FOME (romance)
FOME
I
Há outras vidas que se desenrolam nas
margens, nas barracas que a cidade empurra para longe dos olhos, nesses lugares
onde o vento traz cheiros que os moradores dos prédios altos chamam de miséria,
sem saber que a miséria também tem cheiro de gente. É aí, entre os plásticos
rasgados e as lonas remendadas, que encontraremos Jaci e Gerusa, duas mulheres
que o tempo tratou como se fossem barro de segunda, desses que ninguém compra e
que ficam encostados no fundo do armazém até que alguém, por compaixão ou por descuido,
lhes dê um destino.
Jaci tem
setenta e dois anos, mas quem a visse pelas costas, curva sobre um carrinho de
mão cheio de latas, lhe daria dez anos mais, tantos são os nós que a idade e o
trabalho lhe amarraram nos ossos. As mãos, que outrora foram capazes de segurar
um filho ao colo, esse filho que a guerra ou a fome ou a simples indiferença do
mundo levou para longe, já nem ela sabe bem para onde, essas mãos têm agora os
dedos tortos, empedrados, como raízes de árvore que cresceram contra a pedra.
E, no entanto, ainda se movem, ainda agarram, ainda separam o papel do
plástico, o alumínio do ferro, com uma precisão que mais parece de relojoeiro do
que de catadora. Jaci sente o lixo e lhe conhece os pesos, as texturas, os
cheiros que os outros rejeitam. O lixo, para ela, é matéria-prima, como o barro
para o oleiro, com a diferença de que o barro, antes de ser moldado, já tem uma
dignidade que o lixo perdeu ao ser deitado fora. E, no entanto, ali, nas mãos
de Jaci, o lixo recupera uma espécie de nobreza, porque dela recebe a atenção
que ninguém mais lhe quis dar.
Senta-se agora,
Jaci, ao lado da cama improvisada que construiu com tábuas apanhadas na rua,
tábuas que outrora foram talvez uma porta, uma prateleira, um fundo de armário,
e que agora servem de esteio ao colchão de espuma roída que um vizinho de
barraca lhe deixou quando morreu. A cama está no canto mais resguardado do
barraco, onde a lona do teto não faz tantas gotas quando chove, e onde o chão
de terra batida, pisado por tantos anos, já se tornou duro como pedra. Diante
dela, deitada sobre um lençol que mais parece uma toalha de mesa puída, está
Gerusa, sua única amiga, se é que a palavra amiga ainda significa alguma coisa
para duas mulheres que partilharam mais fome do que alegrias, mais frio do que
conversas. Conhecem-se há oito décadas, desde que eram crianças e brincavam nos
escombros de uma guerra que não entendiam, correndo descalças entre tijolos
partidos e arames farpados. Depois, as vidas separaram-se e juntaram-se várias
vezes, como dois fios de uma mesma corda que ora se entrelaçam ora se afastam,
mas sempre voltam a dar o mesmo nó. Agora, no fim, voltaram a encontrar-se,
porque o destino, quando quer ser cruel, também gosta de ser poético.
Gerusa agoniza.
É uma morte devagar, uma morte que se arrasta, que se instala nos membros como
um hóspede indesejado que se recusa a sair. A bactéria, dizem os poucos médicos
que de vez em quando aparecem no bairro para cumprir horas de serviço
comunitário, a bactéria começa por comer os nervos, devagarinho, primeiro os
pequenos, os que controlam os dedos, os gestos miúdos, depois vai subindo,
alastrando, até chegar à medula e de lá ao cérebro. O nome técnico ninguém se
lembra, ou ninguém se dá ao trabalho de pronunciar, porque nomes técnicos são
para os doentes que têm plano de saúde, para os que morrem em camas limpas, com
um vidro de soro a pingar devagar e uma campainha ao alcance da mão. Aqui, o
que há é o cheiro a papelão húmido, o cheiro a metal enferrujado que a chuva
trouxe das latas acumuladas no quintal, e o silêncio roto de vez em quando pelo
gemido que Gerusa solta quando uma cãibra lhe atravessa as pernas já quase
mortas.
Mas o
espantoso, o que Jaci não consegue compreender por mais que tente, é que os
olhos de Gerusa continuam lúcidos. Não são olhos de quem se vai, são olhos de
quem fica, de quem vê e entende e talvez até julgue, se houver ainda algum
juízo neste mundo que as tratou como lixo. A velha, deitada de costas, fixa o teto
de lona, onde a luz do sol, ao atravessar os rasgões, desenha figuras que
dançam com o vento. Não chora, não se queixa, não pede água nem companhia.
Apenas olha. E, nos momentos em que a respiração se torna mais funda, como se
estivesse a encher os pulmões para uma viagem longa, os cantos da boca esboçam
qualquer coisa que poderia ser um sorriso, se ainda houvesse carne macia para o
formar. Mas não há. Há apenas os lábios ressequidos, colados às gengivas, e nos
cantos, essa pequena elevação dos músculos que só quem conhece Gerusa desde
criança sabe interpretar: é paz, é aceitação, é o reconhecimento silencioso de
que a morte, para quem catou lixo a vida inteira, para quem viveu do que os
outros deitavam fora, para quem nunca teve uma cama sequer que não fosse feita
de restos, a morte é apenas mais um tipo de descanso. O derradeiro. O
definitivo. E, quem sabe, o primeiro verdadeiramente limpo.
Jaci não diz
nada. Também não chora. As lágrimas, para quem viveu o que elas viveram,
secaram há muito, ou então desceram todas para dentro, formando um lago salgado
no fundo do peito, onde se afogam as poucas palavras que ainda gostariam de ser
ditas. Estende a mão torta, a mão de carrinho de reciclagem, e toca de leve o
ombro da amiga. O toque é tão suave que parece não tocar, mas Gerusa sente, e
os olhos lúcidos desviam-se um instante do teto de lona para encontrar os olhos
de Jaci. Não precisam de falar. Entre duas mulheres que partilharam o mesmo
prato de sopa rala, que dormiram abraçadas para se aquecerem no inverno, que
enterraram os filhos uma da outra quando eles morriam de coisas que os médicos
da cidade chamavam de “evitáveis”, entre essas duas mulheres as palavras são
supérfluas. Um olhar basta. E o que os olhos dizem, nesse momento, é isto: “Vai
ficar tudo bem.” Ou talvez digam: “Não ficas sozinha.” Ou talvez digam apenas:
“Adeus, amiga.” Difícil saber, porque os olhos, ao contrário da boca, mentem
menos, mas falam numa língua que ninguém aprendeu nas escolas.
Lá fora, do lado
de fora da lona rasgada, o mundo continua. Os camiões passam na estrada, os
homens das fábricas entram e saem dos turnos, os prédios da cidade crescem em
linha de atiradores, e as autoridades competentes assinam papéis que autorizam
a demolição das barracas para dar lugar à terceira fase. Ninguém sabe que, ali
dentro, uma mulher chamada Gerusa está a morrer. E se soubessem, provavelmente
não fariam nada, ou fariam apenas o suficiente para que a consciência não lhes
pesasse na hora do almoço. Porque é assim o mundo: para uns, a morte é
tragédia, é notícia, é assunto de jornal; para outros, é apenas o fim natural
de uma vida que nunca foi considerada princípio. Jaci, porém, não pensa nessas
coisas. O que ela pensa, enquanto os dedos tortos acariciam o ombro imóvel da
amiga, é que amanhã terá de sair para catar papel, porque senão não comem, e
que, quando voltar, talvez já não encontre Gerusa a olhar para o teto de lona.
Pensa que deveria rezar, mas já não se lembra de nenhuma oração, ou lembra-se,
mas as palavras parecem-lhe vazias, como as latas que amassa antes de vender.
Pensa, enfim, que a morte, afinal, é mesmo como dizem os velhos: uma porta que
se abre. E que Gerusa, nesse momento, já tem a mão no puxador. Só não entra
ainda porque há qualquer coisa, talvez a amizade, talvez o hábito, talvez essa
teimosia de quem passou a vida a resistir, que a prende mais uns minutos a este
lado da soleira.
Do lado de fora,
um cão ladra. Do lado de dentro, Gerusa suspira. E o tempo, que para uns corre
veloz como a furgoneta de Cipriano Algor, para ali se arrasta, lento como a
última gota de um soro que ninguém veio trocar.
II
E Jaci segurou a mão trêmula da amiga. A mão de Gerusa, que
outrora fora ágil a separar o papel do plástico, a lata do vidro, agora tremia
com um tremor fino, desses que vêm de dentro, dos ossos, como se o corpo já se
estivesse a despedir das suas partes uma a uma. Jaci apertou-a devagar, com a
força cautelosa de quem não quer partir o que já está partido, e sentiu os
dedos da amiga responderem com um leve movimento, um quase-nada, um pressionar
de polpa que dizia, ainda estou aqui, ainda sinto. E foi nesse aperto, nesse
contacto de peles que o sol e o frio e o trabalho haviam tornado ásperas como
lixa, que o tempo se dobrou sobre si mesmo e levou Jaci para trás, para um
lugar onde Gerusa não tremia e onde as pernas ainda aguentavam horas de
caminhada debaixo do sol impiedoso de Santa Cruz do Calvário.
Santa Cruz do Calvário. O nome, diziam, vinha de uma antiga
missão que os padres tinham erguido ali, nos idos de quinhentos e qualquer
coisa, mas os padres há muito tinham partido e a cruz apodrecera, e o calvário,
esse, ficara, porque não há lugar mais calvário do que um lixão a céu aberto
onde cem famílias buscam o sustento no que as outras cem mil deitaram fora. Foi
lá, nas tardes escaldantes, que Jaci e Gerusa aprenderam o ofício de viver do
resto. Chegavam cedo, antes que o sol começasse a queimar a pele, cada qual
empurrando o seu carrinho de mão, desses que se constroem com rodas de carrinho
de feira e uma caixa de madeira apodrecida, e passavam as horas a revirar
montanhas de plástico, montanhas de papel, montanhas de tudo o que a cidade
consumia e esquecia. Trabalhavam de luva, quando havia luvas, e quando não
havia, trabalhavam com as mãos nuas, e os cortes, os arranhões, os pregos
enferrujados que se cravavam na carne, esses eram o preço que se pagava para
ter o que comer no dia seguinte. Não era bonito. Não era digno. Não era nada
daquilo que os poetas chamam de luta e os políticos chamam de resiliência. Era
apenas sobrevivência, e a sobrevivência, ao contrário do que se diz por aí, não
tem nada de poético. Tem cheiro a podre, tem gosto a poeira, tem o peso das
costas que doem e das pernas que vergam.
Mas,
curiosamente, havia momentos em que riam. Sim, riam. Sentadas em cima de um
fardo de papelão já amarrado, com o rosto suado e as mãos negras de sujidade,
contavam histórias que ninguém mais queria ouvir, inventavam nomes para os
ratos que fugiam entre os montes, faziam apostas sobre qual caminhão viria a
seguir, se o da coleta de lixo hospitalar, que era perigoso, mas trazia
seringas de plástico duro, bom para reciclar, ou se o das sobras de construção,
cheio de fios de cobre, que valiam dinheiro. E riam. Riam de fome, talvez,
porque a fome, quando aperta, tem destas coisas: ou se chora ou se ri, e como
chorar já tinham chorado o suficiente nos anos anteriores, sobrava-lhes o riso.
Um riso seco, rouco, um riso que mais parecia tosse, mas era riso. E quando uma
delas encontrava uma latinha de cerveja ainda com um gole dentro, dividiam-na,
bebiam as duas, e depois esmagavam a lata com o pé, contentes com o pequeno
luxo. Aqueles eram os dias bons. Os dias menos maus. Os dias em que, apesar de
tudo, ainda valia a pena acordar no dia seguinte.
