Permaneci parado a observar o decorrer da cena, um besouro emborcado que se debatia, não direi desesperadamente, que o desespero exigiria uma consciência da morte que, mas debatia-se com aquele movimento de patas no vazio que é comum a todas as criaturas quando lhes falta o chão. Um batalhão de formigas, se quisermos usar a metáfora militar que tão naturalmente nos ocorre, embora nenhuma formiga alguma vez tenha declarado guerra ou assinado armistício, trafegava na sua habitual formação linear, dirigindo-se ao encalço da presa, cercando-a, formando uma pequena multidão que se contorcia num ritual cujo sentido não estava em parte nenhuma a não ser no próprio movimento que o executava. O coletivo de pequenos devoradores, chamemos-lhes assim porque também nós precisamos de nomes para o que nos olha de fora, cobria o besouro que, esperançosamente, e o advérbio é meu, não dele, continuava a golpear o ar, golpeava o ar como se o ar pudesse ser ferido, até que a sua vitalidade, essa força que não sabe que existe e que nós, por não sabermos o que é, chamamos instinto, começou a definhar. Não paulatinamente, que o paulatino é uma medida de relógio e o relógio não pertence ao reino dos artrópodes, mas com a lentidão exata que a natureza determina sem que ninguém lhe tenha explicado. Tornou-se uma criatura sonâmbula, e a palavra sonâmbula é das que uso por não ter outra, condenada à solidão, que a solidão é outra palavra que não pertence aos besouros, mas que eu lhe emprestava por incapacidade de sentir de outra maneira. A sua programação biológica, se de programação se pode falar quando não há programador, não lhe mostrava nada, porque não havia ecrã interior onde lesse está a chegar o fim, havia apenas uma sucessão de estímulos que se apagavam um a um, sem testemunhas. Iria morrer nos próximos minutos, teria a carcaça penetrada, os membros decepados, as vísceras extraídas, com minúcia e zelo, transportadas para a colónia, garantindo a sobrevivência de todas, operárias, soldados, rainhas, larvas, que também estes nomes são nossos e não correspondem a nenhuma hierarquia que as formigas reconheçam. O besouro, se ver pudesse, observaria o translado dos seus pedaços de um lugar para outro, não rutilante, que a palavra rutilante é postiça, mas metódico, como uma estrutura sendo desmontada em fragmentos para em seguida serem armazenados em algum recinto dentro do formigueiro, recinto a que chamo assim por falta de palavra mais exata e porque as palavras de que disponho são as que a língua me deu. Encarcerado num transe, continuei a observar, não hipnótico, que a hipnose exige hipnotizador, mas suspenso, como quem se esquece de si próprio e fica apenas olhar, que é a única forma de estar quando o que se vê não precisa de ser compreendido. As formigas, na sua gentileza instintiva, e a palavra gentileza é de salão, continuavam a despedaçar o pobre besouro, e pobre é o adjetivo que eu projetava sobre a carapaça que já não sentia nada, até restar um exoesqueleto seco e imóvel, uma casca que já não era nada e que, no entanto, continuava a ocupar lugar no mundo.

         Compulsivamente, e o advérbio é uma confissão que faço sem querer, deparo-me com cenas imaginadas sobre o instante em que o meu fim chegará, fim que imagino e ao imaginar já falseio, porque o que se imagina nunca é o que acontece. Estaria numa caminhada solitária em qualquer lugar desta terra, e a terra merecia maiúscula que lhe não dou por preguiça de a carregar de sentido, e seria acometido por um mal súbito, desses que não avisam porque não têm boca para avisar, ou penso no meu assassinato, quem seria o executor, o rosto que não verei porque a morte, quando vem pelas mãos de outrem, é um ato que se pratica pelas costas. O sono foi interrompido ontem, no decorrer da noite, por um tempo que não tive a oportunidade de mensurar, e a oportunidade não é coisa que se tenha ou deixe de ter, é apenas o que acontece ou deixa de acontecer, escutei a voz de um sujeito, de timbre envelhecido, que quebrava o silêncio da madrugada com urros de dor, cabendo a mim interpretá-los e recolher-me à minha negligência, pensando, como se pensa quando não se quer agir, alguém irá acudi-lo, seja lá qual for a dor que o pobre desconhecido esteja sentindo. Lavei as mãos, não no cinismo, que o cinismo exige uma clareza de motivos que eu não tinha, mas numa suspensão da vontade que se parece com o cinismo e que o dispensa, do mesmo modo que uma fotografia de um objeto dispensa a presença do objeto. Arrependi-me por não ter empreendido qualquer esforço em ir averiguar o que de facto estava a acontecer, mas sabia, e este saber era a única certeza que me restava, que o remorso se dissolveria com o passar das horas, e até ao desabar da noite seguinte estaria com a consciência envolta em algum intento voluptuoso, a volúpia como anestesia, a anestesia como esquecimento, o esquecimento como a pequena morte que nos mantém vivos. É certo que todas as vezes que a minha mente se debruça a arquitetar, ingenuamente, os ornamentos onerosos da narrativa sobre a consumação da minha finitude, um herói que nunca existiu, uma imortalidade inútil, um docente do egoísmo, termina por concluir, e a conclusão é sempre a mesma, que estou a habitar a carne da mais hedionda das criaturas, e hedionda é a palavra que encontrei para dizer o que não tem nome e que, não tendo nome, me pertence por inteiro.

