O cárcere (romace)

 

I


      A clínica ficava no segundo andar dum edifício de esquina, parte de uma partilha entre herdeiros que na disputada com seus irmãos era essa, no conjunto do inventário, o imóvel menos atraente para venda ou locação, defronte à praça matriz. Da janela, Eloisa observava os velhos sentados nos bancos, pássaros disputando migalhas, as trajetórias equacionadas dos transeuntes que movia num valsar desconjuntado palas calçadas, cada direcionado por alguma obrigação cotidiana que lhes foram atribuídas. Eloisa gostava de vagar os olhos nas cenas que se formavam seguindo o rumo das casualidades, pensava, alguns nessa multidão esteja experimentando um péssimo momento, outros desfrutam de uma satisfação passageira, haviam aquele cujo dia será previsível e entediante, outras se percebia asperezas das fatalidades, alguém foi gentilmente ajudado, outros assaltados, existiam os constantes acidentes de trânsito de imediata solução ou os trágicos contornos de corpos estirados nas calçadas, missionários de alguma igreja distribuindo panfletos com salmos, funcionários anunciando promoções. Eloisa escolheu entes pontos estratégico porque lhe dava a sensação de estar no centro de algo, de ser o eixo à volta do qual o pequeno mundo de Santa Cruz do Calvário girava. Os pacientes, ao entrarem na sala de espera de paredes cor de marfim, respiravam um ar de competência tão denso que quase se podia tocar. Os diplomas na parede, emoldurados com filigramas ouro, funcionavam como relicários duma fé que ela própria, nos breves espasmos em algum pensamento intrusivo irrompia num conformar de frustração. Embora jamais o confessasse, nem ao espelho, nem a si mesma, nem as aos espaços vazios que a cercavam, nunca desfrutou de qualquer plenitude afetiva. Inflou seu peito aspirando o ar por alguns segundos expulsando de volta através das narinas o ar agora aquecido pelos pulmões até comprimir seu abdômen, afligida por uma sensação ocada que, sem saber ao certo os motivos, fizeram despretensiosas lágrimas escorrerem nos cantos dos olhos. Na brevidade dum instante, com os pensamentos esmorecidos ao observar os pequenos feixes de luz solar que vazavam através da janela e desenhavam círculos amarela e brilhantes na superfície do azulejo do piso, perdendo-se num hipnótico momento em que costumava devagar pelos elementos que compunham seu escritório. Compartilhava diariamente da presença dos moveis, prateleiras e estantes, ajustava o posicionamento do monitor do computador, o notebook sempre aberto, recebendo avisos de Email, esfregava os espanado de penas na superfície do birô mergulhada na automação do habito de limpar a poeira que não existia, reajustando o ordem das pastas com históricos clínico dos seus pacientes, os que estavam agendados para o dia, aqueles que viriam nos dias subsequentes e aqueles que por alguma desventura da casualidade não viriam nos dias agendados, remarcando a consulta outra data, haviam também os que possivelmente tenham desistido das sessões de terapia, seja lá quais forem as motivações inocuidade que muitas vezes não eram justificadas   

          Completara dez anos de carreira numa terça-feira de outono, quando as folhas secas se pousavam os paralelepípedos como mãos de afogados. As redes sociais incendiaram-se de felicitações. Colegas, antigos clientes, vizinhos, conhecidos de conhecidos, todos acorreram ao altar digital para depositar as suas oferendas de palavras bonitas. Parabéns, doutora! Você é uma inspiração! Santa Cruz tem orgulho de você! Eloisa respondeu a cada mensagem com um coração vermelho, um sorriso emoji, uma variação de obrigada, querido, você é muito gentil. Mas enquanto o polegar deslizava pelo ecrã do celular para retribuir as gentilezas das mensagens, seu marido, que estava ao seu lado fingindo que não a via, ou dissimulando não se importar tanto com o que se passava, movendo as páginas de sites de compra online, de baixo para cima e de cima para baixo,  procurando algum produto que lhe proporcionasse satisfação, na sua maioria vídeo jogos, quais lançamentos, quais aqueles que estariam a serem laçados, baixava imagens de personagens de mangas e animes sensualizadas, sites pornográficos para salvar links de cenas que pudessem ser usadas em suas masturbações ocultadas, pois perdera a atração pelo aspecto físico de Eloisa desde o dia que em que seu segundo filho, Rafael, veio ao mundo. Concomitante a esse fato, Eloisa era invadia pelo pensamento, que a perseguia nos últimos meses, de que Henrique evitava ter relações com ela, não a procurava, não fodia mais como nos primeiros encontros quando, na mesma foda que a fez perder a virgindade, também a fez engravidar da primeira filha, Clarice, tão sedentos estavam, Henrique pela trepada, alivio orgânico, satisfazer vaidade pura e simples, quanto a Eloisa, num gesto de rebeldia e vingança, para romper as cláusulas morais impostas pelos pais de só transar com alguém sob o véu dos ritos matrimoniais, religiosos ou contratações em cartório.

