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        Se há um momento em que o desespero já não se disfarça de angústia, nem se veste de melancolia, mas torna-se respiração, o sangue que circula porque esqueceu o caminho de parar. Nessa hora, o homem já não é um desesperado entre outros. É a própria matéria do desespero, um tecido tão fino que qualquer toque de esperança o rompe. E ele prefere o rasgo. Porque o rasgo pelo menos dói. A esperança, essa, é um vício de quem ainda conta os dias. Os médicos da consciência, se existissem, não prescreveriam remédio. Prescreveriam um espelho. Mas não daqueles que devolvem o rosto, desses, o desesperado já aprendeu a desviar o olhar. Prescreveriam o espelho que mostra as costas da própria imagem, aquilo que nunca se vê porque se está sempre virado para frente. E ali, nesse avesso sem forma, o desesperado reconheceria o que sempre soube: que não há fundo. Só há o gesto de afundar, repetido até que o gesto seja a única geografia. Há os que dizem: "Eu desespero, logo existo". Enganam-se. O desespero não funda existência alguma. Ele é a prova contrária: existia-se já, e mal, antes dele. Ele apenas vem ocupar o lugar vago deixado pela pergunta que ninguém fez. Pergunta-se ao doente: "Onde sente dor?" E ele aponta. Pergunta-se ao desesperado: "Onde lhe falta o chão?" E ele não aponta porque o chão nunca esteve lá. Apenas se habituara à queda como quem se habitua a um rumor de fundo.

          E há os que escondem o desespero dentro da felicidade como quem esconde um punhal no colchão. Dormem sobre ele. Acordam com ele na altura do rim. Mas nunca o puxam. Preferem a dor surda ao gesto que exigiria um nome. Esses são os piores? Não. Os piores são os que transformaram o desespero em sistema, em respiração cotidiana, em modo de dobrar a camisa ou de atravessar a rua. Esses já não perguntam por Deus. Perguntam pelo horário do próximo comboio. E o comboio nunca chega. Mas eles esperam. E nessa espera há qualquer coisa mais trágica do que o grito: há a paciência de quem já desistiu de saber para quê espera. A feminilidade em flor, disse-se, é desespero. Mas mais desespero ainda é a velhice que sorri. Porque essa já viu tudo, já pesou tudo, já colocou cada decepção no devido lugar da estante, e ainda assim continua a sorrir. Esse sorriso é um abismo. Nele, a eternidade reconhece a sua caricatura. Porque a eternidade não sorri. A eternidade apenas observa, e o seu olhar é o mesmo de quem conta formigas num muro prestes a cair. Quem grita o desespero ainda tem forças para o teatro. Quem o silencia, esse já habita a plateia vazia. O pior, porém, é quem o ignora sem o ter silenciado. Esses vivem numa espécie de rumor branco. Acordam, trabalham, amam, morrem – e em cada um desses verbos há um pequeno desespero encostado, como uma mala esquecida no cais. Mas eles não a veem. Passam ao lado. E quando a eternidade finalmente perguntar, "E a mala, onde ficou?", eles responderão: "Que mala?" E nessa resposta estará a condenação mais absoluta: a de não terem sequer percebido que viajavam leves demais. Ora, se o desespero é a regra, a salvação é a exceção, mas uma exceção que não se anuncia. Ela chega como um soluço no meio da noite, ou como aquela vertigem que acomete quem olha para o céu e, por um segundo, esquece o nome das estrelas. E nesse esquecimento, estranhamente, há qualquer coisa que não é desespero. Chama-se? Não se chama. Apenas acontece. E passa. E o homem volta ao seu desespero quotidiano, agora mais fundo porque provou, sem saber, o seu contrário.

       Melhor seria nunca ter provado. Mas a eternidade é cruel nesse aspecto: ela dá mostras, retira-as, e deixa o homem com a memória de um sabor que já não distingue do veneno. E assim ele segue, entre a ampulheta e o espelho, entre o grito e a mala esquecida, entre a flor e o sorriso que a desmente. Quem escreve estas linhas também não está salvo. Também conta os dias. Também acordou esta manhã e procurou o chão, e encontrou apenas o gesto de procurar. Por isso escreve. Não para curar, não há cura. Escreve para que a eternidade, quando perguntar, encontre pelo menos um eco. Mesmo que esse eco seja só mais um grão de desespero a cair. E enquanto cai, imagina que voa. Essa é a mais tenaz das ilusões: confundir a queda com uma escolha, o desabamento com um gesto largo. Há nos olhos de quem se precipita um último lampejo de grandeza, como se, ao fim, o corpo fosse enfim aquilo que sempre ensaiou ser: uma seta sem alvo, um traço sem desenho. Mas o chão existe. E o chão não é metáfora. O chão é a interrupção definitiva de todas as metáforas. O desespero, porém, não cessa com o impacto. Isso é o que os vivos nunca entendem. Pensam que a morte é o fim da angústia, como se a angústia precisasse de um pulmão para respirar. Mas o desespero é anterior ao corpo e sobrevive-lhe. Ele é a dobra do espírito sobre si mesmo, um enrolar-se eterno, um fio que nunca encontra a ponta porque a ponta é também fio. Morre-se, e o desespero permanece ,não como castigo, mas como aquilo que sempre foi: a forma do que não tem forma.

