FOME (romance)

 

FOME

 

I

 

        Há outras vidas que se desenrolam nas margens, nas barracas que a cidade empurra para longe dos olhos, nesses lugares onde o vento traz cheiros que os moradores dos prédios altos chamam de miséria, sem saber que a miséria também tem cheiro de gente. É aí, entre os plásticos rasgados e as lonas remendadas, que encontraremos Jaci e Gerusa, duas mulheres que o tempo tratou como se fossem barro de segunda, desses que ninguém compra e que ficam encostados no fundo do armazém até que alguém, por compaixão ou por descuido, lhes dê um destino.

       Jaci tem setenta e dois anos, mas quem a visse pelas costas, curva sobre um carrinho de mão cheio de latas, lhe daria dez anos mais, tantos são os nós que a idade e o trabalho lhe amarraram nos ossos. As mãos, que outrora foram capazes de segurar um filho ao colo, esse filho que a guerra ou a fome ou a simples indiferença do mundo levou para longe, já nem ela sabe bem para onde, essas mãos têm agora os dedos tortos, empedrados, como raízes de árvore que cresceram contra a pedra. E, no entanto, ainda se movem, ainda agarram, ainda separam o papel do plástico, o alumínio do ferro, com uma precisão que mais parece de relojoeiro do que de catadora. Jaci sente o lixo e lhe conhece os pesos, as texturas, os cheiros que os outros rejeitam. O lixo, para ela, é matéria-prima, como o barro para o oleiro, com a diferença de que o barro, antes de ser moldado, já tem uma dignidade que o lixo perdeu ao ser deitado fora. E, no entanto, ali, nas mãos de Jaci, o lixo recupera uma espécie de nobreza, porque dela recebe a atenção que ninguém mais lhe quis dar.

       Senta-se agora, Jaci, ao lado da cama improvisada que construiu com tábuas apanhadas na rua, tábuas que outrora foram talvez uma porta, uma prateleira, um fundo de armário, e que agora servem de esteio ao colchão de espuma roída que um vizinho de barraca lhe deixou quando morreu. A cama está no canto mais resguardado do barraco, onde a lona do teto não faz tantas gotas quando chove, e onde o chão de terra batida, pisado por tantos anos, já se tornou duro como pedra. Diante dela, deitada sobre um lençol que mais parece uma toalha de mesa puída, está Gerusa, sua única amiga, se é que a palavra amiga ainda significa alguma coisa para duas mulheres que partilharam mais fome do que alegrias, mais frio do que conversas. Conhecem-se há oito décadas, desde que eram crianças e brincavam nos escombros de uma guerra que não entendiam, correndo descalças entre tijolos partidos e arames farpados. Depois, as vidas separaram-se e juntaram-se várias vezes, como dois fios de uma mesma corda que ora se entrelaçam ora se afastam, mas sempre voltam a dar o mesmo nó. Agora, no fim, voltaram a encontrar-se, porque o destino, quando quer ser cruel, também gosta de ser poético.

        Gerusa agoniza. É uma morte devagar, uma morte que se arrasta, que se instala nos membros como um hóspede indesejado que se recusa a sair. A bactéria, dizem os poucos médicos que de vez em quando aparecem no bairro para cumprir horas de serviço comunitário, a bactéria começa por comer os nervos, devagarinho, primeiro os pequenos, os que controlam os dedos, os gestos miúdos, depois vai subindo, alastrando, até chegar à medula e de lá ao cérebro. O nome técnico ninguém se lembra, ou ninguém se dá ao trabalho de pronunciar, porque nomes técnicos são para os doentes que têm plano de saúde, para os que morrem em camas limpas, com um vidro de soro a pingar devagar e uma campainha ao alcance da mão. Aqui, o que há é o cheiro a papelão húmido, o cheiro a metal enferrujado que a chuva trouxe das latas acumuladas no quintal, e o silêncio roto de vez em quando pelo gemido que Gerusa solta quando uma cãibra lhe atravessa as pernas já quase mortas.

          Mas o espantoso, o que Jaci não consegue compreender por mais que tente, é que os olhos de Gerusa continuam lúcidos. Não são olhos de quem se vai, são olhos de quem fica, de quem vê e entende e talvez até julgue, se houver ainda algum juízo neste mundo que as tratou como lixo. A velha, deitada de costas, fixa o teto de lona, onde a luz do sol, ao atravessar os rasgões, desenha figuras que dançam com o vento. Não chora, não se queixa, não pede água nem companhia. Apenas olha. E, nos momentos em que a respiração se torna mais funda, como se estivesse a encher os pulmões para uma viagem longa, os cantos da boca esboçam qualquer coisa que poderia ser um sorriso, se ainda houvesse carne macia para o formar. Mas não há. Há apenas os lábios ressequidos, colados às gengivas, e nos cantos, essa pequena elevação dos músculos que só quem conhece Gerusa desde criança sabe interpretar: é paz, é aceitação, é o reconhecimento silencioso de que a morte, para quem catou lixo a vida inteira, para quem viveu do que os outros deitavam fora, para quem nunca teve uma cama sequer que não fosse feita de restos, a morte é apenas mais um tipo de descanso. O derradeiro. O definitivo. E, quem sabe, o primeiro verdadeiramente limpo.

       Jaci não diz nada. Também não chora. As lágrimas, para quem viveu o que elas viveram, secaram há muito, ou então desceram todas para dentro, formando um lago salgado no fundo do peito, onde se afogam as poucas palavras que ainda gostariam de ser ditas. Estende a mão torta, a mão de carrinho de reciclagem, e toca de leve o ombro da amiga. O toque é tão suave que parece não tocar, mas Gerusa sente, e os olhos lúcidos desviam-se um instante do teto de lona para encontrar os olhos de Jaci. Não precisam de falar. Entre duas mulheres que partilharam o mesmo prato de sopa rala, que dormiram abraçadas para se aquecerem no inverno, que enterraram os filhos uma da outra quando eles morriam de coisas que os médicos da cidade chamavam de “evitáveis”, entre essas duas mulheres as palavras são supérfluas. Um olhar basta. E o que os olhos dizem, nesse momento, é isto: “Vai ficar tudo bem.” Ou talvez digam: “Não ficas sozinha.” Ou talvez digam apenas: “Adeus, amiga.” Difícil saber, porque os olhos, ao contrário da boca, mentem menos, mas falam numa língua que ninguém aprendeu nas escolas.

      Lá fora, do lado de fora da lona rasgada, o mundo continua. Os camiões passam na estrada, os homens das fábricas entram e saem dos turnos, os prédios da cidade crescem em linha de atiradores, e as autoridades competentes assinam papéis que autorizam a demolição das barracas para dar lugar à terceira fase. Ninguém sabe que, ali dentro, uma mulher chamada Gerusa está a morrer. E se soubessem, provavelmente não fariam nada, ou fariam apenas o suficiente para que a consciência não lhes pesasse na hora do almoço. Porque é assim o mundo: para uns, a morte é tragédia, é notícia, é assunto de jornal; para outros, é apenas o fim natural de uma vida que nunca foi considerada princípio. Jaci, porém, não pensa nessas coisas. O que ela pensa, enquanto os dedos tortos acariciam o ombro imóvel da amiga, é que amanhã terá de sair para catar papel, porque senão não comem, e que, quando voltar, talvez já não encontre Gerusa a olhar para o teto de lona. Pensa que deveria rezar, mas já não se lembra de nenhuma oração, ou lembra-se, mas as palavras parecem-lhe vazias, como as latas que amassa antes de vender. Pensa, enfim, que a morte, afinal, é mesmo como dizem os velhos: uma porta que se abre. E que Gerusa, nesse momento, já tem a mão no puxador. Só não entra ainda porque há qualquer coisa, talvez a amizade, talvez o hábito, talvez essa teimosia de quem passou a vida a resistir, que a prende mais uns minutos a este lado da soleira.

     Do lado de fora, um cão ladra. Do lado de dentro, Gerusa suspira. E o tempo, que para uns corre veloz como a furgoneta de Cipriano Algor, para ali se arrasta, lento como a última gota de um soro que ninguém veio trocar.

 

 

II

 

 

E Jaci segurou a mão trêmula da amiga. A mão de Gerusa, que outrora fora ágil a separar o papel do plástico, a lata do vidro, agora tremia com um tremor fino, desses que vêm de dentro, dos ossos, como se o corpo já se estivesse a despedir das suas partes uma a uma. Jaci apertou-a devagar, com a força cautelosa de quem não quer partir o que já está partido, e sentiu os dedos da amiga responderem com um leve movimento, um quase-nada, um pressionar de polpa que dizia, ainda estou aqui, ainda sinto. E foi nesse aperto, nesse contacto de peles que o sol e o frio e o trabalho haviam tornado ásperas como lixa, que o tempo se dobrou sobre si mesmo e levou Jaci para trás, para um lugar onde Gerusa não tremia e onde as pernas ainda aguentavam horas de caminhada debaixo do sol impiedoso de Santa Cruz do Calvário.

 

Santa Cruz do Calvário. O nome, diziam, vinha de uma antiga missão que os padres tinham erguido ali, nos idos de quinhentos e qualquer coisa, mas os padres há muito tinham partido e a cruz apodrecera, e o calvário, esse, ficara, porque não há lugar mais calvário do que um lixão a céu aberto onde cem famílias buscam o sustento no que as outras cem mil deitaram fora. Foi lá, nas tardes escaldantes, que Jaci e Gerusa aprenderam o ofício de viver do resto. Chegavam cedo, antes que o sol começasse a queimar a pele, cada qual empurrando o seu carrinho de mão, desses que se constroem com rodas de carrinho de feira e uma caixa de madeira apodrecida, e passavam as horas a revirar montanhas de plástico, montanhas de papel, montanhas de tudo o que a cidade consumia e esquecia. Trabalhavam de luva, quando havia luvas, e quando não havia, trabalhavam com as mãos nuas, e os cortes, os arranhões, os pregos enferrujados que se cravavam na carne, esses eram o preço que se pagava para ter o que comer no dia seguinte. Não era bonito. Não era digno. Não era nada daquilo que os poetas chamam de luta e os políticos chamam de resiliência. Era apenas sobrevivência, e a sobrevivência, ao contrário do que se diz por aí, não tem nada de poético. Tem cheiro a podre, tem gosto a poeira, tem o peso das costas que doem e das pernas que vergam.

       Mas, curiosamente, havia momentos em que riam. Sim, riam. Sentadas em cima de um fardo de papelão já amarrado, com o rosto suado e as mãos negras de sujidade, contavam histórias que ninguém mais queria ouvir, inventavam nomes para os ratos que fugiam entre os montes, faziam apostas sobre qual caminhão viria a seguir, se o da coleta de lixo hospitalar, que era perigoso, mas trazia seringas de plástico duro, bom para reciclar, ou se o das sobras de construção, cheio de fios de cobre, que valiam dinheiro. E riam. Riam de fome, talvez, porque a fome, quando aperta, tem destas coisas: ou se chora ou se ri, e como chorar já tinham chorado o suficiente nos anos anteriores, sobrava-lhes o riso. Um riso seco, rouco, um riso que mais parecia tosse, mas era riso. E quando uma delas encontrava uma latinha de cerveja ainda com um gole dentro, dividiam-na, bebiam as duas, e depois esmagavam a lata com o pé, contentes com o pequeno luxo. Aqueles eram os dias bons. Os dias menos maus. Os dias em que, apesar de tudo, ainda valia a pena acordar no dia seguinte.