Foi num
desses dias, uma tarde de setembro em que o sol parecia uma bigorna a martelar
as cabeças, que encontraram o brinquedo. Estava enterrado debaixo de uma camada
de restos de comida e jornais velhos, coberto de moscas e de uma matéria
pegajosa que mais valia não identificar. Gerusa viu primeiro, um braço de
boneca a espreitar entre os plásticos, e, com um gesto que já era hábito,
enfiou a mão na podridão e puxou. Era uma boneca de pano, dessas antigas, com o
rosto pintado à mão, os olhos azuis desbotados, o vestido de chita rasgado num
ombro. Faltava-lhe uma perna, faltava-lhe um braço, tinha o cabelo emaranhado
como ninho de rato, mas ainda se adivinhava nela o que outrora fora: um objeto
de afeto, uma companheira de infância de alguma menina que já seria mulher, se
não tivesse sido levada pela guerra ou pela peste ou pela simples dureza de
crescer num mundo que não perdoa. Gerusa olhou para a boneca com uma expressão
que Jaci nunca lhe tinha visto, uma mistura de ternura e ferocidade, como se
estivesse a ver ali não um trapo sujo, mas um pedaço de si mesma que julgava
perdido. Vou levar, disse. Para quê, perguntou Jaci, que não entendia. Para a
minha neta, respondeu Gerusa. E Jaci não disse nada, porque sabia que Gerusa
não tinha neta, nem filha, nem ninguém a quem dar bonecas. O único filho que
tivera morrera aos três meses, de uma tosse que não sarou, e o pai do menino,
se é que se podia chamar pai a um homem que desapareceu assim que soube da
gravidez, esse nunca mais apareceu. Mas não disse nada. Deu apenas um sorriso
entortado e ajudou a amiga a pôr a boneca em cima do carrinho, em lugar de
destaque, como quem leva um tesouro.
Durante os dias
seguintes, Gerusa trabalhou com um afinco que Jaci não lhe conhecia. Separava
mais depressa, andava mais rápido, falava menos. Chegava ao barraco ao fim da
tarde, lavava as mãos no balde de água da chuva, e sentava-se à luz débil de
uma vela para consertar a boneca. Usava arame que desencapava dos fios de
cobre, agulha que desenferrujava com vinagre, retalhos de tecido que tirava de
roupa velha. Costurava, remendava, modelava. Deu-lhe uma perna nova, feita de
esponja cortada e forrada com um pedaço de meia, e um braço novo, menos
perfeito que o original mas funcional. Lavou-lhe o cabelo com sabão de cinza,
penteou-o com os dedos, amarrou-lhe uma fita amarela que encontrou no lixo,
dessas que servem para fechar pacotes de pão. E quando a boneca ficou pronta,
Gerusa sentou-a na beirada da cama, olhou para ela com os olhos brilhantes, e
disse, Pronta. Não foi preciso dizer para quem. Jaci sabia que a boneca era
para a neta imaginária, essa menina que nunca nasceu, que nunca chorou, que
nunca pediu colo, mas que, na cabeça de Gerusa, existia mais real do que muitas
crianças de carne e osso. A neta, pensava Gerusa, teria cabelo comprido e
gostaria de bonecas, e quando viesse visitá-la, sentar-se-ia no seu colo e
brincaria com os cabelos da avó, e a avó contaria histórias de quando era nova
e trabalhava no lixão, e a neta riria, porque as crianças, felizmente, não
entendem o que é a pobreza até que a pobreza lhes bata à porta. Mas a neta
nunca veio. E Gerusa, com os anos, foi guardando a boneca num saco de plástico,
enrolada num pano, como quem guarda um sonho que sabe que nunca se realizará,
mas que não tem coragem de deitar fora.
Agora,
tantos anos depois, ali no barraco que o vento sacode, com a amiga a morrer
devagar, Jaci lembra-se da boneca. Não sabe o que lhe aconteceu. Talvez se
tenha perdido nas mudanças, nas deslocações de barraca em barraca, nas vezes
que a polícia veio com as pás mecânicas derrubar tudo e eles tiveram de fugir
com o que podiam carregar nos braços. Ou talvez ainda esteja ali, algures,
enfiada num canto, coberta de pó e de teias de aranha, à espera de uns dedos
que a tornem a erguer. Jaci não sabe. Mas a memória, essa, está viva, e
enquanto segura a mão da amiga, oferece-lhe como se oferece um cobertor numa
noite fria. Lembra-te, Gerusa, da boneca? Daquela que achámos no lixão de Santa
Cruz? Lembras-te de como a consertaste com arame e retalhos, e lhe puseste uma
fita amarela? Lembras-te de que ficou bonita, mais bonita do que muitas bonecas
de loja, porque tinha o amor das tuas mãos? E parece que Gerusa ouve, porque os
olhos lúcidos, que há minutos fitavam o teto de lona, agora se viram para Jaci,
e neles há qualquer coisa que brilha, um reflexo, uma centelha. Talvez seja a
memória a acordar. Talvez seja apenas a luz que entra por um rasgão e bate na
humidade dos olhos. Mas Jaci prefere acreditar que é a amiga, que ainda ali
está, a sorrir por dentro, a lembrar-se da neta que nunca teve, da boneca que
nunca ninguém abraçou, e de todas as tardes em que, debaixo do sol de Santa
Cruz do Calvário, riram de fome e viveram do resto.
São memórias
pobres, pensa Jaci. Não há nelas mansões nem viagens nem jantares em
restaurantes com toalha de linho. Há apenas duas mulheres sujas, um carrinho de
mão, um monte de lixo, e uma boneca sem perna encontrada por acaso. Mas são
memórias quentes, dessas que aquecem o peito quando o frio aperta, e que fazem
com que uma morte, mesmo a morte, pareça menos gelada. E Jaci, enquanto
acaricia o dorso da mão trêmula de Gerusa, vai trazendo outras recordações: o
dia em que acharam um livro, não inteiro, com as páginas arrancadas, mas com
algumas histórias legíveis, e Gerusa fingiu que sabia ler e inventou uma
história de princesas e dragões só para a fazer rir; o dia em que choveram três
dias seguidos e elas se abrigaram debaixo de uma lona que quase voava, e
partilharam um cigarro achado no lixo, dando cada uma duas passas; o dia em que
Gerusa cortou o dedo num vidro e Jaci usou a sua própria camisa para estancar o
sangue, e depois andaram as duas sem uma manga, porque a camisa ficou
inutilizada, mas riram tanto que nem sentiram a dor. São pequenas coisas, quase
nada. Mas é desses nadas que se faz uma vida, e de algumas vidas, pensa Jaci,
até se faz um céu, se o céu for generoso o bastante para aceitar quem nunca
teve terra.
Lá fora, o vento mudou. Agora sopra do norte, trazendo o
cheiro das fábricas e um rumor de máquinas que não param. Lá dentro, o silêncio
é quase completo. Apenas a respiração de Gerusa, que se torna mais espaçada,
mais funda, como as ondas quando se afastam da praia. Jaci continua a
segurar-lhe a mão, a oferecer-lhe memórias, a cobri-la com o cobertor invisível
das lembranças. E sabe, com a certeza que só quem já perdeu alguém pode ter,
que a noite que se aproxima é a última. Mas não tem medo. Porque a morte, para
quem viveu do que os outros deitavam fora, é apenas mais um tipo de descanso, e
o descanso, depois de setenta e dois anos de carrinho de mão, é a única coisa
que realmente faz falta. Apertou a mão da amiga com mais força, como quem diz,
Vai, eu fico. E Gerusa, talvez, entendeu. Porque os olhos, que há pouco
brilhavam, agora se fecharam devagar, como cortinas que descem no fim do espetáculo,
e o peito subiu uma, duas, três vezes, e depois parou. E ficou o silêncio. E a
mão de Jaci, ainda à volta da mão fria de Gerusa. E lá fora, o vento, e as
máquinas, e o mundo indiferente continuando.
III
Gerusa, porém, não quer piedade. A piedade,
bem o sabem as duas, é um luxo dos que têm tempo para sentir dó dos outros, um
sentimento que se usa e se deita fora como as sobras que elas tantas vezes
comeram. Gerusa não quer lágrimas em cima dela, nem promessas de que vai ficar
tudo bem, porque nada fica bem, nunca ficou, e seria agora, à beira da morte,
que as coisas haviam de endireitar-se? Não. O que Gerusa quer é outra coisa.
Quer uma última refeição. Quer sentir na língua, antes que a língua se lhe paralise
de vez, o gosto de comida de verdade, não desses restos que se aquecem com água
e se chamam sopa, nem dessas frutas passadas que os feirantes atiram fora
porque já não servem para vender. Quer um prato inteiro, com carne, se
possível, com caldo grosso, com cheiro a tempero, desses que ficam nos dedos e
na memória. "Não vou partir com a barriga vazia, Jaci. Já passei fome
demais nessa vida", sussurra, e a voz sai arrastada, pastosa, como se as
palavras tivessem de atravessar um lamaçal antes de chegar aos lábios. Mas
chegam. E chegam claras. Porque há fomes que não se curam com o tempo, há fomes
que se instalam nos ossos e dali não saem mais, e mesmo agora, quando o corpo
já desiste, a barriga lembra-se de todos os dias em que não houve nada, e pede,
pede, pede. É uma desforra. É uma justiça pequena, a única que ainda pode
alcançar.
Jaci enxuga os olhos com a manga da blusa
rasgada. A blusa, que fora azul um dia, agora é duma cor indefinida, desbotada
pelo sol e pelas lavagens na bica, e a manga, de tanto servir de lenço, tem uma
nódoa escura que parece luto antecipado. Mas não há tempo para luto, não há
tempo para mais lágrimas. Ela sabe que o médico do município, o Doutor
Alexandre, virá ao entardecer, como veio nas últimas vezes que alguém do bairro
agonizou sem remédio, para aplicar os sedativos que apagam a dor e apressam a
partida. O Doutor Alexandre é um homem novo, de trinta e poucos anos, com
olheiras fundas e um cansaço que não vem do corpo, mas da alma, da raiva surda
de quem estudou para curar e passa os dias a assistir a mortes que a falta de
tudo tornou inevitáveis. Não há câncer ali, não há tumor, não há doença rara
que os hospitais da capital estudam em congressos. Há apenas uma bactéria que
um antibiótico barato mataria em três dias, mas o posto de saúde mais próximo
fica a vinte quilómetros, e a ambulância, quando há combustível, só vem para os
casos que dão notícia no jornal. Por isso o Doutor Alexandre vem com as suas seringas
e os seus frascos de morfina genérica, e aplica o que pode aplicar, e fica em
silêncio, e depois vai embora. É um ato de clemência, sim, se é que se pode
chamar clemência a apressar o que a negligência já tornou inevitável. Neste
lugar onde a prefeitura nunca construiu nem um posto de saúde, onde a única
farmácia é a mala do médico que chega de dois em dois meses, a clemência tem
este sabor amargo: mata-se a dor matando o doente. Mas ninguém diz isso em voz
alta, porque as palavras, quando são verdadeiras, também doem.
Jaci levanta-se. As pernas, que há pouco
pareciam de pau, encontram uma força que ela não sabia que ainda tinha. Pega no
balde furado que serve para trazer água da bica e para, quando é preciso, pedir
esmolas. É um balde de plástico amarelo, desses de obra, com um buraco no fundo
que ela tapou com um bocado de saco e arame, mas que continua a perder água
devagar, como se o balde, tal como a vida, tivesse uma ferida que não
cicatriza. Enrola na cabeça um lenço de pano para se proteger do sol, enfia os
pés nas chinelas de dedo que têm a sola mais gasta de um lado que do outro, e
olha para Gerusa antes de sair. A amiga está de olhos fechados, mas não dorme.
