Últimas migalhas

 

Chama-se Vila do Papelão o aglomerado de barracos que se ergue na orla poeirenta de Santa Cruz do Calvário, e não é preciso muita imaginação para entender de onde lhe veio o nome, bastando reparar nas paredes feitas de caixas prensadas, nos telhados de lona remendada, no chão que em dia de chuva se transforma em pântano de tinta impressa dissolvida, para se compreender que ali o papelão não é apenas material de construção, é também, por assim dizer, condição de existência, sina, sobrenome coletivo que a cidade concedeu, sem consultar ninguém, a quem vive do que os outros jogam fora. Foi erguida, essa vila, aos poucos, do mesmo jeito que se ergue tudo o que ninguém planeja e todos precisam, um barraco atrás do outro, uma família atrás da outra, até que o amontoado de gente pobre ganhasse nome próprio e endereço reconhecido pelos Correios, ainda que os Correios raramente ali chegassem, e a rigor não fosse fácil dizer se a Vila do Papelão pertencia mesmo a Santa Cruz do Calvário ou se apenas se apoiava nela, como se apoia um mendigo na parede de uma igreja, tolerado mas não incluído, próximo mas não pertencente. É nesse lugar, numa cama que não merece chamar-se cama, feita de tábuas encontradas e um colchão que já foi de alguém que não se sabe quem, que Gerusa, oitenta e tantos anos mal contados, porque ninguém teve o cuidado de registrar o dia exato em que ela nasceu para o mundo, agoniza devagar, e diz-se agoniza devagar porque há mortes que se apressam, como se tivessem hora marcada, e há outras que preferem demorar-se, saboreando cada minuto que lhes resta como quem não confia inteiramente no que virá depois. O barraco em que ela agora se despede da vida cheira a papelão úmido e a metal enferrujado, cheiro que qualquer outro nariz, habituado a perfumes de sabonete e amaciante, julgaria intolerável, mas que para Gerusa, e também para Jaci, não é mais que o cheiro da própria casa, tão familiar quanto o cheiro do próprio corpo, e há de se compreender que aquilo que a uns repugna é a outros simplesmente o ar que se respira, questão de costume, não de virtude nem de defeito. Ao seu lado, sentada num banquinho de madeira que range a cada movimento, está Jaci, e entre as duas correm oito décadas de amizade, o que é tempo suficiente para que já nem seja necessário falar muito, bastando o silêncio compartilhado para que se entendam, coisa que os jovens, sempre tão apressados em preencher cada instante com palavras, dificilmente compreenderiam. Conheceram-se ainda meninas, quando a Vila do Papelão nem tinha esse nome, era apenas um descampado onde as famílias mais pobres da cidade despejavam o que não queriam e onde outras famílias, ainda mais pobres, iam buscar o que precisavam, e foi ali, entre latas amassadas e restos de comida que os cães disputavam com as crianças, que Jaci e Gerusa se encontraram pela primeira vez, duas meninas de mãos sujas competindo pelo mesmo pedaço de plástico que valeria, na balança do ferro-velho, alguns centavos que fariam diferença naquele dia. Poderia ter nascido ali uma inimizade, como tantas vezes nasce entre os pobres que disputam as sobras dos ricos, mas nasceu, ao invés, algo mais raro e mais difícil de explicar, uma cumplicidade que resistiria a oitenta anos de fome, de perdas, de filhos que morreram cedo ou que foram embora e nunca mais escreveram, de maridos que bebiam o pouco que ganhavam e de invernos em que o papelão das paredes não bastava para conter o frio.

 