         Foi num desses dias, uma tarde de setembro em que o sol parecia uma bigorna a martelar as cabeças, que encontraram o brinquedo. Estava enterrado debaixo de uma camada de restos de comida e jornais velhos, coberto de moscas e de uma matéria pegajosa que mais valia não identificar. Gerusa viu primeiro, um braço de boneca a espreitar entre os plásticos, e, com um gesto que já era hábito, enfiou a mão na podridão e puxou. Era uma boneca de pano, dessas antigas, com o rosto pintado à mão, os olhos azuis desbotados, o vestido de chita rasgado num ombro. Faltava-lhe uma perna, faltava-lhe um braço, tinha o cabelo emaranhado como ninho de rato, mas ainda se adivinhava nela o que outrora fora: um objeto de afeto, uma companheira de infância de alguma menina que já seria mulher, se não tivesse sido levada pela guerra ou pela peste ou pela simples dureza de crescer num mundo que não perdoa. Gerusa olhou para a boneca com uma expressão que Jaci nunca lhe tinha visto, uma mistura de ternura e ferocidade, como se estivesse a ver ali não um trapo sujo, mas um pedaço de si mesma que julgava perdido. Vou levar, disse. Para quê, perguntou Jaci, que não entendia. Para a minha neta, respondeu Gerusa. E Jaci não disse nada, porque sabia que Gerusa não tinha neta, nem filha, nem ninguém a quem dar bonecas. O único filho que tivera morrera aos três meses, de uma tosse que não sarou, e o pai do menino, se é que se podia chamar pai a um homem que desapareceu assim que soube da gravidez, esse nunca mais apareceu. Mas não disse nada. Deu apenas um sorriso entortado e ajudou a amiga a pôr a boneca em cima do carrinho, em lugar de destaque, como quem leva um tesouro.

      Durante os dias seguintes, Gerusa trabalhou com um afinco que Jaci não lhe conhecia. Separava mais depressa, andava mais rápido, falava menos. Chegava ao barraco ao fim da tarde, lavava as mãos no balde de água da chuva, e sentava-se à luz débil de uma vela para consertar a boneca. Usava arame que desencapava dos fios de cobre, agulha que desenferrujava com vinagre, retalhos de tecido que tirava de roupa velha. Costurava, remendava, modelava. Deu-lhe uma perna nova, feita de esponja cortada e forrada com um pedaço de meia, e um braço novo, menos perfeito que o original mas funcional. Lavou-lhe o cabelo com sabão de cinza, penteou-o com os dedos, amarrou-lhe uma fita amarela que encontrou no lixo, dessas que servem para fechar pacotes de pão. E quando a boneca ficou pronta, Gerusa sentou-a na beirada da cama, olhou para ela com os olhos brilhantes, e disse, Pronta. Não foi preciso dizer para quem. Jaci sabia que a boneca era para a neta imaginária, essa menina que nunca nasceu, que nunca chorou, que nunca pediu colo, mas que, na cabeça de Gerusa, existia mais real do que muitas crianças de carne e osso. A neta, pensava Gerusa, teria cabelo comprido e gostaria de bonecas, e quando viesse visitá-la, sentar-se-ia no seu colo e brincaria com os cabelos da avó, e a avó contaria histórias de quando era nova e trabalhava no lixão, e a neta riria, porque as crianças, felizmente, não entendem o que é a pobreza até que a pobreza lhes bata à porta. Mas a neta nunca veio. E Gerusa, com os anos, foi guardando a boneca num saco de plástico, enrolada num pano, como quem guarda um sonho que sabe que nunca se realizará, mas que não tem coragem de deitar fora.

       Agora, tantos anos depois, ali no barraco que o vento sacode, com a amiga a morrer devagar, Jaci lembra-se da boneca. Não sabe o que lhe aconteceu. Talvez se tenha perdido nas mudanças, nas deslocações de barraca em barraca, nas vezes que a polícia veio com as pás mecânicas derrubar tudo e eles tiveram de fugir com o que podiam carregar nos braços. Ou talvez ainda esteja ali, algures, enfiada num canto, coberta de pó e de teias de aranha, à espera de uns dedos que a tornem a erguer. Jaci não sabe. Mas a memória, essa, está viva, e enquanto segura a mão da amiga, oferece-lhe como se oferece um cobertor numa noite fria. Lembra-te, Gerusa, da boneca? Daquela que achámos no lixão de Santa Cruz? Lembras-te de como a consertaste com arame e retalhos, e lhe puseste uma fita amarela? Lembras-te de que ficou bonita, mais bonita do que muitas bonecas de loja, porque tinha o amor das tuas mãos? E parece que Gerusa ouve, porque os olhos lúcidos, que há minutos fitavam o teto de lona, agora se viram para Jaci, e neles há qualquer coisa que brilha, um reflexo, uma centelha. Talvez seja a memória a acordar. Talvez seja apenas a luz que entra por um rasgão e bate na humidade dos olhos. Mas Jaci prefere acreditar que é a amiga, que ainda ali está, a sorrir por dentro, a lembrar-se da neta que nunca teve, da boneca que nunca ninguém abraçou, e de todas as tardes em que, debaixo do sol de Santa Cruz do Calvário, riram de fome e viveram do resto.

         São memórias pobres, pensa Jaci. Não há nelas mansões nem viagens nem jantares em restaurantes com toalha de linho. Há apenas duas mulheres sujas, um carrinho de mão, um monte de lixo, e uma boneca sem perna encontrada por acaso. Mas são memórias quentes, dessas que aquecem o peito quando o frio aperta, e que fazem com que uma morte, mesmo a morte, pareça menos gelada. E Jaci, enquanto acaricia o dorso da mão trêmula de Gerusa, vai trazendo outras recordações: o dia em que acharam um livro, não inteiro, com as páginas arrancadas, mas com algumas histórias legíveis, e Gerusa fingiu que sabia ler e inventou uma história de princesas e dragões só para a fazer rir; o dia em que choveram três dias seguidos e elas se abrigaram debaixo de uma lona que quase voava, e partilharam um cigarro achado no lixo, dando cada uma duas passas; o dia em que Gerusa cortou o dedo num vidro e Jaci usou a sua própria camisa para estancar o sangue, e depois andaram as duas sem uma manga, porque a camisa ficou inutilizada, mas riram tanto que nem sentiram a dor. São pequenas coisas, quase nada. Mas é desses nadas que se faz uma vida, e de algumas vidas, pensa Jaci, até se faz um céu, se o céu for generoso o bastante para aceitar quem nunca teve terra.

 

Lá fora, o vento mudou. Agora sopra do norte, trazendo o cheiro das fábricas e um rumor de máquinas que não param. Lá dentro, o silêncio é quase completo. Apenas a respiração de Gerusa, que se torna mais espaçada, mais funda, como as ondas quando se afastam da praia. Jaci continua a segurar-lhe a mão, a oferecer-lhe memórias, a cobri-la com o cobertor invisível das lembranças. E sabe, com a certeza que só quem já perdeu alguém pode ter, que a noite que se aproxima é a última. Mas não tem medo. Porque a morte, para quem viveu do que os outros deitavam fora, é apenas mais um tipo de descanso, e o descanso, depois de setenta e dois anos de carrinho de mão, é a única coisa que realmente faz falta. Apertou a mão da amiga com mais força, como quem diz, Vai, eu fico. E Gerusa, talvez, entendeu. Porque os olhos, que há pouco brilhavam, agora se fecharam devagar, como cortinas que descem no fim do espetáculo, e o peito subiu uma, duas, três vezes, e depois parou. E ficou o silêncio. E a mão de Jaci, ainda à volta da mão fria de Gerusa. E lá fora, o vento, e as máquinas, e o mundo indiferente continuando.

 

 

III

 

       

        Gerusa, porém, não quer piedade. A piedade, bem o sabem as duas, é um luxo dos que têm tempo para sentir dó dos outros, um sentimento que se usa e se deita fora como as sobras que elas tantas vezes comeram. Gerusa não quer lágrimas em cima dela, nem promessas de que vai ficar tudo bem, porque nada fica bem, nunca ficou, e seria agora, à beira da morte, que as coisas haviam de endireitar-se? Não. O que Gerusa quer é outra coisa. Quer uma última refeição. Quer sentir na língua, antes que a língua se lhe paralise de vez, o gosto de comida de verdade, não desses restos que se aquecem com água e se chamam sopa, nem dessas frutas passadas que os feirantes atiram fora porque já não servem para vender. Quer um prato inteiro, com carne, se possível, com caldo grosso, com cheiro a tempero, desses que ficam nos dedos e na memória. "Não vou partir com a barriga vazia, Jaci. Já passei fome demais nessa vida", sussurra, e a voz sai arrastada, pastosa, como se as palavras tivessem de atravessar um lamaçal antes de chegar aos lábios. Mas chegam. E chegam claras. Porque há fomes que não se curam com o tempo, há fomes que se instalam nos ossos e dali não saem mais, e mesmo agora, quando o corpo já desiste, a barriga lembra-se de todos os dias em que não houve nada, e pede, pede, pede. É uma desforra. É uma justiça pequena, a única que ainda pode alcançar.

          Jaci enxuga os olhos com a manga da blusa rasgada. A blusa, que fora azul um dia, agora é duma cor indefinida, desbotada pelo sol e pelas lavagens na bica, e a manga, de tanto servir de lenço, tem uma nódoa escura que parece luto antecipado. Mas não há tempo para luto, não há tempo para mais lágrimas. Ela sabe que o médico do município, o Doutor Alexandre, virá ao entardecer, como veio nas últimas vezes que alguém do bairro agonizou sem remédio, para aplicar os sedativos que apagam a dor e apressam a partida. O Doutor Alexandre é um homem novo, de trinta e poucos anos, com olheiras fundas e um cansaço que não vem do corpo, mas da alma, da raiva surda de quem estudou para curar e passa os dias a assistir a mortes que a falta de tudo tornou inevitáveis. Não há câncer ali, não há tumor, não há doença rara que os hospitais da capital estudam em congressos. Há apenas uma bactéria que um antibiótico barato mataria em três dias, mas o posto de saúde mais próximo fica a vinte quilómetros, e a ambulância, quando há combustível, só vem para os casos que dão notícia no jornal. Por isso o Doutor Alexandre vem com as suas seringas e os seus frascos de morfina genérica, e aplica o que pode aplicar, e fica em silêncio, e depois vai embora. É um ato de clemência, sim, se é que se pode chamar clemência a apressar o que a negligência já tornou inevitável. Neste lugar onde a prefeitura nunca construiu nem um posto de saúde, onde a única farmácia é a mala do médico que chega de dois em dois meses, a clemência tem este sabor amargo: mata-se a dor matando o doente. Mas ninguém diz isso em voz alta, porque as palavras, quando são verdadeiras, também doem.

