Quando perdeu a coordenação dos dedos, estava a ajustar as últimas placas de chumbo e manganês nos recipientes de fibra plastificada, trabalho que repetira tantas vezes ao longo dos anos que já não distinguia onde terminava o hábito e começava a vontade, e talvez por isso o incidente lhe tivesse parecido, num primeiro instante, menos um aviso do corpo do que uma distração qualquer, dessas que acontecem quando a atenção se afasta por um segundo e regressa logo a seguir. Porém a sensação não desapareceu. Uma dor aguda atravessou-lhe a cabeça, não propriamente uma dor, antes um repuxão obscuro que pareceu apertar-lhe os olhos por dentro. Fechou as pálpebras com força, apoiou ambas as mãos na bancada e aguardou. Viu riscos luminosos atravessarem-lhe a escuridão da vista, linhas vacilantes que se multiplicavam umas dentro das outras até transformarem o campo visual numa superfície branca e indistinta. Esperou. Os recipientes continuavam alinhados sobre a esteira, as ferramentas permaneciam nos lugares de sempre, os supervisores percorriam os corredores com a mesma expressão de quem vigia uma ordem que não lhes pertence. Ninguém reparou nele. E provavelmente ninguém repararia enquanto permanecesse de pé. Para que a atenção dos outros fosse despertada seria necessário algo mais visível, uma queda, um corpo estendido no cimento, uma convulsão suficientemente expressiva para interromper o fluxo da produção. Só então surgiriam os olhares, primeiro curiosos, depois alarmados, e finalmente aliviados ao perceberem que a tragédia escolhera outro homem. Respirou devagar. O estatuto de segurança da fábrica mencionava sintomas semelhantes. O cloreto de amônia. O negro de acetileno. O cádmio. Havia páginas inteiras dedicadas aos efeitos da exposição prolongada, páginas que todos assinavam e quase ninguém lia. A prudência possuía o estranho defeito de exigir condições que raramente coexistiam com a necessidade. Um homem precisava trabalhar. Um homem precisava continuar a trabalhar mesmo quando o próprio trabalho lhe corroía o corpo. Entre a advertência e o salário, costumava vencer o salário. A tontura começou a ceder. Mais três ou quatro respirações profundas, calculou, e estaria apto a regressar ao serviço. Olhou os recipientes ainda vazios e fez contas. A produção daquele dia já vinha atrasada. Menos unidades significavam descontos. Descontos significavam adiamentos. Adiamentos significavam mais meses naquela fábrica. A aposentadoria aproximava-se, mas aproximava-se com a lentidão própria das coisas que dependem de números, formulários e contribuições. Durante anos imaginara esse momento como uma libertação. Livrar-se do cádmio, do manganês, do negro de acetileno, dos vapores invisíveis que entravam pelos pulmões e permaneciam ali, acumulando-se numa espécie de contabilidade química que o corpo realizava sem pedir autorização. Apoiou-se novamente na bancada. Pensou que talvez tivesse sido apenas uma queda de pressão. Pensou que talvez tivesse dormido mal. Pensou que talvez estivesse envelhecendo.

 