         Banheiro gélido e silencioso, o vento da manhã penetrava através do basculante aberto, sua armação quadriculada em cantoneiras de alumínio fatiando um retângulo em seis partes. Passou em vista os frascos de perfume cuidadosamente alinhados sobre a prateleira, os mais suaves para ocasiões cuja eventual formalidade exigiria, fragrância mais encorpadas distribuídos ao fundo. Questionou sobre qual tom da máscara facial que iria usar. Outros utensílios para higiene dispostos em localizações estratégicas de imediato alcancem quando necessários, outros cuidadosamente distribuídos sobre as superfícies das prateleiras e armários do banheiro. Se recusava a usar batom, desde pequena se nega a cultiva esse hábito, sua vaidade abrandada pela discrição rejeitava este, percebia como extravagância. Fixava-se na própria imagem sem verdadeiramente vê-la, prestando mais atenção no desregular ajuste do calendário que estava atrás, o rosto que lhe era devolvido pelo espelho nunca lhe constituía uma novidade, entediava-se com esse ritual de todas as manhãs. Foi arremetida pela lembrança, algumas frustrações antigas, contas a serem pagas, lista de pacientes para o dia, possíveis adversões. Divagou no seu reflexo tomada primeiro por uma discreta insatisfação com o que não sabia descrever, uma ligeira contração sob as costelas, depois uma náusea discreta, em seguida aquele sentimento indefinível como sopro opaco que vinha antes das algumas recordações. Uma Natureza Ruim, era como Eloisa nomeava. Escondido dentro da gaveta com utensílios que quase nunca usava, lá no fuma, repousava um recipiente préstito, contendo um cilíndrico, medindo quinze centímetros, brotando saliências esféricas e côncavas que percorriam toda a extensão, um botão emborrachado que ao pressiona-lo sonorizava um zumbido vibratório seguido de um movimento sinuoso e continuo, podendo ser ajustado a velocidade e intensidade mediante o pressionar e afrouxar do botão. Era fato consumado que o instrumento guardado com relevante zelo, proporcionava mais empolgação libidinal, languidez ao ser manuseado, do que o pau de Henrique. As caricia que o instrumento proporciona podia facilmente ser comparada a todos os homens fetichizados em seus solitários instante de lascivo gozo. Mas é certo que dentre todas as mordaças que cultivou no decorrer de sua existência, Eloisa sempre escondeu de Henrique que, seu hedonismo era praticado as escondidas, sob os olhos atentos dos alertas que lhe soavam na memória. Não lhe passa pelo juízo revelar para seu marido que os objetos proporcionavam mais cálido e maior prazer em afagos genitais do que a gélida presença de Henrique. 

"Cárcere" - Edson Moura em 25.04.2018

                    

     Seu pai. Lembrou de sua voz, memórias não se apagam, a voz do Dr. Netto Aragão, dentista respeitado, homem admirado, frequentador dos ambientes onde, os sobrenomes costumam valer quase tanto quanto os patrimônios, mas é fato consumado, e que seja posta na mesa das dialéticas, que seres e coisas não necessariamente habitam os mesmos sentidos. Este que passara a vida inteira convencido de que preparava a filha para uma determinada ideia de satisfatórias aventuranças. Você será doutora, dizia ele, e não havia naquela frase espaço para dúvidas ou alternativas, porque certas convicções, quando pronunciadas pelos pais, apresentam-se aos filhos com a autoridade das leis naturais, você será doutora, repetia, como quem afirma que o sol nascerá pela manhã ou que a chuva cairá das nuvens, e a menina escutava, primeiro sem compreender, depois compreendendo apenas o suficiente para perceber que o seu futuro já estava parcialmente ocupado por expectativas alheias. Vieram então as escolas, as melhores naturalmente, porque para o Dr. Netto Aragão qualquer outra possibilidade equivaleria a uma forma de negligência, vieram os professores particulares, os cursos complementares, as horas de estudo, os boletins examinados com atenção quase clínica, as recomendações constantes, as advertências discretas, e sobretudo a vigilância permanente sobre aquilo que ele chamava de distrações, porque sob ela não caberiam amizades, paixões, hesitações, curiosidades, experiências e praticamente tudo aquilo que torna a juventude suportável. Não se envolva com qualquer pessoa, dizia ele, escolha bem as companhias, preserve os seus objetivos, cuide do nome que carrega, e Eloisa obedecia, não porque fosse especialmente dócil, mas porque o amor, quando chega acompanhado de autoridade, costuma disfarçar-se com extraordinária competência, de tal modo que a obediência passa a parecer gratidão e a renúncia passa a parecer virtude.