          Jaci levanta-se. As pernas, que há pouco pareciam de pau, encontram uma força que ela não sabia que ainda tinha. Pega no balde furado que serve para trazer água da bica e para, quando é preciso, pedir esmolas. É um balde de plástico amarelo, desses de obra, com um buraco no fundo que ela tapou com um bocado de saco e arame, mas que continua a perder água devagar, como se o balde, tal como a vida, tivesse uma ferida que não cicatriza. Enrola na cabeça um lenço de pano para se proteger do sol, enfia os pés nas chinelas de dedo que têm a sola mais gasta de um lado que do outro, e olha para Gerusa antes de sair. A amiga está de olhos fechados, mas não dorme. A respiração é curta, irregular, como um motor a falhar. Jaci sabe que o tempo é contado, mas o tempo, para quem não tem relógio, é sempre uma incógnita. Pode ser uma hora, podem ser três. O que importa é que ela volte antes que o Doutor Alexandre chegue, volte com a comida, e possa pôr nos lábios da amiga o último gosto, o último prazer, a última vingança contra uma vida que lhe negou quase tudo.

         Sai porta afora. O barraco fica na última fileira, a que mais perto está da Cintura Industrial, ali onde o cheiro a químico se mistura com o cheiro a esgoto e a fumaço. As ruas de terra batida estão desertas a esta hora, porque os homens e as mulheres estão nas fábricas ou nos lixões, e as crianças, as poucas que ainda não foram levadas pelos assistentes sociais, brincam nos terrenos baldios com paus e pneus velhos. Jaci conhece cada palmo daquele chão, sabe onde pisar para não escorregar na lama, sabe quais as esquinas onde os carros passam mais depressa e onde é preciso esperar. Caminha sem pressa aparente, mas no peito o coração acelera, porque cada minuto que passa é um minuto que Gerusa espera, e a espera, quando se está a morrer, é um peso que ninguém devia carregar.

        Chega à avenida, a mesma por onde Cipriano Algor passou horas antes com a sua furgoneta carregada de louças. Agora o trânsito é mais intenso, os camiões vão e vêm, os carros buzinam, os motoqueiros serpenteiam entre os veículos com uma agilidade suicida. Jaci senta-se no passeio, encosta o balde furado à sua frente, e espera. Não pede com palavras, porque as palavras, para quem pede, são uma humilhação que se aprende a evitar. Basta estar ali, com a roupa suja, o rosto marcado, as mãos estendidas sobre os joelhos. Quem quer dar, dá; quem não quer, passa ao lado sem olhar, e muitas vezes até olha, mas olha como se olha para um móvel velho na calçada, um objeto que já não serve e que ali ficou à espera do lixeiro. Jaci já não se ofende com esses olhares. Ofendeu-se nos primeiros anos, quando veio da roça com o marido que a espancava e um filho nos braços, e pensava que a cidade era feita de oportunidades. Depois aprendeu que as oportunidades, na cidade, são como as frutas na feira: as bonitas vão para as bancas, as estragadas vão para o chão, e as que vão para o chão só têm valor para quem está disposto a sujar os dedos. Ela sujou os dedos. Durante décadas. E agora, aos setenta e dois, continua a sujá-los, porque a dignidade, ao contrário do que ensinam os padres, não enche a barriga.

        Uma senhora de vestido florido passa, olha, hesita, mete a mão na bolsa. Tira uma nota de dois reais, amassada, e deixa cair no balde, sem tocar em Jaci, como se a pobreza fosse uma doença que se pega pelo contacto. Uma criança, que vem de mão dada com a mãe, aponta para a velha e pergunta, Mãe, por que ela está sentada no chão? E a mãe, puxando-a pelo braço, responde, porque não trabalha, meu amor. Não trabalha. Jaci ouve e não diz nada. O que diria, se falasse? Diria que trabalha desde os sete anos, que já carregou mais peso do que aquela mulher jamais carregará, que já teve os pés deformados de tanto andar, que já passou noites sem dormir a catar latinhas à luz de isqueiro, que já criou sozinha um filho que a abandonou assim que pôde, que já enterrou uma amiga que não tinha nome no registro, que já trabalhou, sim, trabalhou mais do que qualquer daqueles que passam e desviam o olhar. Mas não diz. Porque a verdade, quando dita a quem não quer ouvir, é como a chuva no asfalto: escorre e não penetra.

       Outras moedas caem. Um trocado aqui, outro ali. Uma senhora mais nova, de bata branca, que deve ser cozinheira num dos armazéns, aproxima-se com um pacote de pão de forma e dois iogurtes que estão a chegar ao prazo. Toma, minha velha, leva para a sua amiga, Deus há-de recompensá-la. Jaci agradece com um movimento de cabeça, guarda tudo no balde, e continua à espera. O dinheiro que tem, juntado com as moedas e a nota de dois reais, talvez dê para comprar um prato de comida no boteco do Seu Nunes, ali ao fundo da avenida. O Seu Nunes é português, veio para o Brasil há quarenta anos, abriu o boteco com o dinheiro que ganhou a vender frutas na feira, e ainda guarda um coração generoso para os velhos do bairro. Às vezes, quando sobra arroz e feijão, ele dá de graça, ou cobra apenas o que a pessoa pode pagar. Jaci reza mentalmente para que hoje seja um desses dias. Não uma reza de igreja, com Pai-Nosso e Ave-Maria, dessas ela já não se lembra. É uma reza confusa, um pedido que sobe ao céu sem saber a quem se dirige, como um barco sem leme. Que haja comida. Que o Seu Nunes esteja de bom humor. Que o Doutor Alexandre demore. Que Gerusa ainda esteja acordada quando eu voltar.

      Levanta-se, estica as costas que doem, e começa a andar em direção ao boteco. O balde, agora com algumas moedas, o pacote de pão e os iogurtes, pesa menos do que o balde cheio de água, mas parece mais pesado, porque carrega dentro de si a esperança de uma mulher que vai morrer e que pediu, como último desejo, um prato de comida. E Jaci pensa, enquanto caminha, que nunca ninguém lhe pediu nada tão difícil. Não porque arranjar comida seja difícil, embora também o seja, mas porque o difícil é saber que depois dessa comida, depois desse último prazer, a amiga se irá embora, e ela, Jaci, ficará sozinha com as memórias, o balde furado, e o silêncio de um barraco onde antes havia duas respirações e agora há apenas uma. Mas não chora. As lágrimas, já se disse, secaram há muito. O que resta é uma dureza, uma teimosia, uma força que ela própria desconhecia e que a mantém de pé enquanto o sol começa a descer e o entardecer se aproxima, trazendo consigo o médico, a seringa, e o fim.

 

 

IV

 

       A poucos metros da Vila do Papelão ergue-se o muro branco do Colégio Santo Antônio. É uma construção antiga, dos tempos em que os frades ainda percorriam a região a batizar índios e a abençoar terras, mas as reformas sucessivas lhe deram um ar moderno, quase intocável, como se o tempo ali não passasse ou passasse apenas para limpar o que há de sujo no mundo. O muro, esse, é alto, uns três metros de altura, rematado por um gradeamento de ferro forjado que termina em pontas de lança, para que ninguém tenha a ousadia de o transpor. Sobre o portão principal, uma placa de bronze polido traz, em letras douradas, o lema da instituição: “Garanta o futuro e o sucesso de seu filho.” Não diz o futuro de quem, nem o sucesso de quem, porque esses pronomes, no Colégio Santo Antônio, são considerados desnecessários: entende-se, sem que seja preciso explicitar, que o futuro e o sucesso são para os que ali estão, para os meninos de camisa engomada e as meninas de saia xadrez, para os filhos dos médicos, dos engenheiros, dos juízes que um dia eles próprios virão a ser. O resto, o que fica do lado de fora do muro branco, esse resto não tem futuro, ou tem um futuro de segunda, desses que se aprende nas escolas públicas, quando há escola, e que conduz, quando conduz, aos empregos de servente, de vigia, de doméstica, de catador de lixo. É a ordem natural das coisas, dizem os pais na reunião de pais e mestres. É o mérito, dizem os professores no dia da formatura. E ninguém pergunta onde fica o mérito de quem nasceu do lado errado do muro.

         Lá dentro, as crianças fardadas aprendem a ser os futuros governantes de Santa Cruz do Calvário. Aprendem latim, se possível, e inglês, certamente, e matemática de cálculos diferenciais, e redação com citações de autores que as crianças da Vila do Papelão nunca ouvirão nomear. Aprendem, sobretudo, a distinguir-se. A saber que são diferentes. Que o suor, para elas, é coisa de ginásio, e que a fome é um conceito abstrato que se estuda nos livros de História, ao lado da Idade Média e da Revolução Francesa. O edifício é amplo, arejado, com corredores de mármore e um pátio interior onde há uma fonte com carpas e um jardim que um jardineiro de verdade, desses que ganham salário mínimo e moram na periferia, vem podar todas as semanas. As carteiras são novas, de madeira nobre, e os quadros são brancos, de vidro, com marcadores que não soltam pó. Há biblioteca, há laboratório de ciências, há ginásio coberto, há até uma capela, para os que querem começar o dia com uma oração. Tudo limpo, tudo organizado, tudo como deve ser para quem paga cinco mil reais de mensalidade e ainda contribui com um “fundo de solidariedade” que, segundo o prospecto, serve para “levar esperança às comunidades carentes do entorno”. O que o prospecto não diz é que essa esperança se materializa, uma vez por ano, na forma de cestas básicas com produtos de marca própria, daquelas que sobram no supermercado do pai de um aluno, e que as crianças, vestidas a caráter com camisetas do colégio, vão distribuir no Natal, sob o olhar das câmaras de televisão que registam o gesto magnânimo dos futuros líderes. Depois voltam para o conforto das suas casas, e as barracas continuam ali, do outro lado do muro, como uma paisagem que se vê da janela do carro, que se comenta com um “é uma pena”, e que se esquece assim que o sinal abre.

