Novembro - Capítulo III
III
O
Viaduto de Santa Cruz do Calvário, visto de longe, não tem nada que o distinga
das dezenas de outras estruturas semelhantes que sulcam a cidade como
cicatrizes de betão, elevando-se sobre bairros inteiros com a indiferença
geométrica das coisas que foram projetadas por engenheiros e não por poetas,
mas, visto de perto, e sobretudo visto com a atenção de quem já sabe o que ali
se passou e o que ali se poderá passar ainda, revela uma personalidade
inquietante, uma presença quase humana, feita de rugas no cimento, de manchas
de humidade que desenham mapas irreconhecíveis nas paredes dos pilares, de
ferrugem que escorre das juntas de dilatação como lágrimas oxidadas, de
inscrições anónimas gravadas a canivete nos parapeitos, umas datadas, outras
não, umas com nomes próprios, outras apenas com iniciais, outras ainda com
frases que tanto podiam ser declarações de amor como despedidas, porque, na
altura em que são lidas, já ninguém sabe, nem ninguém poderá jamais saber, a
que propósito foram escritas. Apontei isso mesmo a Érica quando nos
encontrámos, numa manhã que ameaçava chuva e que, no entanto, não chovia, como
se o céu estivesse a adiar uma decisão que não lhe competia, e ela, que já ali
viera muitas vezes, que já ali passara horas sentada num banco de cimento a
observar o movimento dos carros e dos peões, disse-me que o viaduto, como todos
os viadutos, era um lugar de passagem que se tornara um lugar de permanência, e
que essa contradição, longe de ser um acidente, era a chave para compreender
tudo o resto. Porque um viaduto, explicou-me enquanto caminhávamos lentamente
pelo passeio estreito que ladeava a pista, não é concebido para que alguém nele
se demore, foi desenhado para ser atravessado, para ser vencido, para ser
esquecido assim que se chega ao outro lado, e no entanto, e era aqui que
residia o paradoxo, havia pessoas que escolhiam precisamente aquele lugar de
trânsito para interromper todo o trânsito, para deter o fluxo incessante da
cidade, para obrigar a metrópole a parar, a olhar, a tomar conhecimento, e esse
gesto de interrupção, esse desafio lançado à lógica da circulação perpétua, era
já, em si mesmo, um espetáculo, independentemente de haver ou não câmaras, de
haver ou não transmissão, de haver ou não uma plateia organizada.
Sentámo-nos
num dos bancos que a câmara municipal, num acesso de zelo paisagístico que
contrastava com o abandono geral do lugar, ali instalara anos antes, bancos que
ninguém usava senão os que iam ali para aquilo que não se diz, e Érica abriu
sobre os joelhos uma pasta que eu não vira chegar, uma pasta nova, de cartão
azul, que continha o que ela chamava, com uma ironia que não chegava a
disfarçar a gravidade do assunto, o seu arquivo de invisibilidades. Eram
fotografias, dezenas delas, colhidas em arquivos de jornais, em registos
policiais, em álbuns de família que os familiares, vencendo a relutância
inicial, acabavam por lhe confiar, fotografias de homens e mulheres que se
haviam lançado de viadutos, uns dali mesmo, outros de estruturas semelhantes
espalhadas pela cidade, e o que me impressionou, ao folheá-las uma por uma com
a lentidão que o respeito impunha, não foi tanto a juventude de muitos deles,
que essa já eu esperava, nem a variedade das expressões faciais, que iam da
serenidade absoluta ao desespero mais evidente, mas a recorrência de um
pormenor que, à primeira vista, nada tinha de significativo, e que, no entanto,
depois de repararmos nele, se tornava impossível de ignorar: a grande maioria
vestia-se com um apuro que não era o do quotidiano. Camisas engomadas, vestidos
de cerimónia, sapatos polidos, fatos completos que pareciam acabados de sair da
lavandaria, gravatas cuidadosamente atadas, como se estivessem a preparar-se
não para a morte, mas para uma ocasião solene, um casamento, uma formatura, uma
audiência com alguém importante, e eu recordei-me subitamente dos sapatos que
Lúcia pedira para não lhe calçarem, e percebi, nesse instante, que o pedido
dela era a exceção que confirmava a regra, porque a regra, pelo que as
fotografias mostravam, era precisamente a inversa, o cuidado extremo com a
aparência, a preocupação com a imagem que se ia deixar, como se o corpo que se
lançava do viaduto fosse, ao mesmo tempo, o ator e a personagem, o instrumento
e a obra, a vida que se apaga e a imagem que fica.
