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Foi no exercício cotidiano das funções que me haviam sido cometidas, não por vocação, que essa seria palavra demasiado nobre para o que faço, nem por ambição, que a não tenho, mas por aquele acaso que a uns coloca sentados diante de uma secretária e a outros empurra para debaixo das pontes, no Departamento de Amparo Social, instituição cujo nome, se o tomarmos à letra, parece prometer um abrigo que a realidade quotidianamente desmente, entre relatórios que se acumulavam sobre o tampo da mesa com a paciência mineral das estalactites, prontuários amarelados cujas bordas, de tão manuseadas, se desfaziam em farpas de papel, e o silêncio protocolar das salas de espera, um silêncio que não era o do recolhimento mas o da resignação burocrática, feito de tosses abafadas, do roçar de solas no chão de linóleo e do ruído discreto do ponteiro dos minutos a arrastar-se com a mesma lentidão exasperante dos processos que eu manuseava, processos esses que, diga-se de passagem, pareciam conter, cada um deles, uma pequena tragédia doméstica reduzida a meia dúzia de carimbos e rubricas, que conheci Érica Medeiros, pesquisadora cujo trabalho se debruçava, com uma obstinação quase artesanal, daquelas que já não se veem senão nos ourives e nos relojoeiros, sobre aquilo a que ela, tomando de empréstimo um termo que circulava entre os seus pares com a ambiguidade própria das palavras que servem para tudo, chamava a espetacularização da autoaniquilação. Ela chegou ao meu departamento numa tarde qualquer, uma tarde que em nada se distinguia das outras, com a luz poeirenta do meio-dia a coar-se pelas persianas de lâminas metálicas que rangiam quando o vento soprava, carregando consigo uma pasta grossa de anotações, dessas pastas de cartão que os arquivistas chamam de capa-dura, e um cansaço nos olhos, um cansaço que não era o do corpo, ainda que o corpo também estivesse cansado, mas o da alma, se me é permitido usar esta palavra que a minha formação me ensinou a evitar, um cansaço que só quem já mergulhou fundo demais num tema, e a ele se agarrou como o náufrago se agarra à tábua, sabendo que a tábua pode não chegar para o manter à tona, consegue disfarçar mal, e mesmo assim só por pouco tempo, porque os olhos, mais cedo ou mais tarde, acabam sempre por trair o que a boca se esforça por calar. Procurou-me depois de já ter reunido uma série considerável de depoimentos com familiares dos autoaniquilados, palavra que ela preferia, em lugar de suicidas, não por escrúpulo eufemístico, que isso seria fazer pouco da sua inteligência, mas por lhe parecer que suicida diz menos do que aquilo que realmente sucede, como se a língua, ao nomear o ato, já o estivesse a diminuir, ansiosa por colher, junto a mim, informações adicionais sobre aquilo que ela e os seus interlocutores chamavam, com uma reverência quase supersticiosa, de Grande Mão, designação sobre cuja origem nunca chegámos a ter a certeza, se proviria de um gesto que empurra, daqueles que não admitem retorno, ou de um gesto que escreve, como se o destino fosse um texto que alguém redige em nosso nome, ou de um gesto que simplesmente se fecha, como uma porta que se encosta sem ruído, mas que todos pronunciavam baixando a voz, do mesmo modo que em certas aldeias ainda se baixa a voz ao nomear a serpente, não vá o nome atraí-la. Recordo-me de a ter recebido com a curiosidade cautelosa de quem pressente, ou melhor, de quem já sabe por instinto alimentado em anos de balcão e arquivo, que uma pergunta simples, das que parecem não querer nada senão uma confirmação ou um dado objetivo, pode abrir um abismo insuspeitado, daqueles que se abrem debaixo dos pés sem aviso prévio, e foi exatamente isso o que aconteceu, embora nenhum de nós dois pudesse, naquele primeiro encontro, medir a extensão do que estava por vir, como não se pode medir o comprimento de uma corda que se vai desenrolando à medida que a puxamos e que não tem fim, ou que tem um fim que nunca chegamos a ver.