       Esta última hipótese pareceu-lhe a mais razoável. Com a idade, os sintomas tornavam-se menos distintos. Tudo podia ser qualquer coisa. Uma dor de cabeça podia ser apenas uma dor de cabeça ou o anúncio de alguma ruína maior. Um esquecimento podia significar cansaço ou decadência. Um tremor nas mãos podia ser nervosismo ou sentença. O corpo deixava de fornecer respostas claras e passava a comunicar-se por ambiguidades. Sentiu gosto metálico na boca. Engoliu saliva. Tossiu. A tosse voltou. Apoiou-se novamente na bancada e observou os outros operários. Nenhum deles parecia doente. Nenhum deles parecia prestes a desmaiar. Trabalhavam como sempre trabalharam, cada qual encerrado na própria repetição. Talvez todos escondessem os mesmos sintomas. Talvez o envelhecimento fosse precisamente isso, uma conspiração silenciosa de corpos deteriorados fingindo normalidade. Lembrou-se então da enfermaria. A ideia surgiu sem entusiasmo. Não gostava de médicos. Não gostava de enfermeiros. Não gostava da maneira como olhavam para os trabalhadores mais velhos, como se cada queixa fosse apenas uma variante da mesma reclamação inevitável. Ainda assim, a enfermaria existia, e o caminho até ela não levaria mais que alguns minutos. Fechou as gavetas da bancada. Verificou as ferramentas. Olhou uma última vez a esteira. Esperou que alguns colegas atravessassem o corredor. Só então começou a caminhar. À medida que se afastava da área de produção, o odor do negro de acetileno diminuía. Curiosamente, só agora percebia a intensidade daquele cheiro. Durante anos estivera ali, acompanhando-o todos os dias, e no entanto tornara-se invisível aos sentidos. Há coisas que desaparecem não porque deixem de existir, mas porque permanecem demasiado tempo ao nosso lado. Coçou distraidamente o antebraço. Sentiu pequenas irregularidades na pele. Parou. Observou. Havia ali saliências avermelhadas que não recordava ter visto antes. Aproximou o braço dos olhos. A pele parecia ressecada em alguns pontos, como se pequenas fissuras começassem a abrir-se sobre a superfície. Talvez uma alergia. Talvez o cádmio. Talvez as placas de manganês. Talvez nada. Continuou andando. A enfermaria ficava próxima da portaria, numa sala permanentemente impregnada por cheiro de desinfetante. Quando entrou, encontrou a atendente atrás de uma mesa. Ela ergueu os olhos apenas o suficiente para confirmar que alguém havia chegado. O que está sentindo. Não era exatamente uma pergunta. Era uma formalidade. Ele hesitou. Depois respondeu. Tive umas dores na cabeça durante o trabalho. A mulher entregou-lhe uma ficha. Olhou para o relógio. Suspirou. E ele compreendeu, antes mesmo de ouvir qualquer resposta, que a sua enfermidade já começava a perder importância.

 