Érica
explicou-me, enquanto eu folheava aquelas fotografias com uma comoção que me
surpreendeu a mim próprio, que a questão da indumentária era central para a
compreensão do fenómeno, e que já vários autores, que ela me citou com a
precisão de quem os lera e relera até à exaustão, haviam chamado a atenção para
o facto de o suicídio público exigir uma elaboração estética que o suicídio
privado não exige, ou exige de modo diverso, porque o suicídio público não se
contenta em ser um ato, aspira a ser uma representação, e toda a representação,
do teatro grego ao cinema contemporâneo, implica um cuidado com o figurino, com
a iluminação, com a disposição dos elementos em cena. Lembrei-me, ao ouvi-la,
de uma frase que lera não sei onde, talvez num dos muitos livros que ela me emprestara
ao longo daqueles meses, uma frase que dizia que o homem moderno, ao contrário
do medieval, não morre em público, morre às escondidas, e que essa ocultação da
morte era uma das marcas distintivas da nossa civilização, que tudo fez para
afastar a morte do olhar dos vivos, para a confinar a quartos de hospital, para
a higienizar, para a tornar invisível e, portanto, suportável. Ora, o que
aquelas fotografias mostravam era precisamente o contrário, uma morte que se
exibia, que se oferecia ao olhar, que se vestia com as suas melhores roupas
para ir ao encontro do seu público, como uma atriz que se prepara na coxia
antes de entrar em cena, e essa inversão, essa subversão da lógica
contemporânea da morte, era, na opinião de Érica, e eu começava a partilhar
dela com uma convicção que me assustava, o que tornava o autoaniquilamento
espetacularizado tão perturbador para a ordem urbana, muito mais do que o
número de mortes, muito mais do que o impacto visual do corpo contra o asfalto,
porque o que ele punha em causa não era apenas a vida de quem o praticava, mas
toda a arquitetura simbólica que a cidade erguera para se proteger do
pensamento da morte.
Levantei-me
do banco e aproximei-me do parapeito, uma estrutura de betão que me chegava à
altura do peito, pintada de um amarelo desbotado que já fora, em tempos, uma
cor viva, e que agora era apenas uma lembrança de cor, e debrucei-me
ligeiramente, o suficiente para ver a avenida que passava lá em baixo, com os
seus carros minúsculos e as suas figuras humanas reduzidas a pontos móveis que
se deslocavam com uma lentidão que a distância ampliava, e senti, durante um
instante que foi breve mas que deixou uma marca duradoura, o apelo do vazio, a
sedução do abismo, essa força estranha que não puxa para baixo, como seria de
esperar, mas que parece empurrar por dentro, uma força que não vem de fora mas
que nasce algures no íntimo de quem se debruça, e que os psicólogos, com o seu
gosto pelos nomes técnicos, chamam de call of the void, a chamada do vazio,
como se o vazio tivesse uma voz e essa voz fosse irresistível. Recuei um passo,
não por medo, mas por prudência, essa prudência que é a irmã mais modesta da
sabedoria, e percebi que o viaduto, ao contrário do que a sua função utilitária
sugeria, não era um lugar neutro, era um lugar carregado de significações
contraditórias, um lugar que unia e que separava, que elevava e que
precipitava, que oferecia uma vista desafogada sobre a cidade e, ao mesmo
tempo, a possibilidade de deixar de a ver para sempre, e que essa ambivalência,
essa duplicidade essencial, era o que o tornava tão adequado para o tipo de
espetáculo que ali se representava, um espetáculo que falava, no fundo, da
condição de todos os que habitam a metrópole, suspensos entre o sonho da
elevação e o risco da queda.