    Há uma frase que os psicólogos não dizem em voz alta. Dizem-na baixo, nos corredores, quando acham que ninguém escuta: "O desespero não se cura, apenas se troca." Troca-se um desespero por outro. O desespero de não ter pelo desespero de ter. O desespero da solidão pelo desespero da companhia. O desespero de não saber pelo desespero de saber demais. E a esse movimento de troca, os homens chamam viver. E vivem. E morrem. E chamam a isso destino. Mas a eternidade não se deixa enganar por esses nomes. Ela conhece o mecanismo: cada vez que o homem diz "agora estou melhor", a eternidade ouve "agora o meu desespero aprendeu a coxear". Porque o desespero não desaparece. Amansa-se, como um animal velho que já não morde, mas que ainda aquece a casa com o seu hálito podre. E o homem acaba por gostar desse hálito. Acaba por precisar dele. Acorda de noite, sente a falta do cheiro, e inventa uma nova ansiedade só para ter companhia. É por isso que a maior mentira já dita é "antigamente eu sofria, mas agora não". Antigamente e agora são a mesma ferida, apenas com curativos diferentes. Uns usam o amor. Outros usam o trabalho. Outros usam Deus. Mas debaixo do curativo, a ferida respira. Ela tem pulso próprio. Ela sorri quando o homem diz "estou feliz", porque sabe que a felicidade é apenas o momento em que o desespero tira férias e deixa um bilhete: "Volto logo. Não chores." E o homem chora. Não pela ausência do desespero, isso seria demasiado esperançoso. Chora porque sabe, no fundo, que o bilhete é verdade. O desespero volta. Volta sempre. E quando volta, senta-se na cadeira que nunca foi ocupada por mais ninguém, pede um copo de água, e pergunta: "Então, o que perdeste enquanto eu não estava?" O homem pensa. Diz: "Nada." E o desespero ri. Ri como quem sabe que a pior perda é não saber o que se perdeu.

        Há quem tente a fuga pela estética. Escreve poemas negros, pinta telas onde a tinta escorre como pus, compõe músicas que parecem o gemido de uma porta. Mas a eternidade não compra quadros. A eternidade apenas olha e diz: "Mais um que adornou a jaula." Porque a arte, quando não é grito, é mobília. E o desespero, esse, não se senta em mobílias. Prefere o chão. Prefere o cimento frio onde o corpo, afinal, sempre acabará. As crianças, dizem, não desesperam. Mentira. As crianças desesperam de uma forma mais pura: sem nome. Choram sem saber porquê. Acordam de noite com um medo que não se lembra na manhã seguinte. Esse medo sem memória é o desespero em estado nascente, ainda não domesticado pela razão. Depois vêm os adultos e dizem "foi só um pesadelo". E a criança acredita. Mas o corpo não acredita. O corpo guardou o tremor. E esse tremor será, anos mais tarde, aquela ansiedade que aparece no meio da tarde sem motivo algum. E assim se tece a trama: geração após geração, o mesmo fio. Os pais passam o desespero aos filhos não por herança, mas por contágio. Um olhar. Um silêncio à mesa. Um "está tudo bem" dito com a voz demasiado calma. A criança absorve aquilo como se absorve a humidade. E um dia, adulta, repete o gesto: olha para o seu próprio filho e diz "está tudo bem". E o filho absorve. E o ciclo não tem rosto. Apenas tem ritmo. Há quem diga que a fé corta o ciclo. Mas que fé? A fé que repete fórmulas? A fé que vai à missa e volta para o mesmo vazio? A fé que promete paraíso e esquece de aquecer o presente? Essa fé é apenas um desespero mais arrumado, com os cantos dobrados. A verdadeira fé – se é que alguma vez existiu – seria aquela que olha para o desespero e não lhe chama nomes. Não lhe chama pecado, nem doença, nem provação. Apenas senta ao lado e fica em silêncio. Mas quem suporta o silêncio? Os homens fogem dele como fogem do próprio hálito. Precisam de palavras. Precisam de explicações. Precisam de um "porquê". E o desespero, esse, nunca responde a "porquê". Apenas repete: "Estou aqui. Sempre estive. Sempre estarei."

           Agora, enquanto estas linhas se escrevem, há uma mulher em qualquer cidade que acaba de sorrir para o espelho. Há um homem que aperta o cinto no comboio. Há uma criança que desenha um sol com olhos tristes. Todos eles desesperam. E nenhum sabe. E a eternidade, paciente, espera. Não para condenar. A eternidade não condena. E um dia, quando o último grão cair, ela abrirá o livro e lerá, para cada nome, uma única palavra:

Desespero.



E. Moura  -  04.09. 2020 

 


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