       Mas hoje, no intervalo, o que corre entre os alunos não é lição. Os cadernos permanecem fechados sobre as carteiras, os lanches, sanduíches naturais, sucos de caixinha, biscoitos importados, são comidos depressa para que sobre mais tempo de conversa. Porque um boato suculento, desses que fazem os olhos brilharem e as vozes baixarem a um sussurro, percorre os corredores do Colégio Santo António como um vírus que ninguém quer deter. Começou não se sabe onde, talvez na cozinha, onde uma das funcionárias, que mora na Vila do Papelão, ouviu de vizinhos; talvez no portão, onde um dos seguranças trocou palavras com um entregador; talvez até na sala dos professores, porque os professores, sendo humanos, também gostam de uma fofoca. A verdade é que, em menos de meia hora, todos sabem: há uma mulher na favela, uma velha catadora de lixo, que está morrendo. E o Doutor Alexandre, o médico do município, aquele que às vezes vem ao colégio dar palestras sobre “prevenção e saúde para jovens”, aquele mesmo que usava um terno azul e mostrava gráficos no projetor, o Doutor Alexandre virá ao entardecer apressar a sua morte. A expressão que circula, de boca em boca, é sempre a mesma: “apressar a morte”. Umas crianças dizem “apressar”, outras dizem “adiantar”, outras, mais ousadas, dizem “fazer morrer”. E há nos olhos delas um brilho que não é propriamente compaixão, nem curiosidade mórbida, mas qualquer coisa entre o fascínio e o horror, desses sentimentos que os livros de moral classificam como “complexos” e que os psicólogos chamam de “dissonância cognitiva”. Porque, ao mesmo tempo que acham terrível que uma velha morra sem assistência, acham também fascinante que um médico, que eles conhecem e respeitam, esteja envolvido numa coisa tão feia. E há ainda um terceiro sentimento, mais secreto, que nenhum deles confessaria em voz alta: o alívio de que isso lhes acontece aos outros, aos que vivem do outro lado do muro, àqueles cujos nomes eles não sabem e cujos rostos não distinguem. O alívio de que a morte apressada, a fome, a doença, a miséria, tudo isso fica do lado de fora. Do lado de dentro, há apenas o sol da tarde batendo nas letras douradas, o cheiro da grama recém-cortada, e o tilintar dos talheres de inox na cantina.

       Ouvi dizer que a velha tem uma bactéria que come os nervos, diz uma menina de tranças, sentada no banco de pedra junto à fonte. Começa pelos dedos, sobe, sobe, até chegar ao cérebro. A minha mãe disse que é contagioso. Não é contagioso, imbecil, responde um menino de óculos, filho de um juiz, que se julga mais informado porque lê revistas de ciência. É uma bactéria oportunista. Só ataca quem tem o sistema imunológico fraco. Gente desnutrida, sabe? A minha mãe disse que o Doutor Alexandre vai lá hoje à tarde com uns remédios. Remédios para apagar a dor. Mas a empregada cá de casa, que é da vila, disse que os remédios são para matar, porque o posto não tem antibiótico. E que ele faz isso sempre, quando não há jeito. Silêncio. As carpas, na fonte, sobem à superfície a abrir a boca, à espera de migalhas. Um menino mais novo, de oito anos talvez, que ainda não aprendeu a disfarçar os sentimentos, pergunta, mas isso não é matar? O médico não pode matar. Isso não é crime? O menino de óculos encolhe os ombros, num gesto que ensaiou muitas vezes ao espelho para parecer despreocupado. Não é bem matar. É... abreviar o sofrimento. Chama-se eutanásia. A minha mãe disse que em alguns países é permitido. Aqui não, mas... no fundo, é uma piedade. Coitada, a velha. Não tem família, não tem nada. É melhor assim. A menina de tranças acrescenta, com um ar de quem dá a última palavra, o meu pai disse que a prefeitura vai fazer uma campanha para arrecadar fundos e construir um posto de saúde na vila. No ano que vem, talvez. Disse que vão pôr o nome do médico, se ele se candidatar a vereador. O menino mais novo insiste, porque as crianças têm essa mania de não largar o osso, mas a velha vai morrer hoje. O posto, se fizerem, vai ficar pronto quando ela já estiver morta.

 

    Ninguém responde. Porque a resposta, mesmo para uma criança de oito anos, é óbvia: os mortos, neste mundo, não contam. Contam os vivos que votam, que pagam impostos, que consomem. Os mortos da Vila do Papelão são apenas números numa estatística que ninguém lê, nomes que se perdem no cartório como se perde uma nota velha no bolso de um casaco que já não se usa. O menino de óculos, para mudar de assunto, tira do bolso um telemóvel último modelo e começa a mostrar aos colegas um jogo novo que o pai lhe instalou. A menina de tranças tira uma selfie junto à fonte, com as carpas ao fundo, e publica no Instagram com a legenda “#tardezinha #colegio #amigos”. O menino mais novo fica ali, parado, a olhar para o muro branco. Para o lado de lá do muro, ele sabe, há a Vila do Papelão. Nunca lá entrou, mas já viu fotografias numa reportagem da televisão. Barracos de lona, crianças descalças, gente sentada no chão. Imaginou, por um instante, o que seria estar na pele da velha que vai morrer, e sentiu um arrepio que não soube bem se era medo ou vergonha. Depois o telemóvel apitou, uma notificação qualquer, e o pensamento se dissolveu como as carpas na água escura.

      O sinal toca. As crianças voltam às salas de aula, as portas de vidro fecham-se com um clique suave, e o silêncio, um silêncio caro, comprado, artificial, instala-se de novo nos corredores de mármore. Lá fora, do outro lado do muro branco, Jaci caminha em direção ao boteco do Seu Nunes com o balde furado numa mão e, na outra, a esperança de que ainda haja tempo. O sol começa a descer, pintando de laranja as torres do colégio, e as letras douradas, nessa luz, parecem arder. “Garanta o futuro e o sucesso de seu filho.” O futuro. O sucesso. O filho. Nada disso, pensaria Jaci, se lesse a placa, nada disso é para os meus. Os meus, quando têm futuro, é futuro de lixo, e sucesso, para eles, é sucesso de sobreviver mais um dia, e filho, quando têm, é filho que lhes morre nos braços ou foge para não ver a mãe envelhecer. Mas não lê a placa, não sabe que existe, não lhe interessa. O que lhe interessa é o boteco, o arroz com feijão, a carne, se houver, e o rosto da amiga que a espera, com a boca seca e o olhar lúcido, a pedir, antes de partir, o gosto da comida de verdade.

 

 

V

 

         Aproveitando que o porteiro foi defecar. É assim, com esta vulgaridade que a vida tem, que se abrem as portas do impossível. O porteiro, um homem gordo de bigode grisalho chamado Valdomiro, que passou trinta anos a abrir e fechar aquele portão de ferro forjado, sentiu de repente um aperto no baixo-ventre, desses que não se pode adiar nem com força de vontade, e pediu ao seu substituto, o vigilante noturno que ainda não tinha ido embora, que tomasse conta do posto por cinco minutos. Cinco minutos. Foi o tempo suficiente. Porque os alunos do Colégio Santo Antônio, treinados em estratégia e em trabalho de equipa pelas aulas de educação física e pelos jogos de tabuleiro modernos, viram a oportunidade e não a desperdiçaram. O primeiro a escalar o muro foi um ruivo alto, chamado Artur, filho de um coronel reformado, que usava as mãos calejadas de tanto treinar na corda do ginásio. Depois dele, uma menina de tranças, a mesma que há pouco comentava a morte na fonte das carpas, agarrou-se às pontas de lança do gradeamento com uma agilidade que surpreendeu os colegas. Depois outros, e outros, e outros. Saltaram para o lado de fora como quem salta de um trampolim para a piscina: com medo, mas com a certeza de que a água os receberá. A diferença é que, ali, do lado de lá do muro, a água não era água, era lama, era poeira, era um mundo que eles nunca tinham pisado senão pelos vidros fumados dos automóveis dos pais.

        Não levam flores. Não levam remédios. Não levam um copo de água, nem uma manta, nem sequer uma palavra de conforto ensaiada na aula de religião. Levam apenas a curiosidade crua de quem nunca viu a morte de perto. A morte, para aquelas crianças, é um conceito abstrato, algo que acontece aos avós quando estão muito velhos, ou aos animais de estimação quando uma doença os leva, ou aos personagens dos filmes de guerra que o pai deixa ver aos fins de semana. Nunca viram um corpo a definhar, nunca ouviram uma respiração a apagar-se como o motor de um carro antigo, nunca cheiraram o odor que o corpo exala quando começa a despedir-se de si mesmo. Nunca, sobretudo, estiveram na presença de alguém que sabe que vai morrer e que olha para a morte com olhos de quem já viu pior. É isso que os atrai, mais do que a velha, mais do que a doença, mais do que o médico que virá com as seringas. É a sensação de estarem a assistir a um espetáculo proibido, a uma cena que os livros de ciências descrevem com desenhos esquemáticos mas que a vida real guarda atrás de portas fechadas, em hospitais onde eles nunca entram, em casas para onde não são convidados. E, no fundo, há também qualquer coisa de audácia, de transgressão, de prazer em pisar o território interdito. Saltar o muro do colégio, atravessar a linha invisível que separa o asfalto do barro, é uma aventura. E a velha que morre é, nessa aventura, o troféu.

      Correm em direção à casa de entulho como quem vai ao zoológico ver um animal raro. Os pés, habituados ao piso liso dos corredores de mármore, escorregam na terra batida, sujam-se de lama, pisam poças de água suja que não sabiam que existiam. A menina de tranças perde uma sandália, um menino mais pequeno rasga a camisa num arame farpado, mas ninguém para. A curiosidade é mais forte do que o desconforto, e o grupo avança, agora misturado com alguns adolescentes mais velhos que se juntaram no caminho, atraídos pelo rumor de que algo está a acontecer, algo que vale a pena ver. O barraco de Gerusa fica na última rua, naquela que cheira a esgoto e a plástico queimado, mas eles não conhecem o caminho, e é um gato que lhes mostra, ou antes, um gato preto que foge por entre as latas e que, ao fugir, traça a direção certa. Seguem-no, como se a morte tivesse os seus próprios guias, os seus próprios arautos, os seus próprios sinais.

          Enquanto isso, a notícia se espalha como fogo em palha. Nas lojas próximas, os funcionários largam balcões e aventais e vêm para a rua, primeiro um, depois dois, depois um grupo de cinco, de dez, de quinze. A mulher da padaria, que tem as mãos enfarinhadas, esquece o pão no forno e sai para a calçada, protegendo os olhos do sol com a mão em pala. O dono da mercearia, que estava a contar garrafas de refrigerante no depósito, abandona a contagem a meio e fecha a porta, pendurando um cartaz escrito à mão: “Volto já.” E não volta, ou volta horas depois, quando a multidão já se dispersou e os clientes já foram comprar noutro lugar. Os operários da fábrica têxtil, que trabalham em turnos, cruzam os braços sobre as máquinas paradas e combinam o horário. “Vamos às três”, diz um, “às três e meia”, diz outro, “quando o médico chegar”, decide o mais velho, que já viu muitas mortes e sabe que o importante é chegar a tempo do momento decisivo. Os garis, que varriam a avenida com vassouras de piaçaba, encostam as vassouras nos postes e acendem cigarros. Uns vão, outros ficam, mas todos olham na direcção da Vila do Papelão, como se uma força invisível os puxasse para lá. O que os atrai não é a morte, pensam alguns, porque a morte, naquele bairro, é tão comum que mal merece comentário. O que os atrai é o facto de a morte estar a ser apressada. Por um médico. Por um homem que jurou salvar vidas e que agora, dizem, vem encurtá-las. E há nisso uma transgressão que fascina até os mais cépticos. Porque se o médico pode matar, então os papéis estão trocados, e o mundo, que já era confuso, torna-se de repente um lugar onde nada é o que parece.