Voltei
a sentar-me ao lado de Érica, que me observava em silêncio, com aquele seu
olhar que era ao mesmo tempo clínico e compassivo, e pedi-lhe que me falasse
mais do que ela chamava de espectadores, essa figura que aparecia com
frequência crescente nos depoimentos e que me parecia, à medida que a conversa
avançava, cada vez mais central para a compreensão do fenómeno. Ela
explicou-me, e fê-lo com a paciência de quem já explicara muitas vezes mas não
se importava de explicar outra, que os espectadores se dividiam, grosso modo,
em três categorias que não eram estanques, que se interpenetravam e se
influenciavam mutuamente, como vasos comunicantes que, ao fim de um certo
tempo, já não se sabe qual enche qual. Havia, em primeiro lugar, os
espectadores presenciais, aqueles que estavam no local no momento do ato, por
acaso ou por aviso prévio, que assistiam ao vivo, com os seus próprios olhos,
ao salto, à queda, ao impacto, e cujos testemunhos, colhidos horas ou dias
depois, oscilavam invariavelmente entre o horror e o fascínio, como se as duas
emoções, longe de se excluírem, se reforçassem mutuamente, e era frequente que
esses espectadores descrevessem a cena com uma riqueza de pormenores que
sugeria, mais do que uma simples memória, uma verdadeira elaboração estética,
uma composição da imagem que o cérebro, na sua ânsia de dar sentido ao que não
tem, produzia quase involuntariamente. Havia, em segundo lugar, os espectadores
mediados, aqueles que não estavam presentes fisicamente mas que recebiam as
imagens através de transmissões, de gravações, de fotografias que circulavam
pelas redes com a velocidade das coisas que são ao mesmo tempo íntimas e
públicas, e que reagiam com comentários, com partilhas, com discussões que
prolongavam o espetáculo muito para além do momento da sua realização, criando
uma espécie de vida póstuma do ato, uma sobrevida digital que o autoaniquilado,
em muitos casos, parecia ter planeado meticulosamente. E havia, em terceiro
lugar, e esta categoria era a que mais interessava a Érica, os espectadores
potenciais, aqueles que, sem terem assistido a nenhum ato concreto, viviam com
a consciência difusa de que tais atos aconteciam, de que podiam acontecer a
qualquer momento, de que o viaduto que atravessavam diariamente para ir ao
trabalho era também, e ao mesmo tempo, um palco onde a qualquer instante se
poderia representar o último espetáculo de uma vida, e essa consciência, essa
expectativa latente, coloria de modo invisível mas real a sua relação com a
cidade, tornava cada viaduto ligeiramente sinistro, cada parapeito ligeiramente
ameaçador, cada figura solitária encostada a um pilar ligeiramente suspeita, e
era nessa coloração, nessa alteração subtil da perceção urbana, que residia,
para Érica, o impacto mais profundo e mais duradouro do fenómeno, um impacto
que não se media em números, que não cabia em estatísticas, mas que
transformava, silenciosamente, a experiência de viver na metrópole.
Enquanto
ela falava, e as suas palavras se misturavam com o rumor distante do trânsito
que subia do fundo do vale como um lamento de máquina, reparei que o banco onde
estávamos sentados tinha uma placa metálica, daquelas que as empresas
funerárias, num gesto de publicidade discreta que a morte, na nossa cultura,
ainda permite, fixam nos locais onde ocorreram acidentes fatais, e a placa
dizia, em letras gravadas que o tempo começava a desgastar: Em memória de
alguém que aqui partiu. Reparei na imprecisão da frase, na ambiguidade
calculada da palavra partiu, que tanto podia significar morrer como viajar,
como mudar de casa, como simplesmente ausentar-se por um tempo, e percebi que a
placa, provavelmente sem que os seus autores tivessem plena consciência disso,
reproduzia o mesmo mecanismo de ocultação que a pesquisa de Érica desmontava, o
mecanismo que consistia em falar da morte sem a nomear, em aludir a ela sem a
encarar, em transformá-la numa metáfora inócua para que os vivos pudessem
continuar a sua vida sem o incómodo de pensar no que realmente acontecera.
Apontei a placa a Érica, que a leu em silêncio e depois sorriu, um sorriso que
não tinha alegria mas que tinha uma certa satisfação de quem vê confirmada uma
hipótese, e disse-me que era precisamente contra essa ocultação que os
autoaniquilados se insurgiam, que o seu espetáculo era, entre outras coisas, uma
forma de obrigar a cidade a olhar para o que não queria ver, de rasgar o véu de
silêncio que envolvia a morte voluntária, de devolver à morte a visibilidade
que a modernidade lhe retirara, e que essa dimensão política, porque era
política, embora de um tipo que os políticos profissionais não reconheceriam,
estava presente em muitos dos depoimentos que recolhera, ainda que os
familiares nem sempre a formulassem nesses termos, preferindo falar de
vingança, de acusação, de ajuste de contas, palavras que diziam a mesma coisa
por outros meios.
