Novembro - capítulo I
I
Foi
no exercício cotidiano das funções que me haviam sido cometidas, não por
vocação, que essa seria palavra demasiado nobre para o que faço, nem por
ambição, que a não tenho, mas por aquele acaso que a uns coloca sentados diante
de uma secretária e a outros empurra para debaixo das pontes, no Departamento
de Amparo Social, instituição cujo nome, se o tomarmos à letra, parece prometer
um abrigo que a realidade quotidianamente desmente, entre relatórios que se
acumulavam sobre o tampo da mesa com a paciência mineral das estalactites,
prontuários amarelados cujas bordas, de tão manuseadas, se desfaziam em farpas
de papel, e o silêncio protocolar das salas de espera, um silêncio que não era
o do recolhimento mas o da resignação burocrática, feito de tosses abafadas, do
roçar de solas no chão de linóleo e do ruído discreto do ponteiro dos minutos a
arrastar-se com a mesma lentidão exasperante dos processos que eu manuseava,
processos esses que, diga-se de passagem, pareciam conter, cada um deles, uma
pequena tragédia doméstica reduzida a meia dúzia de carimbos e rubricas, que
conheci Érica Medeiros, pesquisadora cujo trabalho se debruçava, com uma
obstinação quase artesanal, daquelas que já não se veem senão nos ourives e nos
relojoeiros, sobre aquilo a que ela, tomando de empréstimo um termo que
circulava entre os seus pares com a ambiguidade própria das palavras que servem
para tudo, chamava a espetacularização da autoaniquilação. Ela chegou ao meu
departamento numa tarde qualquer, uma tarde que em nada se distinguia das
outras, com a luz poeirenta do meio-dia a coar-se pelas persianas de lâminas
metálicas que rangiam quando o vento soprava, carregando consigo uma pasta
grossa de anotações, dessas pastas de cartão que os arquivistas chamam de
capa-dura, e um cansaço nos olhos, um cansaço que não era o do corpo, ainda que
o corpo também estivesse cansado, mas o da alma, se me é permitido usar esta
palavra que a minha formação me ensinou a evitar, um cansaço que só quem já
mergulhou fundo demais num tema, e a ele se agarrou como o náufrago se agarra à
tábua, sabendo que a tábua pode não chegar para o manter à tona, consegue
disfarçar mal, e mesmo assim só por pouco tempo, porque os olhos, mais cedo ou
mais tarde, acabam sempre por trair o que a boca se esforça por calar.
Procurou-me depois de já ter reunido uma série considerável de depoimentos com
familiares dos autoaniquilados, palavra que ela preferia, em lugar de suicidas,
não por escrúpulo eufemístico, que isso seria fazer pouco da sua inteligência,
mas por lhe parecer que suicida diz menos do que aquilo que realmente sucede,
como se a língua, ao nomear o ato, já o estivesse a diminuir, ansiosa por
colher, junto a mim, informações adicionais sobre aquilo que ela e os seus
interlocutores chamavam, com uma reverência quase supersticiosa, de Grande Mão,
designação sobre cuja origem nunca chegámos a ter a certeza, se proviria de um
gesto que empurra, daqueles que não admitem retorno, ou de um gesto que
escreve, como se o destino fosse um texto que alguém redige em nosso nome, ou
de um gesto que simplesmente se fecha, como uma porta que se encosta sem ruído,
mas que todos pronunciavam baixando a voz, do mesmo modo que em certas aldeias
ainda se baixa a voz ao nomear a serpente, não vá o nome atraí-la. Recordo-me
de a ter recebido com a curiosidade cautelosa de quem pressente, ou melhor, de
quem já sabe por instinto alimentado em anos de balcão e arquivo, que uma
pergunta simples, das que parecem não querer nada senão uma confirmação ou um
dado objetivo, pode abrir um abismo insuspeitado, daqueles que se abrem debaixo
dos pés sem aviso prévio, e foi exatamente isso o que aconteceu, embora nenhum
de nós dois pudesse, naquele primeiro encontro, medir a extensão do que estava
por vir, como não se pode medir o comprimento de uma corda que se vai
desenrolando à medida que a puxamos e que não tem fim, ou que tem um fim que
nunca chegamos a ver.