A respiração é curta, irregular, como um motor a falhar. Jaci sabe que o tempo
é contado, mas o tempo, para quem não tem relógio, é sempre uma incógnita. Pode
ser uma hora, podem ser três. O que importa é que ela volte antes que o Doutor
Alexandre chegue, volte com a comida, e possa pôr nos lábios da amiga o último
gosto, o último prazer, a última vingança contra uma vida que lhe negou quase
tudo.
Sai porta
afora. O barraco fica na última fileira, a que mais perto está da Cintura
Industrial, ali onde o cheiro a químico se mistura com o cheiro a esgoto e a
fumaço. As ruas de terra batida estão desertas a esta hora, porque os homens e
as mulheres estão nas fábricas ou nos lixões, e as crianças, as poucas que
ainda não foram levadas pelos assistentes sociais, brincam nos terrenos baldios
com paus e pneus velhos. Jaci conhece cada palmo daquele chão, sabe onde pisar
para não escorregar na lama, sabe quais as esquinas onde os carros passam mais
depressa e onde é preciso esperar. Caminha sem pressa aparente, mas no peito o
coração acelera, porque cada minuto que passa é um minuto que Gerusa espera, e
a espera, quando se está a morrer, é um peso que ninguém devia carregar.
Chega à
avenida, a mesma por onde Cipriano Algor passou horas antes com a sua furgoneta
carregada de louças. Agora o trânsito é mais intenso, os camiões vão e vêm, os
carros buzinam, os motoqueiros serpenteiam entre os veículos com uma agilidade
suicida. Jaci senta-se no passeio, encosta o balde furado à sua frente, e
espera. Não pede com palavras, porque as palavras, para quem pede, são uma
humilhação que se aprende a evitar. Basta estar ali, com a roupa suja, o rosto
marcado, as mãos estendidas sobre os joelhos. Quem quer dar, dá; quem não quer,
passa ao lado sem olhar, e muitas vezes até olha, mas olha como se olha para um
móvel velho na calçada, um objeto que já não serve e que ali ficou à espera do
lixeiro. Jaci já não se ofende com esses olhares. Ofendeu-se nos primeiros
anos, quando veio da roça com o marido que a espancava e um filho nos braços, e
pensava que a cidade era feita de oportunidades. Depois aprendeu que as
oportunidades, na cidade, são como as frutas na feira: as bonitas vão para as
bancas, as estragadas vão para o chão, e as que vão para o chão só têm valor
para quem está disposto a sujar os dedos. Ela sujou os dedos. Durante décadas.
E agora, aos setenta e dois, continua a sujá-los, porque a dignidade, ao
contrário do que ensinam os padres, não enche a barriga.
Uma senhora de
vestido florido passa, olha, hesita, mete a mão na bolsa. Tira uma nota de dois
reais, amassada, e deixa cair no balde, sem tocar em Jaci, como se a pobreza
fosse uma doença que se pega pelo contacto. Uma criança, que vem de mão dada
com a mãe, aponta para a velha e pergunta, Mãe, por que ela está sentada no
chão? E a mãe, puxando-a pelo braço, responde, porque não trabalha, meu amor.
Não trabalha. Jaci ouve e não diz nada. O que diria, se falasse? Diria que
trabalha desde os sete anos, que já carregou mais peso do que aquela mulher
jamais carregará, que já teve os pés deformados de tanto andar, que já passou noites
sem dormir a catar latinhas à luz de isqueiro, que já criou sozinha um filho
que a abandonou assim que pôde, que já enterrou uma amiga que não tinha nome no
registro, que já trabalhou, sim, trabalhou mais do que qualquer daqueles que
passam e desviam o olhar. Mas não diz. Porque a verdade, quando dita a quem não
quer ouvir, é como a chuva no asfalto: escorre e não penetra.
Outras moedas
caem. Um trocado aqui, outro ali. Uma senhora mais nova, de bata branca, que
deve ser cozinheira num dos armazéns, aproxima-se com um pacote de pão de forma
e dois iogurtes que estão a chegar ao prazo. Toma, minha velha, leva para a sua
amiga, Deus há-de recompensá-la. Jaci agradece com um movimento de cabeça,
guarda tudo no balde, e continua à espera. O dinheiro que tem, juntado com as
moedas e a nota de dois reais, talvez dê para comprar um prato de comida no
boteco do Seu Nunes, ali ao fundo da avenida. O Seu Nunes é português, veio
para o Brasil há quarenta anos, abriu o boteco com o dinheiro que ganhou a
vender frutas na feira, e ainda guarda um coração generoso para os velhos do
bairro. Às vezes, quando sobra arroz e feijão, ele dá de graça, ou cobra apenas
o que a pessoa pode pagar. Jaci reza mentalmente para que hoje seja um desses
dias. Não uma reza de igreja, com Pai-Nosso e Ave-Maria, dessas ela já não se
lembra. É uma reza confusa, um pedido que sobe ao céu sem saber a quem se dirige,
como um barco sem leme. Que haja comida. Que o Seu Nunes esteja de bom humor.
Que o Doutor Alexandre demore. Que Gerusa ainda esteja acordada quando eu
voltar.
Levanta-se,
estica as costas que doem, e começa a andar em direção ao boteco. O balde,
agora com algumas moedas, o pacote de pão e os iogurtes, pesa menos do que o
balde cheio de água, mas parece mais pesado, porque carrega dentro de si a
esperança de uma mulher que vai morrer e que pediu, como último desejo, um
prato de comida. E Jaci pensa, enquanto caminha, que nunca ninguém lhe pediu
nada tão difícil. Não porque arranjar comida seja difícil, embora também o seja,
mas porque o difícil é saber que depois dessa comida, depois desse último
prazer, a amiga se irá embora, e ela, Jaci, ficará sozinha com as memórias, o
balde furado, e o silêncio de um barraco onde antes havia duas respirações e
agora há apenas uma. Mas não chora. As lágrimas, já se disse, secaram há muito.
O que resta é uma dureza, uma teimosia, uma força que ela própria desconhecia e
que a mantém de pé enquanto o sol começa a descer e o entardecer se aproxima,
trazendo consigo o médico, a seringa, e o fim.
IV
A
poucos metros da Vila do Papelão ergue-se o muro branco do Colégio Santo
Antônio. É uma construção antiga, dos tempos em que os frades ainda percorriam
a região a batizar índios e a abençoar terras, mas as reformas sucessivas lhe
deram um ar moderno, quase intocável, como se o tempo ali não passasse ou
passasse apenas para limpar o que há de sujo no mundo. O muro, esse, é alto, uns
três metros de altura, rematado por um gradeamento de ferro forjado que termina
em pontas de lança, para que ninguém tenha a ousadia de o transpor. Sobre o
portão principal, uma placa de bronze polido traz, em letras douradas, o lema
da instituição: “Garanta o futuro e o sucesso de seu filho.” Não diz o futuro
de quem, nem o sucesso de quem, porque esses pronomes, no Colégio Santo
Antônio, são considerados desnecessários: entende-se, sem que seja preciso
explicitar, que o futuro e o sucesso são para os que ali estão, para os meninos
de camisa engomada e as meninas de saia xadrez, para os filhos dos médicos, dos
engenheiros, dos juízes que um dia eles próprios virão a ser. O resto, o que
fica do lado de fora do muro branco, esse resto não tem futuro, ou tem um
futuro de segunda, desses que se aprende nas escolas públicas, quando há
escola, e que conduz, quando conduz, aos empregos de servente, de vigia, de
doméstica, de catador de lixo. É a ordem natural das coisas, dizem os pais na
reunião de pais e mestres. É o mérito, dizem os professores no dia da
formatura. E ninguém pergunta onde fica o mérito de quem nasceu do lado errado
do muro.
Lá dentro, as
crianças fardadas aprendem a ser os futuros governantes de Santa Cruz do
Calvário. Aprendem latim, se possível, e inglês, certamente, e matemática de
cálculos diferenciais, e redação com citações de autores que as crianças da
Vila do Papelão nunca ouvirão nomear. Aprendem, sobretudo, a distinguir-se. A
saber que são diferentes. Que o suor, para elas, é coisa de ginásio, e que a
fome é um conceito abstrato que se estuda nos livros de História, ao lado da
Idade Média e da Revolução Francesa. O edifício é amplo, arejado, com
corredores de mármore e um pátio interior onde há uma fonte com carpas e um
jardim que um jardineiro de verdade, desses que ganham salário mínimo e moram
na periferia, vem podar todas as semanas. As carteiras são novas, de madeira
nobre, e os quadros são brancos, de vidro, com marcadores que não soltam pó. Há
biblioteca, há laboratório de ciências, há ginásio coberto, há até uma capela,
para os que querem começar o dia com uma oração. Tudo limpo, tudo organizado,
tudo como deve ser para quem paga cinco mil reais de mensalidade e ainda
contribui com um “fundo de solidariedade” que, segundo o prospecto, serve para
“levar esperança às comunidades carentes do entorno”. O que o prospecto não diz
é que essa esperança se materializa, uma vez por ano, na forma de cestas
básicas com produtos de marca própria, daquelas que sobram no supermercado do
pai de um aluno, e que as crianças, vestidas a caráter com camisetas do
colégio, vão distribuir no Natal, sob o olhar das câmaras de televisão que
registam o gesto magnânimo dos futuros líderes. Depois voltam para o conforto
das suas casas, e as barracas continuam ali, do outro lado do muro, como uma
paisagem que se vê da janela do carro, que se comenta com um “é uma pena”, e
que se esquece assim que o sinal abre.
Mas hoje, no
intervalo, o que corre entre os alunos não é lição. Os cadernos permanecem
fechados sobre as carteiras, os lanches, sanduíches naturais, sucos de
caixinha, biscoitos importados, são comidos depressa para que sobre mais tempo
de conversa. Porque um boato suculento, desses que fazem os olhos brilharem e
as vozes baixarem a um sussurro, percorre os corredores do Colégio Santo
António como um vírus que ninguém quer deter. Começou não se sabe onde, talvez
na cozinha, onde uma das funcionárias, que mora na Vila do Papelão, ouviu de
vizinhos; talvez no portão, onde um dos seguranças trocou palavras com um
entregador; talvez até na sala dos professores, porque os professores, sendo
humanos, também gostam de uma fofoca. A verdade é que, em menos de meia hora,
todos sabem: há uma mulher na favela, uma velha catadora de lixo, que está
morrendo. E o Doutor Alexandre, o médico do município, aquele que às vezes vem
ao colégio dar palestras sobre “prevenção e saúde para jovens”, aquele mesmo
que usava um terno azul e mostrava gráficos no projetor, o Doutor Alexandre
virá ao entardecer apressar a sua morte. A expressão que circula, de boca em
boca, é sempre a mesma: “apressar a morte”. Umas crianças dizem “apressar”,
outras dizem “adiantar”, outras, mais ousadas, dizem “fazer morrer”. E há nos
olhos delas um brilho que não é propriamente compaixão, nem curiosidade
mórbida, mas qualquer coisa entre o fascínio e o horror, desses sentimentos que
os livros de moral classificam como “complexos” e que os psicólogos chamam de
“dissonância cognitiva”. Porque, ao mesmo tempo que acham terrível que uma
velha morra sem assistência, acham também fascinante que um médico, que eles
conhecem e respeitam, esteja envolvido numa coisa tão feia. E há ainda um
terceiro sentimento, mais secreto, que nenhum deles confessaria em voz alta: o
alívio de que isso lhes acontece aos outros, aos que vivem do outro lado do
muro, àqueles cujos nomes eles não sabem e cujos rostos não distinguem. O
alívio de que a morte apressada, a fome, a doença, a miséria, tudo isso fica do
lado de fora. Do lado de dentro, há apenas o sol da tarde batendo nas letras
douradas, o cheiro da grama recém-cortada, e o tilintar dos talheres de inox na
cantina.