Jaci segura a mão da amiga, trêmula não de medo mas de bactéria, essa mesma que anda devorando por dentro o que resta do sistema nervoso de Gerusa, uma dessas doenças que a medicina sabe nomear em latim mas não sabe curar em português, sobretudo quando o paciente não tem plano de saúde nem convênio nem sequer certidão de nascimento atualizada, apenas um corpo cansado e um endereço que os médicos da cidade evitam visitar. É curioso notar, embora ninguém ali tivesse tempo ou instrução para notar tais curiosidades, que a doença poupou até agora a lucidez, como se tivesse decidido, por algum capricho que a ciência não saberia explicar, deixar a mulher inteiramente desperta para assistir ao próprio desfecho, e há quem diga que isso é misericórdia, e há quem diga que isso é crueldade, e a verdade é que ninguém, nem os que dizem uma coisa nem os que dizem outra, jamais esteve no lugar de Gerusa para saber ao certo. Não se pense, contudo, que Gerusa encara a morte com o desespero que seria de esperar-se de quem teve tão pouco tempo de vida boa, porque para quem catou lixo a vida inteira, remexendo latas e garrafas sob o sol que em Santa Cruz do Calvário não costuma ter piedade de ninguém, acordando antes do amanhecer para chegar primeiro aos contêineres antes que outros catadores levassem o melhor material, empurrando carrinhos que pesavam mais que o próprio corpo por ruas que os carros buzinavam como se ela fosse obstáculo e não gente, a morte apresenta-se apenas como mais uma forma de descanso, talvez a única que não vem acompanhada de conta a pagar, de patrão a agradar, de filho a alimentar. Jaci, essa sim, chora por dentro, e recua no tempo à procura de lembranças que sirvam de cobertor para a noite que se aproxima, lembra das tardes em que reviravam juntas montanhas de plástico, rindo de fome, como se a fome fosse motivo de riso e não de vergonha, porque rir era, afinal, a única coisa que não custava dinheiro e que ninguém podia lhes tirar; lembra do brinquedo quebrado que Gerusa consertou com arame e ofereceu à neta que nunca teve, pois há quem tenha netos de sangue e há quem precise inventá-los, e Gerusa inventou tantos netos imaginários ao longo da vida quanto foram necessários para que a solidão não a engolisse inteira; lembra ainda daquela vez em que dividiram, por três dias seguidos, um único pacote de biscoitos vencidos que um mercado jogara fora, racionando cada biscoito como se fosse ouro, e riram disso também, anos depois, como riem os velhos das misérias que já não doem tanto quanto doeram. São memórias pobres, é certo, mas são as únicas que Jaci possui, e das pobres às vezes se tiram os calores mais duradouros, porque memória rica se gasta depressa, ao passo que memória pobre, sendo pouca, dura para sempre, cada lembrança usada e reusada até ficar lisa e macia como pedra de rio. Gerusa, porém, dispensa a piedade, quer é comida, diz não vou partir com a barriga vazia, Jaci, já passei fome demais nessa vida, e diz isto com a voz arrastada pela doença, como quem já não tem forças para os adjetivos e guarda o pouco fôlego que lhe resta apenas para o essencial. E há de se compreender que este pedido, tão simples na aparência, carrega dentro de si uma vida inteira de privações, porque quem nunca passou fome de verdade dificilmente entenderia por que uma mulher, à beira da morte, prefere um prato de comida a um padre, a uma bênção, a uma última confissão, mas quem já sentiu o estômago roer-se por dentro, quem já deitou a dormir com a barriga vazia esperando que o sono trouxesse esquecimento, esse sabe que a fome deixa marca mais funda que qualquer pecado, e que saciá-la, ainda que uma última vez, é talvez a única forma de paz que Gerusa é capaz de reconhecer.

 