         A atendente recebeu a ficha de volta com a mesma expressão fatigada com que provavelmente recebera dezenas de outras naquele dia, uma expressão que não chegava a ser desinteresse, embora também não pudesse ser confundida com atenção, situava-se algures entre a rotina e a resignação, como se toda enfermidade fosse apenas a repetição imperfeita de outra enfermidade já observada anteriormente. Só dores de cabeça. Era uma afirmação mais do que uma pergunta. Principalmente isso. Ela chamou a enfermeira. A enfermeira aproximou-se sem pressa, examinou-lhe o rosto durante alguns segundos, mediu-lhe a pressão arterial, escutou-lhe a respiração e tornou a olhar para ele com uma espécie de impaciência contida, não hostil, mas suficientemente visível para que o montador percebesse que estava a ocupar um espaço disputado por outras urgências. Para sua idade, está tudo normal. A frase não lhe agradou. Não pelo conteúdo, mas pela facilidade com que fora pronunciada. Parecia-lhe que a idade havia se transformado numa explicação universal, um diagnóstico que dispensava exames, análises e investigações. Tudo o que acontecia ao corpo acabava por ser atribuído aos anos acumulados. Se uma articulação doía, era a idade. Se a vista falhava, era a idade. Se a memória vacilava, era a idade. Em breve, pensou, até a própria morte seria diagnosticada como consequência da idade. Estendeu então o braço. E isto. A enfermeira aproximou-se. Observou as saliências. Aproximou ainda mais o rosto. Depois recuou. Parece uma queimadura cicatrizando. O montador olhou novamente para a pele. Não lhe parecia uma queimadura. As pequenas elevações haviam aumentado desde que saíra da linha de produção. Agora distinguiam-se melhor. Algumas apresentavam fissuras finas ao redor. Outras escureciam discretamente. Pode ser alergia ao cádmio. A enfermeira deu de ombros. Em medicina, refletiu ele, as hipóteses circulavam como visitantes sem convite, apareciam, permaneciam alguns minutos e logo eram substituídas por outras. Nenhuma parecia possuir mais autoridade que a anterior. A profissional rabiscou qualquer coisa num receituário. Tome isto para a dor de cabeça. E o braço. Não vejo nada preocupante. Carimbou o papel. Entregou-o. E já olhava para outro lado antes mesmo que ele tivesse guardado a receita no bolso. A consulta terminara. Saiu da enfermaria com uma sensação estranha. Não exatamente tranquilidade, mas uma suspensão provisória da preocupação. A ausência de um diagnóstico tinha algo de confortável e inquietante ao mesmo tempo. Confortável porque afastava o perigo imediato. Inquietante porque deixava intacta a dúvida. No pátio da fábrica alguns operários começavam a reunir-se. O expediente aproximava-se do fim. Garrafas passavam de mão em mão. Risos atravessavam o ar. Alguém contava uma história que provocava gargalhadas sucessivas. O montador aproximou-se. Receberam-no com a familiaridade reservada àqueles que compartilham anos de convivência sem jamais se tornarem verdadeiramente íntimos. Ofereceram-lhe um copo. Aceitou. Bebeu. O álcool percorreu-lhe a garganta e produziu aquele calor imediato que durante décadas confundira com alívio. Tomou um segundo gole. Depois um terceiro. Sentiu a rigidez dos pensamentos afrouxar ligeiramente. Foi então que voltou a olhar para o braço. As saliências pareciam maiores. Ou talvez a bebida estivesse alterando sua percepção. Arregaçou a manga. Mostrou a pele ao colega mais próximo. Veja isto. O homem aproximou os olhos. Franziu a testa. Depois respondeu: Ver o quê. A resposta produziu nele um efeito inesperado. Alívio. Um alívio tão imediato que quase sorriu. Se o outro não via nada, talvez realmente não houvesse nada. Talvez a enfermeira estivesse certa. Talvez o problema residisse nos seus receios. Talvez o surto na fábrica tivesse deixado atrás de si uma espécie de inquietação persistente que agora contaminava tudo o que observava. Estas manchas. Não estou vendo mancha nenhuma. O montador tornou a examinar o braço. As saliências continuavam ali. Tão evidentes quanto antes. Tão visíveis que lhe parecia impossível que outra pessoa não as percebesse. Bebeu mais um gole. Sentiu a incerteza regressar. Perguntou a outro companheiro. Este respondeu praticamente a mesma coisa. Perguntou a um terceiro. O terceiro nem sequer prestou atenção. A conversa desviara-se para assuntos mais interessantes que uma suposta alergia. A noite avançava. Os copos esvaziavam-se. As vozes aumentavam de volume. O montador permaneceu algum tempo entre eles, mas aos poucos começou a sentir-se deslocado, não por hostilidade, antes pelo contrário, tratavam-no com a habitual cordialidade, porém havia momentos em que a cordialidade parecia apenas uma forma elegante de manter distância. Terminou a quarta dose. Era o limite que costumava impor a si mesmo. Despediu-se com um ligeiro movimento de cabeça. Nada mais.Nunca apreciara despedidas demoradas. As palavras excessivas produziam-lhe desconfiança. A experiência ensinara-lhe que as maiores demonstrações de afeto costumavam anteceder algum pedido, alguma cobrança ou alguma decepção. Saiu. O caminho até casa era curto. Enquanto caminhava, observava novamente o braço. As saliências continuavam ali. Talvez maiores. Talvez não. A iluminação da rua dificultava qualquer certeza. Pensou que ao chegar em casa examinaria tudo com mais atenção. Pensou também que precisava dormir. Pensou ainda na aposentadoria. E foi precisamente essa última preocupação que o acompanhou durante todo o trajeto, como uma sombra paciente que aguardava a oportunidade de voltar a ocupar o centro dos seus pensamentos.

