documento de uma
densidade psicológica que me deixou, durante longos minutos, incapaz de
articular qualquer pensamento que não fosse o da mais pura estupefação. Não era
um diário comum, desses que registam os acontecimentos do dia a dia com a
fidelidade monótona de um livro de bordo, era, antes, uma meditação contínua
sobre a impossibilidade de comunicar, sobre o muro invisível que se erguia
entre ela e os outros, sobre a sensação, que voltava com a regularidade das
marés, de estar a falar uma língua que ninguém entendia, de estar a gritar num
quarto insonorizado, de estar a morrer de sede no meio de um oceano de palavras
que não serviam para matar a sede porque as palavras, dizia ela numa passagem
que transcrevi mentalmente e que me acompanharia durante muito tempo, são como
a água do mar, quanto mais se bebe mais sede se tem, e no fim bebe-se tanta que
se morre intoxicado por aquilo que deveria salvar-nos.
Havia,
nesse caderno, uma entrada datada de três meses antes do salto, uma entrada que
ocupava várias páginas e que estava escrita com uma letra mais firme do que as
restantes, como se a autora tivesse, naquele dia, encontrado uma clareza que
noutros dias lhe escapava, e nela Lúcia descrevia, com uma minúcia que era
quase clínica, a sensação de se observar a si própria como se fosse uma
personagem de um filme, uma sensação de desdobramento que os psicólogos,
explicava ela com a ironia de quem conhecia a literatura e não lhe dava
crédito, chamariam de despersonalização, mas que ela preferia chamar de lucidez
suprema, porque era nesses momentos, quando se via de fora, que percebia com
mais nitidez a absurdidade de tudo, a absurdidade de acordar todos os dias à
mesma hora, de vestir roupas que não escolhera, de dizer palavras que não
sentia, de representar um papel que não pedira, de ser, no fundo, uma atriz
numa peça que não lhe agradava e cujo texto não podia modificar, e
perguntava-se, com uma angústia que traspassava o papel e me atingia como uma
agulha, se as outras pessoas sentiam o mesmo e simplesmente o disfarçavam
melhor, ou se havia nelas qualquer coisa que lhe faltava a ela, qualquer órgão
invisível que produzia o sentido da vida como o pâncreas produz a insulina, e
que nela, por uma falha de fabrico, estava ausente ou avariado desde o
nascimento.
Folheei
outros cadernos, outras agendas, outras folhas soltas, e fui compondo, a partir
desses fragmentos dispersos, um retrato que era, ao mesmo tempo, o de uma
pessoa singular e o de uma geração inteira, uma geração que crescera na
promessa de que tudo era possível e que descobrira, ao chegar à idade adulta, que
quase nada o era, uma geração que fora educada para o sucesso e que se deparara
com a precariedade, uma geração que aprendera a expor a sua vida nas redes
sociais e que se sentia, apesar disso, ou talvez por isso, mais sozinha do que
qualquer geração anterior, e Lúcia, com a sua sensibilidade exacerbada, sentira
tudo isso de forma mais aguda do que os outros, como um sismógrafo que regista
tremores que mais ninguém percebe, e fora essa capacidade de sentir o que os
outros não sentiam que a levara, primeiro, a uma solidão interior que nenhuma
companhia conseguia mitigar, e depois, gradualmente, à convicção de que a única
forma de furar o muro que a separava do mundo era através de um gesto que fosse
tão estrondoso que o mundo, por mais surdo que estivesse, não pudesse deixar de
ouvir.
Tobias,
que me observava em silêncio enquanto eu mergulhava nos papéis da irmã, com uma
expressão que era uma mistura de ansiedade e de alívio, como se a partilha
daqueles documentos fosse, ao mesmo tempo, uma violação e uma libertação,
levantou-se novamente e trouxe-me, desta vez, um pequeno gravador de cassetes,
daqueles que já ninguém usa mas que, nas mãos de Lúcia, se tornara um
instrumento de registo quase notarial, e explicou-me que a irmã, nos últimos
meses, desenvolvera o hábito de gravar reflexões soltas, como se falasse para
um interlocutor invisível, um interlocutor que tanto podia ser ela própria como
um futuro ouvinte que ela imaginava mas que não sabia se alguma vez chegaria a
existir. Colocou a cassete no gravador e premiu o botão de reprodução, e a voz
de Lúcia encheu a sala com uma presença tão vívida que me pareceu, durante um
instante, que ela estava ali connosco, sentada na poltrona vazia ao canto, com
as pernas cruzadas e o olhar perdido no horizonte dos telhados que se via pela
janela. A gravação, de uma qualidade acústica precária, com o rumor de fundo do
tráfego e o chiar dos carris de um elétrico que passava ao longe, continha uma
reflexão sobre o que ela chamava de a ditadura da felicidade, essa imposição social
que nos obriga a estarmos sempre bem, sempre produtivos, sempre positivos,
sempre a sorrir para as fotografias que publicamos, e que transforma a
tristeza, a angústia, a melancolia, em doenças que precisam de ser tratadas, em
desvios que precisam de ser corrigidos, em falhas que precisam de ser
escondidas, como se a vida, por definição, tivesse de ser feliz, e tudo o que
não fosse feliz fosse uma anomalia, um erro de fabrico, uma peça defeituosa que
a máquina social se encarregava de triturar.