A
conversa derivou então, como derivam os rios quando encontram um declive novo,
para o caso concreto de Lúcia, que Érica ainda não conhecia e que a deixou
visivelmente perturbada, não tanto pela história em si, que afinal de contas
não diferia assim tanto de dezenas de outras que já ouvira, mas pela carta e
pela sua exigência de publicação, que introduzia um elemento novo na equação,
um elemento que ela ainda não tinha tido oportunidade de explorar e que
prometia abrir toda uma nova linha de investigação. O que significava,
perguntava-se ela em voz alta, com os olhos fixos no horizonte de prédios que
se recortava contra um céu que continuava a ameaçar chuva sem nunca a cumprir,
o que significava que uma pessoa, nas últimas horas da sua vida, dedicasse uma
parte considerável do seu tempo e da sua energia não a despedir-se dos que
amava, não a pôr em ordem os seus assuntos terrenos, não a procurar um conforto
espiritual que a religião, durante séculos, ofereceu aos moribundos, mas a
redigir uma carta destinada a ser lida por milhares de desconhecidos, uma carta
que não era um pedido de socorro, porque o socorro já não era possível, nem uma
explicação para a família, porque a explicação para a família podia ter sido
dada em privado, mas um manifesto, uma proclamação, um gesto deliberado de
comunicação de massa? Que necessidade era essa, tão imperiosa que sobrevivia à
própria vida, de ser ouvida para além do círculo dos íntimos, de transformar a
sua morte num acontecimento público, de fazer de si própria, na hora suprema,
notícia, espetáculo, narrativa? E o que dizia essa necessidade sobre a
sociedade em que vivemos, uma sociedade que ao mesmo tempo que condena o
suicídio como um ato de desespero individual, lhe oferece, através dos meios de
comunicação, a possibilidade de uma redenção póstuma pela imagem, pela palavra,
pela fama?
Não
tínhamos respostas para essas perguntas, tínhamos apenas, como de costume, mais
perguntas, e foi com essa sensação de desassossego fecundo, essa inquietação
que é o motor de toda a investigação verdadeira, que deixámos o viaduto ao
princípio da tarde, quando o sol, vencendo finalmente a resistência das nuvens,
começou a derramar sobre a cidade uma luz dourada que transformava o betão em
ouro velho e fazia brilhar os carros como joias em movimento. Descemos a rampa
que conduzia ao nível da rua e enfiámo-nos por uma série de ruelas que eu não
conhecia, apesar de viver naquela cidade há mais de vinte anos, ruelas que
serpenteavam entre prédios antigos com varandas de ferro forjado e roupa
pendurada a secar, e que desembocaram inesperadamente numa praça onde uma feira
popular instalara as suas barracas de cores garridas, com os seus jogos de
argolas e as suas rifas e os seus carrinhos de algodão-doce que exalavam um
cheiro adocicado que se misturava com o cheiro do asfalto molhado, porque
começara a chuviscar, uma chuva miúda que não molhava verdadeiramente mas que
refrescava o ar e tornava o ambiente quase irreal, como se a praça e a feira e
as pessoas que circulavam entre as barracas fossem parte de um cenário de
teatro que alguém montara para nosso exclusivo proveito. Sentámo-nos na
esplanada de um café que dava para a praça e pedimos dois cafés e dois pastéis
de nata, e ficámos em silêncio durante um bom bocado, um silêncio que não era
vazio mas cheio, povoado pelas imagens da manhã, pelas fotografias, pela carta
de Lúcia, pela placa comemorativa com a sua palavra ambígua, pelo vazio que se
abrira aos meus pés quando me debrucei no parapeito e que, de certo modo,
continuava aberto, como uma porta que alguém se esquecera de fechar.