 

         A atendente recebeu a ficha de volta com a mesma expressão fatigada com que provavelmente recebera dezenas de outras naquele dia, uma expressão que não chegava a ser desinteresse, embora também não pudesse ser confundida com atenção, situava-se algures entre a rotina e a resignação, como se toda enfermidade fosse apenas a repetição imperfeita de outra enfermidade já observada anteriormente, Só dores de cabeça, disse ela, ou talvez não tivesse perguntado realmente, talvez apenas estivesse a confirmar aquilo que já supunha, Principalmente isso, respondeu o montador, e logo a enfermeira se aproximou, mediu-lhe a pressão, observou-lhe os olhos, escutou-lhe a respiração e concluiu, Para sua idade está tudo normal, frase que não lhe agradou, não por anunciar tranquilidade, mas porque a idade parecia ter-se transformado numa explicação universal, uma espécie de diagnóstico preguiçoso capaz de justificar qualquer falha do corpo, a dor, o esquecimento, a fadiga, os tremores, tudo acabava por ser entregue aos anos acumulados como se os anos fossem culpados de todos os males. Então estendeu o braço e mostrou as saliências, E isto, perguntou, a enfermeira aproximou o rosto, examinou a pele e respondeu, Parece uma queimadura cicatrizando, mas não lhe parecia uma queimadura, as elevações avermelhadas haviam crescido desde que saíra da linha de produção, algumas apresentavam fissuras delicadas, outras começavam a escurecer, Pode ser alergia ao cádmio, sugeriu, ao que a mulher respondeu apenas com um encolher de ombros, gesto que em certas circunstâncias possui a mesma autoridade de um parecer médico, rabiscou qualquer coisa no receituário e acrescentou, Tome isto para a dor de cabeça, E o braço, insistiu ele, Não vejo nada preocupante, respondeu a enfermeira antes mesmo que a pergunta terminasse, já voltada para outra tarefa, já distante daquela conversa. Saiu da enfermaria com uma sensação indefinida, não exatamente aliviado, tampouco alarmado, apenas suspenso numa dúvida que permanecia sem resolução. No pátio alguns operários reuniam-se para beber, o expediente terminara, os copos passavam de mão em mão, as gargalhadas cruzavam o ar e o montador aproximou-se deles como fazia em tantas outras noites, recebeu um copo, bebeu, sentiu o álcool descer pela garganta e espalhar um calor familiar pelo peito, tomou um segundo gole, depois um terceiro, e quando a inquietação pareceu afrouxar voltou a olhar para o braço. As saliências continuavam ali. Arregaçou a manga e mostrou-as ao colega mais próximo, Veja isto, disse, o homem observou durante alguns segundos e perguntou, Ver o quê, resposta que lhe provocou um inesperado alívio, porque se o outro nada via talvez realmente não houvesse nada para ver, talvez a enfermeira estivesse certa, talvez o problema estivesse apenas na sua apreensão. Estas manchas, insistiu, e o colega respondeu, Não estou vendo mancha nenhuma. Tornou a examinar o próprio braço e as saliências permaneciam tão evidentes quanto antes. Perguntou a outro companheiro, obteve resposta semelhante, perguntou a um terceiro e este nem sequer lhe prestou atenção, absorvido por histórias mais interessantes do que uma suposta alergia. A noite avançava, os copos esvaziavam-se, as vozes aumentavam de volume e o montador começou a sentir-se deslocado, não por hostilidade dos outros, mas por aquela cordialidade distante que tantas vezes substitui a intimidade entre pessoas que convivem durante anos. Terminou a quarta dose, limite que impusera a si mesmo havia muito tempo, despediu-se com um leve movimento de cabeça e tomou o caminho de casa. Nunca apreciara despedidas demoradas, aprendera que os excessos de cortesia costumam esconder intenções que só mais tarde se revelam. Caminhava observando o braço à luz irregular dos postes, tentando decidir se as lesões estavam maiores ou se era apenas impressão produzida pela bebida e pela escuridão. Pensou que examinaria tudo melhor ao chegar, pensou que precisava dormir, pensou nos dias que ainda faltavam para a aposentadoria, e foi precisamente esse pensamento que o acompanhou durante todo o trajeto, como uma sombra paciente que, mesmo quando parece afastar-se, continua a caminhar ao lado de quem a carrega.