    Eloisa percebeu que a náusea aumentava, uma sensação desagradável que subia lentamente pelo corpo e se alojava na garganta, e então recordou outra vez o pai sentado à mesa, a postura impecável, os gestos controlados, a confiança inabalável em tudo aquilo que ensinava, e pela primeira vez perguntou-se se ele alguma vez teria suspeitado do preço cobrado por aquelas expectativas, não o preço financeiro, porque esse fora pago com facilidade, mas o outro, aquele que se acumula silenciosamente dentro das pessoas até transformar-se em desânimo. Era estranho, pensou, porque havia conseguido tudo aquilo que lhe pediram, os diplomas encontravam-se pendurados na parede, os títulos antecediam o seu nome, o respeito profissional chegava-lhe diariamente através dos colegas, dos pacientes, dos conhecidos, e ainda assim havia manhãs como aquela, manhãs em que o simples ato de olhar para o próprio reflexo desencadeava uma consternação sem causa aparente, uma sensação de ausência, um vácuo comprimindo seu estômago. Pela postulação que lhe cabiam aos analisar alguns dos seus pacientes, tentava explicar para si algum, vezes quando o analisa a si próprio, numa tentativa de amenizar a desgarrada cognição que perdia-se no desalentado estado   Desígnios, uma vez alcançadas, revelam apenas o vazio que existia por trás delas, talvez porque ninguém possa viver durante décadas perseguindo expectativas sem acabar por perder alguma coisa de si próprio pelo caminho, talvez porque exista uma diferença entre construir uma carreira e construir uma vida, mas estas são apenas hipóteses, e as hipóteses raramente oferecem consolo. Terminou a maquiagem, fechou os frascos espalhados sobre a penteadeira e levantou-se, o dia aguardava, como aguardam todos os dias, indiferente às inquietações humanas, a náusea permanecia, o vazio também, e o espelho continuou preso à parede, silencioso, refletindo tudo, compreendendo nada. Lá fora, um dia de atividades, as terças-feiras são sempre movimentadas, e Vanessa continuava imóvel diante do espelho, uma criatura que parecia ter cumprido todas as promessas feitas em seu nome, que as cobranças do pai não haviam desaparecido com a morte dele, apenas mudaram de morada, abandonaram a voz que as pronunciava para instalar-se na consciência de quem as ouvira durante toda a vida.  Henrique Aragão costumava chegar ao banco antes que a cidade houvesse decidido abandonar por completo a penumbra. Havia naquela antecedência um ritual que jamais confessaria a ninguém, uma liturgia privada cuja finalidade ultrapassava em muito a pontualidade exigida pelo cargo. Enquanto as ruas permaneciam quase desertas e as vitrines refletiam apenas uma claridade opaca, caminhava em direção à agência com a solenidade de quem se encaminha para um julgamento cotidiano. O prédio, composto por um térreo e primeiro andar, ainda silencioso, e os seguranças, incapaz de distinguir seu nome do nome de qualquer outro homem que, décadas antes, também atravessara aquelas mesmas portas acreditando que o prestígio profissional pudesse conferir alguma espessura à própria existência. Henrique, entretanto, jamais percebera essa indiferença. Preferia interpretar a solidez da fachada, o brilho disciplinado dos vidros e a imponência do mármore como prolongamentos discretos de sua própria biografia, como se o edifício, de alguma maneira, testemunhasse silenciosamente a legitimidade de tudo aquilo que construíra desde a juventude. Parou diante da porta giratória apenas o tempo suficiente para ajustar o punho esquerdo da camisa. O movimento foi quase imperceptível, executado com uma precisão adquirida pela repetição exaustiva de milhares de manhãs idênticas. Em seguida, deslizou os dedos pela gravata, corrigindo um desalinhamento que provavelmente jamais existira. Não havia vaidade naquele gesto, tampouco qualquer satisfação estética. O espelho escurecido da fachada não lhe devolvia propriamente uma imagem; devolvia-lhe uma hipótese. Henrique examinava-se como quem procura sinais precoces de um desmoronamento cuja origem desconhecia, mas cuja possibilidade jamais deixava de pressentir. Bastava um vinco ligeiramente deslocado, uma olheira mais pronunciada, um cabelo rebelde, para que uma inquietação difusa se instalasse em seu pensamento com a persistência de uma febre silenciosa. Não receava envelhecer. Receava que o envelhecimento denunciasse algo muito anterior ao corpo, uma fadiga íntima que nenhum tecido bem cortado conseguiria ocultar.