Ouvi dizer que
a velha tem uma bactéria que come os nervos, diz uma menina de tranças, sentada
no banco de pedra junto à fonte. Começa pelos dedos, sobe, sobe, até chegar ao
cérebro. A minha mãe disse que é contagioso. Não é contagioso, imbecil, responde
um menino de óculos, filho de um juiz, que se julga mais informado porque lê
revistas de ciência. É uma bactéria oportunista. Só ataca quem tem o sistema
imunológico fraco. Gente desnutrida, sabe? A minha mãe disse que o Doutor
Alexandre vai lá hoje à tarde com uns remédios. Remédios para apagar a dor. Mas
a empregada cá de casa, que é da vila, disse que os remédios são para matar,
porque o posto não tem antibiótico. E que ele faz isso sempre, quando não há
jeito. Silêncio. As carpas, na fonte, sobem à superfície a abrir a boca, à
espera de migalhas. Um menino mais novo, de oito anos talvez, que ainda não
aprendeu a disfarçar os sentimentos, pergunta, mas isso não é matar? O médico
não pode matar. Isso não é crime? O menino de óculos encolhe os ombros, num
gesto que ensaiou muitas vezes ao espelho para parecer despreocupado. Não é bem
matar. É... abreviar o sofrimento. Chama-se eutanásia. A minha mãe disse que em
alguns países é permitido. Aqui não, mas... no fundo, é uma piedade. Coitada, a
velha. Não tem família, não tem nada. É melhor assim. A menina de tranças
acrescenta, com um ar de quem dá a última palavra, o meu pai disse que a
prefeitura vai fazer uma campanha para arrecadar fundos e construir um posto de
saúde na vila. No ano que vem, talvez. Disse que vão pôr o nome do médico, se
ele se candidatar a vereador. O menino mais novo insiste, porque as crianças
têm essa mania de não largar o osso, mas a velha vai morrer hoje. O posto, se
fizerem, vai ficar pronto quando ela já estiver morta.
Ninguém responde.
Porque a resposta, mesmo para uma criança de oito anos, é óbvia: os mortos,
neste mundo, não contam. Contam os vivos que votam, que pagam impostos, que
consomem. Os mortos da Vila do Papelão são apenas números numa estatística que
ninguém lê, nomes que se perdem no cartório como se perde uma nota velha no
bolso de um casaco que já não se usa. O menino de óculos, para mudar de
assunto, tira do bolso um telemóvel último modelo e começa a mostrar aos
colegas um jogo novo que o pai lhe instalou. A menina de tranças tira uma
selfie junto à fonte, com as carpas ao fundo, e publica no Instagram com a
legenda “#tardezinha #colegio #amigos”. O menino mais novo fica ali, parado, a
olhar para o muro branco. Para o lado de lá do muro, ele sabe, há a Vila do
Papelão. Nunca lá entrou, mas já viu fotografias numa reportagem da televisão.
Barracos de lona, crianças descalças, gente sentada no chão. Imaginou, por um
instante, o que seria estar na pele da velha que vai morrer, e sentiu um
arrepio que não soube bem se era medo ou vergonha. Depois o telemóvel apitou,
uma notificação qualquer, e o pensamento se dissolveu como as carpas na água
escura.
O sinal toca. As
crianças voltam às salas de aula, as portas de vidro fecham-se com um clique
suave, e o silêncio, um silêncio caro, comprado, artificial, instala-se de novo
nos corredores de mármore. Lá fora, do outro lado do muro branco, Jaci caminha
em direção ao boteco do Seu Nunes com o balde furado numa mão e, na outra, a
esperança de que ainda haja tempo. O sol começa a descer, pintando de laranja as
torres do colégio, e as letras douradas, nessa luz, parecem arder. “Garanta o
futuro e o sucesso de seu filho.” O futuro. O sucesso. O filho. Nada disso,
pensaria Jaci, se lesse a placa, nada disso é para os meus. Os meus, quando têm
futuro, é futuro de lixo, e sucesso, para eles, é sucesso de sobreviver mais um
dia, e filho, quando têm, é filho que lhes morre nos braços ou foge para não
ver a mãe envelhecer. Mas não lê a placa, não sabe que existe, não lhe
interessa. O que lhe interessa é o boteco, o arroz com feijão, a carne, se
houver, e o rosto da amiga que a espera, com a boca seca e o olhar lúcido, a
pedir, antes de partir, o gosto da comida de verdade.
V
Aproveitando
que o porteiro foi defecar. É assim, com esta vulgaridade que a vida tem, que
se abrem as portas do impossível. O porteiro, um homem gordo de bigode grisalho
chamado Valdomiro, que passou trinta anos a abrir e fechar aquele portão de
ferro forjado, sentiu de repente um aperto no baixo-ventre, desses que não se
pode adiar nem com força de vontade, e pediu ao seu substituto, o vigilante
noturno que ainda não tinha ido embora, que tomasse conta do posto por cinco
minutos. Cinco minutos. Foi o tempo suficiente. Porque os alunos do Colégio
Santo Antônio, treinados em estratégia e em trabalho de equipa pelas aulas de
educação física e pelos jogos de tabuleiro modernos, viram a oportunidade e não
a desperdiçaram. O primeiro a escalar o muro foi um ruivo alto, chamado Artur,
filho de um coronel reformado, que usava as mãos calejadas de tanto treinar na
corda do ginásio. Depois dele, uma menina de tranças, a mesma que há pouco
comentava a morte na fonte das carpas, agarrou-se às pontas de lança do gradeamento
com uma agilidade que surpreendeu os colegas. Depois outros, e outros, e
outros. Saltaram para o lado de fora como quem salta de um trampolim para a
piscina: com medo, mas com a certeza de que a água os receberá. A diferença é
que, ali, do lado de lá do muro, a água não era água, era lama, era poeira, era
um mundo que eles nunca tinham pisado senão pelos vidros fumados dos automóveis
dos pais.
Não levam
flores. Não levam remédios. Não levam um copo de água, nem uma manta, nem
sequer uma palavra de conforto ensaiada na aula de religião. Levam apenas a
curiosidade crua de quem nunca viu a morte de perto. A morte, para aquelas
crianças, é um conceito abstrato, algo que acontece aos avós quando estão muito
velhos, ou aos animais de estimação quando uma doença os leva, ou aos
personagens dos filmes de guerra que o pai deixa ver aos fins de semana. Nunca
viram um corpo a definhar, nunca ouviram uma respiração a apagar-se como o
motor de um carro antigo, nunca cheiraram o odor que o corpo exala quando
começa a despedir-se de si mesmo. Nunca, sobretudo, estiveram na presença de
alguém que sabe que vai morrer e que olha para a morte com olhos de quem já viu
pior. É isso que os atrai, mais do que a velha, mais do que a doença, mais do
que o médico que virá com as seringas. É a sensação de estarem a assistir a um espetáculo
proibido, a uma cena que os livros de ciências descrevem com desenhos
esquemáticos mas que a vida real guarda atrás de portas fechadas, em hospitais
onde eles nunca entram, em casas para onde não são convidados. E, no fundo, há
também qualquer coisa de audácia, de transgressão, de prazer em pisar o
território interdito. Saltar o muro do colégio, atravessar a linha invisível
que separa o asfalto do barro, é uma aventura. E a velha que morre é, nessa
aventura, o troféu.
Correm em
direção à casa de entulho como quem vai ao zoológico ver um animal raro. Os
pés, habituados ao piso liso dos corredores de mármore, escorregam na terra
batida, sujam-se de lama, pisam poças de água suja que não sabiam que existiam.
A menina de tranças perde uma sandália, um menino mais pequeno rasga a camisa
num arame farpado, mas ninguém para. A curiosidade é mais forte do que o
desconforto, e o grupo avança, agora misturado com alguns adolescentes mais
velhos que se juntaram no caminho, atraídos pelo rumor de que algo está a
acontecer, algo que vale a pena ver. O barraco de Gerusa fica na última rua,
naquela que cheira a esgoto e a plástico queimado, mas eles não conhecem o
caminho, e é um gato que lhes mostra, ou antes, um gato preto que foge por
entre as latas e que, ao fugir, traça a direção certa. Seguem-no, como se a
morte tivesse os seus próprios guias, os seus próprios arautos, os seus
próprios sinais.
Enquanto
isso, a notícia se espalha como fogo em palha. Nas lojas próximas, os
funcionários largam balcões e aventais e vêm para a rua, primeiro um, depois
dois, depois um grupo de cinco, de dez, de quinze. A mulher da padaria, que tem
as mãos enfarinhadas, esquece o pão no forno e sai para a calçada, protegendo
os olhos do sol com a mão em pala. O dono da mercearia, que estava a contar
garrafas de refrigerante no depósito, abandona a contagem a meio e fecha a
porta, pendurando um cartaz escrito à mão: “Volto já.” E não volta, ou volta
horas depois, quando a multidão já se dispersou e os clientes já foram comprar
noutro lugar. Os operários da fábrica têxtil, que trabalham em turnos, cruzam
os braços sobre as máquinas paradas e combinam o horário. “Vamos às três”, diz
um, “às três e meia”, diz outro, “quando o médico chegar”, decide o mais velho,
que já viu muitas mortes e sabe que o importante é chegar a tempo do momento
decisivo. Os garis, que varriam a avenida com vassouras de piaçaba, encostam as
vassouras nos postes e acendem cigarros. Uns vão, outros ficam, mas todos olham
na direcção da Vila do Papelão, como se uma força invisível os puxasse para lá.
O que os atrai não é a morte, pensam alguns, porque a morte, naquele bairro, é
tão comum que mal merece comentário. O que os atrai é o facto de a morte estar
a ser apressada. Por um médico. Por um homem que jurou salvar vidas e que
agora, dizem, vem encurtá-las. E há nisso uma transgressão que fascina até os
mais cépticos. Porque se o médico pode matar, então os papéis estão trocados, e
o mundo, que já era confuso, torna-se de repente um lugar onde nada é o que
parece.
Nos bares
da esquina, os homens que bebem cachaça desde o meio-dia levantam os copos e
brindam. “À velha”, diz um. “À velha”, repetem os outros, sem saberem o nome
dela, sem saberem quem é, apenas porque é uma velha, e porque a morte, quando
chega, merece sempre um brinde, nem que seja para afastar o mau agouro. As
mulheres, agrupadas nas portas das barracas, comentam entre dentes, umas com
pena, outras com inveja, outras com um medo que não confessam. “Coitada, ao
menos vai descansar”, diz uma. “Oxalá fosse eu”, suspira outra, que tem um
marido bêbedo e três filhos para criar. “Não digas isso, mulher de Deus, que a
vida é um dom”, ralha a terceira, que frequenta a igreja evangélica aos
domingos e acredita que o sofrimento tem um propósito. E assim, entre comentários
e suspiros, entre copos que se levantam e cigarros que se acendem, a Vila do
Papelão transforma-se numa plateia. O palco é o barraco de Gerusa. Os atores
são Jaci, que ainda não voltou com a comida, o Doutor Alexandre, que ainda não
chegou com as seringas, e a morte, que espera sentada na cadeira de balanço
invisível, aquele lugar que sempre está vago, à espera de alguém que se sente.
Os alunos do
colégio chegam primeiro. Param diante da porta de lona, ofegantes, suados, com
as roupas sujas e os olhos arregalados. Nenhum ousa entrar. Ficam ali, em
semicírculo, como quem assiste a um espetáculo de rua, à espera que o pano se
levante. Um deles, o mais ousado, espreita por uma fenda na lona e vê Gerusa
deitada, imóvel, com os olhos fechados e a boca entreaberta. A respiração é
quase imperceptível, um leve sobe-e-desce do peito que parece estar a pedir
para parar. O menino afasta-se, assustado, e os outros perguntam em coro:
“Viste? Viste?” Ele acena com a cabeça, sem conseguir falar, e há nos seus
olhos um brilho que não é de curiosidade, mas de medo. O medo de que aquela
imagem fique gravada para sempre, o medo de que, ao olhar para a morte, a morte
tenha olhado para ele. E, por um instante, o grupo hesita, alguns pensam em
voltar, outros em entrar, outros em chamar os adultos que já vêm chegando. Mas
não voltam. Ficam. Porque a curiosidade, quando é crua, também é teimosa, e não
há força no mundo que a faça recuar.