O Doutor Alexandre, médico do município, viria ao entardecer aplicar os sedativos que a prefeitura nunca se deu ao trabalho de recusar, ainda que também nunca se tivesse dado ao trabalho de construir ali um posto de saúde, e convém notar, já que se está a falar de contradições municipais, que na mesma verba orçamentária em que faltou dinheiro para erguer um posto de saúde na Vila do Papelão sobrou dinheiro de sobra para renovar o gramado do estádio municipal e pintar de novo o coreto da praça central, o que prova, se prova fosse necessária, que a escassez nunca é absoluta, é sempre escolha, ainda que os que escolhem prefiram chamá-la de escassez para que a escolha pareça menos cruel. E antes que o médico chegue Gerusa quer sentir, uma última vez, o gosto de comida de verdade, não a que sobra, não a que se encontra, mas a que se compra, porque há uma dignidade especial, que só quem nunca teve dinheiro compreende inteiramente, em comprar alguma coisa, em escolher o que se quer e pagar por ela, em vez de receber o que os outros descartaram. Jaci enxuga os olhos na manga rasgada da blusa e sai à rua com um balde furado, disposta a pedir esmola a quem quiser dar, e a maioria, convém dizê-lo desde já, não quererá. A poucos metros dali, como se a geografia tivesse decidido fazer troça da vizinhança, ergue-se o muro branco e bem cuidado do Colégio Santo Antônio, onde as crianças fardadas de Santa Cruz do Calvário aprendem, entre outras coisas, a distância exata que devem manter dos que vivem do outro lado do muro, distância que não se ensina em nenhuma disciplina do currículo mas que se aprende, ainda assim, com mais eficácia que qualquer lição de matemática ou de português, aprendida nos olhares dos pais, nas conversas de carro, no simples fato de o muro existir e de ser, todos os anos, pintado de branco outra vez, como se a brancura pudesse impedir que a pobreza do outro lado manchasse a vista. Garanta o futuro e o sucesso de seu filho, diz o letreiro em letras douradas sobre o portão, e é curioso, mais uma vez seria o caso de dizer curioso se houvesse alguém ali disposto a notar tais curiosidades, que o mesmo muro que promete futuro aos de dentro é o que nega presente aos de fora, como se o futuro fosse mercadoria escassa, disponível apenas para quem já nasceu do lado certo do muro, e aos de fora restasse tão somente o presente, um presente eterno e sem saída, feito de hoje repetido amanhã e depois de amanhã sem qualquer promessa de ser diferente. No intervalo daquela manhã, contudo, não é a lição que corre entre os alunos, é um boato, e boato tem isso, corre mais depressa que qualquer lição, corre mais depressa até que a própria verdade, se é que a verdade corre: uma mulher da favela está morrendo, e o médico vai vir apressar a morte dela. E há nas crianças, mesmo nas mais bem-educadas, mesmo nas que os pais julgam protegidas de qualquer contato com a crueza do mundo, uma curiosidade antiga a respeito da morte, uma curiosidade que a escola não ensina mas também não consegue apagar, porque a morte é, de todos os mistérios, o único que nenhum livro didático explica satisfatoriamente. Aproveitando que o porteiro se ausentara por necessidade que a decência aconselha não detalhar, um grupo de alunos escala o muro, e não leva flores, não leva remédios, leva apenas a curiosidade crua de quem nunca viu de perto o que só se conhece de ouvir falar, correndo em direção à casa de entulho como quem vai ao zoológico ver um animal raro que pode, a qualquer momento, deixar de existir e nunca mais ser visto.

 

A partir daí a notícia comporta-se como só sabem comportar-se as notícias de morte alheia, que é espalhar-se com uma pressa que jamais se veria em notícia de vida, pois há de se convir que se fosse anunciado que Gerusa acabava de dar à luz, ou de fazer aniversário, ou de conseguir emprego, nenhuma dessas notícias percorreria a cidade com a mesma velocidade com que percorre a notícia de que ela está morrendo, o que diz mais sobre a cidade do que sobre Gerusa. Assim os funcionários das lojas próximas abandonam os balcões, os operários da fábrica têxtil cruzam os braços e combinam entre si o horário da pausa, os garis encostam as vassouras nos postes como quem encosta as armas depois de uma guerra que ainda vai começar, os padeiros deixam o forno aceso mas a porta fechada, os taxistas desviam a corrida para passar pela rua, e em poucas horas a rua que era de silêncio transforma-se em formigueiro humano, todos querendo ver Gerusa morrer, porque a morte, ao contrário de quase tudo o mais nesta cidade, tem a rara virtude de igualar por um instante os que a riqueza teima em separar, sendo o único espetáculo, de fato, ao qual rico e pobre têm igual direito de assistir, ainda que continuem a assisti-lo de lugares diferentes, os ricos de longe, com o nariz torcido de quem se permite a curiosidade sem se permitir a proximidade, os pobres de perto, porque perto é o único lugar que a pobreza conhece. Sorveteiros estacionam seus carrinhos junto à barreira de curiosos, farejando no ajuntamento humano a mesma oportunidade que fareja qualquer comerciante diante de qualquer multidão, pouco importando se ela se reuniu para um casamento ou para um velório antecipado; vendedores de água montam caixas de isopor no asfalto que o sol castiga como praga, e a especulação corre solta, será que ela grita, será que o médico injeta veneno, será que dói, será que ela sabe o que está acontecendo, perguntas que ninguém sabe responder e que por isso mesmo se repetem sem cansaço, porque a ignorância, ao contrário do que se costuma pensar, não emudece as pessoas, antes as torna mais loquazes, como se falar muito de um assunto que não se entende pudesse, por acúmulo de palavras, produzir alguma compreensão. Em volta do barraco de Gerusa forma-se uma praça inesperada, cães de rua farejam os pés da multidão, confusos com tanto movimento num lugar onde só costumavam passar catadores e o lixo que eles catavam, guardas municipais chegam com a pança adiante do resto do corpo e o rádio chiando ordens que ninguém obedece, dispersem, voltem para casa, aqui não há nada para ver, frase que qualquer um percebe ser mentira no instante em que é pronunciada, pois há, sim, muito o que ver, e é exatamente por isso que ninguém se dispersa. Mas todos, sem que se saiba explicar por que ordem se estabeleceu tal acordo, respeitam um limite invisível, o limiar da porta de lata onde a morte respira devagar, como se até a curiosidade tivesse os seus escrúpulos, como se existisse, mesmo entre estranhos reunidos por motivos pouco nobres, um código não escrito que determinasse até onde se pode chegar e a partir de onde já não é curiosidade, é invasão.