      Desde muito cedo aprendera que um homem jamais comparece ao mundo apenas com o próprio corpo. Comparece revestido de sinais. O relógio, o automóvel, a firmeza do aperto de mão, a modulação da voz, a capacidade de sustentar o olhar sem hesitação, o domínio absoluto sobre qualquer conversa, mesmo quando desconhecia inteiramente o assunto. Nada disso lhe parecera estranho enquanto crescia. Seu pai jamais formulara tais princípios como ensinamentos; bastara existir. Havia homens cuja presença organizava silenciosamente o comportamento daqueles que os cercavam. Henrique pertencera durante anos à categoria dos que observavam. Aprendera que o respeito não era concedido; era conquistado por meio de uma disciplina quase militar aplicada aos próprios gestos. Aprendera também que qualquer fissura nessa disciplina produzia consequências irreparáveis. Um homem que hesitava, que admitia ignorância, que demonstrava tristeza ou simplesmente confessava não suportar o peso das próprias responsabilidades deixava de ocupar imediatamente o território reservado aos vencedores. Ninguém precisava dizê-lo. O silêncio masculino encarregava-se de transmitir a sentença com eficiência muito superior à das palavras. Atravessou o saguão ainda vazio. O ruído contido dos próprios sapatos sobre o piso polido parecia excessivamente nítido naquele ambiente sem vozes. Gostava daquela solidão provisória porque ela lhe concedia alguns minutos para reconstruir a personagem antes que surgissem os primeiros espectadores. Nunca utilizaria essa palavra. Diria, se questionado, que precisava organizar o expediente, revisar relatórios, antecipar demandas. Contudo, havia algo mais antigo e mais sombrio acontecendo todas as manhãs. Henrique precisava vestir a si mesmo. Não as roupas, já impecavelmente ajustadas ao corpo, mas a figura que sustentaria durante o restante do dia. A autoridade não lhe parecia uma qualidade espontânea. Exigia preparação. Exigia vigilância. Exigia uma sucessão interminável de pequenas correções invisíveis. A postura das costas. A velocidade dos passos. A contenção dos sorrisos. O momento exato de cumprimentar um subordinado. A quantidade precisa de cordialidade capaz de inspirar respeito sem permitir intimidade. Tudo era medido, calculado, recomposto incessantemente, como se sua identidade dependesse de um delicado mecanismo cuja menor desregulagem pudesse provocar um colapso irreversível.

       Sentou-se diante da mesa e permaneceu imóvel durante alguns instantes, observando a superfície perfeitamente limpa do mobiliário. O computador desligado, a agenda fechada, a caneta paralela à borda da mesa, cada objeto ocupando o lugar que lhe fora destinado muitos anos antes. Experimentou um alívio discreto diante daquela ordem. Os objetos possuíam uma honestidade que jamais encontrara nas pessoas. Permaneciam onde eram colocados. Não reinterpretavam gestos. Não modificavam expectativas. Não convertiam admiração em desprezo da noite para o dia. As pessoas, ao contrário, pareciam-lhe governadas por uma lógica instável, capaz de transformar décadas de competência numa irrelevância súbita produzida por um único equívoco. Bastava um erro. Bastava uma reunião malsucedida. Bastava uma resposta menos convincente. A reputação, pensava sem jamais formular o pensamento por inteiro, possuía a consistência frágil de um verniz submetido continuamente ao atrito.