Lá longe, do
lado oposto da vila, Jaci sai do boteco do Seu Nunes com uma marmita de
alumínio fumegante nas mãos. O balde furado ficou para trás, esquecido no
balcão, porque não havia como carregar as duas coisas ao mesmo tempo. Ela
caminha apressada, com as pernas a doer, com os pés a arder dentro das chinelas
rotas, com o cheiro da comida a subir-lhe às narinas e a fazer-lhe a boca
molhar. Arroz, feijão, uma posta de peixe frito, farofa, e ainda um pedaço de
pudim que o Seu Nunes deu de presente, “para adoçar a despedida”, disse ele,
com os olhos vermelhos de quem também já perdeu amigos. Jaci não pensa nos
curiosos, não pensa nos alunos, não pensa na multidão que se forma. Pensa
apenas em chegar a tempo. Pensa em pousar a marmita na borda da cama, em abrir
a tampa devagar, em molhar os dedos na comida e levá-los à boca de Gerusa, para
que ela sinta, antes de tudo, antes da seringa, antes do silêncio, o gosto de
viver. Ainda que por um instante.
VI
Em poucas
horas, o que era silêncio de rua, aquele silêncio pesado das horas mortas,
quando o sol aperta e as pessoas se refugiam dentro das barracas com um pano
molhado na cabeça, virou um formigueiro humano. Não há mais espaço para estar
parado. Os que chegam primeiro empurram os que chegaram depois, e os que
chegaram depois empurram os que vêm mais atrás, numa coreografia confusa de
ombros que se chocam e pés que se pisam. As crianças, que até há pouco
brincavam com paus e latas, agora estão montadas nos ombros dos pais para ver
melhor, e os mais velhos, os que já não têm força para ficar de pé, sentam-se
em bancos improvisados de tijolo e assistem de longe, com a resignação de quem
já viu muitas mortes e sabe que esta, apesar de tudo, não é especial. Mas é
especial. É especial porque veio um médico apressá-la, e porque a notícia
correu, e porque as pessoas, quando se juntam, transformam qualquer evento num espetáculo.
Não importa se são ricos ou pobres, crentes ou descrentes, se moram do lado de
cá do muro ou do lado de lá. A morte, essa, é o único espetáculo que iguala as
classes diante do mistério. Diante daquilo que ninguém explica, que ninguém
entende, que ninguém consegue controlar. Diante do fim.
Os
sorveteiros, que têm faro para o negócio como os abutres têm faro para a
carniça, estacionam os seus carrinhos de rodas enferrujadas junto à barreira de
curiosos. Não são sorveteiros formais, desses com uniforme e carteirinha da
prefeitura. São homens e mulheres da própria vila, que compram caixas de isopor
e blocos de gelo e saem a vender picolés de água com sabor, aqueles que custam
um real e derretem antes que se chegue à metade. Mas hoje, com a multidão, o
preço subiu para dois reais, e ninguém reclama, porque o sol está de matar, e a
garganta seca, e a espera é longa. Ao lado dos sorveteiros, os vendedores de
água mineral, se é que se pode chamar mineral à água da bica que eles
engarrafam em garrafas de plástico reaproveitadas, montam caixas de isopor no
asfalto quente, porque o sol daquele dia castiga como praga, como se os céus
tivessem resolvido endurecer a prova. Não há uma nuvem, não há uma brisa, não
há um sopro de alívio. O calor sobe do chão em ondas visíveis, e os rostos da
multidão brilham, cobertos de suor que escorre em pequenos rios pelas faces, se
acumula nas cavidades dos olhos, se mistura com o pó que o vento levanta a cada
passo. O cheiro de suor e terra molhada, porque alguém, não se sabe quem,
derramou um balde de água na entrada do beco, talvez para assentar a poeira,
talvez por um gesto inconsciente de quem quer frescura onde não há, esse cheiro
domina o ar, mas por baixo dele adivinha-se outro, mais denso, mais antigo: o
cheiro da morte que se aproxima, que já está ali, que se sente na pele como se
sente a mudança do tempo.
E a
especulação corre. Corre mais depressa do que a notícia, mais depressa do que
os próprios pés dos curiosos. "Será que ela grita?" pergunta uma
mulher de avental manchado, que largou o tanque de lavar roupa para vir
assistir. "Será que o médico injeta veneno?" responde um homem de
camisa suja de graxa, que veio da oficina de automóveis ali da esquina, sem
sequer ter tirado as luvas. "Veneno não, é morfina", corrige uma
senhora que assiste a programas de televisão sobre medicina e se julga
entendida. "Morfina também mata, se a dose for grande", rebate o
homem da graxa, que já viu um cão morrer assim, depois de uma injeção que o
veterinário chamou de "eutanásia". E as opiniões se cruzam, se
chocam, se desfazem no ar como fumo. Há quem diga que o médico não vem, que é
boato, que nunca se viu um médico na vila a não ser para dar atestado de óbito.
Há quem jure que viu o carro do Doutor Alexandre estacionado no fim da rua, um
carro prateado, quase novo, com o logotipo da Secretaria de Saúde na porta. Há
quem aposte que a velha já morreu, que a Jaci chegou e encontrou o corpo frio,
e que agora está dentro do barraco sozinha, a rezar de olhos abertos porque já
nem sabe as palavras. A verdade, porém, é que ninguém sabe. E é esse não-saber
que alimenta a multidão, que a mantém ali, plantada como árvores numa praça,
com as raízes fincadas na curiosidade e os ramos agitados pelo vento da
especulação.
Os alunos do
colégio, que foram os primeiros a chegar, agora estão misturados com a
multidão, irreconhecíveis. As camisas engomadas sumiram sob as nódoas de lama,
as saias xadrez rasgaram-se nos arames, os cabelos perfeitamente penteados
desmancharam-se com o suor e a humidade. Ninguém diria que aqueles meninos
sujos, com os olhos arregalados e as mãos sujas de terra, são os mesmos que há
poucas horas almoçavam sanduíches naturais na cantina do Colégio Santo António.
Mas são. E há neles, agora, uma excitação que não é apenas curiosidade, é
também um sentimento de pertença. Pela primeira vez na vida, sentem-se parte
daquilo que os livros chamam de "povo". Estão ali, ombro a ombro com
catadores de lixo e operários fabris, com prostitutas e biscateiros, com velhas
desdentadas e crianças descalças. E há nisso uma estranha alegria, uma sensação
de que o muro, por algumas horas, deixou de existir. O muro branco com as
letras douradas. O muro que separa o futuro do sucesso do resto. O muro que,
naquele momento, está ali, atrás deles, vazio, com o porteiro Valdomiro já de
volta ao seu posto, coçando a cabeça sem saber para onde os meninos foram. Não
importa. O que importa é o agora, é o espetáculo, é a velha que vai morrer e o
médico que vem matar.
De dentro do
barraco, ninguém sai. A lona está cerrada, mas por uma fenda vê-se uma sombra
mover-se devagar. É Jaci, que chegou há poucos minutos com a marmita fumegante,
que se ajoelhou ao lado da cama, que abriu a tampa e ofereceu a comida à amiga.
Gerusa, com os olhos ainda lúcidos, abriu a boca como um passarinho que espera
o alimento da mãe, e comeu. Comeu devagar, com intervalos longos entre cada
garfada, porque a doença já lhe roubou a força de mastigar, mas a língua ainda
sente o gosto, e os olhos, enquanto mastiga, brilham de um prazer antigo, quase
esquecido. Jaci não chora. Não chora porque as lágrimas, já se disse, secaram
há muito. Mas os dedos, quando levam o arroz à boca da amiga, tremem. Tremem
como os dedos de Gerusa, num movimento solidário, como se a morte de uma fosse
também a morte da outra, e a vida, aquela coisa frágil que seguravam entre as
duas, se fosse esvaindo por uma fissura que nenhuma delas conseguia tapar.
Lá fora, o sol
começa a descer. O entardecer se aproxima, e com ele, o Doutor Alexandre.
Alguém viu o carro prateado dobrar a esquina, alguém ouviu o motor a chiar,
alguém gritou "Ele vem, ele vem", e a multidão, que até há pouco
conversava em voz alta, calou-se de repente. O silêncio desceu como uma nuvem,
denso, pesado, e no meio do silêncio ouviu-se o barulho de uma porta de carro a
fechar. Depois passos. Passos firmes, de homem novo, de sapatos que pisam a
terra batida sem hesitação. O Doutor Alexandre. De terno branco, como sempre,
com a maleta preta na mão, os olhos fundos, o rosto cansado. Não olha para a
multidão. Atravessa-a como quem atravessa uma sala vazia, sem pressa, sem medo,
com a certeza de quem sabe o que vai fazer e porquê. A multidão abre-se diante
dele, como o mar se abriu diante de Moisés, e fecha-se atrás, num murmúrio de
vozes que se perguntam, "Vai ser agora, vai ser agora". Os
sorveteiros param de vender, os vendedores de água esquecem as caixas de
isopor, as crianças descem dos ombros dos pais, e todos os olhos, sem excepção,
fixam-se na porta de lona do barraco.
O Doutor Alexandre para diante da porta.
Hesita um segundo, apenas um. Depois levanta a mão e bate. Três batidas secas,
como um código. Lá dentro, Jaci ergue os olhos molhados, olha para a marmita
vazia, olha para o rosto sereno da amiga, e suspira. É hora.
VII
Em volta da
casa de Gerusa, madeira podre, plástico encardido, cracas de lama que subiam
pelas paredes como uma doença da terra, forma-se uma praça humana. Não uma
praça com bancos e jardins, dessas que os arquitetos desenham nos livros, mas
uma praça de corpos, de ombros colados, de pés que se arrastam no chão batido,
de braços cruzados sobre o peito ou suspensos ao lado do corpo num gesto de
quem não sabe o que fazer com as mãos. A casa, se é que se pode chamar casa
àquela amálgama de restos, parece menor agora, esmagada pela multidão que a
rodeia. As paredes de madeira podre, onde o cupim fez galerias que parecem
mapas de um país desconhecido, rangem com o vento, como se também elas
estivessem a gemer, a pedir que a morte as leve de uma vez. O plástico
encardido que cobre o telhado, remendado aqui e ali com fita adesiva e sacos de
lixo abertos, estala com o calor, soltando pequenos estalidos que se confundem
com os murmúrios da multidão. E as cracas de lama, aquelas crostas que a chuva
foi deixando ao longo dos anos, subindo pelas paredes como hera negra, dão à
casa um ar de coisa enterrada, de coisa que já pertence à terra mais do que aos
vivos.
Cães de rua,
esses que vivem dos restos dos restos, que dormem nos montes de lixo e acasalam
nas sombras dos becos, ladram e farejam os pés da multidão. Estão confusos com
tanto movimento em um lugar onde só passavam catadores e lixo, onde o silêncio
era a regra e o ruído, a exceção. Um vira-lata amarelo, magro como um
esqueleto, com as costelas à mostra e uma sarna que lhe cobre meio corpo,
aproxima-se de um menino de camisa rasgada e cheira-lhe os dedos, à espera de
uma migalha que não vem. Outro, mais pequeno, de pelo preto e branco, senta-se
no meio do beco e começa a uivar, um uivo longo, triste, que se espalha pelo ar
como um presságio. As pessoas afastam-se dos cães, não por medo, mas por nojo,
porque os cães da vila não tomam banho, não tomam vacina, não são tratados como
os cães de apartamento que usam roupinha no inverno. E os cães, sentindo o
desprezo, afastam-se também, vão deitar-se mais longe, debaixo de um carro
abandonado, de onde continuam a ladrar, mas agora num tom mais baixo, como se pedissem
desculpa por existirem. A multidão, porém, já não repara neles. A multidão tem
outros interesses.
