Novembro - Capítulo II

 

II

 

Foi precisamente por essa altura, quando a pesquisa de Érica deixara já de ser um projeto para se tornar uma presença, uma daquelas presenças que se instalam na vida de uma pessoa com a naturalidade das coisas que vieram para ficar, como uma planta que se rega sem pensar e que um dia se descobre ter criado raízes demasiado fundas para ser arrancada sem dano, que recebi, num fim de tarde abafado de agosto, daqueles em que o ar parece um corpo pastoso que se tem de empurrar a cada inspiração, a visita de um homem que eu não esperava, e que, para dizer a verdade, nem sequer sabia que existia. Chamava-se Tobias Nogueira, apresentou-se como irmão de uma das autoaniquiladas cujo processo eu próprio havia desarquivado para Érica, um processo que, recordo-me bem, trazia na capa uma mancha de café que alguém, em algum momento distraído da rotina administrativa, ali deixara como testemunho involuntário da sua passagem, e trazia também, na última página, uma nota escrita à mão por um funcionário que já se havia reformado e cuja letra, inclinada para a esquerda com a timidez dos canhotos, dizia simplesmente: A família não quis levar os sapatos. Tobias Nogueira não era, contudo, um familiar como os outros, desses que vêm ao departamento com o rosto devastado e a voz embargada, pedindo informações que já sabem que não servirão para nada, mas que ainda assim pedem, porque pedir é a única coisa que lhes resta. Vinha com uma serenidade que desmentia o luto, uma serenidade que, à primeira vista, se poderia confundir com frieza, mas que, olhando melhor, revelava ser antes uma forma de contenção, daquelas que se aprendem com o tempo e com o sofrimento, quando se percebe que as lágrimas, como as palavras, também têm o seu momento certo, e que fora dele não servem senão para embaciar a vista. Vestia um casaco escuro que o calor não justificava, como se trouxesse consigo um pedaço de inverno particular, e calçava sapatos gastos nos calcanhares, desses que contam, sem que o dono o saiba, a história dos percursos que fizeram. Sentou-se na cadeira que eu lhe indiquei, do outro lado da secretária, e durante um momento que se dilatou para além do que o relógio poderia medir, ficou a olhar para o tampo de madeira riscada como se lesse ali alguma coisa que só ele via, um texto invisível escrito nas cicatrizes do verniz.

 

A irmã dele, explicou-me depois de um silêncio que eu não ousei interromper, chamava-se Lúcia, tinha trinta e dois anos quando se lançou do Viaduto de Santa Cruz do Calvário, numa tarde de domingo, com o sol a pique e o trânsito reduzido aos poucos carros que regressavam do almoço em família, e deixara, ao contrário do que seria de esperar, uma quantidade invulgar de documentos, cartas, diários, fotografias, gravações em cassetes de voz, dessas que já ninguém usa mas que ela guardava com um zelo de arquivista, e também, e era aqui que a história dava uma guinada que eu não previra, um conjunto de instruções meticulosas, redigidas com uma calma que a letra redonda e regular confirmava, sem tremuras, sem rasuras, como se tivesse sido copiada a limpo depois de várias versões, instruções que não se dirigiam à família, como é costume nos bilhetes de despedida que os manuais de psicologia analisam e classificam, mas a uma audiência muito mais vasta e, por isso mesmo, muito mais difícil de circunscrever. Tobias trazia consigo uma cópia dessas instruções, que retirou do bolso interior do casaco com o cuidado de quem transporta um objeto que sabe frágil e irreparável, e estendeu-ma por cima da secretária, num gesto que tinha qualquer coisa de cerimonioso, como se me estivesse a confiar não um papel, mas um testemunho. O documento, datilografado numa máquina cuja fita já começava a perder a tinta, o que dava às letras um aspeto fantasmático, como se as palavras estivessem a desaparecer no próprio ato de se inscreverem, continha uma série de recomendações que, confesso-o sem rodeios, me deixaram momentaneamente sem resposta, e não porque fossem macabras, que a morte, quando tratada de perto, perde muito do macabro que lhe atribuímos à distância, mas porque revelavam uma lucidez de propósitos que eu nunca tinha encontrado em nenhum dos muitos processos que me passaram pelas mãos ao longo dos anos. Lúcia pedia, em primeiro lugar, que o seu corpo fosse recolhido com um lençol branco, e não com o plástico preto que era de uso corrente, porque, dizia ela, o preto absorve a luz, e eu quero que a última imagem que fique de mim seja uma imagem de claridade. Pedia também que não lhe calçassem os sapatos, pois pretendia chegar descalça onde quer que fosse que se chegasse depois do último passo, como se os sapatos fossem um símbolo de pertença à terra que ela, naquele momento definitivo, renunciava com a mesma naturalidade com que se despe um casaco antes de entrar em casa. E pedia, por fim, e era este o ponto que mais me inquietou, e que mais me faria pensar nos dias seguintes, que a sua carta de despedida não fosse lida em privado, na intimidade da sala de estar, com as cortinas corridas e o telefone fora do descanso, mas sim publicada integralmente na edição dominical do jornal de maior circulação da cidade, para que todos, e sublinhara a palavra todos com um traço firme que se via perfeitamente no papel, tivessem a oportunidade de saber o que a levara ao viaduto.