           Nos bares da esquina, os homens que bebem cachaça desde o meio-dia levantam os copos e brindam. “À velha”, diz um. “À velha”, repetem os outros, sem saberem o nome dela, sem saberem quem é, apenas porque é uma velha, e porque a morte, quando chega, merece sempre um brinde, nem que seja para afastar o mau agouro. As mulheres, agrupadas nas portas das barracas, comentam entre dentes, umas com pena, outras com inveja, outras com um medo que não confessam. “Coitada, ao menos vai descansar”, diz uma. “Oxalá fosse eu”, suspira outra, que tem um marido bêbedo e três filhos para criar. “Não digas isso, mulher de Deus, que a vida é um dom”, ralha a terceira, que frequenta a igreja evangélica aos domingos e acredita que o sofrimento tem um propósito. E assim, entre comentários e suspiros, entre copos que se levantam e cigarros que se acendem, a Vila do Papelão transforma-se numa plateia. O palco é o barraco de Gerusa. Os atores são Jaci, que ainda não voltou com a comida, o Doutor Alexandre, que ainda não chegou com as seringas, e a morte, que espera sentada na cadeira de balanço invisível, aquele lugar que sempre está vago, à espera de alguém que se sente.

          Os alunos do colégio chegam primeiro. Param diante da porta de lona, ofegantes, suados, com as roupas sujas e os olhos arregalados. Nenhum ousa entrar. Ficam ali, em semicírculo, como quem assiste a um espetáculo de rua, à espera que o pano se levante. Um deles, o mais ousado, espreita por uma fenda na lona e vê Gerusa deitada, imóvel, com os olhos fechados e a boca entreaberta. A respiração é quase imperceptível, um leve sobe-e-desce do peito que parece estar a pedir para parar. O menino afasta-se, assustado, e os outros perguntam em coro: “Viste? Viste?” Ele acena com a cabeça, sem conseguir falar, e há nos seus olhos um brilho que não é de curiosidade, mas de medo. O medo de que aquela imagem fique gravada para sempre, o medo de que, ao olhar para a morte, a morte tenha olhado para ele. E, por um instante, o grupo hesita, alguns pensam em voltar, outros em entrar, outros em chamar os adultos que já vêm chegando. Mas não voltam. Ficam. Porque a curiosidade, quando é crua, também é teimosa, e não há força no mundo que a faça recuar.

          Lá longe, do lado oposto da vila, Jaci sai do boteco do Seu Nunes com uma marmita de alumínio fumegante nas mãos. O balde furado ficou para trás, esquecido no balcão, porque não havia como carregar as duas coisas ao mesmo tempo. Ela caminha apressada, com as pernas a doer, com os pés a arder dentro das chinelas rotas, com o cheiro da comida a subir-lhe às narinas e a fazer-lhe a boca molhar. Arroz, feijão, uma posta de peixe frito, farofa, e ainda um pedaço de pudim que o Seu Nunes deu de presente, “para adoçar a despedida”, disse ele, com os olhos vermelhos de quem também já perdeu amigos. Jaci não pensa nos curiosos, não pensa nos alunos, não pensa na multidão que se forma. Pensa apenas em chegar a tempo. Pensa em pousar a marmita na borda da cama, em abrir a tampa devagar, em molhar os dedos na comida e levá-los à boca de Gerusa, para que ela sinta, antes de tudo, antes da seringa, antes do silêncio, o gosto de viver. Ainda que por um instante.

 

VI

 

         Em poucas horas, o que era silêncio de rua, aquele silêncio pesado das horas mortas, quando o sol aperta e as pessoas se refugiam dentro das barracas com um pano molhado na cabeça, virou um formigueiro humano. Não há mais espaço para estar parado. Os que chegam primeiro empurram os que chegaram depois, e os que chegaram depois empurram os que vêm mais atrás, numa coreografia confusa de ombros que se chocam e pés que se pisam. As crianças, que até há pouco brincavam com paus e latas, agora estão montadas nos ombros dos pais para ver melhor, e os mais velhos, os que já não têm força para ficar de pé, sentam-se em bancos improvisados de tijolo e assistem de longe, com a resignação de quem já viu muitas mortes e sabe que esta, apesar de tudo, não é especial. Mas é especial. É especial porque veio um médico apressá-la, e porque a notícia correu, e porque as pessoas, quando se juntam, transformam qualquer evento num espetáculo. Não importa se são ricos ou pobres, crentes ou descrentes, se moram do lado de cá do muro ou do lado de lá. A morte, essa, é o único espetáculo que iguala as classes diante do mistério. Diante daquilo que ninguém explica, que ninguém entende, que ninguém consegue controlar. Diante do fim.

           Os sorveteiros, que têm faro para o negócio como os abutres têm faro para a carniça, estacionam os seus carrinhos de rodas enferrujadas junto à barreira de curiosos. Não são sorveteiros formais, desses com uniforme e carteirinha da prefeitura. São homens e mulheres da própria vila, que compram caixas de isopor e blocos de gelo e saem a vender picolés de água com sabor, aqueles que custam um real e derretem antes que se chegue à metade. Mas hoje, com a multidão, o preço subiu para dois reais, e ninguém reclama, porque o sol está de matar, e a garganta seca, e a espera é longa. Ao lado dos sorveteiros, os vendedores de água mineral, se é que se pode chamar mineral à água da bica que eles engarrafam em garrafas de plástico reaproveitadas, montam caixas de isopor no asfalto quente, porque o sol daquele dia castiga como praga, como se os céus tivessem resolvido endurecer a prova. Não há uma nuvem, não há uma brisa, não há um sopro de alívio. O calor sobe do chão em ondas visíveis, e os rostos da multidão brilham, cobertos de suor que escorre em pequenos rios pelas faces, se acumula nas cavidades dos olhos, se mistura com o pó que o vento levanta a cada passo. O cheiro de suor e terra molhada, porque alguém, não se sabe quem, derramou um balde de água na entrada do beco, talvez para assentar a poeira, talvez por um gesto inconsciente de quem quer frescura onde não há, esse cheiro domina o ar, mas por baixo dele adivinha-se outro, mais denso, mais antigo: o cheiro da morte que se aproxima, que já está ali, que se sente na pele como se sente a mudança do tempo.

 

         E a especulação corre. Corre mais depressa do que a notícia, mais depressa do que os próprios pés dos curiosos. "Será que ela grita?" pergunta uma mulher de avental manchado, que largou o tanque de lavar roupa para vir assistir. "Será que o médico injeta veneno?" responde um homem de camisa suja de graxa, que veio da oficina de automóveis ali da esquina, sem sequer ter tirado as luvas. "Veneno não, é morfina", corrige uma senhora que assiste a programas de televisão sobre medicina e se julga entendida. "Morfina também mata, se a dose for grande", rebate o homem da graxa, que já viu um cão morrer assim, depois de uma injeção que o veterinário chamou de "eutanásia". E as opiniões se cruzam, se chocam, se desfazem no ar como fumo. Há quem diga que o médico não vem, que é boato, que nunca se viu um médico na vila a não ser para dar atestado de óbito. Há quem jure que viu o carro do Doutor Alexandre estacionado no fim da rua, um carro prateado, quase novo, com o logotipo da Secretaria de Saúde na porta. Há quem aposte que a velha já morreu, que a Jaci chegou e encontrou o corpo frio, e que agora está dentro do barraco sozinha, a rezar de olhos abertos porque já nem sabe as palavras. A verdade, porém, é que ninguém sabe. E é esse não-saber que alimenta a multidão, que a mantém ali, plantada como árvores numa praça, com as raízes fincadas na curiosidade e os ramos agitados pelo vento da especulação.

         Os alunos do colégio, que foram os primeiros a chegar, agora estão misturados com a multidão, irreconhecíveis. As camisas engomadas sumiram sob as nódoas de lama, as saias xadrez rasgaram-se nos arames, os cabelos perfeitamente penteados desmancharam-se com o suor e a humidade. Ninguém diria que aqueles meninos sujos, com os olhos arregalados e as mãos sujas de terra, são os mesmos que há poucas horas almoçavam sanduíches naturais na cantina do Colégio Santo António. Mas são. E há neles, agora, uma excitação que não é apenas curiosidade, é também um sentimento de pertença. Pela primeira vez na vida, sentem-se parte daquilo que os livros chamam de "povo". Estão ali, ombro a ombro com catadores de lixo e operários fabris, com prostitutas e biscateiros, com velhas desdentadas e crianças descalças. E há nisso uma estranha alegria, uma sensação de que o muro, por algumas horas, deixou de existir. O muro branco com as letras douradas. O muro que separa o futuro do sucesso do resto. O muro que, naquele momento, está ali, atrás deles, vazio, com o porteiro Valdomiro já de volta ao seu posto, coçando a cabeça sem saber para onde os meninos foram. Não importa. O que importa é o agora, é o espetáculo, é a velha que vai morrer e o médico que vem matar.

       De dentro do barraco, ninguém sai. A lona está cerrada, mas por uma fenda vê-se uma sombra mover-se devagar. É Jaci, que chegou há poucos minutos com a marmita fumegante, que se ajoelhou ao lado da cama, que abriu a tampa e ofereceu a comida à amiga. Gerusa, com os olhos ainda lúcidos, abriu a boca como um passarinho que espera o alimento da mãe, e comeu. Comeu devagar, com intervalos longos entre cada garfada, porque a doença já lhe roubou a força de mastigar, mas a língua ainda sente o gosto, e os olhos, enquanto mastiga, brilham de um prazer antigo, quase esquecido. Jaci não chora. Não chora porque as lágrimas, já se disse, secaram há muito. Mas os dedos, quando levam o arroz à boca da amiga, tremem. Tremem como os dedos de Gerusa, num movimento solidário, como se a morte de uma fosse também a morte da outra, e a vida, aquela coisa frágil que seguravam entre as duas, se fosse esvaindo por uma fissura que nenhuma delas conseguia tapar.