 

Jaci volta do peditório de mãos vazias, e não é de estranhar, pois na Vila do Papelão ninguém tem o que dar, cada um já deu tudo o que tinha só para continuar vivo até aquele dia, e os que vêm de fora, os que atravessaram a cidade atraídos pelo boato, desviam os olhos quando ela lhes estende o balde furado, como se o furo do balde fosse metáfora suficientemente clara do que ali se pedia, uma esmola que escorre antes de chegar a quem precisa, um socorro que se esvai no próprio ato de ser oferecido. Chora encostada a um poste, ignorada pela multidão que tem olhos apenas para o barraco, olhos apenas para a expectativa da morte, e não para a fome de quem ainda vive, porque é próprio dos espetáculos de morte roubar toda a atenção que deveria ser dividida também com os vivos que ficam. O último pedido de Gerusa parece tão impossível de atender quanto pedir à chuva que não molhe, e Jaci, ali encostada, sente pela primeira vez em oitenta anos de amizade que talvez não consiga cumprir o que a amiga lhe pediu, e esse pensamento dói mais do que a própria morte que se aproxima, porque uma coisa é perder alguém que se ama, outra, bem mais amarga, é perder alguém que se ama sabendo que não se fez o possível para aliviar-lhe o último desejo. É então, e as histórias gostam destes é então, como se precisassem de um sinal para lembrar que ainda não acabaram, que um menino do colégio, uniforme ainda impecável apesar da escalada do muro, se aproxima e entrega a Jaci uma nota de vinte reais amassada, dizendo é pra tia comer algo bom, e desaparece de novo no meio da gente sem esperar agradecimento, talvez porque soubesse, com aquela sabedoria que as crianças às vezes têm e perdem depois, quando a escola e a cidade lhes ensinam a manter distância, que agradecimento adiaria demasiado o essencial. E não se saberá nunca o nome desse menino, nem se ele contará em casa o que fez, nem se os pais aprovariam ou reprovariam o gesto, porque há gestos que só valem enquanto permanecem pequenos e anônimos, e este é um deles, uma nota amassada entregue sem discurso, sem testemunhas que importem, sem recompensa além da própria ação. Com o dinheiro Jaci compra pão, queijo, um pedaço de carne, duas frutas, escolhendo cada item com o cuidado de quem sabe que aquele dinheiro não voltará a existir, e volta correndo para o leito de tábuas, ajoelha-se junto de Gerusa e lhe oferece o prato de plástico como quem oferece a única coisa que ainda vale a pena oferecer. Gerusa leva o alimento à boca devagar, com as mãos que já não obedecem inteiramente, derramando um pouco, sujando os dedos de gordura, e não há nisso vergonha nenhuma, porque a fome, quando é grande de verdade, não tem tempo para modos à mesa, e as duas comem juntas, como nas tardes distantes em que dividiam um único biscoito achado no lixo, mastigando devagar como se quisessem fazer durar não apenas a comida mas o próprio instante, esticá-lo além do que o relógio permite. A multidão, essa mesma que viera pela curiosidade da morte, assiste agora em silêncio a este outro espetáculo, o da vida que insiste em se alimentar até ao último instante, e há nesse silêncio algo de reverência que ninguém ali saberia nomear, pois não é exatamente pena, nem é exatamente admiração, é antes o reconhecimento mudo de que se está diante de algo verdadeiro, coisa rara em qualquer cidade, mais rara ainda em Santa Cruz do Calvário. Alguém chora, alguém faz o sinal da cruz, um dos operários da fábrica têxtil tira o boné como se estivesse diante de um hino, e o sol começa a baixar, alaranjando os escombros da Vila do Papelão como se quisesse, ao menos naquela hora, embelezar o que durante o resto do dia recusa-se a olhar. O Doutor Alexandre chega por fim com sua maleta preta, afasta a gente com um gesto que não precisa de palavras, gesto que anos de profissão lhe ensinaram, o gesto de quem já separou multidões semelhantes tantas vezes que já não precisa pensar em como fazê-lo, entra no barraco e prepara os sedativos com a rotina de quem já fez isto outras vezes e sabe que fará ainda mais, porque em Santa Cruz do Calvário, como em toda cidade que confunde economia com virtude, a morte dos pobres é sempre mais numerosa que os médicos disponíveis para acompanhá-la. Gerusa olha para Jaci com os olhos úmidos e, ao contrário do que seria de esperar-se, satisfeitos, e diz brigada, amiga, tô de barriga cheia, e não há nesta frase queixa nenhuma, há apenas a constatação simples de quem cumpriu, à última hora, o único desejo que ainda lhe restava, o que prova, se ainda fosse necessário prová-lo, que a felicidade nem sempre exige grandes coisas, às vezes basta um pedaço de queijo e uma amiga ao lado. Jaci segura a mão da amiga enquanto o médico aplica a injeção, e ninguém se vai embora, a multidão inteira de Santa Cruz do Calvário, alunos ricos e operários e garis e guardas e vendedores e cães de rua, todos permanecem, numa reverência confusa que nenhum deles saberia explicar depois se lhe perguntassem, a assistir ao momento em que a vida de Gerusa se apaga como se apaga uma chama que, por um breve instante, aqueceu, sem que ela jamais o soubesse, o coração de toda aquela gente, rico e pobre, culto e ignorante, todos reduzidos, diante daquele barraco de lata, à mesma condição de espectadores impotentes perante o mistério mais antigo e mais democrático que existe. Gerusa fecha os olhos devagar, como quem adormece satisfeita depois de uma boa refeição, e talvez seja essa, no fundo, a única diferença entre a sua morte e um sono comum, o fato de que deste não haverá despertar, mas ainda assim ela parte como partiria para uma noite qualquer, sem drama, sem grito, apenas o silêncio de quem já disse tudo o que precisava dizer.