Nas
semanas que se seguiram, e que foram muitas, e que, olhando para trás, me
parecem agora ter durado mais do que os dias que o calendário lhes atribui,
acompanhei de perto, primeiro com a curiosidade de quem espreita por cima de um
ombro, depois com um interesse que se foi tornando, sem que eu desse por isso,
em envolvimento pessoal, o processo de sistematização dos relatos que ela
compilava, um trabalho de ourivesaria paciente que consistia em ler e reler as
transcrições, sublinhar palavras-chave, agrupar recorrências, descartar o que
era acidental e reter o que era padrão, e notei, primeiro com surpresa, depois
com uma inquietação que se instalou no meu espírito como uma névoa que não
acaba de dissipar-se, uma inflexão inesperada, uma daquelas viragens que o
material impõe ao investigador quase à sua revelia, como se o investigador não
fosse mais do que o amanuense de um texto que já existia antes de ele chegar,
um texto que só esperava que alguém se desse ao trabalho de o passar a limpo.
Em vez do histórico de vida do autoaniquilado, que fora, originalmente, o eixo
norteador da sua investigação, o fio condutor que ela imaginava seguir até alguma
espécie de causa, de origem, de explicação psicológica ou social, daquelas
explicações que, quando finalmente as encontramos, nos dão a ilusão de que
compreendemos alguma coisa, os depoimentos insistiam em outra coisa, insistiam
com uma força que não era a da argumentação lógica mas a da repetição quase
lituânica, como se os familiares entrevistados tivessem um roteiro próprio,
alheio às perguntas que lhes eram feitas, e não se desviassem dele por nada
deste mundo, nem sequer quando a entrevistadora, com a habilidade de quem sabe
conduzir uma conversa, tentava delicadamente trazê-los de volta ao que
supostamente interessava. Os familiares descreviam, com uma minúcia que beirava
o obsessivo, e que a mim, confesso-o sem orgulho, me causava um incómodo difícil
de localizar, talvez por ser um incómodo que não provinha da piedade, que seria
o sentimento esperável, mas do excesso de pormenor, como se a profusão de
detalhes tivesse qualquer coisa de obsceno, as cenas do autoaniquilamento, os
detalhes do ato consumado, a posição exata do corpo depois do impacto, a cor da
camisa, a marca dos sapatos, se estavam atados ou desatados, os locais precisos
onde se davam as gravações, a engenhosidade, por vezes rudimentar, feita de
improviso e materiais domésticos, cordas de estendal, tripés fabricados com
canos de ferro e abraçadeiras de plástico, por vezes surpreendentemente
sofisticada, quase profissional, com câmaras de alta definição e sistemas de
transmissão em contínuo que qualquer canal de televisão não se importaria de
usar, e, sobretudo, a reação dos espectadores diante daquilo que assistiam,
fossem eles multidões reunidas ao vivo no local do acontecimento ou públicos
dispersos diante de telas que faiscavam na penumbra de quartos anónimos,
espectadores esses que, diga-se de passagem, raramente eram descritos como
horrorizados, mas antes como fascinados, como se o horror e o fascínio fossem,
no fundo, duas faces da mesma moeda. O histórico biográfico, antes central,
aquilo que deveria ser o coração do estudo, a infância, a adolescência, os
amores contrariados, as dívidas, as doenças, os sonhos por realizar, esvaía-se
para as margens do discurso, tornava-se resíduo, nota de rodapé de um fenómeno
que se revelava, cada vez mais, coreografado, ensaiado, quase teatral na sua
conceção, e não era raro que um familiar, depois de descrever com abundância de
pormenores a textura do tecido que o filho usava no momento do salto, não
soubesse dizer, se lhe perguntassem com a necessária delicadeza, em que ano o
filho havia concluído os estudos, ou se alguma vez tinha estado apaixonado.