 

     Lá fora, o sol começa a descer. O entardecer se aproxima, e com ele, o Doutor Alexandre. Alguém viu o carro prateado dobrar a esquina, alguém ouviu o motor a chiar, alguém gritou "Ele vem, ele vem", e a multidão, que até há pouco conversava em voz alta, calou-se de repente. O silêncio desceu como uma nuvem, denso, pesado, e no meio do silêncio ouviu-se o barulho de uma porta de carro a fechar. Depois passos. Passos firmes, de homem novo, de sapatos que pisam a terra batida sem hesitação. O Doutor Alexandre. De terno branco, como sempre, com a maleta preta na mão, os olhos fundos, o rosto cansado. Não olha para a multidão. Atravessa-a como quem atravessa uma sala vazia, sem pressa, sem medo, com a certeza de quem sabe o que vai fazer e porquê. A multidão abre-se diante dele, como o mar se abriu diante de Moisés, e fecha-se atrás, num murmúrio de vozes que se perguntam, "Vai ser agora, vai ser agora". Os sorveteiros param de vender, os vendedores de água esquecem as caixas de isopor, as crianças descem dos ombros dos pais, e todos os olhos, sem excepção, fixam-se na porta de lona do barraco.

      O Doutor Alexandre para diante da porta. Hesita um segundo, apenas um. Depois levanta a mão e bate. Três batidas secas, como um código. Lá dentro, Jaci ergue os olhos molhados, olha para a marmita vazia, olha para o rosto sereno da amiga, e suspira. É hora.

 

VII

 

        Em volta da casa de Gerusa, madeira podre, plástico encardido, cracas de lama que subiam pelas paredes como uma doença da terra, forma-se uma praça humana. Não uma praça com bancos e jardins, dessas que os arquitetos desenham nos livros, mas uma praça de corpos, de ombros colados, de pés que se arrastam no chão batido, de braços cruzados sobre o peito ou suspensos ao lado do corpo num gesto de quem não sabe o que fazer com as mãos. A casa, se é que se pode chamar casa àquela amálgama de restos, parece menor agora, esmagada pela multidão que a rodeia. As paredes de madeira podre, onde o cupim fez galerias que parecem mapas de um país desconhecido, rangem com o vento, como se também elas estivessem a gemer, a pedir que a morte as leve de uma vez. O plástico encardido que cobre o telhado, remendado aqui e ali com fita adesiva e sacos de lixo abertos, estala com o calor, soltando pequenos estalidos que se confundem com os murmúrios da multidão. E as cracas de lama, aquelas crostas que a chuva foi deixando ao longo dos anos, subindo pelas paredes como hera negra, dão à casa um ar de coisa enterrada, de coisa que já pertence à terra mais do que aos vivos.

         Cães de rua, esses que vivem dos restos dos restos, que dormem nos montes de lixo e acasalam nas sombras dos becos, ladram e farejam os pés da multidão. Estão confusos com tanto movimento em um lugar onde só passavam catadores e lixo, onde o silêncio era a regra e o ruído, a exceção. Um vira-lata amarelo, magro como um esqueleto, com as costelas à mostra e uma sarna que lhe cobre meio corpo, aproxima-se de um menino de camisa rasgada e cheira-lhe os dedos, à espera de uma migalha que não vem. Outro, mais pequeno, de pelo preto e branco, senta-se no meio do beco e começa a uivar, um uivo longo, triste, que se espalha pelo ar como um presságio. As pessoas afastam-se dos cães, não por medo, mas por nojo, porque os cães da vila não tomam banho, não tomam vacina, não são tratados como os cães de apartamento que usam roupinha no inverno. E os cães, sentindo o desprezo, afastam-se também, vão deitar-se mais longe, debaixo de um carro abandonado, de onde continuam a ladrar, mas agora num tom mais baixo, como se pedissem desculpa por existirem. A multidão, porém, já não repara neles. A multidão tem outros interesses.

        Guardas municipais chegam. São três, ou quatro, com a pança saliente a transbordar do cinto de couro preto, com o rádio na cintura a chiar palavras que ninguém entende, com a boina desabada para um lado e o bigode suado. Tentam conter o tumulto, ou melhor, tentam dar a impressão de que o estão a conter, porque a verdade é que são poucos para tanta gente, e o que podem fazer, três homens de meia-idade contra uma multidão de duzentas, trezentas pessoas? Gritam "Afastem-se", "Deem espaço", "Isso é propriedade privada", mas as palavras perdem-se no ar, comem-se umas às outras, tornam-se um ruído indistinto que ninguém obedece. Um deles, mais corajoso ou mais tolo, tenta abrir caminho com os braços, empurrando os curiosos para trás, mas é repelido por um murro no peito, não violento, apenas firme, e recua, com o rosto vermelho de vergonha e raiva. O que é propriedade privada, nesta vila, se as casas são feitas de restos e o chão não pertence a ninguém? O que é conter o tumulto, se o tumulto é a única coisa que faz aquelas pessoas sentirem que estão vivas? Os guardas desistem. Encostam-se a um poste de madeira, acendem cigarros, e ficam a olhar, como todos os outros. O rádio continua a chiar, mas ninguém lhe presta atenção. Porque o verdadeiro espetáculo, o que interessa, está ali, do outro lado da porta de lona.

        Ninguém avança, porém. É curioso, digno de nota, que aquela multidão que se acotovela, que se pisa, que se empurra para ver melhor, não ultrapassa uma linha invisível. Há um limite, um limiar que não é marcado por cordas nem por barreiras, mas que todos respeitam como se fosse sagrado. É o limiar do abrigo de lata onde a morte respira devagar. Talvez seja medo. Talvez seja respeito. Talvez seja a intuição profunda de que há coisas que não se devem perturbar, momentos que pedem silêncio, espaços que exigem solitude. Ou talvez seja apenas a certeza de que, se avançarem, verão o que não querem ver: um rosto, um corpo, uma respiração, uma agonia. E preferem ficar a uma distância segura, onde a morte é ideia, não é carne. Onde podem sussurrar entre si, comentar, especular, sem terem de olhar nos olhos de quem se vai. Porque olhar nos olhos de quem se vai, isso é coisa para poucos. Para Jaci, que está lá dentro. Para o Doutor Alexandre, que acabou de bater à porta. Para os que amam, ou os que têm o dever de cuidar. Para os outros, os que estão de fora, basta a curiosidade. Basta o espetáculo. Basta saber que está a acontecer, ali, a dois passos, e que eles podem ir para casa, ao fim do dia, e dizer: "Vi a morte. Estive lá. Vi-a de perto." Mesmo que não tenham visto nada. Mesmo que a morte se tenha mantido invisível, atrás da lona, como uma atriz que não sai à cena. O que importa é ter estado. É ter feito parte. É ter estado ali, naquele lugar, naquele momento, quando o mundo, por um instante, parou para assistir.

          O sol, entretanto, desceu mais um pouco. As sombras alongaram-se, e a fachada da casa de madeira podre ficou coberta por um véu cinzento, como se o entardecer quisesse poupar aos olhos da multidão o espetáculo da agonia. Dentro do barraco, ouve-se um murmúrio. É a voz de Jaci, baixa, quase um sussurro, a dizer alguma coisa que não se distingue. Depois a voz de Gerusa, mais fraca ainda, um fio de voz, uma palavra solta que o vento leva antes que chegue aos ouvidos de fora. Depois o som de uma mala a abrir. O clique do fecho de metal. O tilintar de frascos de vidro. O Doutor Alexandre prepara as seringas. A multidão prende a respiração. Os guardas municipais apagam os cigarros. Os cães, lá longe, calam-se de repente. E a morte, que esperava sentada na cadeira invisível, levanta-se, estica os membros, e dá um passo em frente. Porque a sua hora, finalmente, chegou.

 

 

VIII

 

 

          Jaci retorna do peditório com as mãos vazias. O balde furado, que horas antes levara debaixo do braço com a esperança de o encher de moedas, agora pende-lhe da mão direita como um peso morto, uma condenação, uma prova de que o mundo, afinal, não se compadece. Caminha devagar, arrastando as chinelas de sola gasta, com o rosto baixo e os olhos secos, os olhos que já não têm lágrimas, mas que ardem como se tivessem. Na cabeça, o lenço de pano escorregou para trás, deixando à mostra os cabelos brancos, ralos, sujos de poeira, que o vento agita sem cuidado. As mãos, essas mãos que já separaram toneladas de plástico e papel, que já amassaram latas e enfiaram pregos em sacos de estopa, que já acarinharam a amiga na agonia, agora estão vazias. E não é só de dinheiro que estão vazias. Estão vazias de esperança, vazias de fé, vazias de qualquer sentimento que não seja uma tristeza surda, uma raiva contida, uma vergonha que não devia sentir mas sente, porque a pobreza ensina a vergonha como nenhuma escola ensina matemática.

       Na Vila do Papelão, ninguém tem dinheiro para dar. Jaci sabia disso antes de sair. Sabia que os vizinhos, se têm um real, é para comprar pão, e se têm dois, é para o gás, e se têm cinco, é para o remédio da criança que tossiu a noite inteira. Sabia que as portas das barracas se fecham quando se ouve o balde a arrastar no chão, que os olhos se desviam, que as cortinas de pano se fecham depressa, como se a pobreza dos outros fosse uma doença contagiosa. Mas mesmo assim foi. Porque o amor, quando é verdadeiro, também é cego, e faz acreditar que o impossível é possível, que a pedra vai dar água, que o deserto vai florescer. Foi de barraca em barraca, estendeu o balde, pediu com os olhos, porque a voz, essa, já não saía. "Não tenho, vizinha", diziam umas. "Hoje não deu", diziam outras. "Volta amanhã, quem sabe Deus ajuda", diziam as mais piedosas, como se amanhã fosse um lugar onde se chega sempre, como se a morte esperasse pelo calendário dos pobres. E Jaci agradecia com um movimento de cabeça, e seguia em frente, e o balde continuava vazio.

         Depois tentou na cidade. Saiu da vila, atravessou a avenida, chegou às ruas onde as calçadas são largas e as lojas têm vitrines. Ali, pensou, ali talvez haja gente com dinheiro, gente que pode dar um trocado sem sentir falta, gente que nem vai notar a diferença no bolso ao fim do dia. Mas enganou-se. Porque os comprados da cidade, esses que vivem do outro lado do muro, que frequentam o Colégio Santo Antônio e fazem compras no supermercado com carrinho de plástico, esses desviam o olhar quando ela estende o balde. Desviam como se desvia de um buraco na calçada, como se desvia de um cão morto, como se desvia de tudo o que lembra que o mundo não é feito apenas de vitrines e sorrisos. Uma senhora de vestido floral atravessa a rua para não passar perto. Um homem de terno aperta o passo, olhando fixamente para o telemóvel. Uma criança aponta o dedo, mas a mãe puxa-lhe o braço e diz baixinho, "Não olhes, filho, não olhes". E Jaci fica ali, no meio do passeio, com o balde estendido, sentindo o peso do mundo nas costas, enquanto a cidade flui à sua volta como um rio que não quer levar os afogados.