Guardas
municipais chegam. São três, ou quatro, com a pança saliente a transbordar do
cinto de couro preto, com o rádio na cintura a chiar palavras que ninguém
entende, com a boina desabada para um lado e o bigode suado. Tentam conter o
tumulto, ou melhor, tentam dar a impressão de que o estão a conter, porque a
verdade é que são poucos para tanta gente, e o que podem fazer, três homens de
meia-idade contra uma multidão de duzentas, trezentas pessoas? Gritam
"Afastem-se", "Deem espaço", "Isso é propriedade
privada", mas as palavras perdem-se no ar, comem-se umas às outras,
tornam-se um ruído indistinto que ninguém obedece. Um deles, mais corajoso ou
mais tolo, tenta abrir caminho com os braços, empurrando os curiosos para trás,
mas é repelido por um murro no peito, não violento, apenas firme, e recua, com
o rosto vermelho de vergonha e raiva. O que é propriedade privada, nesta vila,
se as casas são feitas de restos e o chão não pertence a ninguém? O que é conter
o tumulto, se o tumulto é a única coisa que faz aquelas pessoas sentirem que
estão vivas? Os guardas desistem. Encostam-se a um poste de madeira, acendem
cigarros, e ficam a olhar, como todos os outros. O rádio continua a chiar, mas
ninguém lhe presta atenção. Porque o verdadeiro espetáculo, o que interessa,
está ali, do outro lado da porta de lona.
Ninguém
avança, porém. É curioso, digno de nota, que aquela multidão que se acotovela,
que se pisa, que se empurra para ver melhor, não ultrapassa uma linha
invisível. Há um limite, um limiar que não é marcado por cordas nem por
barreiras, mas que todos respeitam como se fosse sagrado. É o limiar do abrigo
de lata onde a morte respira devagar. Talvez seja medo. Talvez seja respeito.
Talvez seja a intuição profunda de que há coisas que não se devem perturbar,
momentos que pedem silêncio, espaços que exigem solitude. Ou talvez seja apenas
a certeza de que, se avançarem, verão o que não querem ver: um rosto, um corpo,
uma respiração, uma agonia. E preferem ficar a uma distância segura, onde a
morte é ideia, não é carne. Onde podem sussurrar entre si, comentar, especular,
sem terem de olhar nos olhos de quem se vai. Porque olhar nos olhos de quem se
vai, isso é coisa para poucos. Para Jaci, que está lá dentro. Para o Doutor
Alexandre, que acabou de bater à porta. Para os que amam, ou os que têm o dever
de cuidar. Para os outros, os que estão de fora, basta a curiosidade. Basta o espetáculo.
Basta saber que está a acontecer, ali, a dois passos, e que eles podem ir para
casa, ao fim do dia, e dizer: "Vi a morte. Estive lá. Vi-a de perto."
Mesmo que não tenham visto nada. Mesmo que a morte se tenha mantido invisível,
atrás da lona, como uma atriz que não sai à cena. O que importa é ter estado. É
ter feito parte. É ter estado ali, naquele lugar, naquele momento, quando o
mundo, por um instante, parou para assistir.
O sol,
entretanto, desceu mais um pouco. As sombras alongaram-se, e a fachada da casa
de madeira podre ficou coberta por um véu cinzento, como se o entardecer
quisesse poupar aos olhos da multidão o espetáculo da agonia. Dentro do
barraco, ouve-se um murmúrio. É a voz de Jaci, baixa, quase um sussurro, a
dizer alguma coisa que não se distingue. Depois a voz de Gerusa, mais fraca
ainda, um fio de voz, uma palavra solta que o vento leva antes que chegue aos
ouvidos de fora. Depois o som de uma mala a abrir. O clique do fecho de metal.
O tilintar de frascos de vidro. O Doutor Alexandre prepara as seringas. A
multidão prende a respiração. Os guardas municipais apagam os cigarros. Os
cães, lá longe, calam-se de repente. E a morte, que esperava sentada na cadeira
invisível, levanta-se, estica os membros, e dá um passo em frente. Porque a sua
hora, finalmente, chegou.
VIII
Jaci retorna
do peditório com as mãos vazias. O balde furado, que horas antes levara debaixo
do braço com a esperança de o encher de moedas, agora pende-lhe da mão direita
como um peso morto, uma condenação, uma prova de que o mundo, afinal, não se
compadece. Caminha devagar, arrastando as chinelas de sola gasta, com o rosto
baixo e os olhos secos, os olhos que já não têm lágrimas, mas que ardem como se
tivessem. Na cabeça, o lenço de pano escorregou para trás, deixando à mostra os
cabelos brancos, ralos, sujos de poeira, que o vento agita sem cuidado. As
mãos, essas mãos que já separaram toneladas de plástico e papel, que já
amassaram latas e enfiaram pregos em sacos de estopa, que já acarinharam a
amiga na agonia, agora estão vazias. E não é só de dinheiro que estão vazias.
Estão vazias de esperança, vazias de fé, vazias de qualquer sentimento que não
seja uma tristeza surda, uma raiva contida, uma vergonha que não devia sentir
mas sente, porque a pobreza ensina a vergonha como nenhuma escola ensina
matemática.
Na Vila do
Papelão, ninguém tem dinheiro para dar. Jaci sabia disso antes de sair. Sabia
que os vizinhos, se têm um real, é para comprar pão, e se têm dois, é para o
gás, e se têm cinco, é para o remédio da criança que tossiu a noite inteira.
Sabia que as portas das barracas se fecham quando se ouve o balde a arrastar no
chão, que os olhos se desviam, que as cortinas de pano se fecham depressa, como
se a pobreza dos outros fosse uma doença contagiosa. Mas mesmo assim foi.
Porque o amor, quando é verdadeiro, também é cego, e faz acreditar que o
impossível é possível, que a pedra vai dar água, que o deserto vai florescer.
Foi de barraca em barraca, estendeu o balde, pediu com os olhos, porque a voz,
essa, já não saía. "Não tenho, vizinha", diziam umas. "Hoje não
deu", diziam outras. "Volta amanhã, quem sabe Deus ajuda",
diziam as mais piedosas, como se amanhã fosse um lugar onde se chega sempre,
como se a morte esperasse pelo calendário dos pobres. E Jaci agradecia com um
movimento de cabeça, e seguia em frente, e o balde continuava vazio.
Depois tentou
na cidade. Saiu da vila, atravessou a avenida, chegou às ruas onde as calçadas
são largas e as lojas têm vitrines. Ali, pensou, ali talvez haja gente com
dinheiro, gente que pode dar um trocado sem sentir falta, gente que nem vai
notar a diferença no bolso ao fim do dia. Mas enganou-se. Porque os comprados
da cidade, esses que vivem do outro lado do muro, que frequentam o Colégio
Santo Antônio e fazem compras no supermercado com carrinho de plástico, esses
desviam o olhar quando ela estende o balde. Desviam como se desvia de um buraco
na calçada, como se desvia de um cão morto, como se desvia de tudo o que lembra
que o mundo não é feito apenas de vitrines e sorrisos. Uma senhora de vestido
floral atravessa a rua para não passar perto. Um homem de terno aperta o passo,
olhando fixamente para o telemóvel. Uma criança aponta o dedo, mas a mãe
puxa-lhe o braço e diz baixinho, "Não olhes, filho, não olhes". E
Jaci fica ali, no meio do passeio, com o balde estendido, sentindo o peso do
mundo nas costas, enquanto a cidade flui à sua volta como um rio que não quer
levar os afogados.
Encosta-se
num poste. O poste é de ferro, enferrujado na base, coberto de papéis de aviso
de shows e de procura-se. Encosta-se e chora. Chora em silêncio, como se chora
quando se aprendeu que o choro incomoda, que o choro é feio, que o choro é
coisa de fraco. As lágrimas, que ela julgava secas para sempre, renascem de
algum lugar fundo, talvez do mesmo lugar onde nascem os sonhos quando se tem
coragem de sonhar. Escorem-lhe pelo rosto sulcado, entranham-se nas rugas,
misturam-se com o suor e a poeira, formam pequenos riachos que vão morrer no
queixo. Jaci não as limpa. Deixa-as correr. Porque o chão, ao menos, não desvia
o olhar. O chão recebe tudo, as lágrimas e o sangue, a chuva e o lixo, e nunca
se queixa. A multidão, a que se formou em volta da casa de Gerusa, passa por
ela sem a ver. Estão demasiado ocupados a olhar para a porta de lona, a
especular sobre a seringa, a comentar a cor do céu. Jaci é invisível. É apenas
uma velha encostada a um poste, uma velha com um balde vazio, uma velha que
chora sem fazer barulho. Há tantas, na Vila do Papelão, que já ninguém as distingue.
São como os postes: estão ali, servem para alguma coisa, mas ninguém lhes
pergunta o nome.
O último
pedido de Gerusa, uma refeição farta, com carne e caldo grosso, com cheiro a
tempero e gosto de vida, parece impossível agora. Impossível como pedir à chuva
que não molhe, como pedir ao sol que não aqueça, como pedir à morte que espere.
Jaci fecha os olhos e vê a amiga deitada na cama de tábuas, com os olhos
lúcidos à espera, com a boca seca a preparar-se para o sabor que não virá. O
Doutor Alexandre está lá dentro, talvez já tenha aberto a mala, talvez já tenha
tirado os frascos, talvez já esteja a preparar a seringa que há-de trazer o
descanso. E ela, Jaci, que saiu para arranjar comida, volta de mãos vazias,
como uma promessa quebrada, como uma esperança falhada. "Perdoa-me,
Gerusa", murmura, mas as palavras perdem-se no ar, levadas pelo vento
quente, e ninguém as ouve, nem sequer ela própria.
Mas então. O
então que muda tudo, que chega quando já não se espera, quando a desistência já
se instalou nos ossos e o coração já aprendeu a bater sem razão. Um menino
aproxima-se. Vem do meio da multidão, ou de algum lugar que a multidão esconde,
e para diante de Jaci. É pequeno, não terá mais de dez anos. Usa o uniforme do
Colégio Santo Antônio, camisa branca, calça azul-marinho, emblema bordado no
bolso, e está impecável. Não uma ruga, não uma nódoa, não um fio de cabelo fora
do lugar. As sandálias de couro são novas, reluzem com a luz do entardecer. Os
cabelos, penteados para trás com gel, brilham como se fossem de plástico. Ele
olha para Jaci com uns olhos que não sabem bem o que ver, que alternam entre a
curiosidade e o medo, entre a piedade e a hesitação. Na mão direita, amassada
entre os dedos suados, uma nota de vinte reais. Não é uma nota nova; tem
vincos, está suja, talvez tenha vindo do bolso do pai ou da mesada que a mãe
deu para o lanche da semana. Mas é uma nota. E vale vinte reais.
Jaci levanta os
olhos. Vê o menino, vê o uniforme, vê a nota. Não entende. O que quer aquele
menino, aquela criança limpa, naquele lugar sujo? Porque não está dentro do
colégio, a aprender latim e inglês, a comer sanduíches naturais na cantina? O
menino hesita, olha para trás, como quem se certifica de que ninguém o vê.
Depois estende a mão, a nota amassada, e diz: "É pra tia comer algo
bom." A voz é fina, ainda não mudou, tem o timbre das crianças que
acreditam que o bem que fazem vai mudar o mundo. Depois, sem esperar resposta,
sem esperar um agradecimento, sem esperar nada, ele se vira e some no meio da
multidão. Some como quem tem medo de ser visto a fazer o bem, porque o bem, no
Colégio Santo Antônio, não é coisa que se faça à luz do dia, não é coisa que se
exiba, não é coisa que dê pontos no boletim. Some, e Jaci fica com a nota na
mão. Vinte reais. A mão treme, mas segura firme. A nota é pequena, pesa menos
que uma folha, mas parece pesar uma tonelada.