 

Ao fundo, do outro lado do muro branco, o letreiro do Colégio Santo Antônio acende as suas luzes artificiais, garanta o futuro, repete às escuras que já vão descendo sobre a cidade, luzes que ninguém na multidão está a olhar, todos voltados para o barraco, para a mulher que acaba de morrer de barriga cheia depois de uma vida inteira de barriga vazia, e há uma ironia nisso que o letreiro, por ser feito apenas de plástico e eletricidade, jamais será capaz de compreender: que o único futuro que Gerusa conheceu foi este presente estendido por oitenta anos, e que se algum futuro lhe coube afinal, foi este, um prato de comida comprado com vinte reais de um menino desconhecido. A multidão começa, aos poucos, a dispersar-se, primeiro os que vieram de mais longe, depois os vizinhos, cada um levando consigo, sem saber ao certo o que fazer com ela, uma lembrança que não pediu para ter, e no futuro de nenhum daqueles que ali estavam, seja ele rico ou pobre, haverá lugar reservado para esta tarde, porque é da natureza do futuro esquecer depressa aquilo que o presente insiste, por um instante apenas, em não deixar esquecer. Só Jaci permanecerá ali, sentada ao lado do corpo até que alguém venha buscá-lo, guardando para si, como guardou por oitenta anos, mais esta lembrança pobre entre as tantas que já não cabem em lugar nenhum além do próprio peito.


       Edson Moura em 02 de abril de 2003 

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