Confesso,
e faço-o aqui com a franqueza de quem já não tem nada a perder, que partilhei
da perplexidade de Érica diante dessa dimensão inaudita, pois até então
acreditávamos, ela por ofício, eu por formação, ambos por um certo senso comum
que nunca havíamos questionado, e que, como quase todo o senso comum, é feito
mais de preguiça mental do que de certezas, que o autoaniquilamento fosse gesto
de foro estritamente íntimo, encerrado na opacidade da subjetividade de quem o
praticava, um ato que se consumava, na melhor das hipóteses, entre quatro
paredes e o silêncio de um bilhete deixado sobre a mesa da cozinha, e eis que
agora os dados, essas pequenas coisas teimosas que não se deixam subornar pelas
nossas teorias, nos diziam precisamente o contrário, ou, pelo menos, nos
obrigavam a olhar para o contrário com a seriedade que ele merecia. Diante
disso, instalou-se um impasse fecundo, dessas encruzilhadas que uma pesquisa
séria não pode simplesmente contornar, sob pena de se tornar ela própria uma
forma de fingimento, um daqueles estudos que só confirmam o que já se sabia
antes de começar e que, portanto, não servem para nada. Ela buscava, seguindo
as diretrizes costumeiras do campo da saúde, com os seus protocolos, as suas
escalas de risco, os seus históricos clínicos, uma explicação ancorada no
universo interior do sujeito, como se o sujeito fosse uma casa sem janelas,
recebia, entretanto, dos familiares entrevistados, um convite insistente, quase
uma exigência, para que observássemos o externo, o que estava fora, ao redor, à
vista de todos, exposto sem pudor às ruas e às câmaras, como se a vida
interior, essa que a psicologia tanto preza, não passasse, no fim de contas, de
uma sala de espera onde nada de verdadeiramente importante acontece. Essa
exterioridade que se anunciava, e que a cada novo depoimento se tornava mais
difícil de ignorar, sugeria uma articulação inteiramente estranha ao
vocabulário da saúde pública, e também ao vocabulário do senso comum atrás
referido, cenas, imagens, composição de cenário, script, plateia, espectadores,
um léxico emprestado do teatro, do cinema, da produção de espetáculos, que
aproximava o autoaniquilamento, de modo tão perturbador quanto insofismável,
muito mais de uma produção cultural, com as suas regras, os seus códigos, as
suas convenções, do que de um problema clínico ou epidemiológico, como se, no
fim de contas, a doença não fosse o que levava à morte, mas a morte o que se
exibia como espetáculo, e o espetáculo, por sua vez, tivesse as suas próprias
leis, que não são as da medicina nem as da moral.
A
partir dessas primeiras fissuras no edifício teórico original, fissuras que,
como as das paredes velhas, a princípio se disfarçam com uma demão de tinta mas
depois se alastram e comprometem toda a estrutura, Érica passou a elaborar, com
crescente rigor e não sem hesitações, daquelas hesitações que são o sal da
inteligência, uma constelação de hipóteses que discutíamos longamente, muitas
vezes até tarde, sobre uma mesa entulhada de transcrições, hipóteses que, à
semelhança do que sucede com as estrelas no céu de inverno, só ganhavam sentido
quando postas em relação umas com as outras, formando figuras que não estavam
em nenhuma delas isoladamente, o autoaniquilamento como espetáculo puro e
simples, desprovido de outra intenção que não fosse a de ser visto, o
autoaniquilamento estetizado, trabalhado como obra que reclama composição,
iluminação, acabamento, como se o corpo que se lança do viaduto fosse, ao mesmo
tempo, o pincel e a tela, o autoaniquilamento como forma de comunicação,
dirigida a um destinatário nem sempre explícito, por vezes a cidade inteira,
por vezes uma única pessoa ausente, por vezes ninguém em particular, o que
tornava a comunicação ainda mais enigmática, o autoaniquilamento como
contraponto, quase insurgente, ao estilo de morte que o Ocidente burocratizou,
higienizou e enclausurou em hospitais e funerárias ao longo dos séculos, esse
Ocidente que, tendo empurrado a morte para trás dos biombos, finge depois que
ela não existe e se surpreende quando ela volta a irromper, nua e crua, no meio
do viaduto, como um convidado que não foi chamado mas que insiste em sentar-se
à mesa. Cada uma dessas hipóteses germinava, por sua vez, uma ramificação de
indagações que enriqueciam, e complicavam, e por vezes ameaçavam paralisar, o
problema original, como um rio que se divide em tantos braços que já não se
sabe qual deles é o curso principal, nem se algum deles chegará alguma vez ao
mar, espetáculo produzido para quem, afinal, que elementos e objetos entravam
na composição estética desses atos, roupas, adereços, escolha do local, hora do
dia, condições de luz natural ou artificial, trilha sonora improvisada ou
meticulosamente selecionada, qual a influência da cultura urbana, com as suas
texturas, os seus ritmos particulares, os seus pontos de referência simbólicos,
na elaboração desses suicídios, a quem, precisamente, se dirigia o
autoaniquilamento quando se fazia comunicação, à família, à cidade, a um
sistema inteiro de valores que se pretendia denunciar, à posteridade, a Deus, e
que diálogo, silencioso, cifrado, mas persistente e quase obstinado, travava
ele com a metrópole e com as demais formas de morte que a habitam, do acidente
de trânsito ao homicídio, da doença prolongada à velhice que se apaga devagar,
como uma vela que já não tem pavio.