Jaci olha
para a nota, olha para o balde vazio, olha para a multidão que continua a
ignorá-la. E, pela primeira vez em muitas horas, os cantos da sua boca esboçam
qualquer coisa que poderia ser um sorriso. Não é um sorriso de alegria, porque
a alegria, nessas paragens, é um luxo que se paga caro. É um sorriso de
espanto, de admiração, de uma fé renascida nas cinzas. O menino não sabia,
quando estendeu a nota, que estava a comprar mais do que comida. Estava a
comprar a possibilidade de um último gesto. Estava a comprar a paz de uma
mulher que vai morrer de barriga cheia. Estava a comprar, para Jaci, a certeza
de que nem tudo está perdido, de que ainda há bondade no mundo, mesmo que venha
embrulhada num uniforme impecável e entregue por mãos pequenas que tremem de
medo. Jaci guarda a nota no bolso da blusa rasgada, junto ao coração. Aperta-a
com força, como se fosse um amuleto, como se fosse a própria vida. Depois olha
para o céu, para o sol que se põe, para as nuvens que se tingem de vermelho, e
pensa: "Ainda dá tempo. Ainda dá tempo, Gerusa. Vou buscar a comida. Vou
trazer o melhor que houver. Vais comer, amiga. Vais comer como não comeste em
toda a tua vida." E endireita as costas, aperta o balde debaixo do braço,
e começa a andar. Não para o boteco do Seu Nunes, que já visitou e onde já
gastou as poucas moedas que tinha. Para mais longe. Para a feira, que fica do
outro lado da cidade, onde os preços são mais baixos e onde, com vinte reais,
se compra um frango inteiro, um pouco de arroz, um pouco de feijão, um ovo
talvez, uma fruta. Andará meia hora, talvez mais, mas andará. Porque a última
refeição de Gerusa não pode ser de qualquer maneira. Tem de ser de verdade. Tem
de ser com gosto. Tem de ser com o sabor da vida que se vai, mas que, antes de
ir, quis ficar. E Jaci vai, apressada, com os passos que a idade e a fadiga já
não deviam permitir, mas que o amor, quando é forte, reinventa. Vai. E atrás
dela, o poste de ferro enferrujado fica vazio, e a multidão continua a olhar
para a porta de lona, e o menino do uniforme impecável já não está, como se
nunca tivesse estado. Mas a nota, essa, está no bolso. E a esperança, essa,
renasceu das cinzas como fénix. Pequena, frágil, mas quente. Quente como o
arroz que vai cozinhar. Quente como o frango que vai fritar. Quente como o
abraço que vai dar à amiga, antes que a seringa faça o seu trabalho e a morte,
enfim, a leve para o descanso.
IV
Jaci compra pão, queijo, um pedaço de carne
e duas frutas. A feira já está no fim, as bancas começam a desmontar, os
feirantes gritam os últimos preços numa voz cansada de quem trabalhou desde as
quatro da manhã. Mas há ainda quem venda, há ainda quem aceite os vinte reais
amassados sem perguntar de onde vieram. O pão é fresco, saiu do forno há poucas
horas, tem a crosta estaladiça e o miolo macio que desfaz na boca. O queijo é
branco, curado, desses que se compra em cunha, embrulhado em papel de pão, com
um pouco de suor na superfície que promete sabor. A carne é um pedaço de acém,
não grande, não nobre, mas carne, com gordura e sangue, com cheiro de churrasco
e de festa. As frutas são duas laranjas, escolhidas a dedo, apalpadas com o
cuidado de quem sabe que a doçura se esconde na casca rugosa. Jaci paga, guarda
o troco, algumas moedas que deixam cair no fundo do balde com um tinido seco, e
começa a correr. Sim, a correr. As pernas que há pouco mal se arrastavam agora
voam, esquecendo a idade, esquecendo a dor, esquecendo tudo o que não seja
chegar a tempo. O balde, que antes servia para pedir, agora serve de sacola
improvisada, abanando no ar enquanto ela corre, com o pão e o queijo e a carne
e as laranjas a chocarem-se uns contra os outros numa dança desordenada.
Volta para o
leito de tábuas. A porta de lona está entreaberta, e pela fenda vê-se a sombra
do Doutor Alexandre a mexer nos frascos, a preparar as seringas, a fazer o seu
trabalho com a eficiência de quem já fez aquilo muitas vezes. Jaci entra sem
bater, sem pedir licença, sem olhar para o médico. Vai diretamente para a cama,
ajoelha-se ao lado de Gerusa, e começa a retirar as compras do balde. As mãos
tremem, os dedos tropeçam nos nós do plástico, mas ela insiste, e finalmente
tem nas mãos um prato de plástico. Não é um prato de verdade, esses, na Vila do
Papelão, são artigos de luxo que se guardam para visitas ou para dias santos. É
um prato descartável, desses que se usam uma vez e se deitam fora, mas Jaci
lavou-o com cuidado, esfregou-o com cinza e areia, e ele está limpo, branco,
quase novo. Nesse prato, ela dispõe o pão partido ao meio, as fatias de queijo,
a carne que teria de ser cozinhada mas que não houve tempo, e as laranjas
descascadas às pressas, com os gomos separados uns dos outros como pequenos
arcos de sol. Não é uma refeição cozinhada, não é o caldo grosso com cheiro a
tempero que Gerusa pedira. Mas é comida. É comida de verdade. É pão, queijo,
carne, fruta. E é o melhor que Jaci pôde arranjar. Oferece o prato à amiga.
Gerusa, com as
mãos trêmulas, estende os braços devagar. Os dedos, que a doença já quase
imobilizou, encontram uma força que não vinha dos músculos, vinha de algum
lugar mais fundo, da memória talvez, da vontade talvez, da teimosia de quem não
quer partir sem antes provar. Segura um pedaço de pão com a ponta dos dedos,
leva-o à boca, morde. Mastiga devagar, com os olhos fechados, como se cada
dentada fosse uma oração, como se cada sabor fosse um último presente. O pão é
mole, quente, dissolve-se na língua, e Gerusa solta um pequeno suspiro, um som
que não é dor, nem alegria, mas qualquer coisa no meio, qualquer coisa que se
chama gratidão. Depois o queijo, a carne, a laranja. Tudo devagar, tudo com
pausas, com os olhos a abrir-se e a fechar-se alternadamente, como se a cada
momento quisesse gravar aquela imagem na memória, como se soubesse que aquela é
a última refeição e quisesse que durasse para sempre.
Jaci também
come. Não em pé, nem de lado, mas sentada no chão, ao lado da cama, com o mesmo
prato de plástico. Porque não há dois pratos, e também porque, mesmo que
houvesse, elas comeriam do mesmo. É assim que fazem há oitenta anos, desde que
eram crianças e dividiam um único biscoito achado no lixo, partindo-o ao meio
com as mãos sujas e depois rindo porque um dos lados era maior que o outro.
Comer do mesmo prato, beber do mesmo copo, dormir na mesma cama quando o frio
apertava e não havia cobertor para duas. Agora, na hora da morte, voltam a
fazê-lo. Jaci quebra um pedaço de pão, molha-o no suco da laranja, leva-o à
boca de Gerusa. Gerusa mastiga, engole, abre os olhos e sorri. Um sorriso
pequeno, quase invisível, mas Jaci vê. Jaci vê porque conhece aquele sorriso
desde sempre, desde os tempos em que ele era largo e cheio de dentes, antes de
a vida os desgastar um a um. É o mesmo sorriso que Gerusa tinha quando
encontrou a boneca no lixão. É o mesmo sorriso que tinha quando inventava
histórias de princesas e dragões. É o mesmo sorriso que tinha quando dizia,
"Amanhã vai ser melhor", mesmo sabendo que não ia. Jaci morde o lábio
para não chorar, mas as lágrimas, essas malditas lágrimas que ela julgava
secas, voltam a escorrer. Não as enxuga. Deixa-as cair no prato, misturarem-se
com o pão e o queijo. Gerusa vê e, com um esforço enorme, ergue a mão trémula e
toca o rosto da amiga. O toque é leve, quase sem força, mas Jaci sente-o como
se fosse um abraço. Sente-o como se fosse um "obrigada" e um
"adeus" e um "até breve" tudo ao mesmo tempo. E continua a
comer, devagar, como quem quer fazer durar aquele momento para sempre.
Lá fora, a
multidão assiste em silêncio. Não há especulações agora, não há comentários,
não há sorveteiros a gritar preços. Há apenas o silêncio. Um silêncio denso,
pesado, que parece ter peso e consistência, como uma manta de chumbo que cobre
tudo. As pessoas olham para a fenda na lona, por onde se vê, em fragmentos, a
cena: duas velhas sentadas no chão, um prato de plástico, uma refeição
partilhada. Alguém chora. É uma mulher, não se sabe quem, que começa a soluçar
baixinho, com a mão tapando a boca para que o som não se espalhe. As lágrimas
escorrem-lhe pelo queixo, caem no chão de terra batida, formam pequenas
bolinhas de pó. Ao seu lado, um homem de camisa suja de graxa tira o boné e
baixa a cabeça, num gesto que é quase religioso. Outra pessoa, mais velha, de
pele encarquilhada pelo sol, faz o sinal da cruz. Devagar, com a mão direita a
tocar a testa, o peito, o ombro esquerdo, o ombro direito. Não é católica
praticante, essa mulher, nunca foi à missa, nunca confessou pecados. Mas o
sinal da cruz, aprendeu com a mãe, e a mãe com a avó, e agora fá-lo como quem
acende uma vela na escuridão, como quem pede a Deus, seja ele qual for, que
receba aquela alma com mansidão. Outros seguem o gesto. Primeiro um, depois
dois, depois dez. As mãos sobem e descem num movimento sincronizado, como se
fossem guiadas por um maestro invisível. Os guardas municipais, encostados ao
poste, olham e não dizem nada. Um deles tira o chapéu, os outros seguem o
exemplo. O rádio continua a chiar, mas ninguém ouve.
O sol começa
a baixar, alaranjando os escombros da Vila do Papelão. Os prédios da cidade, ao
longe, refletem a luz como se fossem feitos de ouro, e as torres do Colégio
Santo António, recortadas contra o céu, parecem dedos que apontam para o alto,
para onde, dizem, fica o céu. As sombras crescem, alongam-se, cobrem as ruas de
terra batida, entram pelas portas das barracas, escondem-se nos becos. O ar
fica mais fresco, mas o cheiro a lixo e a químico continua, como uma segunda
pele daquele lugar. Dentro do barraco, a luz também se vai, mas Jaci acendeu
uma vela, a última que tinha, guardada para ocasiões especiais. A chama dança,
projeta sombras nas paredes de madeira podre, ilumina os rostos das duas
mulheres com uma luz dourada, quase sagrada. Gerusa já não come. O prato está
vazio, ou quase vazio. Sobram algumas migalhas e um gomo de laranja, que Jaci
pega e come, para que nada se perca. A amiga está de olhos fechados, mas
respira. A respiração é lenta, profunda, como a de quem está a preparar-se para
dormir. O Doutor Alexandre, que ficara no canto, quieto, a observar a refeição
sem interromper, agora aproxima-se. Tem a seringa na mão. O líquido dentro do
frasco é transparente, inofensivo à vista, mas mortal. Gerusa abre os olhos,
olha para a seringa, depois para Jaci. E sorri. O mesmo sorriso pequeno, quase
invisível. Depois fecha os olhos e estende o braço. Está pronta. A comida foi
servida. A barriga está cheia. Pode partir.