Nas semanas que se seguiram, e que foram muitas, e que, olhando para trás, me parecem agora ter durado mais do que os dias que o calendário lhes atribui, acompanhei de perto, primeiro com a curiosidade de quem espreita por cima de um ombro, depois com um interesse que se foi tornando, sem que eu desse por isso, em envolvimento pessoal, o processo de sistematização dos relatos que ela compilava, um trabalho de ourivesaria paciente que consistia em ler e reler as transcrições, sublinhar palavras-chave, agrupar recorrências, descartar o que era acidental e reter o que era padrão, e notei, primeiro com surpresa, depois com uma inquietação que se instalou no meu espírito como uma névoa que não acaba de dissipar-se, uma inflexão inesperada, uma daquelas viragens que o material impõe ao investigador quase à sua revelia, como se o investigador não fosse mais do que o amanuense de um texto que já existia antes de ele chegar, um texto que só esperava que alguém se desse ao trabalho de o passar a limpo. Em vez do histórico de vida do autoaniquilado, que fora, originalmente, o eixo norteador da sua investigação, o fio condutor que ela imaginava seguir até alguma espécie de causa, de origem, de explicação psicológica ou social, daquelas explicações que, quando finalmente as encontramos, nos dão a ilusão de que compreendemos alguma coisa, os depoimentos insistiam em outra coisa, insistiam com uma força que não era a da argumentação lógica mas a da repetição quase lituânica, como se os familiares entrevistados tivessem um roteiro próprio, alheio às perguntas que lhes eram feitas, e não se desviassem dele por nada deste mundo, nem sequer quando a entrevistadora, com a habilidade de quem sabe conduzir uma conversa, tentava delicadamente trazê-los de volta ao que supostamente interessava. Os familiares descreviam, com uma minúcia que beirava o obsessivo, e que a mim, confesso-o sem orgulho, me causava um incómodo difícil de localizar, talvez por ser um incómodo que não provinha da piedade, que seria o sentimento esperável, mas do excesso de pormenor, como se a profusão de detalhes tivesse qualquer coisa de obsceno, as cenas do autoaniquilamento, os detalhes do ato consumado, a posição exata do corpo depois do impacto, a cor da camisa, a marca dos sapatos, se estavam atados ou desatados, os locais precisos onde se davam as gravações, a engenhosidade, por vezes rudimentar, feita de improviso e materiais domésticos, cordas de estendal, tripés fabricados com canos de ferro e abraçadeiras de plástico, por vezes surpreendentemente sofisticada, quase profissional, com câmaras de alta definição e sistemas de transmissão em contínuo que qualquer canal de televisão não se importaria de usar, e, sobretudo, a reação dos espectadores diante daquilo que assistiam, fossem eles multidões reunidas ao vivo no local do acontecimento ou públicos dispersos diante de telas que faiscavam na penumbra de quartos anónimos, espectadores esses que, diga-se de passagem, raramente eram descritos como horrorizados, mas antes como fascinados, como se o horror e o fascínio fossem, no fundo, duas faces da mesma moeda. O histórico biográfico, antes central, aquilo que deveria ser o coração do estudo, a infância, a adolescência, os amores contrariados, as dívidas, as doenças, os sonhos por realizar, esvaía-se para as margens do discurso, tornava-se resíduo, nota de rodapé de um fenómeno que se revelava, cada vez mais, coreografado, ensaiado, quase teatral na sua conceção, e não era raro que um familiar, depois de descrever com abundância de pormenores a textura do tecido que o filho usava no momento do salto, não soubesse dizer, se lhe perguntassem com a necessária delicadeza, em que ano o filho havia concluído os estudos, ou se alguma vez tinha estado apaixonado.