 

       Quando empurrou a porta de casa, o ranger das dobradiças espalhou-se pelos cômodos vazios com uma nitidez que só as habitações ocupadas por uma única pessoa costumam produzir, entrou, fechou atrás de si e permaneceu imóvel durante alguns segundos, como se precisasse certificar-se de que tudo continuava no mesmo lugar, o silêncio permanecia intacto, conservado à sua espera, e ocorreu-lhe que as casas envelhecem de maneira semelhante aos seus habitantes, sem alarde, sem avisos, apenas acrescentando pequenas ruínas àquilo que ontem parecia sólido. Acendeu a luz da sala e imediatamente arrependeu-se, a claridade dissolveu aquela penumbra tranquila que tanto apreciava ao regressar do trabalho, havia qualquer coisa nas sombras que lhe parecia mais honesta, talvez porque as sombras não exigem explicações, uma rachadura permanece discreta na escuridão, um móvel gasto conserva alguma dignidade e até um homem cansado parece menos velho quando não é obrigado a contemplar-se inteiramente. Apagou parte das luzes e dirigiu-se ao banheiro. Despiu-se lentamente, observando no espelho os vestígios daquele dia, a tontura na fábrica, a enfermeira indiferente, os colegas que não viam aquilo que para ele se tornara evidente. Lavou o rosto, os braços, o pescoço, voltou a examinar as saliências e sentiu uma inquietação maior do que a anterior. Continuavam ali. Não apenas continuavam como pareciam ter avançado. Algumas rachaduras finas abriam-se na superfície avermelhada, pequenos sulcos que percorriam a pele sem provocar dor significativa, circunstância ainda mais perturbadora, porque as enfermidades que não doem costumam esconder intenções mais obscuras. Aproximou-se do espelho, acendeu outra lâmpada, examinou o braço por diferentes ângulos e encontrou sempre o mesmo resultado, as lesões estavam lá, nítidas, indiscutíveis, embora ninguém mais parecesse capaz de percebê-las. Passou os dedos sobre elas, sentiu a aspereza da pele e abandonou a inspeção. O cansaço começava a impor sua autoridade. Haveria tempo no dia seguinte para novas preocupações. A enfermidade, fosse qual fosse, não desapareceria durante a noite, e as prestações da casa tampouco desapareceriam. Saiu do banheiro e foi então que notou novamente as rachaduras da cozinha. Já existiam antes, disso tinha certeza, mas não daquela forma. Aproximou-se. Um fragmento de reboco desprendeu-se quando tocou a parede. Abaixou-se, recolheu o pedaço e esmagou-o entre os dedos. A casa envelhecia. A conclusão era simples. O estranho era não ter percebido antes. Passava diariamente pelos mesmos cômodos, pelas mesmas portas, pelos mesmos corredores, e no entanto certas deteriorações pareciam crescer longe dos olhos, aproveitando os momentos de distração para avançar silenciosamente. Tentou ignorar o assunto. Não conseguiu. Agora via rachaduras em toda parte. Na cozinha, na sala, próximo aos caibros, ao redor das janelas. Talvez algumas fossem antigas. Talvez não. A atenção possui esse defeito, quando finalmente encontra alguma coisa passa a encontrá-la em excesso. Deitou-se decidido a deixar a questão para o dia seguinte, mas poucas horas depois já estava novamente acordado, sentado na cama, sem compreender ao certo o que o despertara. Olhou para o relógio. Ainda era madrugada. Permaneceu imóvel durante algum tempo até lembrar-se dos recibos. Levantou-se, abriu a gaveta e começou a conferi-los um a um. Estavam todos lá. As datas corretas, os pagamentos efetuados, nenhuma pendência. Ainda assim continuou verificando. Não desconfiava dos papéis, desconfiava da própria memória. Um esquecimento bastaria para comprometer anos de economia e disciplina. Guardou tudo novamente e voltou para a cama, mas o sono já não possuía a mesma consistência. Ficou olhando a escuridão, pensando nas prestações, na aposentadoria, nas lesões da pele, nas rachaduras da casa, até concluir que envelhecer talvez não significasse adquirir sabedoria, como tantos afirmavam, mas apenas acumular inquietações sucessivas sem jamais resolver completamente nenhuma delas. Quando a primeira claridade da manhã atravessou a janela, já estava desperto. Levantou-se, preparou café e voltou a observar as paredes. As rachaduras permaneciam onde estavam, mais visíveis agora sob a luz do dia. Decidiu repará-las imediatamente. Procurou cal, espátula, balde e tudo o que pudesse servir ao trabalho. Enquanto misturava a argamassa lembrou-se do antigo proprietário da casa, o homem que morrera sozinho e cujo corpo fora encontrado apenas quando o odor da decomposição atravessou as paredes e alcançou os vizinhos. As pessoas costumavam dizer que ele morrera de solidão. Nunca concordara com essa interpretação. O homem morrera de diabetes, os órgãos falharam, o sangue adoeceu, a visão desapareceu aos poucos, mas a imaginação dos vivos prefere responsabilizar a solidão porque as doenças parecem explicações demasiado banais para satisfazer a necessidade humana de encontrar significados. Continuou misturando a massa até sentir novamente os comichões no braço. Olhou. As saliências haviam mudado de aspecto. O vermelho escurecia. As fissuras aprofundavam-se. Algumas pareciam revelar camadas mais internas da carne. Pela primeira vez desde que tudo começara, experimentou a impressão nítida de que alguma coisa avançava através do seu corpo com a mesma persistência silenciosa com que as rachaduras avançavam através da casa, e essa semelhança, embora absurda, recusava-se a abandonar-lhe o pensamento.