Foi
Érica quem quebrou o silêncio, como quase sempre, com uma daquelas frases que
pareciam não ter relação com o que estávamos a discutir e que, no entanto,
iluminavam tudo de um ângulo novo, uma frase que lhe ocorrera enquanto olhava
para as barracas da feira e via as pessoas a atirar argolas para garrafas
vazias, a pescar patinhos de plástico com canas de bambu, a escolher bilhetes
de rifa com a esperança de ganhar um prémio que sabiam perfeitamente que não
ganhariam, mas que continuavam a escolher, porque o prazer não estava em
ganhar, estava em participar, em fazer parte daquela pequena multidão que ria e
gritava e se empurrava à volta das barracas. Disse ela, e anotei as suas
palavras exatas assim que cheguei a casa, porque me pareceram conter uma chave
que não podia perder-se: O que eles fazem no viaduto não é diferente do que
esta gente faz na feira, no fundo, é só uma questão de escala e de
consequência, uns atiram argolas para ganhar um peluche, outros atiram-se a si
próprios para ganhar uma audiência, e o que uns e outros procuram é exatamente
a mesma coisa, serem vistos, existirem no olhar dos outros, nem que seja por um
instante, nem que seja pela última vez. A frase, dita assim, com a naturalidade
de quem constata um facto banal, tinha qualquer coisa de profundamente
perturbador, e eu percebi, nesse momento, que a pesquisa de Érica já não era
apenas sobre o autoaniquilamento, se alguma vez o fora, mas sobre qualquer coisa
de muito mais vasto e de muito mais inquietante, sobre a necessidade de
visibilidade que a metrópole, com as suas multidões anónimas, ao mesmo tempo
exacerba e frustra, sobre a solidão que se esconde por detrás da hiperconexão,
sobre o paradoxo de uma sociedade que nos permite falar para o mundo inteiro e
que, no entanto, nos deixa com a sensação de que ninguém nos ouve, até que um
dia, desesperados por um olhar que nos confirme que existimos, nos lançamos de
um viaduto com a esperança de que, ao menos nesse instante, todos os olhos se
voltem para nós.
A
tarde avançava e a feira começava a desmontar, as barracas a recolher os seus
toldos, os carrinhos de algodão-doce a afastar-se lentamente, e a praça ia
recuperando a sua fisionomia habitual, a de um espaço amplo e um pouco desolado
que a ausência da multidão tornava ainda mais desolado, como um palco depois de
terminado o espetáculo, quando os atores já partiram e só restam os adereços e
o vazio dos lugares onde houve vida. Érica despediu-se de mim com um aperto de
mão que se prolongou um pouco mais do que o estritamente necessário, como se
houvesse qualquer coisa que ela quisesse dizer e que não conseguisse, ou não
soubesse como, e eu regressei a casa a pé, atravessando lentamente a cidade que
já não era a mesma cidade que eu julgara conhecer, porque cada viaduto que
passava por baixo era agora, aos meus olhos, um palco, cada parapeito uma
tentação, cada transeunte solitário um potencial ator à espera da sua cena, e a
própria cidade, no seu conjunto, me aparecia sob uma luz nova, uma luz que não
vinha do céu, que não vinha do sol que entretanto se pusera, mas que emanava
daquilo que Érica me mostrara, como se as suas palavras e as suas fotografias e
as suas hipóteses tivessem revelado uma camada oculta da realidade, uma camada
que sempre estivera ali, diante dos meus olhos, mas que eu nunca vira porque
nunca me dera ao trabalho de olhar.
Ao
chegar a casa, encontrei sobre a mesa da sala um bilhete da minha mulher, que
saíra para visitar a irmã e que me deixara o jantar no forno, um bilhete
escrito com a sua letra miúda e apressada que eu conhecia tão bem, e fiquei por
um momento a olhar para aquelas palavras banais, o jantar está no forno, não te
esqueças de apagar o lume, com uma intensidade que elas não mereciam, como se
nelas se escondesse uma mensagem secreta que eu precisava de decifrar, e
percebi que o que eu sentia não era fome, não era cansaço, não era sequer a
tristeza que seria de esperar depois de um dia passado a pensar na morte, mas
uma espécie de espanto, um espanto que nascia da constatação, que se impunha
com a força das evidências tardias, de que a pesquisa de Érica, essa pesquisa
em que eu entrara como um mero auxiliar, como um fornecedor de dados e de
contactos, se tornara, sem que eu desse por isso, a minha própria pesquisa, o
meu próprio questionamento, a minha própria forma de olhar para o mundo, e que
o mundo, uma vez olhado dessa forma, já não podia ser des-olhado, como não se
pode des-ver uma imagem que nos queimou as retinas, como não se pode des-ouvir
uma palavra que nos perfurou os tímpanos, como não se pode, sobretudo, esquecer
o vazio que se abre debaixo dos pés quando nos debruçamos sobre um parapeito e
sentimos, ainda que por um instante, ainda que por um instante ínfimo, que o vazio
nos chama e que uma parte de nós, uma parte que não controlamos e que talvez
não queiramos controlar, lhe responde. Apaguei o lume do forno, mas não comi,
sentei-me à secretária e escrevi até de madrugada, anotando tudo o que
recordava da conversa daquele dia, as palavras de Érica, as minhas próprias
impressões, a carta de Lúcia, a placa comemorativa, a feira popular, a frase
sobre as argolas e os peluches, tudo misturado numa urgência de fixar as ideias
antes que elas se desvanecessem, e quando finalmente me levantei, com as costas
doloridas e os olhos a arder, vi pela janela que o céu começava a clarear sobre
os telhados da cidade, e pensei, sem saber porquê, no Viaduto de Santa Cruz do
Calvário, que a essa hora estaria vazio, silencioso, à espera, e a ideia de que
uma estrutura de betão pudesse estar à espera pareceu-me ao mesmo tempo absurda
e perfeitamente natural, como parecem naturais todas as ideias que nascem da
falta de sono e do excesso de pensamento.