       É possível desejar como seria a extinção, rápida ou agonizante, uma plateia para se despedir, revelar os últimos anseios, confessar vergonhas encarceradas na masmorra dos segredos, que é uma masmorra sem paredes, sem guardas, sem chave, e cuja existência depende apenas de que eu acredite que existe. Na minha lividez de quase cadáver, ainda poderia ecoar para as testemunhas todos os ressentimentos por quem nutriu os meus fracassos, e a palavra fracasso é das que mais repito, como um martelo que bate sempre no mesmo prego. Como um narciso de caridade, perdoaria todos para lhes deixar a herança do remorso, sem que percebessem que os desprezava tanto quanto eles a mim, o desprezo como moeda de troca, a herança como armadilha, e a armadilha como a única forma de permanecer depois de ter partido. Mas se a fatalidade for displicente e negligenciar uma conclusão instantânea ou terna das minhas funções vitais, e a palavra função é de máquina, e vital é a palavra que esconde o que não sabe explicar, irei encarar a solidão da velhice, não haverá cumplicidade no leito, só eu e as reminiscências das minhas iniquidades condensadas em memórias que sempre se repetiram e continuarão a repetir-se até ao exalar do último suspiro, e o suspiro é o que resta quando as palavras acabam e o corpo, que nunca aprendeu a falar, toma finalmente a palavra.