 

          Passou a manhã inteira ocupado com os reparos, preparava a massa, preenchia uma fissura, alisava a superfície, afastava-se alguns passos para examinar o resultado e logo encontrava outra abertura em algum ponto da parede, o trabalho parecia multiplicar-se à medida que avançava, havia rachaduras junto às janelas, nos cantos da sala, próximo ao teto do corredor, algumas tão finas que mal se distinguiam da textura do reboco, outras suficientemente profundas para engolirem a ponta da espátula, e quando o meio-dia chegou, encontrou-se sentado à mesa da cozinha, coberto de poeira, olhando para a casa com a impressão de que nada mudara, as fissuras reparadas confundiam-se com as que ainda aguardavam reparo, o conjunto permanecia igualmente deteriorado, e ocorreu-lhe que talvez certas formas de decadência não se definam pela impossibilidade da resistência, mas pela inutilidade do esforço. O comichão no braço agravara-se, já não surgia em intervalos, permanecia constante, discreto e obstinado, arregaçou a manga e observou as lesões espalhando-se pelo antebraço, a pele adquiria uma tonalidade escura e irregular, as fissuras aprofundavam-se lentamente, desenhando linhas que lembravam as rachaduras da própria casa, sorriu diante da coincidência e logo se repreendeu, não havia motivo para sorrir nem para estabelecer relações entre acontecimentos que seguramente não possuíam ligação alguma, mas a associação persistia, recusando-se a desaparecer. Nos dias seguintes continuou trabalhando na fábrica, a tontura regressava ocasionalmente, as dores de cabeça tornavam-se mais frequentes, os colegas nada percebiam, a enfermeira continuava afirmando que tudo parecia normal, o supervisor preocupava-se apenas com os índices de produção, as baterias precisavam ser concluídas, os recipientes preenchidos, os prazos cumpridos, a vida da fábrica possuía uma lógica simples, tudo o que não interferisse diretamente no rendimento acabava reduzido à condição de detalhe. As lesões avançaram, primeiro os braços, depois o pescoço, mais tarde as pernas, as fissuras aprofundavam-se sem produzir sangue, a pele endurecia, tornava-se áspera, algumas regiões assumiam uma coloração semelhante à do concreto envelhecido, e o montador deixou de procurar médicos, não porque acreditasse compreender o que lhe acontecia, mas porque compreendera a inutilidade das consultas, cada visita terminava exatamente onde começara, a dúvida permanecia intacta, apenas mudavam os formulários e as assinaturas. Chegou então o dia da aposentadoria, recebeu os documentos, assinou os papéis, apertou mãos, ouviu discursos breves, agradecimentos protocolares e promessas de visitas futuras que ninguém pretendia cumprir, ao sair pela última vez da fábrica voltou-se para observar o edifício e percebeu que não sentia aquilo que durante anos imaginara sentir, não havia libertação, nem tristeza, nem nostalgia, apenas uma neutralidade estranha, como se uma parte inteira da sua vida tivesse terminado sem produzir qualquer conclusão. Regressou para casa e os dias passaram a organizar-se de outra maneira, acordava cedo, preparava café, observava as rachaduras, conferia os recibos, examinava as lesões, voltava a