 

Ora, uma carta publicada no jornal não é já uma carta, é um manifesto, e um manifesto, por mais íntimo que seja o seu conteúdo, é sempre um ato público, um gesto que se lança à praça como se lança uma pedra a um lago, não tanto pela pedra em si, mas pelas ondas que ela há de gerar. Tobias Nogueira compreendera-o imediatamente, e fora essa compreensão, mais do que o luto, mais do que a saudade, que o levara a procurar-me, porque soubera, através de contactos que preferiu não especificar e que eu, por descrição, não lhe perguntei, que havia alguém no Departamento de Amparo Social a estudar precisamente aquilo que a irmã, sem o saber, ou talvez sabendo-o perfeitamente, acabara de ilustrar de forma exemplar: a transformação da morte voluntária em espetáculo público, com as suas exigências estéticas, os seus protocolos de representação e a sua necessidade imperiosa de espectadores. A carta, que ele me deixou ler mas não copiar, e cujo teor me limito aqui a reconstituir de memória, começava com uma citação de um poeta que não identifiquei, qualquer coisa sobre a luz que se parte nos vidros da cidade, e prosseguia com uma longa meditação sobre o cansaço, um cansaço que Lúcia descrevia como anterior a qualquer causa concreta, um cansaço que não provinha do trabalho excessivo, nem das desilusões amorosas, nem das dívidas, nem das doenças, mas de uma espécie de fadiga ontológica, se assim se pode dizer, uma exaustão que nascia do próprio facto de existir e de ter de continuar a existir no meio do rumor incessante da metrópole, um rumor que, segundo as suas palavras, não se cala nunca, nem de noite, nem nos sonhos, e que acaba por se confundir com o bater do sangue nas têmporas. A carta terminava, e esta imagem ficou-me gravada com a nitidez das coisas que nos ferem sem que saibamos exatamente porquê, com um apelo aos que lessem aquelas palavras para que não desviassem o olhar, para que não virassem a página depressa demais, para que fizessem da sua leitura um ato de testemunho, como se o testemunho fosse, na falta de tudo o mais, a única forma de redenção possível.

 

Depois de Tobias sair, e a porta fechou-se atrás dele com um clique metálico que ecoou no silêncio do departamento como um ponto final, fiquei por um longo momento a olhar para o lugar vazio onde ele estivera sentado, com a sensação desconfortável de que a pesquisa de Érica, essa pesquisa que eu ajudara a construir com o distanciamento profissional de quem fornece os tijolos sem se perguntar que casa se está a construir, começava agora a extravasar os limites dos relatórios e das hipóteses teóricas para se infiltrar na minha própria perceção das coisas, como um líquido que, ao fim de muito tempo a gotejar, acaba por manchar irremediavelmente o tecido onde cai. A carta de Lúcia, com a sua exigência de publicidade, com a sua reivindicação de um olhar coletivo que transformasse o gesto privado em acontecimento partilhado, vinha confirmar, de um modo que nenhum artigo académico poderia igualar, a intuição que estivera na origem de todo o trabalho de Érica: a de que o autoaniquilamento, na sua forma contemporânea e urbana, deixara de ser um ato que se esconde para se tornar um ato que se exibe, e que essa exibição não era acidental, não era um pormenor sem importância, mas constituía a própria essência do gesto, a sua razão de ser, como se o salto do viaduto fosse, ao mesmo tempo, um fim e um princípio, um encerramento e uma abertura, uma morte que, paradoxalmente, se lançava à conquista de uma sobrevida, a sobrevida efémera mas intensíssima da imagem que fica, da história que se conta, da carta que se lê no jornal de domingo entre o café e o pão torrado.

 

Telefonei a Érica nessa mesma noite, incapaz de adiar a partilha daquilo que soubera, e a conversa prolongou-se pela madrugada dentro, com a minha mulher a aparecer de roupão à porta do escritório, uma vez, duas, três, para me perguntar se eu não ia dormir, e eu a responder-lhe que sim, que já ia, com aquele automatismo de quem sabe que não irá tão cedo, e de facto não fui. Érica ouviu-me em silêncio, um silêncio que eu já conhecia bem e que sabia ser o prelúdio de uma tempestade de perguntas e conexões e hipóteses que se atropelariam umas às outras na urgência de serem formuladas, e quando finalmente falou, com a voz ligeiramente rouca da insónia ou do entusiasmo, que no caso dela eram muitas vezes a mesma coisa, propôs que nos encontrássemos no dia seguinte no próprio Viaduto de Santa Cruz do Calvário, o que me pareceu ao mesmo tempo lógico e um pouco macabro, como parece lógico e macabro visitar o local de um crime quando se investiga o crime, mas acabei por concordar, porque, para dizer a verdade, já não havia recuo possível, já não havia distanciamento que me protegesse, a pesquisa deixara de ser um objeto que se observa de fora para se tornar um território onde eu me movia, e onde, como em todos os territórios desconhecidos, o mapa se vai desenhando à medida que se avança, com a diferença de que aqui o cartógrafo não sabia se alguma vez chegaria a desenhar a última linha.

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