A
voz de Lúcia, na gravação, não tinha a entoação trémula que eu esperara, era
uma voz calma, pausada, quase didática, como a de uma professora que explica
uma matéria difícil a um aluno que não a compreende, e talvez fosse exatamente
isso que ela estivesse a fazer, a explicar a um mundo que não a compreendia as
razões pelas quais não se enquadrava, não se adaptava, não funcionava como
supostamente deveria funcionar, e ao ouvi-la, ali sentado no sofá de Tobias,
com a xícara de café frio esquecida na mesa e o rumor distante da cidade que
entrava pela janela entreaberta, percebi que o que Lúcia fazia, nos seus
diários, nas suas gravações, na sua carta ao jornal, era uma tentativa
desesperada e lúcida de traduzir o intraduzível, de dizer o indizível, de
comunicar uma experiência que, por definição, não podia ser comunicada, porque
a experiência da dor psíquica, ao contrário da dor física, não tem palavras que
a descrevam com precisão, é uma experiência que se vive na carne da alma, se me
é permitida esta expressão contraditória, e que, quando se tenta pôr em
palavras, se desvirtua, se banaliza, se transforma em qualquer coisa que já não
é o que era, como uma fotografia de um eclipse que, por mais fiel que seja,
nunca conseguirá transmitir a emoção de ver o sol desaparecer atrás da lua.
Perguntei
a Tobias, quando a gravação terminou e o silêncio voltou a instalar-se na sala,
um silêncio que era mais pesado do que antes, como se as palavras de Lúcia
tivessem ocupado todo o espaço disponível e a sua ausência súbita tivesse
deixado um vazio ainda maior, se ele alguma vez tentara publicar a carta da
irmã no jornal, como ela pedira, e ele respondeu-me que sim, que tentara, que
contactara a redação do principal diário da cidade, que falara com um editor
que o recebera com uma cortesia profissional que não chegava a disfarçar o
embaraço, e que o editor, depois de ler a carta com uma expressão que Tobias
descreveu como a de quem morde um limão sem esperar, lhe dissera que lamentava
muito, que compreendia a dor da família, mas que a política editorial do jornal
não permitia a publicação de cartas de suicidas, por razões que iam desde o
receio de um efeito de contágio até à proteção da privacidade dos envolvidos,
passando por uma série de argumentos que, no fundo, se resumiam a um único: a
morte, quando não é higienizada, quando não é tornada palatável, quando não é
vestida com as roupas da estatística ou da tragédia distante, é uma coisa feia,
suja, incómoda, que não fica bem na página de um jornal que as pessoas leem ao
pequeno-almoço, entre um gole de leite e uma torrada com manteiga.
Essa
recusa, compreensível do ponto de vista editorial, talvez até defensável do
ponto de vista ético, tinha, no entanto, qualquer coisa de profundamente
sintomático, e foi a própria Lúcia, numa das passagens do seu caderno, que me
deu a chave para o entender, quando escreveu, com aquela lucidez que a
caracterizava, que a sociedade que tudo mostra, que tudo exibe, que tudo
transmite em direto, é a mesma que esconde a morte atrás de biombos, que a empurra
para os hospitais e para as funerárias, que a torna invisível para que os vivos
possam continuar a consumir sem o incómodo de se lembrarem de que são mortais,
e que o seu gesto, o seu salto do viaduto, era, também, uma forma de furar esse
biombo, de obrigar a sociedade a ver o que não queria ver, de devolver à morte
a visibilidade que lhe fora roubada, e se o jornal se recusava a publicar a sua
carta, era precisamente porque a carta, mais do que o salto, mais do que o
corpo, mais do que a notícia, obrigava os leitores a olhar para a morte de
frente, sem a mediação tranquilizadora dos jornalistas que transformam o horror
em palavras assépticas, sem a distância segura das estatísticas que reduzem
pessoas a números, sem a anestesia das fórmulas de circunstância que os jornais
reservam para as tragédias distantes.