observar as rachaduras, e à medida que os meses avançavam a distinção entre a casa e o próprio corpo começou a dissolver-se, reparava uma parede e encontrava uma nova fissura no braço, descobria uma rachadura próxima à janela e horas depois percebia uma linha semelhante atravessando a pele da mão, era absurdo, sabia disso, mas a repetição tornava o absurdo cada vez mais difícil de ignorar. Certa manhã encontrou um fragmento de reboco sobre o travesseiro, permaneceu olhando para ele durante alguns segundos até perceber que não vinha do teto, vinha dele, levantou a mão e viu que uma pequena lasca desprendera-se do antebraço, não houve dor, nem sangue, apenas o desprendimento silencioso de uma fina camada endurecida, sentou-se na cama observando o fragmento e pensou no chumbo, no manganês, no cádmio, nos anos de trabalho, nos relatórios de segurança que assinara sem ler, nas advertências ignoradas, pensou também que talvez existisse uma explicação perfeitamente racional aguardando em algum livro médico, mas a possibilidade de uma explicação já não lhe despertava interesse. Os dias tornaram-se mais lentos, as fissuras aprofundaram-se, pequenos fragmentos desprendiam-se ocasionalmente da pele, a casa também continuava a deteriorar-se, nenhum reparo durava muito, nenhuma parede permanecia intacta, nenhuma superfície conservava a aparência anterior, até que chegou a estação das chuvas e, durante uma madrugada particularmente úmida, acordou ao ouvir um estalo, sentou-se na cama, ouviu outro, depois mais um, levantou-se e percorreu o corredor, a casa parecia respirar, as paredes estalavam, os caibros gemiam, o reboco rachava-se em algum lugar invisível, permaneceu imóvel no centro da sala escutando e esperando, não sentia medo, talvez porque o medo exija alguma esperança de evitar aquilo que se aproxima, observou as fissuras espalhadas pelas paredes e depois observou as próprias mãos, as mesmas linhas, as mesmas fraturas, a mesma lenta decomposição, sorriu pela segunda vez desde o início de tudo, não era um sorriso de satisfação nem de resignação, talvez fosse apenas o reconhecimento tardio de uma evidência, a matéria desgasta-se, o metal corrói-se, a madeira apodrece, o concreto racha, a carne não constitui exceção. Permaneceu ali durante muito tempo, sem procurar explicações, sem formular perguntas, sem esperar respostas, e quando amanheceu, quando a chuva cessou e a luz atravessou as janelas, percebeu que a casa continuava de pé e ele também, mas havia algo de provisório em ambos, algo que a claridade tornava impossível ignorar. Sentou-se junto à mesa da cozinha, preparou café e observou a fumaça subir lentamente da xícara, depois olhou para a parede à sua frente e viu uma nova rachadura surgida durante a noite, não muito extensa, apenas alguns centímetros, ainda assim suficiente para anunciar que o processo continuava. Terminou o café, permaneceu sentado e observando, sem pressa, porque compreendera enfim que certas ruínas não acontecem de repente, passam anos preparando a própria chegada, e quando finalmente se tornam visíveis, o desmoronamento já começou há muito tempo.



 

Edson Moura em 01.03.2013

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