Nos
dias que se seguiram, e que foram dias de uma intensidade quase febril, pus-me
a organizar o material que tínhamos acumulado, não já como quem organiza um
arquivo alheio, mas como quem tenta dar sentido à sua própria experiência, e
foi assim que me deparei, numa pasta que Érica me confiara semanas antes e que
eu ainda não tivera coragem de abrir, com uma série de transcrições de
comentários deixados em páginas da internet dedicadas aos autoaniquilados,
comentários que os espectadores, sobretudo os da segunda categoria, os
espectadores mediados, publicavam depois de assistirem às transmissões, e que
iam desde a compaixão mais genuína até à crueldade mais explícita, passando por
toda uma gama de reações que desafiavam qualquer classificação simplista. Havia
quem escrevesse descansa em paz, com a piedade automática de quem repete uma
fórmula sem pensar, havia quem escrevesse finalmente alguém com coragem, com
uma admiração que me gelou o sangue, havia quem escrevesse isto não se faz a
uma família, com a indignação moral de quem se sente no direito de julgar, e
havia, sobretudo, uma quantidade surpreendente de comentários que não falavam
do autoaniquilado, mas da própria transmissão, da qualidade da imagem, do
ângulo da câmara, do enquadramento, da luz, como se estivessem a avaliar um
filme ou uma peça de teatro, e era precisamente nesses comentários, que à
primeira vista pareciam os mais superficiais e os mais insensíveis, que eu
encontrava a confirmação mais cabal da tese de Érica, porque eles mostravam,
sem margem para dúvidas, que quem assistia não via ali uma morte, via um
espetáculo, e julgava-o de acordo com os critérios que se aplicam aos
espetáculos, a sua maior ou menor competência técnica, a sua maior ou menor
eficácia dramática, a sua maior ou menor beleza plástica, e essa transformação
da morte em espetáculo, essa metamorfose que começava no próprio
autoaniquilado, que se preparava para a cena como um ator se prepara para a
estreia, completava-se no olhar de quem assistia, que lhe aplicava as
categorias que aprendera a usar no cinema e na televisão, e o círculo
fechava-se, a morte já não era morte, era representação da morte, e a
representação, como todas as representações, podia ser bem sucedida ou mal
sucedida, emocionante ou entediante, bela ou grotesca, e o facto de ser
grotesca não a tornava menos fascinante, pelo contrário, tornava-a talvez mais,
porque o grotesco, como o sublime, tem o poder de nos arrancar da indiferença e
de nos obrigar a olhar.
Fechei
a pasta com a sensação de ter atravessado um território que não me pertencia e
de ter saído dele ligeiramente diferente, e pensei em Tobias Nogueira, que me
trouxera a carta da irmã e que, ao fazê-lo, desencadeara sem o saber toda esta
cadeia de reflexões que agora me ocupavam o espírito e me roubavam o sono, e
decidi, num impulso que não analisei, procurá-lo, não para lhe pedir mais
informações, não para o integrar na pesquisa, mas simplesmente para o ouvir,
para saber como se vivia, no dia a dia, com a memória de uma irmã que se
lançara de um viaduto e que, ao fazê-lo, se tornara, contra a sua vontade ou
talvez de acordo com ela, matéria de estudo, objeto de análise, caso de
investigação, e eu precisava de me lembrar, precisávamos todos de nos lembrar,
que por detrás das estatísticas e das hipóteses e das teorias havia pessoas de
carne e osso, pessoas que riam e choravam e se zangavam e faziam as pazes,
pessoas que um dia, por razões que nunca chegariam a ser completamente
compreendidas, decidiam que a única forma de serem vistas era deixarem de ser,
e essa decisão, qualquer que fosse a leitura que dela se fizesse, merecia mais
do que um comentário anónimo numa página da internet, merecia mais do que uma
rubrica num processo arquivado, merecia, no mínimo, ser ouvida até ao fim,
mesmo que o fim fosse o princípio de outra coisa que não sabíamos nomear.


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