Tobias,
que esgotara as suas forças nessa tentativa de publicação e que, depois da
recusa, se recolhera ao silêncio do luto privado, sem a catarse pública que a
irmã desejara, perguntou-me se eu achava que a carta ainda podia ser publicada,
se havia algum sentido em insistir, se a pesquisa de Érica podia, de alguma
forma, servir de veículo para as palavras de Lúcia, e eu, que não tinha uma
resposta pronta, que não sabia se a publicação seria um ato de justiça ou uma
violação póstuma, limitei-me a dizer-lhe que ia pensar, que ia falar com Érica,
que íamos encontrar uma forma de honrar a vontade de Lúcia sem a transformar
num espetáculo que ela própria, apesar de tudo, talvez não desejasse, porque
uma coisa era querer ser lida, outra, muito diferente, era querer ser
consumida, e a linha que separava as duas coisas, ténue como um fio de seda,
era a mesma linha que separava o testemunho do voyeurismo, a partilha da
exploração, a comunicação da obscenidade.
Despedi-me
de Tobias ao princípio da tarde, com a promessa de que voltaria, de que não o
deixaria sozinho com a caixa de papéis e de cassetes e de memórias, e desci as
escadas do prédio com a sensação de que trazia comigo um peso que não era
físico mas que se fazia sentir em cada passo, como se os cadernos de Lúcia, que
Tobias insistira em emprestar-me, tivessem a densidade do chumbo e a
temperatura do gelo, e ao sair para a rua, com a luz do sol a ferir-me os olhos
depois da penumbra do apartamento, reparei que a frase pintada no muro, o
silêncio também grita, ganhara, entretanto, uma camada nova de significado,
porque o silêncio de Lúcia, o silêncio que se seguira ao impacto do corpo
contra o asfalto, era tudo menos silencioso, gritava das páginas dos cadernos,
gritava das cassetes que Tobias guardara, gritava da carta que o jornal se
recusara a publicar, e esse grito póstumo, essa voz que sobrevivia à morte,
era, no fundo, a realização do que ela quisera, uma realização imperfeita, truncada,
mas ainda assim uma realização, porque as suas palavras, embora não tivessem
chegado às bancas de jornal, tinham chegado a mim, e através de mim chegariam a
Érica, e através de Érica chegariam talvez a outros, num circuito de
transmissão que era mais lento e mais restrito do que o que ela imaginara, mas
que, ainda assim, mantinha viva a sua voz, como uma brasa que se conserva
debaixo das cinzas e que, com o sopro certo, pode reacender-se.
Caminhei
sem destino pelas ruas do bairro antigo, com a caixa de papéis debaixo do braço
e a cabeça cheia de palavras que não eram minhas, e fui dar a uma praça que eu
não conhecia, uma praça onde havia um coreto velho, desses que já não se usam
senão para os pombos pousarem, e onde um grupo de crianças jogava à bola com
uma baliza improvisada, feita de mochilas e de pedras, e as suas vozes, os seus
risos, as suas correrias, contrastavam de tal modo com o que eu trazia comigo
que me senti, durante um instante, um habitante de dois mundos incompatíveis, o
mundo dos vivos, que correm e riem e jogam à bola, e o mundo dos que já não
estão, mas que, de algum modo, continuam a falar, a escrever, a gritar, e
percebi, com uma nitidez que era quase uma dor física, que o trabalho de Érica,
e agora também o meu, consistia precisamente em fazer a ponte entre esses dois
mundos, em traduzir a linguagem dos que partiram para a linguagem dos que
ficaram, em tornar audível o grito que, de outra forma, se perderia no ruído da
cidade, e que essa tarefa, por mais modesta que fosse, por mais limitada que
fosse, era talvez a única coisa que podíamos fazer, não para salvar os que já
se tinham ido, que esses já estavam para além de qualquer salvação, mas para
que os que ficavam pudessem, ao menos, ouvir o que os outros tinham a dizer, e,
ao ouvi-lo, compreender qualquer coisa sobre si próprios e sobre a cidade que
habitavam.
