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Viva, paciente, à espera do seu momento. Dobram-se as contas, sim, dobram-se as pessoas, dobram-se as vidas ao meio, em quatro, em oito, em potências sucessivas de uma humilhação discreta, até caberem no espaço ínfimo que lhes foi concedido, e depois, um dia, já não se sabe desdobrar, já se perdeu o vinco original, a marca de fábrica, a primeira culpa, aquela que nos foi impressa na pele sem consulta nem anestesia. Resta-nos o gesto mecânico de dobrar e redobrar, como quem dobra um lençol gasto, como quem dobra uma carta que já não relê, como quem dobra o corpo para entrar num automóvel baixo demais para a sua própria dignidade. A noite recebeu-me com uma indiferença quase terna, dessas que por instantes se confundem com uma forma elementar de respeito. Caminhei sem destino, ou antes, com o destino único de quem não quer chegar à parte alguma, de quem se demora na travessia como se a travessia fosse a única pátria que lhe resta. Os candeeiros públicos pingavam uma luz alaranjada, espessa, quase oleosa, que lambia os passeios com uma lentidão de mel e dava às coisas, às esquinas, aos caixotes do lixo, aos automóveis adormecidos, um verniz baço de irrealidade. Tudo parecia montado às pressas para uma peça de teatro menor, uma farsa sem ensaios, uma tragicomédia de província cujo texto alguém perdera nos bastidores. E eu, figurante distraído, esquecera-me das deixas, das marcações de cena, do momento exato em que deveria entrar ou sair. As ruas iam-se sucedendo umas às outras com uma lógica frouxa, de sonolência, e eu deixava-me levar por elas sem oferecer resistência, como quem se entrega à corrente morna de um rio que não sabe se vai dar ao mar ou a um pântano. De passagem, os meus olhos roçavam as montras apagadas, os letreiros que soletravam promessas de ofertas que já ninguém queria, os gatos que se insinuavam por entre as grades das sarjetas com uma elegância furtiva e anarquista. Havia na atmosfera um cheiro misturado, lixívia doméstica, gordura arrefecida, jasmim de jardim escondido, que me trazia à memória, sem aviso prévio, o corredor das traseiras da casa da minha avó, onde as coisas findavam e começavam ao mesmo tempo. Fiquei ali, no meio do passeio irregular, a imaginar se não seria essa a raiz secreta de todos os males do mundo: esperar que alguém, alguma coisa, algum acaso benfazejo, nos parta o que nos foi dado inteiro e hermético. As pessoas andam por aí, aos milhares, aos milhões, de noz apertada na mão, ano após ano, década após década, à espera do quebra-nozes redentor que nunca chega, que se atrasou no trânsito, que se enganou na morada. E, entretanto, fumam, bebem bagaço, calam-se ou discursam em voz alta nos restaurantes de preços médios, dobram-se em quatro, em oito, em dezesseis, até que a casca rugosa se confunde irremediavelmente com a polpa amarga e já não há miolo que resista, que se salve, que possa ser oferecido como prova de que dentro de nós ainda habita qualquer coisa de tenro e de nutritivo. A determinada altura, que horas seriam? as horas deixam de importar quando se perde a confiança nos ponteiros e no sol, dei comigo numa praceta esquecida, uma dessas que os urbanistas desenham por obrigação nos planos de ordenamento e que a cidade, ingrata e desmemoriada, abandona por instinto de sobrevivência. Havia um banco de jardim, vazio, pintado de um verde-escuro que a ferrugem corroía nas arestas, e havia uma árvore, uma árvore que não sabia se era plátano, e que também não parecia fazer a mínima questão de o saber, de se definir, de se catalogar. Sentei-me com o peso de quem já não precisa de fingir leveza. O ferro do banco mordeu-me as coxas através do tecido das calças, mas era uma mordedura quase bem-vinda, quase amiga, uma prova física, tangível, irrefutável, de que eu continuava a ter corpo, de que a noite, apesar dos seus talentos dissolventes, ainda não me convertera em fantasma. Acendi um cigarro, eu, que não fumo, que detesto fumar, que passei a vida inteira a fugir das parcas maléficas e dos seus isqueiros de afirmação barata, que sempre vi no tabaco uma rendição teatral à fraqueza e ao exibicionismo. Mas ali, naquela praceta mínima, naquela ilha de esquecimento urbano, pareceu-me de uma necessidade imperiosa este pequeno gesto de autodestruição controlada, esta chama minúscula que me queimava a ponta dos dedos e me fazia