Acompanhei Érica em boa parte desse
levantamento, primeiro por dever de ofício, depois por uma curiosidade que se
foi transformando, sem que eu desse por isso, em cumplicidade intelectual,
sentado ao seu lado enquanto ela sublinhava trechos com uma régua de metal e
rabiscava esquemas nas margens de cadernos de argolas, e testemunhei como a sua
pesquisa foi, pouco a pouco, tecendo relações com a subjetividade das cidades,
com a história da construção das metrópoles, com as questões estéticas que
atravessam a cultura urbana desde os primeiros tratados de urbanismo, esses que
pretendiam desenhar a cidade ideal e acabaram por construir a cidade possível,
até à produção contemporânea de imagens, essa mesma produção que, diga-se de
passagem, também ela não é alheia à espetacularização de quase tudo, desde a
refeição que se fotografa antes de comer até à guerra que se transmite em
direto. Autores da sociologia, da antropologia urbana, da história das
mentalidades e do urbanismo passaram a compor a sua bibliografia, empilhados
sobre a mesa em pilhas instáveis que ameaçavam desabar a cada novo livro
acrescentado, oferecendo-lhe elementos fundamentais para sustentar, com solidez
cada vez maior, a hipótese do autoaniquilamento como espetáculo, e recordo-me
de tardes inteiras dedicadas a discutir um único parágrafo, uma única citação,
uma única ideia, na tentativa de encontrar a formulação exata que desse conta
da complexidade do que ela observava, como quem procura a chave que há de abrir
uma porta que se suspeita existir mas cuja fechadura ainda se não encontrou, ou
como quem tenta descrever uma paisagem que muda à medida que a luz do sol se
desloca.
Foi
desse cruzamento, dessa interseção entre a pesquisa de campo inicial, que
apontava insistentemente para as cenas, os cenários e os espectadores, como o
ponteiro de uma bússola que encontra o seu norte magnético, e o ponto de
convergência das referências teóricas, unidas em torno da questão urbana como
formigas em torno de uma migalha, que Érica fixou, definitivamente, o eixo da
sua investigação, a saber, o autoaniquilamento como espetáculo na metrópole.
Essa articulação não surgiu por acaso ou por escolha arbitrária, dessas que se
fazem quando a vontade do investigador se sobrepõe à evidência dos dados,
impôs-se-lhe, assim como a água se impõe ao declive, pela reiteração obstinada
de informações vindas de campos distintos, todas elas relacionando o
autoaniquilamento às cidades, à cultura urbana, ao processo de urbanização e
metropolização, às subjetividades ali forjadas sob pressão constante do betão,
do ruído, da multidão anónima, essa multidão que é, ao mesmo tempo, a maior
solidão que se pode conceber. Assim, a sua proposta amadureceu, ganhou contornos
mais nítidos a cada nova leitura, a cada novo depoimento, a cada nova conversa
que tínhamos até que a luz da manhã começava a infiltrar-se pelas frinchas da
persiana, construir uma nova perspetiva sobre o autoaniquilamento,
relacionando-o à cidade de Santa Cruz do Calvário através de suas cenas, de
seus cenários, de seus espectadores, e, por meio desse percurso, analisar a
subjetividade que se constrói na tensão entre dois polos que se repelem e se
atraem, o espetáculo do autoaniquilamento e a metrópole que o abriga, o
testemunha e, de certo modo, o autoriza.