Confesso, e faço-o aqui com a franqueza de quem já não tem nada a perder, que partilhei da perplexidade de Érica diante dessa dimensão inaudita, pois até então acreditávamos, ela por ofício, eu por formação, ambos por um certo senso comum que nunca havíamos questionado, e que, como quase todo o senso comum, é feito mais de preguiça mental do que de certezas, que o autoaniquilamento fosse gesto de foro estritamente íntimo, encerrado na opacidade da subjetividade de quem o praticava, um ato que se consumava, na melhor das hipóteses, entre quatro paredes e o silêncio de um bilhete deixado sobre a mesa da cozinha, e eis que agora os dados, essas pequenas coisas teimosas que não se deixam subornar pelas nossas teorias, nos diziam precisamente o contrário, ou, pelo menos, nos obrigavam a olhar para o contrário com a seriedade que ele merecia. Diante disso, instalou-se um impasse fecundo, dessas encruzilhadas que uma pesquisa séria não pode simplesmente contornar, sob pena de se tornar ela própria uma forma de fingimento, um daqueles estudos que só confirmam o que já se sabia antes de começar e que, portanto, não servem para nada. Ela buscava, seguindo as diretrizes costumeiras do campo da saúde, com os seus protocolos, as suas escalas de risco, os seus históricos clínicos, uma explicação ancorada no universo interior do sujeito, como se o sujeito fosse uma casa sem janelas, recebia, entretanto, dos familiares entrevistados, um convite insistente, quase uma exigência, para que observássemos o externo, o que estava fora, ao redor, à vista de todos, exposto sem pudor às ruas e às câmaras, como se a vida interior, essa que a psicologia tanto preza, não passasse, no fim de contas, de uma sala de espera onde nada de verdadeiramente importante acontece. Essa exterioridade que se anunciava, e que a cada novo depoimento se tornava mais difícil de ignorar, sugeria uma articulação inteiramente estranha ao vocabulário da saúde pública, e também ao vocabulário do senso comum atrás referido, cenas, imagens, composição de cenário, script, plateia, espectadores, um léxico emprestado do teatro, do cinema, da produção de espetáculos, que aproximava o autoaniquilamento, de modo tão perturbador quanto insofismável, muito mais de uma produção cultural, com as suas regras, os seus códigos, as suas convenções, do que de um problema clínico ou epidemiológico, como se, no fim de contas, a doença não fosse o que levava à morte, mas a morte o que se exibia como espetáculo, e o espetáculo, por sua vez, tivesse as suas próprias leis, que não são as da medicina nem as da moral.

A partir dessas primeiras fissuras no edifício teórico original, fissuras que, como as das paredes velhas, a princípio se disfarçam com uma demão de tinta mas depois se alastram e comprometem toda a estrutura, Érica passou a elaborar, com crescente rigor e não sem hesitações, daquelas hesitações que são o sal da inteligência, uma constelação de hipóteses que discutíamos longamente, muitas vezes até tarde, sobre uma mesa entulhada de transcrições, hipóteses que, à semelhança do que sucede com as estrelas no céu de inverno, só ganhavam sentido quando postas em relação umas com as outras, formando figuras que não estavam em nenhuma delas isoladamente, o autoaniquilamento como espetáculo puro e simples, desprovido de outra intenção que não fosse a de ser visto, o autoaniquilamento estetizado, trabalhado como obra que reclama composição, iluminação, acabamento, como se o corpo que se lança do viaduto fosse, ao mesmo tempo, o pincel e a tela, o autoaniquilamento como forma de comunicação, dirigida a um destinatário nem sempre explícito, por vezes a cidade inteira, por vezes uma única pessoa ausente, por vezes ninguém em particular, o que tornava a comunicação ainda mais enigmática, o autoaniquilamento como contraponto, quase insurgente, ao estilo de morte que o Ocidente burocratizou, higienizou e enclausurou em hospitais e funerárias ao longo dos séculos, esse Ocidente que, tendo empurrado a morte para trás dos biombos, finge depois que ela não existe e se surpreende quando ela volta a irromper, nua e crua, no meio do viaduto, como um convidado que não foi chamado mas que insiste em sentar-se à mesa. Cada uma dessas hipóteses germinava, por sua vez, uma ramificação de indagações que enriqueciam, e complicavam, e por vezes ameaçavam paralisar, o problema original, como um rio que se divide em tantos braços que já não se sabe qual deles é o curso principal, nem se algum deles chegará alguma vez ao mar, espetáculo produzido para quem, afinal, que elementos e objetos entravam na composição estética desses atos, roupas, adereços, escolha do local, hora do dia, condições de luz natural ou artificial, trilha sonora improvisada ou meticulosamente selecionada, qual a influência da cultura urbana, com as suas texturas, os seus ritmos particulares, os seus pontos de referência simbólicos, na elaboração desses suicídios, a quem, precisamente, se dirigia o autoaniquilamento quando se fazia comunicação, à família, à cidade, a um sistema inteiro de valores que se pretendia denunciar, à posteridade, a Deus, e que diálogo, silencioso, cifrado, mas persistente e quase obstinado, travava ele com a metrópole e com as demais formas de morte que a habitam, do acidente de trânsito ao homicídio, da doença prolongada à velhice que se apaga devagar, como uma vela que já não tem pavio.