companhia no meio do silêncio. O fumo subiu, trémulo, espiralado, e desfez-se contra o céu baço, um céu de cidade que já se esqueceu de como se chama a Via Láctea, que já não sabe distinguir uma constelação de um anúncio luminoso. Tive pena do fumo. Tive pena de mim. Tive pena do plátano que talvez fosse as algarobas e que ninguém se dera ao trabalho de nomear. E depois passou-me, como passam todas as coisas que não se agarram com unhas e dentes, como passam as ondas de náusea, os arrepios de frio, as saudades incompreensíveis de lugares onde nunca estivemos. Fiquei ali, imóvel, a ver a brasa consumir o papel branco com uma lentidão metódica de relojoeiro. O silêncio da praceta era um silêncio de muitas camadas: havia o silêncio de baixo, o dos bichos escondidos na terra, o dos caracóis recolhidos nas suas espirais de calcário; havia o silêncio do meio, o das folhas que se recusavam a estremecer, o dos bancos vizinhos que permaneciam desocupados; e havia o silêncio de cima, o do céu sem pássaros, o das nuvens estacionárias, o dos aviões que riscavam o ar em altitudes inacessíveis, transportando pessoas que, vistas de baixo, mais não eram do que pressentimentos. Todos estes silêncios se sobrepunham, se interpenetravam, e no centro deles estava eu, com o meu cigarro aceso, a minha pergunta sobre as dobras das contas, e uma sensação difusa de que o mundo era uma maquinação intrincada cujo significado me escapava sempre no instante preciso em que eu julgava tê-lo capturado. Levantei-me. O banco rangeu, um rangido seco, breve, que soou como um agradecimento ou como uma censura, não sei bem. A praceta continuou a ser praceta, a árvore continuou a não se decidir entre ser plátano e ser algaroba, e eu continuei a ser eu, que é a única tragédia da qual não me posso demitir, o único papel que não posso recusar, por mais que me esforce, por mais que me ensaie em outras personagens. Meti as mãos nos bolsos e apalpei, com os dedos ainda frios, as moedas que me sobravam do jantar, as chaves de casa com o seu tilintar de animal doméstico, um papel dobrado, sempre a dobrar, sempre está mania de dobrar, com um recado que já não sei de quem é nem para que servia, nem se alguma vez serviu. Tudo restos. Tudo vestígios. Tudo fragmentos de um naufrágio que ainda não aconteceu, mas que já se anuncia nas pequenas coisas, nas insignificâncias, nas navalhas que as manhãs trazem, nos bagaços que as mulheres fumam em restaurantes de decoração extravagante, na maneira como as pessoas se dobram sobre si mesmas até desaparecerem por dentro. Antes de regressar, fiquei ainda um instante a olhar para a praceta como quem olha para uma fotografia antiga onde não se reconhece inteiramente, mas onde adivinha os contornos da sua própria ausência. E pensei, sem o pensar verdadeiramente, que talvez um dia alguém se sentasse naquele mesmo banco, debaixo daquela mesma árvore indecisa, e sentisse, por um breve segundo a mesma coisa inominável que eu estava a sentir, uma espécie de orfandade metafísica, uma saudade sem objeto, uma vontade de chorar que não chega a ser vontade, que fica apenas como uma possibilidade remota, uma porta entreaberta para dentro de si mesmo. E que, nesse preciso momento, sem o saber, eu estaria menos só. Não salvo, nunca salvo, isso já não é para mim, mas acompanhado na derrota, irmanado na fragilidade, na condição de tartaruga voltada de barriga ao ar, de peixe largado em seco, de cobra de espinha partida, de porco à mercê da castração. Depois virei costas, devagar, como quem se despede de um lugar que não lhe pertence, mas que, por instantes, o acolheu. E segui rente aos prédios, que é o meu modo de regressar, o meu modo de me tornar invisível, o meu modo de pisar os últimos lixos da noite sem perturbar a ordem precária das coisas. Ao longe, ouvia-se ainda, se eu aguçasse bem os ouvidos, o rumor abafado das três mulheres e dos seus isqueiros, o eco das suas baforadas triunfais, o estalido dos seus dedos ao segurarem os cigarros como quem segura um cetro. E eu, que também me havia dobrado tantas vezes, continuei a caminhar para casa com a pergunta a latejar na nuca, essa pergunta que é já, nela mesma, uma forma de resposta: por que ainda não esqueci aquele lugar, a região, a cidade, Pilar, Jaguarari, chama-se o município, Sertão, o lugar.
Edson Moura, em 07 de maio de 2008


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