Dentro
desse conjunto, tornou-se mais produtivo, do ponto de vista metodológico,
priorizar os suicídios públicos, isto é, aqueles consumados nos espaços
externos, ruas, viadutos, praças, avenidas, estações de metropolitano, linhas
férreas, marquises de prédios altos, precisamente porque são esses, e não os
que ocorrem na privacidade de um quarto fechado, que dialogam com a metrópole e
a interrogam, fazendo dela o seu alvo privilegiado de comunicação, a sua
plateia cativa e involuntária, uma plateia que não pagou bilhete mas que também
não pode, em consciência, abandonar a sala, porque o espetáculo começa sem
aviso e termina antes que alguém tenha tempo de desviar o rosto. Foi
necessário, também, e este foi um dos aspetos que mais demoradamente
discutimos, situar o autoaniquilamento dentro dos comportamentos padronizados
que a nossa cultura reserva à morte contemporânea, a morte higienizada, adiada,
medicalizada, escondida atrás de biombos hospitalares, uma morte que já não se
vê, que já não se ouve, que já não se cheira, uma morte que foi expulsa do
convívio dos vivos como se fosse uma visita incómoda, comportamentos que o
autoaniquilamento público, aparentemente, subverte com uma obstinação silenciosa
e, ao mesmo tempo, estrondosamente pública, e que, ao subvertê-los, acaba por
revelar, como uma lanterna acesa num quarto escuro, o incómodo profundo que a
morte natural, a morte administrada, a morte que chega de mansinho, procura a
todo o custo esconder, a saber, que a morte, por mais que a disfarcem, continua
a ser o destino comum de todos os que estão vivos.
Lembro-me,
com particular nitidez, daquelas coisas que o tempo, em vez de apagar, torna
mais vivas, de uma passagem das anotações de Érica que me marcou profundamente,
lida em voz alta numa daquelas tardes de trabalho conjunto em que o silêncio do
departamento, já de si considerável, parecia adensar-se à medida que as
palavras ganhavam corpo no ar, a observação, colhida não sei em que livro, de que
a verdadeira criatura metropolitana é justamente aquela que atravessa a ponte,
migrando incessantemente do velho para o novo, e vice-versa, num movimento
pendular que jamais se completa, que nunca chega a um destino final, apenas
repete a travessia, como um pêndulo que oscila entre dois extremos sem nunca se
deter no meio. Ocorre, no entanto, como sucede em tantas outras pontes de
tantas outras metrópoles espalhadas pelo mundo, que a altura recém-conquistada,
essa elevação que separa o viaduto do chão, é capaz de suscitar vertigens,
tendências ao autoaniquilamento de difícil contenção, que se inscrevem
integralmente na ambígua condição de quem habita a metrópole, dividido entre o
fascínio da elevação e o chamamento do abismo, e há que reconhecer que o abismo,
quando se debruça sobre ele uma ponte, adquire uma eloquência que a planície
jamais terá, como se a altura lhe desse uma voz que o rés-do-chão lhe nega. Por
isso mesmo, talvez o mais eloquente cumprimento já dirigido a um viaduto tenha
sido o bilhete que a polícia encontrou no bolso das calças de um autoaniquilado
sentimental, um bilhete escrito com letra trémula num pedaço de papel pautado,
que Érica transcreveu com as mãos visivelmente trémulas na primeira vez em que
o leu para mim, e que dizia assim, Bendito sejas, Viaduto de Santa Cruz do
Calvário, Sem ti eu não poderia passar desta para melhor, embalado pela brisa
que te circunda, Adeus, Até para a eternidade és o passadiço de útil
eficiência, palavras que, se as lermos com a atenção que merecem, transformam
uma estrutura de betão e aço numa espécie de entidade benfazeja, quase um santo
laico a quem se agradece o favor concedido.
Érica
interpretava essa metáfora da passagem no seu sentido mais pleno, e
discutimo-lo por horas a fio, esquecidos da fome, do cansaço, do relógio que
avançava implacável, o viaduto, dizia ela, não se limita a unir a margem
direita à esquerda, o velho ao novo, o bairro operário ao bairro nobre, essas
dicotomias que os urbanistas tanto apreciam, ele une, sobretudo, o efémero ao
eterno, o lugar do sofrimento terrestre àquilo que se supõe ser o além, um além
imaginado como felicidade perene, selado pela última carícia do vento, quase
uma bênção laica concedida por uma estrutura de betão e aço que nenhum
sacerdote se lembraria de abençoar, e é de notar, como ela fazia notar com a
sua inteligência percuciente, que a gratidão do autoaniquilado não ia para um
ente divino, mas para o viaduto, o que mostra, de maneira eloquente, como a
cidade, quando se oferece como palco, se torna também destinatário de preces,
de súplicas, de agradecimentos, como se o betão tivesse substituído o altar.