Quando
finalmente regressei a casa, já o sol se pusera e as primeiras luzes da noite
começavam a acender-se nas janelas dos prédios, pequenos retângulos de luz
amarela que pontuavam a escuridão como um código morse indecifrável, sentei-me
à secretária e despejei sobre o tampo o conteúdo da caixa de Tobias, os
cadernos, as cartas, as fotografias, as cassetes, e fiquei muito tempo a olhar
para aquele espólio de uma vida interrompida, sem saber por onde começar, sem
saber se era legítimo começar, sem saber se a minha intromissão na intimidade
de Lúcia não era, ela também, uma forma de voyeurismo, uma violação mascarada
de interesse científico, uma maneira de transformar o sofrimento alheio em
matéria de estudo, e foi então que me lembrei de uma frase que Érica dissera
numa das nossas conversas, uma frase que na altura não me parecera
particularmente significativa e que agora, à luz daquilo que eu tinha nas mãos,
adquiria um sentido novo: a única forma de respeitar verdadeiramente os mortos
é escutá-los, e a única forma de os escutar é ler o que deixaram escrito, ouvir
o que deixaram gravado, olhar o que deixaram fotografado, porque os mortos, ao
contrário do que se pensa, não estão calados, nós é que somos surdos.
Peguei
no primeiro caderno, o de capa preta, e comecei a ler desde o início, desta vez
com a lentidão que o texto merecia, anotando passagens, sublinhando frases,
tentando reconstituir o percurso que levara Lúcia da infância povoada de sonhos
à idade adulta sitiada pelo desespero, e à medida que lia, e que as horas
passavam sem que eu desse por elas, fui percebendo que o que Lúcia descrevia
não era, como eu ingenuamente supusera, uma experiência excecional, um caso patológico,
uma anomalia psicológica, mas antes uma experiência que, de forma mais ou menos
intensa, mais ou menos consciente, mais ou menos confessada, era partilhada por
uma quantidade imensa de pessoas que viviam na metrópole, pessoas que se
sentiam sós no meio da multidão, que se sentiam invisíveis no meio da
hipervisibilidade, que se sentiam mudas no meio da saturação de palavras, e que
o seu gesto final, o salto do viaduto, não era senão a expressão levada ao
extremo de uma condição que era a de todos, a condição de quem habita uma
cidade que promete tudo e que, no entanto, não dá nada, ou dá apenas o
suficiente para que se continue a desejar o que não se tem, como uma cenoura
suspensa diante de um burro que nunca a alcança, mas que nunca deixa de andar.
Lúcia
escrevera, numa das entradas mais antigas do caderno, uma entrada que datava
dos seus vinte e poucos anos, quando ainda havia nos seus textos uma réstia de
esperança que as entradas posteriores se encarregariam de extinguir, que a
cidade é uma amante ciumenta, que exige tudo e não dá nada em troca, que nos
suga a energia e nos devolve exaustão, que nos promete encontros e nos entrega
solidão, que nos acena com futuros radiantes e nos conduz a becos sem saída, e
que, no entanto, não se pode viver fora dela, porque fora dela não há nada, ou
aquilo que há é tão assustador como o que há dentro, só que sem a beleza das
luzes acesas e o consolo das multidões anónimas, e essa ambivalência, esse
amor-ódio pela cidade que era, no fundo, um amor-ódio pela própria vida,
percorria todas as páginas do caderno como um baixo contínuo, uma nota grave
que soava por baixo de todas as outras e que lhes dava, a todas, um tom de
desespero que nenhuma alegria passageira conseguia disfarçar.
A
certa altura da madrugada, com os olhos a arder e a cabeça a latejar,
levantei-me da secretária e fui à janela, e olhei para a cidade que se estendia
lá em baixo, um tapete de luzes trémulas que pulsava com uma respiração
própria, e pensei em todos os que, naquele preciso momento, estavam acordados
como eu, a olhar pela janela, a pensar na vida, a perguntar-se se valia a pena,
a medir a distância entre o parapeito e o chão, a ensaiar mentalmente um salto
que talvez nunca dessem, ou que talvez dessem amanhã, ou depois, ou um dia, e
percebi que a pesquisa de Érica, e a minha própria imersão nos papéis de Lúcia,
não eram exercícios académicos, não eram passatempos de intelectuais, eram, no
sentido mais literal e mais urgente da palavra, uma questão de vida ou de
morte, uma tentativa de compreender para que servia viver quando viver doía, e
de encontrar, nessa compreensão, uma resposta que não passasse pelo viaduto,
uma resposta que não passasse pelo salto, uma resposta que não passasse pela
transformação da morte em espetáculo, porque o espetáculo, por mais grandioso
que fosse, por mais espectadores que tivesse, acabava sempre da mesma maneira,
com o corpo no asfalto e o silêncio que se seguia ao impacto, um silêncio que,
ao contrário do que a frase no muro dizia, já não gritava, apenas se estendia,
como uma mancha de óleo sobre a água, até cobrir tudo.


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