X
Doutor
Alexandre finalmente chega com a sua maleta preta. Não entra apressado, nem
solene demais, apenas caminha com o passo certo de quem já fez aquilo tantas
vezes que o gesto se tornou mecânico, quase impessoal. A multidão, que há
momentos se acotovelava para ver a fenda na lona, agora se abre diante dele
como o mar se abriu diante de Moisés, mas não por medo, e não por respeito, talvez
por um misto de admiração e horror, por saberem que aquele homem, de terno
branco e olheiras fundas, carrega na maleta o poder de apressar o que a
natureza teima em adiar. Ele afasta as pessoas com um gesto discreto, um
movimento de mão quase imperceptível, como quem afasta moscas. Não precisa
empurrar, não precisa gritar. O gesto basta. As pessoas recuam, formando um
corredor estreito por onde o médico passa sem olhar para a direita nem para a
esquerda, com os olhos fixos na porta de lona. Ao fundo, alguém sussurra:
"É ele." Outro responde: "Vai fazer." E o silêncio que se
segue é tão denso que se poderia cortar com uma faca.
Dentro da
cabana, a luz da vela dança nas paredes de madeira podre, projetando sombras
que parecem figuras a mover-se num ritual antigo. O Doutor Alexandre pousa a
maleta sobre uma caixa de plástico virada do avesso, abre os fechos de metal
com um clique seco, e começa a preparar os sedativos. Os frascos são pequenos,
de vidro âmbar, com rótulos que Jaci não sabe ler, mas que ela imagina conterem
palavras compridas, palavras que os médicos aprendem nas faculdades e que os
pobres só conhecem quando é tarde demais. A seringa é nova, brilha à luz da
vela, e o líquido que o médico aspira do frasco é claro, transparente,
inofensivo à vista, mas Jaci sabe que aquele líquido é a morte. Não uma morte
violenta, não uma morte que dói, mas uma morte mansa, uma morte que vem como um
sono, que embala, que acalenta, que leva para longe da dor. E, apesar de tudo,
apesar do aperto no peito, apesar das lágrimas que ainda lhe molham as faces,
Jaci sente um alívio. Porque Gerusa vai deixar de sofrer. Porque a amiga,
depois de oitenta anos de luta, oitenta anos de fome, oitenta anos de carrinho
de mão e lixo e noites frias, vai finalmente descansar.
Gerusa olha
para Jaci com os olhos úmidos e satisfeitos. Não são olhos de quem tem medo,
nem de quem se arrepende, nem de quem gostaria de ter vivido de outra maneira.
São olhos de quem comeu, de quem aqueceu a barriga, de quem sentiu na língua o
gosto do pão fresco e da laranja doce. São olhos de quem se despede, mas sem
tristeza, como quem termina uma longa viagem e olha para trás e vê que, apesar
de tudo, valeu a pena. "Brigada, amiga", diz Gerusa, e a voz sai
arrastada, mas clara, como se a doença, por um instante, lhe tivesse dado uma
trégua para que pudesse dizer aquelas duas palavras. "Brigada. Tô de
barriga cheia." E os olhos úmidos brilham, e os cantos da boca se erguem
num sorriso pequeno, quase tímido, mas verdadeiro. Jaci não responde com
palavras. As palavras, nessa hora, são inúteis, são como grãos de areia
atirados ao vento. Responde com um aperto de mão. Responde com os dedos que se
entrelaçam nos dedos da amiga, que já não tremem, talvez porque a morte, ao
aproximar-se, traga consigo uma paz que os vivos desconhecem. Responde com um
olhar que diz tudo o que não foi dito em oitenta anos: as alegrias partilhadas,
as dores divididas, as noites em que choraram juntas e os dias em que riram de
fome. Responde com a vida inteira, condensada naquele aperto de mão, naquele
último contacto.
O Doutor
Alexandre aproxima-se. Tem a seringa na mão direita, e com a esquerda ergue
suavemente o braço de Gerusa, procurando a veia. As veias são finas, frágeis,
escondidas debaixo de uma pele que o sol e o trabalho tornaram grossa como
couro. Mas ele encontra. Encontra porque é bom no que faz, porque estudou para
isso, porque já salvou vidas e já apressou mortes e sabe que, no fim, tudo é
apenas uma questão de técnica. Aplica a injeção. O líquido transparente entra
devagar, veia adentro, espalhando-se pelo corpo como uma notícia que se espalha
por uma cidade. Gerusa não estremece, não grita, não reage. Apenas fecha os
olhos devagar, como quem se deita depois de um longo dia de trabalho, como quem
estica os membros numa cama macia e suspira de alívio. Jaci segura a sua mão
com força, como se pudesse, com essa força, mantê-la ali, impedir que a morte a
leve. Mas sabe que não pode. Sabe que a morte é mais forte, que a morte é
inevitável, que a morte, no fim, é a única certeza que os pobres e os ricos
partilham. A respiração de Gerusa torna-se mais lenta, mais rasa, mais
espaçada. Uma pausa. Outra. Outra. E depois, nada.
Lá fora,
ninguém vai embora. A multidão inteira de Santa Cruz do Calvário, alunos ricos
de uniforme impecável, agora sujo de lama e suor; operários da fábrica têxtil;
garis que encostaram as vassouras nos postes; guardas municipais de pança
saliente e rádio chiando; vendedores de água mineral e sorveteiros com os
carrinhos vazios; cães de rua que farejam o ar confusos; velhas desdentadas
sentadas em bancos de tijolo; crianças montadas nos ombros dos pais, toda
aquela gente, toda aquela aglomeração humana, permanece ali, plantada como
árvores numa praça, com os olhos fixos na porta de lona. Não sabem ao certo o
que esperam. Não sabem se querem ver o corpo, ou se querem ver o médico a sair,
ou se querem apenas estar ali, testemunhar, dizer um dia que estiveram
presentes no momento em que a morte veio buscar uma velha catadora de lixo. Mas
há qualquer coisa mais, qualquer coisa que nem eles próprios conseguem nomear.
Uma reverência confusa, um respeito que não aprenderam na escola nem na igreja,
um silêncio que não é forçado, mas espontâneo, como se a morte, ao passar,
tivesse deixado um rastro de solenidade no ar. Alguém chora. Vários choram. Uma
mulher de avental manchado cai de joelhos no chão de terra batida e começa a
rezar em voz alta, uma oração que ninguém conhece, mas que todos acompanham com
um movimento de lábios. O homem da graxa tira o boné e segura-o contra o peito,
como quem segura um troféu. As crianças, que até há pouco se mexiam inquietas, agora
estão quietas, sérias, como se tivessem subitamente envelhecido. Os cães
deixaram de ladrar. Até o vento parece ter parado, como se o mundo, por um
instante, tivesse suspendido a respiração.
Ao fundo, por
detrás das barracas e dos montes de lixo, por detrás da Cintura Industrial e
das chaminés que cospem fumo, por detrás da Cintura Agrícola e das enormes
armações de plástico neutro, o letreiro do Colégio Santo Antônio acende as suas
luzes artificiais. É noite, ou quase noite, e as letras douradas brilham no
escuro como se fossem feitas de fogo. "Garanta o futuro", diz o
letreiro. "Garanta o sucesso." As palavras piscam, alternam, convidam
os pais que passam na avenida a matricularem os seus filhos naquela instituição
de excelência, naquele templo da elite local, naquele lugar onde as crianças
aprendem a ser os futuros juízes, engenheiros e médicos que governarão Santa
Cruz do Calvário. Os que estão ali, na multidão, não olham para o letreiro. Têm
os olhos postos na cabana de madeira podre, na luz da vela que se apaga, no
silêncio que sai pela porta entreaberta. Mas o letreiro está lá. Está sempre
lá. Brilha todas as noites, como uma promessa, como uma ameaça, como um
lembrete de que o mundo é dividido em dois: os que garantem o futuro e os que
não têm futuro para garantir.
E no futuro
de ninguém, ali naquele instante, haverá esquecimento. Não porque os alunos
ricos se lembrem para sempre da velha que morreu na cabana de madeira podre.
Eles esquecerão, provavelmente, assim que voltarem para as suas casas, assim
que tomarem banho e vestirem pijamas limpos, assim que o pai perguntar o que
aprenderam na escola. Mas o corpo, o corpo não esquece. Há coisas que se gravam
na carne, que se instalam nos ossos, que ficam ali, adormecidas, à espera de um
momento para despertar. O menino que entregou a nota de vinte reais, esse,
talvez se lembre. A menina de tranças que perdeu a sandália, talvez se lembre.
O menino de óculos, filho do juiz, que falava em eutanásia como quem fala do
tempo, talvez se lembre. Não hoje, não amanhã, mas daqui a vinte ou trinta
anos, quando forem adultos, quando tiverem os seus próprios filhos, quando
olharem para o mundo com olhos que já viram mais do que gostariam de ter visto,
algo vai fazer click, e eles vão lembrar-se daquela tarde, daquele entardecer,
daquela velha que morreu com a barriga cheia, com a mão de uma amiga na sua,
com o sorriso nos lábios. E vão saber, talvez pela primeira vez, que o futuro
que lhes garantiram não é o único futuro possível. Que há outros futuros,
outros destinos, outras maneiras de viver e de morrer. E que, no fundo, a morte
é a única coisa que realmente iguala os homens, não os iguala no poder, nem na
riqueza, nem na felicidade, mas iguala na finitude, na certeza de que um dia,
cedo ou tarde, também eles terão de fechar os olhos e partir.
Dentro da
cabana, a vela apaga-se. O pavio, que já ardia curto, afoga-se na cera
derretida, e a chama estremece uma última vez e morre. A escuridão é quase
total, apenas a luz difusa do letreiro lá longe penetra pelas frestas da
madeira, desenhando riscos ténues no chão de terra batida. Jaci ainda segura a
mão de Gerusa, mas agora a mão está fria. Não treme mais. O pulso não pulsa. O
peito não sobe nem desce. Gerusa partiu. Foi-se como se vai o vento, como se
apaga uma vela, como se termina uma canção. Jaci inclina-se, beija a testa da
amiga, e murmura: "Adeus, Gerusa. Até um dia." O Doutor Alexandre
guarda a seringa na maleta, fecha os fechos com o mesmo clique seco, e
levanta-se. Olha para Jaci, hesita um segundo, como se quisesse dizer alguma coisa,
mas depois decide que não há palavras. Aperta o ombro da velha, um gesto
rápido, quase impessoal, e sai. A multidão, ao vê-lo sair, agita-se, mas
ninguém pergunta nada. Não é preciso. O rosto do médico, à luz do letreiro,
está pálido, cansado, e há nele uma expressão que nem todos sabem ler, mas que
todos sentem: é o cansaço de quem carrega o peso de decisões que não deviam ser
suas. Ele atravessa o corredor humano, entra no carro prateado, liga o motor, e
vai embora. O rádio dos guardas chia. Os cães voltam a ladrar. A multidão,
lentamente, começa a dispersar-se, como água que escorre por uma fenda. E a
noite, enfim, cai sobre a Vila do Papelão, trazendo consigo o frio, o silêncio,
e a certeza de que, amanhã, o sol vai nascer de novo, e as barracas vão continuar
ali, e os carrinhos de mão vão continuar a percorrer as ruas de terra batida, e
a vida, apesar de tudo, vai continuar. Mas na memória de todos os que estiveram
ali, naquela tarde, naquele entardecer, naquele momento em que a morte passou e
deixou um rastro de silêncio e de lágrimas, alguma coisa ficou. Uma pergunta
talvez. Uma dúvida. Um incómodo. O princípio de uma consciência. E isso,
pensaria Jaci, se ainda tivesse forças para pensar, isso já é qualquer coisa. É
quase nada. Mas na Vila do Papelão, o quase nada é muitas vezes tudo o que se
tem.
Edson Moura - 06.08.2002



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