 Acompanhei Érica em boa parte desse levantamento, primeiro por dever de ofício, depois por uma curiosidade que se foi transformando, sem que eu desse por isso, em cumplicidade intelectual, sentado ao seu lado enquanto ela sublinhava trechos com uma régua de metal e rabiscava esquemas nas margens de cadernos de argolas, e testemunhei como a sua pesquisa foi, pouco a pouco, tecendo relações com a subjetividade das cidades, com a história da construção das metrópoles, com as questões estéticas que atravessam a cultura urbana desde os primeiros tratados de urbanismo, esses que pretendiam desenhar a cidade ideal e acabaram por construir a cidade possível, até à produção contemporânea de imagens, essa mesma produção que, diga-se de passagem, também ela não é alheia à espetacularização de quase tudo, desde a refeição que se fotografa antes de comer até à guerra que se transmite em direto. Autores da sociologia, da antropologia urbana, da história das mentalidades e do urbanismo passaram a compor a sua bibliografia, empilhados sobre a mesa em pilhas instáveis que ameaçavam desabar a cada novo livro acrescentado, oferecendo-lhe elementos fundamentais para sustentar, com solidez cada vez maior, a hipótese do autoaniquilamento como espetáculo, e recordo-me de tardes inteiras dedicadas a discutir um único parágrafo, uma única citação, uma única ideia, na tentativa de encontrar a formulação exata que desse conta da complexidade do que ela observava, como quem procura a chave que há de abrir uma porta que se suspeita existir mas cuja fechadura ainda se não encontrou, ou como quem tenta descrever uma paisagem que muda à medida que a luz do sol se desloca.

 

Foi desse cruzamento, dessa interseção entre a pesquisa de campo inicial, que apontava insistentemente para as cenas, os cenários e os espectadores, como o ponteiro de uma bússola que encontra o seu norte magnético, e o ponto de convergência das referências teóricas, unidas em torno da questão urbana como formigas em torno de uma migalha, que Érica fixou, definitivamente, o eixo da sua investigação, a saber, o autoaniquilamento como espetáculo na metrópole. Essa articulação não surgiu por acaso ou por escolha arbitrária, dessas que se fazem quando a vontade do investigador se sobrepõe à evidência dos dados, impôs-se-lhe, assim como a água se impõe ao declive, pela reiteração obstinada de informações vindas de campos distintos, todas elas relacionando o autoaniquilamento às cidades, à cultura urbana, ao processo de urbanização e metropolização, às subjetividades ali forjadas sob pressão constante do betão, do ruído, da multidão anónima, essa multidão que é, ao mesmo tempo, a maior solidão que se pode conceber. Assim, a sua proposta amadureceu, ganhou contornos mais nítidos a cada nova leitura, a cada novo depoimento, a cada nova conversa que tínhamos até que a luz da manhã começava a infiltrar-se pelas frinchas da persiana, construir uma nova perspetiva sobre o autoaniquilamento, relacionando-o à cidade de Santa Cruz do Calvário através de suas cenas, de seus cenários, de seus espectadores, e, por meio desse percurso, analisar a subjetividade que se constrói na tensão entre dois polos que se repelem e se atraem, o espetáculo do autoaniquilamento e a metrópole que o abriga, o testemunha e, de certo modo, o autoriza.