Ela observava, com a acuidade de quem já não distinguia mais, ou já não queria
distinguir, os limites entre pesquisa e testemunho, entre o rigor académico e
algo que se aproximava perigosamente do envolvimento pessoal, que as cenas do
autoaniquilamento, elaboradas como espetáculo, nascem do próprio material que a
cidade oferece, os seus viadutos, as suas torres, os seus carris, as suas
multidões apressadas que passam sem ver, para depois serem representadas de
volta àquela mesma cidade que ajudou a construí-las, num circuito fechado de
produção e receção que se retroalimenta indefinidamente, como uma cobra que
morde a própria cauda. A cidade, na sua totalidade difusa e anónima,
converte-se assim no grande espectador do espetáculo suicida, uma plateia que
nunca comprou ingresso, que nunca foi consultada sobre a sua vontade de
assistir, mas que também nunca consegue, de facto, desviar o olhar, porque o
espetáculo, uma vez começado, exige ser visto até ao fim, e o fim é sempre o
mesmo.
Constitui-se,
dessa maneira, um diálogo permanente, ainda que nem sempre perceptível para
quem passa apressado, entre o espetáculo e a metrópole, cenas que interrogam a
cidade, que produzem um corte abrupto no seu quotidiano apressado, que
interrompem o seu fluxo temporal por alguns minutos, algumas horas, o tempo de
o corpo ser removido e o trânsito reaberto, antes que a rotina engula o
acontecimento e o reduza a uma notícia de jornal que ninguém lerá no dia
seguinte, cenas que redimensionam lugares, uma esquina qualquer, um viaduto
anónimo, uma plataforma de metropolitano, atribuindo-lhes uma significação
inteiramente estranha à original, transformando-os, ainda que temporariamente,
em palco, e que, por fim, questionam o lugar que a morte ocupa, ou deveria
ocupar, na arquitetura simbólica da nossa cultura, uma cultura que prefere
mantê-la discreta, adiada, invisível, trancada a sete chaves, e que se vê, de
repente, obrigada a encará-la de frente, em praça pública, sob os olhares de
quem passava e não esperava por aquilo, e que, depois de ver, já não pode
fingir que não viu, porque as imagens, uma vez entradas na cabeça, não se
apagam com a facilidade com que se apaga um quadro negro.
Ao
final daqueles meses de trabalho conjunto, meses que me pareceram, ao mesmo
tempo, longos como uma vida inteira e breves como um suspiro, quando Érica
finalmente reuniu as suas anotações num corpo coerente de reflexões, um volume
espesso que ela mandou encadernar com uma capa preta e letras douradas, percebi
que eu próprio, que entrara naquela história como um mero funcionário
encarregado de fornecer dados, já não conseguia mais olhar para os viadutos da
cidade da mesma forma, e também já não conseguia ouvir a palavra viaduto sem
que ela me trouxesse, como um eco longínquo que o vento transporta, a ideia de
passagem que é ao mesmo tempo palco, de estrutura que serve para unir e para
precipitar. Cada estrutura suspensa sobre a avenida, cada passarela de peões,
cada plataforma elevada de metropolitano passou a carregar, aos meus olhos,
essa dupla natureza que a pesquisa dela havia revelado, passagem funcional e,
ao mesmo tempo, palco latente, potencial cenário de um espetáculo que a cidade,
sem jamais o admitir abertamente, também ajuda a produzir e sustentar, como se,
no fundo, no seu âmago mais secreto, a cidade precisasse desses espetáculos
para se lembrar de que está viva, e de que a morte, apesar de todos os biombos,
de todas as higienes, de todos os adiamentos, continua a ser o seu mais fiel
habitante, a única coisa que ninguém, por mais que se esforce, conseguirá
jamais expulsar.


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