          Encosta-se num poste. O poste é de ferro, enferrujado na base, coberto de papéis de aviso de shows e de procura-se. Encosta-se e chora. Chora em silêncio, como se chora quando se aprendeu que o choro incomoda, que o choro é feio, que o choro é coisa de fraco. As lágrimas, que ela julgava secas para sempre, renascem de algum lugar fundo, talvez do mesmo lugar onde nascem os sonhos quando se tem coragem de sonhar. Escorem-lhe pelo rosto sulcado, entranham-se nas rugas, misturam-se com o suor e a poeira, formam pequenos riachos que vão morrer no queixo. Jaci não as limpa. Deixa-as correr. Porque o chão, ao menos, não desvia o olhar. O chão recebe tudo, as lágrimas e o sangue, a chuva e o lixo, e nunca se queixa. A multidão, a que se formou em volta da casa de Gerusa, passa por ela sem a ver. Estão demasiado ocupados a olhar para a porta de lona, a especular sobre a seringa, a comentar a cor do céu. Jaci é invisível. É apenas uma velha encostada a um poste, uma velha com um balde vazio, uma velha que chora sem fazer barulho. Há tantas, na Vila do Papelão, que já ninguém as distingue. São como os postes: estão ali, servem para alguma coisa, mas ninguém lhes pergunta o nome.

          O último pedido de Gerusa, uma refeição farta, com carne e caldo grosso, com cheiro a tempero e gosto de vida, parece impossível agora. Impossível como pedir à chuva que não molhe, como pedir ao sol que não aqueça, como pedir à morte que espere. Jaci fecha os olhos e vê a amiga deitada na cama de tábuas, com os olhos lúcidos à espera, com a boca seca a preparar-se para o sabor que não virá. O Doutor Alexandre está lá dentro, talvez já tenha aberto a mala, talvez já tenha tirado os frascos, talvez já esteja a preparar a seringa que há-de trazer o descanso. E ela, Jaci, que saiu para arranjar comida, volta de mãos vazias, como uma promessa quebrada, como uma esperança falhada. "Perdoa-me, Gerusa", murmura, mas as palavras perdem-se no ar, levadas pelo vento quente, e ninguém as ouve, nem sequer ela própria.

         Mas então. O então que muda tudo, que chega quando já não se espera, quando a desistência já se instalou nos ossos e o coração já aprendeu a bater sem razão. Um menino aproxima-se. Vem do meio da multidão, ou de algum lugar que a multidão esconde, e para diante de Jaci. É pequeno, não terá mais de dez anos. Usa o uniforme do Colégio Santo Antônio, camisa branca, calça azul-marinho, emblema bordado no bolso, e está impecável. Não uma ruga, não uma nódoa, não um fio de cabelo fora do lugar. As sandálias de couro são novas, reluzem com a luz do entardecer. Os cabelos, penteados para trás com gel, brilham como se fossem de plástico. Ele olha para Jaci com uns olhos que não sabem bem o que ver, que alternam entre a curiosidade e o medo, entre a piedade e a hesitação. Na mão direita, amassada entre os dedos suados, uma nota de vinte reais. Não é uma nota nova; tem vincos, está suja, talvez tenha vindo do bolso do pai ou da mesada que a mãe deu para o lanche da semana. Mas é uma nota. E vale vinte reais.

       Jaci levanta os olhos. Vê o menino, vê o uniforme, vê a nota. Não entende. O que quer aquele menino, aquela criança limpa, naquele lugar sujo? Porque não está dentro do colégio, a aprender latim e inglês, a comer sanduíches naturais na cantina? O menino hesita, olha para trás, como quem se certifica de que ninguém o vê. Depois estende a mão, a nota amassada, e diz: "É pra tia comer algo bom." A voz é fina, ainda não mudou, tem o timbre das crianças que acreditam que o bem que fazem vai mudar o mundo. Depois, sem esperar resposta, sem esperar um agradecimento, sem esperar nada, ele se vira e some no meio da multidão. Some como quem tem medo de ser visto a fazer o bem, porque o bem, no Colégio Santo Antônio, não é coisa que se faça à luz do dia, não é coisa que se exiba, não é coisa que dê pontos no boletim. Some, e Jaci fica com a nota na mão. Vinte reais. A mão treme, mas segura firme. A nota é pequena, pesa menos que uma folha, mas parece pesar uma tonelada.

          Jaci olha para a nota, olha para o balde vazio, olha para a multidão que continua a ignorá-la. E, pela primeira vez em muitas horas, os cantos da sua boca esboçam qualquer coisa que poderia ser um sorriso. Não é um sorriso de alegria, porque a alegria, nessas paragens, é um luxo que se paga caro. É um sorriso de espanto, de admiração, de uma fé renascida nas cinzas. O menino não sabia, quando estendeu a nota, que estava a comprar mais do que comida. Estava a comprar a possibilidade de um último gesto. Estava a comprar a paz de uma mulher que vai morrer de barriga cheia. Estava a comprar, para Jaci, a certeza de que nem tudo está perdido, de que ainda há bondade no mundo, mesmo que venha embrulhada num uniforme impecável e entregue por mãos pequenas que tremem de medo. Jaci guarda a nota no bolso da blusa rasgada, junto ao coração. Aperta-a com força, como se fosse um amuleto, como se fosse a própria vida. Depois olha para o céu, para o sol que se põe, para as nuvens que se tingem de vermelho, e pensa: "Ainda dá tempo. Ainda dá tempo, Gerusa. Vou buscar a comida. Vou trazer o melhor que houver. Vais comer, amiga. Vais comer como não comeste em toda a tua vida." E endireita as costas, aperta o balde debaixo do braço, e começa a andar. Não para o boteco do Seu Nunes, que já visitou e onde já gastou as poucas moedas que tinha. Para mais longe. Para a feira, que fica do outro lado da cidade, onde os preços são mais baixos e onde, com vinte reais, se compra um frango inteiro, um pouco de arroz, um pouco de feijão, um ovo talvez, uma fruta. Andará meia hora, talvez mais, mas andará. Porque a última refeição de Gerusa não pode ser de qualquer maneira. Tem de ser de verdade. Tem de ser com gosto. Tem de ser com o sabor da vida que se vai, mas que, antes de ir, quis ficar. E Jaci vai, apressada, com os passos que a idade e a fadiga já não deviam permitir, mas que o amor, quando é forte, reinventa. Vai. E atrás dela, o poste de ferro enferrujado fica vazio, e a multidão continua a olhar para a porta de lona, e o menino do uniforme impecável já não está, como se nunca tivesse estado. Mas a nota, essa, está no bolso. E a esperança, essa, renasceu das cinzas como fénix. Pequena, frágil, mas quente. Quente como o arroz que vai cozinhar. Quente como o frango que vai fritar. Quente como o abraço que vai dar à amiga, antes que a seringa faça o seu trabalho e a morte, enfim, a leve para o descanso.

 

 

IV

 

    

 

          Jaci compra pão, queijo, um pedaço de carne e duas frutas. A feira já está no fim, as bancas começam a desmontar, os feirantes gritam os últimos preços numa voz cansada de quem trabalhou desde as quatro da manhã. Mas há ainda quem venda, há ainda quem aceite os vinte reais amassados sem perguntar de onde vieram. O pão é fresco, saiu do forno há poucas horas, tem a crosta estaladiça e o miolo macio que desfaz na boca. O queijo é branco, curado, desses que se compra em cunha, embrulhado em papel de pão, com um pouco de suor na superfície que promete sabor. A carne é um pedaço de acém, não grande, não nobre, mas carne, com gordura e sangue, com cheiro de churrasco e de festa. As frutas são duas laranjas, escolhidas a dedo, apalpadas com o cuidado de quem sabe que a doçura se esconde na casca rugosa. Jaci paga, guarda o troco, algumas moedas que deixam cair no fundo do balde com um tinido seco, e começa a correr. Sim, a correr. As pernas que há pouco mal se arrastavam agora voam, esquecendo a idade, esquecendo a dor, esquecendo tudo o que não seja chegar a tempo. O balde, que antes servia para pedir, agora serve de sacola improvisada, abanando no ar enquanto ela corre, com o pão e o queijo e a carne e as laranjas a chocarem-se uns contra os outros numa dança desordenada.

        Volta para o leito de tábuas. A porta de lona está entreaberta, e pela fenda vê-se a sombra do Doutor Alexandre a mexer nos frascos, a preparar as seringas, a fazer o seu trabalho com a eficiência de quem já fez aquilo muitas vezes. Jaci entra sem bater, sem pedir licença, sem olhar para o médico. Vai diretamente para a cama, ajoelha-se ao lado de Gerusa, e começa a retirar as compras do balde. As mãos tremem, os dedos tropeçam nos nós do plástico, mas ela insiste, e finalmente tem nas mãos um prato de plástico. Não é um prato de verdade, esses, na Vila do Papelão, são artigos de luxo que se guardam para visitas ou para dias santos. É um prato descartável, desses que se usam uma vez e se deitam fora, mas Jaci lavou-o com cuidado, esfregou-o com cinza e areia, e ele está limpo, branco, quase novo. Nesse prato, ela dispõe o pão partido ao meio, as fatias de queijo, a carne que teria de ser cozinhada mas que não houve tempo, e as laranjas descascadas às pressas, com os gomos separados uns dos outros como pequenos arcos de sol. Não é uma refeição cozinhada, não é o caldo grosso com cheiro a tempero que Gerusa pedira. Mas é comida. É comida de verdade. É pão, queijo, carne, fruta. E é o melhor que Jaci pôde arranjar. Oferece o prato à amiga.

        Gerusa, com as mãos trêmulas, estende os braços devagar. Os dedos, que a doença já quase imobilizou, encontram uma força que não vinha dos músculos, vinha de algum lugar mais fundo, da memória talvez, da vontade talvez, da teimosia de quem não quer partir sem antes provar. Segura um pedaço de pão com a ponta dos dedos, leva-o à boca, morde. Mastiga devagar, com os olhos fechados, como se cada dentada fosse uma oração, como se cada sabor fosse um último presente. O pão é mole, quente, dissolve-se na língua, e Gerusa solta um pequeno suspiro, um som que não é dor, nem alegria, mas qualquer coisa no meio, qualquer coisa que se chama gratidão. Depois o queijo, a carne, a laranja. Tudo devagar, tudo com pausas, com os olhos a abrir-se e a fechar-se alternadamente, como se a cada momento quisesse gravar aquela imagem na memória, como se soubesse que aquela é a última refeição e quisesse que durasse para sempre.