Dentro desse conjunto, tornou-se mais produtivo, do ponto de vista metodológico, priorizar os suicídios públicos, isto é, aqueles consumados nos espaços externos, ruas, viadutos, praças, avenidas, estações de metropolitano, linhas férreas, marquises de prédios altos, precisamente porque são esses, e não os que ocorrem na privacidade de um quarto fechado, que dialogam com a metrópole e a interrogam, fazendo dela o seu alvo privilegiado de comunicação, a sua plateia cativa e involuntária, uma plateia que não pagou bilhete mas que também não pode, em consciência, abandonar a sala, porque o espetáculo começa sem aviso e termina antes que alguém tenha tempo de desviar o rosto. Foi necessário, também, e este foi um dos aspetos que mais demoradamente discutimos, situar o autoaniquilamento dentro dos comportamentos padronizados que a nossa cultura reserva à morte contemporânea, a morte higienizada, adiada, medicalizada, escondida atrás de biombos hospitalares, uma morte que já não se vê, que já não se ouve, que já não se cheira, uma morte que foi expulsa do convívio dos vivos como se fosse uma visita incómoda, comportamentos que o autoaniquilamento público, aparentemente, subverte com uma obstinação silenciosa e, ao mesmo tempo, estrondosamente pública, e que, ao subvertê-los, acaba por revelar, como uma lanterna acesa num quarto escuro, o incómodo profundo que a morte natural, a morte administrada, a morte que chega de mansinho, procura a todo o custo esconder, a saber, que a morte, por mais que a disfarcem, continua a ser o destino comum de todos os que estão vivos.

Lembro-me, com particular nitidez, daquelas coisas que o tempo, em vez de apagar, torna mais vivas, de uma passagem das anotações de Érica que me marcou profundamente, lida em voz alta numa daquelas tardes de trabalho conjunto em que o silêncio do departamento, já de si considerável, parecia adensar-se à medida que as palavras ganhavam corpo no ar, a observação, colhida não sei em que livro, de que a verdadeira criatura metropolitana é justamente aquela que atravessa a ponte, migrando incessantemente do velho para o novo, e vice-versa, num movimento pendular que jamais se completa, que nunca chega a um destino final, apenas repete a travessia, como um pêndulo que oscila entre dois extremos sem nunca se deter no meio. Ocorre, no entanto, como sucede em tantas outras pontes de tantas outras metrópoles espalhadas pelo mundo, que a altura recém-conquistada, essa elevação que separa o viaduto do chão, é capaz de suscitar vertigens, tendências ao autoaniquilamento de difícil contenção, que se inscrevem integralmente na ambígua condição de quem habita a metrópole, dividido entre o fascínio da elevação e o chamamento do abismo, e há que reconhecer que o abismo, quando se debruça sobre ele uma ponte, adquire uma eloquência que a planície jamais terá, como se a altura lhe desse uma voz que o rés-do-chão lhe nega. Por isso mesmo, talvez o mais eloquente cumprimento já dirigido a um viaduto tenha sido o bilhete que a polícia encontrou no bolso das calças de um autoaniquilado sentimental, um bilhete escrito com letra trémula num pedaço de papel pautado, que Érica transcreveu com as mãos visivelmente trémulas na primeira vez em que o leu para mim, e que dizia assim, Bendito sejas, Viaduto de Santa Cruz do Calvário, Sem ti eu não poderia passar desta para melhor, embalado pela brisa que te circunda, Adeus, Até para a eternidade és o passadiço de útil eficiência, palavras que, se as lermos com a atenção que merecem, transformam uma estrutura de betão e aço numa espécie de entidade benfazeja, quase um santo laico a quem se agradece o favor concedido.