        Para os seres dotados de consciência, e a consciência é o que nos coube em sorte ou em maldição, conforme o dia e a disposição do fígado, morrer é uma conclusão que se estica, estica-se como uma pele que já não serve ao corpo mas que não se despe, e que fica a um canto, a enrugar, à espera de ser deitada fora. Inventámos a falsa imortalidade, e o adjetivo é redundante porque toda a imortalidade é falsa por definição, já que a definição de imortalidade foi inventada por mortais, criámos o além-mundo para afastar a nossa insegurança, e a insegurança continua aqui, intacta, do lado de cá, como uma visita que não se anuncia e que entra sem bater. Planeámos as descendências para podermos ter o sobrenome a ecoar através de tempos futuros, até que um dia alguém resolva descontinuar a linhagem, e a palavra linhagem é uma das mais pesadas que carregamos, sem sabermos porquê, e que entregamos aos filhos como quem entrega uma dívida. Olho para o minúsculo drama protagonizado pelo besouro e as formigas, e a palavra drama é de teatro, e o teatro é o lugar onde fingimos que a morte não é verdadeira, e tudo aquilo é natural, e natural é a palavra que usamos para o que não precisa de explicação, acontece a cada milésimo de segundo em qualquer parte do planeta, uma espécie predando outra mais vulnerável, em tamanho ou numericamente, e a vulnerabilidade é o estado permanente de tudo o que vive, incluindo o que ainda não sabe que está vivo e o que já se esqueceu. Sinto-me cansado, às vezes, e o às vezes é uma concessão que faço à esperança que já não tenho, uma espécie de cortesia para comigo mesmo. Vejo o ressentimento nas palavras gentis que me proferem, um bom dia de alguém desta vizinhança soa-me como uma piedade desdenhosa ou ironia azeda por algo que os incomoda, e a incomodidade é a matéria de que são feitas as relações entre vizinhos, como se o simples facto de ocupar um espaço ao lado do espaço de outrem já fosse uma ofensa. A minha casa tem a melhor localização da rua, de esquina, a única que possui varanda com plantas, de frente para um terreno baldio onde posso vislumbrar a paisagem do nascer e do pôr do sol, e a lua, quando cheia e esbelta, posso observá-la apenas com um abrir dos basculantes e olhar, e é curioso como o que se possui se torna, sem que se saiba como, o que nos acusa. Possuo a melhor casa da rua, e possuir é um verbo que se conjuga na primeira pessoa para esconder que nada se possui, que a casa me possui a mim tanto quanto eu a ela, e talvez mais. Sou o alvo predileto dos seus olhares cobiçosos, e a cobiça é o nome que dou ao que nos olha do outro lado da janela, um nome que não resolve nada mas que me ajuda a passar o dia. Mas contenho-me, é necessário, e a necessidade é o disfarce que o medo usa para sair à rua e fingir que é coragem. Se tropeço em alguma pedra de calçamento desgarrada e caio como um transeunte desleixado, negligenciarão qualquer auxílio, talvez pensem que eu agiria da mesma forma, e o pensamento deles é o espelho onde me vejo, um espelho que não reflete senão o que já sei e que, refletindo-o, o confirma. Vejo-me como alguém excluído do bando, como o besouro que testemunhei ser destroçado, e testemunhar é o ato de ver sem intervir, o ato de ser cúmplice pela imobilidade, e a imobilidade é a forma mais pura de participação. Seja qual for o tipo e a espessura das estratégias que usam para protegerem os seus verdadeiros intentos, as suas carcaças diáfanas, e a palavra diáfana quer dizer que se vê através, mas o que se vê é sempre a mesma coisa, basta analisar o meu próprio âmago para os decifrar, e âmago é a palavra que encobre o vazio, e decifrar é o verbo que usamos para acreditar que há um sentido onde talvez nunca o tenha havido. Somos um eu e um outro que se repetem, e a repetição é o que torna suportável o absurdo, como um ritmo que se impõe ao silêncio. Faz-se necessário que assim o seja, e a necessidade é a muleta da resignação, e a resignação é o que nos permite acordar de manhã. Carregam uma diáfana caixa de medos, e é diáfana porque o medo, quando é verdadeiro, não precisa de ser escondido, e não o escondem, e é por isso que os reconheço. Tudo revelado pelo crispar orgânico dos olhos, e a palavra crispar é das poucas que ainda dizem a verdade sem a manchar, porque o olho que crispa não finge, não pode fingir, é anterior a qualquer fingimento. Ao observar os últimos espasmos de vida do besouro, restando apenas uma fração do seu corpo, o seu espelho ocular nada revelou, nenhum traço de dor, expressões pelo horror do seu iminente fim, e a ausência de expressão era a única expressão possível, a única linguagem que não mente. Penso que deveria existir uma pedagogia dos insetos, onde pudéssemos aprender sobre a natureza dos artrópodes, o seu comportamento, a maneira como observam os seres humanos, mas acredito, e acreditar é o que fazemos quando nos faltam as provas e nos sobra o medo, que tudo seja uma trivial programação de reprodução e adaptação, e trivial é a palavra que usamos para o que nos recusamos a compreender, porque compreender seria aceitar, e aceitar seria render-se.

       Raspo o chão com os pelos da vassoura, arrastando a carcaça seca do besouro para a superfície da pá, e a pá é o instrumento que separa o que se deita fora do que se guarda, sem que se saiba nunca qual é qual. Observo o minúsculo veio de formigas a fragmentar-se e a esvair-se em variadas trajetórias, refugiando-se nas frestas da parede, e a parede é o limite que as formigas atravessam sem lhe dar nome, como se o nome fosse o único obstáculo que não se pode transpor. Com mecânico costume, despejo os restos orgânicos do inseto sobre a terra húmida que acomoda uma pequena palmeira que cultivo, e cultivar é o verbo que me resta, o gesto de deitar sobre a terra o que já não serve, esperando, sem esperança, que sirva para alguma coisa.



Edson Moura em 09.05.2013

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