      Quando o segurança atravessou o corredor e limitou-se a um cumprimento breve, quase mecânico, Henrique respondeu com a habitual polidez, mas permaneceu acompanhando mentalmente aquele gesto muito depois que o homem desaparecera atrás da porta de acesso aos caixas. Havia algo diferente. Talvez a inclinação da cabeça. Talvez a ausência do sorriso costumeiro. Talvez absolutamente nada. Ainda assim, sua memória passou a reconstituir obsessivamente aqueles poucos segundos, examinando-os sob perspectivas sucessivas, como se existisse ali um indício decisivo que sua percepção ainda não conseguira alcançar. Teria dito algo inconveniente na tarde anterior? Algum comentário chegara à diretoria? Alguém estaria descontente com sua gestão? A hipótese mais simples, a de que o segurança apenas estivesse cansado, revelou-se imediatamente insuficiente. Henrique jamais conseguia acreditar que a indiferença dos outros não dissesse respeito à sua própria pessoa. Existia nele uma convicção silenciosa, jamais verbalizada, segundo a qual toda alteração no comportamento alheio escondia inevitavelmente um julgamento sobre quem ele era. Esse tribunal invisível acompanhava-o desde a juventude. Não possuía rosto, tampouco regras explícitas. Manifestava-se nos intervalos das conversas, nos cumprimentos menos calorosos, nas pausas ligeiramente prolongadas antes de alguém responder a uma pergunta, nos olhares desviados durante reuniões, nas gargalhadas iniciadas alguns segundos antes de sua aproximação. Henrique jamais conseguia abandonar a suspeita de que existia sempre alguma avaliação acontecendo ao redor de sua presença. Por isso raramente relaxava os músculos do rosto, raramente ria com espontaneidade, raramente confessava ignorância ou dúvida. A naturalidade parecia-lhe um privilégio reservado àqueles que nunca precisaram justificar o próprio valor. Ele, ao contrário, vivia como quem equilibra um edifício inteiro sobre os ombros, consciente de que bastaria um instante de descuido para descobrir que a ruína não começaria nas paredes do banco, mas na arquitetura invisível sobre a qual edificara, durante toda a vida, a precária ilusão de ser um homem suficiente.

        Na sua comemoração dos dez anos com psicóloga, Eloisa presenteava a si trancando seu antigo carro por outro, novo, retirado da concessionária. Ainda sem desenvolvendo a prática ao manusear os recursos permeado de automatização, pois o antigo, presenteado pelo pai em recompensa pela conclusão do seu curso, já cumpriu seu papel. Eloisa liga a ignição do veículo, sentia as mãos no volante, firmes, seguras, dignas. A SUV prateada deslizava pelas ruas de paralelepípedo suavidade, e cada lombada, cada curva, cada pequena irregularidade do asfalto era absorvida pela sofisticada engenharia, os cálculos do designer, os caprichos mecânicos, o conforto aristocrático, as percepções de status, seus desígnios direcionados para quem pudesse desfrutara. Ela sorriu, sem motivos, apenas porque o sorriso lhe subiu aos lábios. À sua volta, Santa Cruz do Calvário acordava para a rotina de sempre. O padeiro varria a calçada, a professora primária apressava os dois filhos em direção ao colégio, Seu Alberto passeava o seu velho cão que já não enxergava direito. Eloisa não reparou em nenhum deles. O que lhe interessava era o reflexo do carro nas vitrines das lojas, a forma como o prateado brilhante capturava a luz da manhã e a devolvia em centelhas minúsculas, como se o veículo fosse um diamante bruto. Imaginou os olhares. Sim, admitiu para si mesma, na privacidade dourada do habitáculo, gostava de imaginar os olhares. A mulher na fila do ponto de ônibus, de uniforme azul e expressão cansada, o que pensaria ela ao ver a SUV prateada passar? Deve ser de um médico, gabava-se Eloisa observando seu próprio semblante no vidro espelhado do retrovisor. O rapaz do entregador de garrafões de água, estacionado na esquina com a moto carregada, esse, certamente, pensaria um dia eu chego lá. Eloisa sentiu um leve incómodo, um arranhão na consciência, mas passou o dedo sobre o estofo do banco, acariciando o couro como se acariciasse a própria pele, e o incómodo dissolveu-se.

 

                    

Próximo capítulo estará disponiveil sexta dia 26 do 06 de 2026  

                       

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