Érica interpretava essa metáfora da passagem no seu sentido mais pleno, e discutimo-lo por horas a fio, esquecidos da fome, do cansaço, do relógio que avançava implacável, o viaduto, dizia ela, não se limita a unir a margem direita à esquerda, o velho ao novo, o bairro operário ao bairro nobre, essas dicotomias que os urbanistas tanto apreciam, ele une, sobretudo, o efémero ao eterno, o lugar do sofrimento terrestre àquilo que se supõe ser o além, um além imaginado como felicidade perene, selado pela última carícia do vento, quase uma bênção laica concedida por uma estrutura de betão e aço que nenhum sacerdote se lembraria de abençoar, e é de notar, como ela fazia notar com a sua inteligência percuciente, que a gratidão do autoaniquilado não ia para um ente divino, mas para o viaduto, o que mostra, de maneira eloquente, como a cidade, quando se oferece como palco, se torna também destinatário de preces, de súplicas, de agradecimentos, como se o betão tivesse substituído o altar. Ela observava, com a acuidade de quem já não distinguia mais, ou já não queria distinguir, os limites entre pesquisa e testemunho, entre o rigor académico e algo que se aproximava perigosamente do envolvimento pessoal, que as cenas do autoaniquilamento, elaboradas como espetáculo, nascem do próprio material que a cidade oferece, os seus viadutos, as suas torres, os seus carris, as suas multidões apressadas que passam sem ver, para depois serem representadas de volta àquela mesma cidade que ajudou a construí-las, num circuito fechado de produção e receção que se retroalimenta indefinidamente, como uma cobra que morde a própria cauda. A cidade, na sua totalidade difusa e anónima, converte-se assim no grande espectador do espetáculo suicida, uma plateia que nunca comprou ingresso, que nunca foi consultada sobre a sua vontade de assistir, mas que também nunca consegue, de facto, desviar o olhar, porque o espetáculo, uma vez começado, exige ser visto até ao fim, e o fim é sempre o mesmo.

Constitui-se, dessa maneira, um diálogo permanente, ainda que nem sempre perceptível para quem passa apressado, entre o espetáculo e a metrópole, cenas que interrogam a cidade, que produzem um corte abrupto no seu quotidiano apressado, que interrompem o seu fluxo temporal por alguns minutos, algumas horas, o tempo de o corpo ser removido e o trânsito reaberto, antes que a rotina engula o acontecimento e o reduza a uma notícia de jornal que ninguém lerá no dia seguinte, cenas que redimensionam lugares, uma esquina qualquer, um viaduto anónimo, uma plataforma de metropolitano, atribuindo-lhes uma significação inteiramente estranha à original, transformando-os, ainda que temporariamente, em palco, e que, por fim, questionam o lugar que a morte ocupa, ou deveria ocupar, na arquitetura simbólica da nossa cultura, uma cultura que prefere mantê-la discreta, adiada, invisível, trancada a sete chaves, e que se vê, de repente, obrigada a encará-la de frente, em praça pública, sob os olhares de quem passava e não esperava por aquilo, e que, depois de ver, já não pode fingir que não viu, porque as imagens, uma vez entradas na cabeça, não se apagam com a facilidade com que se apaga um quadro negro.

Ao final daqueles meses de trabalho conjunto, meses que me pareceram, ao mesmo tempo, longos como uma vida inteira e breves como um suspiro, quando Érica finalmente reuniu as suas anotações num corpo coerente de reflexões, um volume espesso que ela mandou encadernar com uma capa preta e letras douradas, percebi que eu próprio, que entrara naquela história como um mero funcionário encarregado de fornecer dados, já não conseguia mais olhar para os viadutos da cidade da mesma forma, e também já não conseguia ouvir a palavra viaduto sem que ela me trouxesse, como um eco longínquo que o vento transporta, a ideia de passagem que é ao mesmo tempo palco, de estrutura que serve para unir e para precipitar. Cada estrutura suspensa sobre a avenida, cada passarela de peões, cada plataforma elevada de metropolitano passou a carregar, aos meus olhos, essa dupla natureza que a pesquisa dela havia revelado, passagem funcional e, ao mesmo tempo, palco latente, potencial cenário de um espetáculo que a cidade, sem jamais o admitir abertamente, também ajuda a produzir e sustentar, como se, no fundo, no seu âmago mais secreto, a cidade precisasse desses espetáculos para se lembrar de que está viva, e de que a morte, apesar de todos os biombos, de todas as higienes, de todos os adiamentos, continua a ser o seu mais fiel habitante, a única coisa que ninguém, por mais que se esforce, conseguirá jamais expulsar.


Edson Moura em 12 de abril de 2014


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