      Jaci também come. Não em pé, nem de lado, mas sentada no chão, ao lado da cama, com o mesmo prato de plástico. Porque não há dois pratos, e também porque, mesmo que houvesse, elas comeriam do mesmo. É assim que fazem há oitenta anos, desde que eram crianças e dividiam um único biscoito achado no lixo, partindo-o ao meio com as mãos sujas e depois rindo porque um dos lados era maior que o outro. Comer do mesmo prato, beber do mesmo copo, dormir na mesma cama quando o frio apertava e não havia cobertor para duas. Agora, na hora da morte, voltam a fazê-lo. Jaci quebra um pedaço de pão, molha-o no suco da laranja, leva-o à boca de Gerusa. Gerusa mastiga, engole, abre os olhos e sorri. Um sorriso pequeno, quase invisível, mas Jaci vê. Jaci vê porque conhece aquele sorriso desde sempre, desde os tempos em que ele era largo e cheio de dentes, antes de a vida os desgastar um a um. É o mesmo sorriso que Gerusa tinha quando encontrou a boneca no lixão. É o mesmo sorriso que tinha quando inventava histórias de princesas e dragões. É o mesmo sorriso que tinha quando dizia, "Amanhã vai ser melhor", mesmo sabendo que não ia. Jaci morde o lábio para não chorar, mas as lágrimas, essas malditas lágrimas que ela julgava secas, voltam a escorrer. Não as enxuga. Deixa-as cair no prato, misturarem-se com o pão e o queijo. Gerusa vê e, com um esforço enorme, ergue a mão trémula e toca o rosto da amiga. O toque é leve, quase sem força, mas Jaci sente-o como se fosse um abraço. Sente-o como se fosse um "obrigada" e um "adeus" e um "até breve" tudo ao mesmo tempo. E continua a comer, devagar, como quem quer fazer durar aquele momento para sempre.

       Lá fora, a multidão assiste em silêncio. Não há especulações agora, não há comentários, não há sorveteiros a gritar preços. Há apenas o silêncio. Um silêncio denso, pesado, que parece ter peso e consistência, como uma manta de chumbo que cobre tudo. As pessoas olham para a fenda na lona, por onde se vê, em fragmentos, a cena: duas velhas sentadas no chão, um prato de plástico, uma refeição partilhada. Alguém chora. É uma mulher, não se sabe quem, que começa a soluçar baixinho, com a mão tapando a boca para que o som não se espalhe. As lágrimas escorrem-lhe pelo queixo, caem no chão de terra batida, formam pequenas bolinhas de pó. Ao seu lado, um homem de camisa suja de graxa tira o boné e baixa a cabeça, num gesto que é quase religioso. Outra pessoa, mais velha, de pele encarquilhada pelo sol, faz o sinal da cruz. Devagar, com a mão direita a tocar a testa, o peito, o ombro esquerdo, o ombro direito. Não é católica praticante, essa mulher, nunca foi à missa, nunca confessou pecados. Mas o sinal da cruz, aprendeu com a mãe, e a mãe com a avó, e agora fá-lo como quem acende uma vela na escuridão, como quem pede a Deus, seja ele qual for, que receba aquela alma com mansidão. Outros seguem o gesto. Primeiro um, depois dois, depois dez. As mãos sobem e descem num movimento sincronizado, como se fossem guiadas por um maestro invisível. Os guardas municipais, encostados ao poste, olham e não dizem nada. Um deles tira o chapéu, os outros seguem o exemplo. O rádio continua a chiar, mas ninguém ouve.

          O sol começa a baixar, alaranjando os escombros da Vila do Papelão. Os prédios da cidade, ao longe, refletem a luz como se fossem feitos de ouro, e as torres do Colégio Santo António, recortadas contra o céu, parecem dedos que apontam para o alto, para onde, dizem, fica o céu. As sombras crescem, alongam-se, cobrem as ruas de terra batida, entram pelas portas das barracas, escondem-se nos becos. O ar fica mais fresco, mas o cheiro a lixo e a químico continua, como uma segunda pele daquele lugar. Dentro do barraco, a luz também se vai, mas Jaci acendeu uma vela, a última que tinha, guardada para ocasiões especiais. A chama dança, projeta sombras nas paredes de madeira podre, ilumina os rostos das duas mulheres com uma luz dourada, quase sagrada. Gerusa já não come. O prato está vazio, ou quase vazio. Sobram algumas migalhas e um gomo de laranja, que Jaci pega e come, para que nada se perca. A amiga está de olhos fechados, mas respira. A respiração é lenta, profunda, como a de quem está a preparar-se para dormir. O Doutor Alexandre, que ficara no canto, quieto, a observar a refeição sem interromper, agora aproxima-se. Tem a seringa na mão. O líquido dentro do frasco é transparente, inofensivo à vista, mas mortal. Gerusa abre os olhos, olha para a seringa, depois para Jaci. E sorri. O mesmo sorriso pequeno, quase invisível. Depois fecha os olhos e estende o braço. Está pronta. A comida foi servida. A barriga está cheia. Pode partir.

 

 

X

 

 

          Doutor Alexandre finalmente chega com a sua maleta preta. Não entra apressado, nem solene demais, apenas caminha com o passo certo de quem já fez aquilo tantas vezes que o gesto se tornou mecânico, quase impessoal. A multidão, que há momentos se acotovelava para ver a fenda na lona, agora se abre diante dele como o mar se abriu diante de Moisés, mas não por medo, e não por respeito, talvez por um misto de admiração e horror, por saberem que aquele homem, de terno branco e olheiras fundas, carrega na maleta o poder de apressar o que a natureza teima em adiar. Ele afasta as pessoas com um gesto discreto, um movimento de mão quase imperceptível, como quem afasta moscas. Não precisa empurrar, não precisa gritar. O gesto basta. As pessoas recuam, formando um corredor estreito por onde o médico passa sem olhar para a direita nem para a esquerda, com os olhos fixos na porta de lona. Ao fundo, alguém sussurra: "É ele." Outro responde: "Vai fazer." E o silêncio que se segue é tão denso que se poderia cortar com uma faca.

          Dentro da cabana, a luz da vela dança nas paredes de madeira podre, projetando sombras que parecem figuras a mover-se num ritual antigo. O Doutor Alexandre pousa a maleta sobre uma caixa de plástico virada do avesso, abre os fechos de metal com um clique seco, e começa a preparar os sedativos. Os frascos são pequenos, de vidro âmbar, com rótulos que Jaci não sabe ler, mas que ela imagina conterem palavras compridas, palavras que os médicos aprendem nas faculdades e que os pobres só conhecem quando é tarde demais. A seringa é nova, brilha à luz da vela, e o líquido que o médico aspira do frasco é claro, transparente, inofensivo à vista, mas Jaci sabe que aquele líquido é a morte. Não uma morte violenta, não uma morte que dói, mas uma morte mansa, uma morte que vem como um sono, que embala, que acalenta, que leva para longe da dor. E, apesar de tudo, apesar do aperto no peito, apesar das lágrimas que ainda lhe molham as faces, Jaci sente um alívio. Porque Gerusa vai deixar de sofrer. Porque a amiga, depois de oitenta anos de luta, oitenta anos de fome, oitenta anos de carrinho de mão e lixo e noites frias, vai finalmente descansar.

 

        Gerusa olha para Jaci com os olhos úmidos e satisfeitos. Não são olhos de quem tem medo, nem de quem se arrepende, nem de quem gostaria de ter vivido de outra maneira. São olhos de quem comeu, de quem aqueceu a barriga, de quem sentiu na língua o gosto do pão fresco e da laranja doce. São olhos de quem se despede, mas sem tristeza, como quem termina uma longa viagem e olha para trás e vê que, apesar de tudo, valeu a pena. "Brigada, amiga", diz Gerusa, e a voz sai arrastada, mas clara, como se a doença, por um instante, lhe tivesse dado uma trégua para que pudesse dizer aquelas duas palavras. "Brigada. Tô de barriga cheia." E os olhos úmidos brilham, e os cantos da boca se erguem num sorriso pequeno, quase tímido, mas verdadeiro. Jaci não responde com palavras. As palavras, nessa hora, são inúteis, são como grãos de areia atirados ao vento. Responde com um aperto de mão. Responde com os dedos que se entrelaçam nos dedos da amiga, que já não tremem, talvez porque a morte, ao aproximar-se, traga consigo uma paz que os vivos desconhecem. Responde com um olhar que diz tudo o que não foi dito em oitenta anos: as alegrias partilhadas, as dores divididas, as noites em que choraram juntas e os dias em que riram de fome. Responde com a vida inteira, condensada naquele aperto de mão, naquele último contacto.

        O Doutor Alexandre aproxima-se. Tem a seringa na mão direita, e com a esquerda ergue suavemente o braço de Gerusa, procurando a veia. As veias são finas, frágeis, escondidas debaixo de uma pele que o sol e o trabalho tornaram grossa como couro. Mas ele encontra. Encontra porque é bom no que faz, porque estudou para isso, porque já salvou vidas e já apressou mortes e sabe que, no fim, tudo é apenas uma questão de técnica. Aplica a injeção. O líquido transparente entra devagar, veia adentro, espalhando-se pelo corpo como uma notícia que se espalha por uma cidade. Gerusa não estremece, não grita, não reage. Apenas fecha os olhos devagar, como quem se deita depois de um longo dia de trabalho, como quem estica os membros numa cama macia e suspira de alívio. Jaci segura a sua mão com força, como se pudesse, com essa força, mantê-la ali, impedir que a morte a leve. Mas sabe que não pode. Sabe que a morte é mais forte, que a morte é inevitável, que a morte, no fim, é a única certeza que os pobres e os ricos partilham. A respiração de Gerusa torna-se mais lenta, mais rasa, mais espaçada. Uma pausa. Outra. Outra. E depois, nada.

         Lá fora, ninguém vai embora. A multidão inteira de Santa Cruz do Calvário, alunos ricos de uniforme impecável, agora sujo de lama e suor; operários da fábrica têxtil; garis que encostaram as vassouras nos postes; guardas municipais de pança saliente e rádio chiando; vendedores de água mineral e sorveteiros com os carrinhos vazios; cães de rua que farejam o ar confusos; velhas desdentadas sentadas em bancos de tijolo; crianças montadas nos ombros dos pais, toda aquela gente, toda aquela aglomeração humana, permanece ali, plantada como árvores numa praça, com os olhos fixos na porta de lona. Não sabem ao certo o que esperam. Não sabem se querem ver o corpo, ou se querem ver o médico a sair, ou se querem apenas estar ali, testemunhar, dizer um dia que estiveram presentes no momento em que a morte veio buscar uma velha catadora de lixo. Mas há qualquer coisa mais, qualquer coisa que nem eles próprios conseguem nomear. Uma reverência confusa, um respeito que não aprenderam na escola nem na igreja, um silêncio que não é forçado, mas espontâneo, como se a morte, ao passar, tivesse deixado um rastro de solenidade no ar. Alguém chora. Vários choram. Uma mulher de avental manchado cai de joelhos no chão de terra batida e começa a rezar em voz alta, uma oração que ninguém conhece, mas que todos acompanham com um movimento de lábios. O homem da graxa tira o boné e segura-o contra o peito, como quem segura um troféu. As crianças, que até há pouco se mexiam inquietas, agora estão quietas, sérias, como se tivessem subitamente envelhecido. Os cães deixaram de ladrar. Até o vento parece ter parado, como se o mundo, por um instante, tivesse suspendido a respiração.

         Ao fundo, por detrás das barracas e dos montes de lixo, por detrás da Cintura Industrial e das chaminés que cospem fumo, por detrás da Cintura Agrícola e das enormes armações de plástico neutro, o letreiro do Colégio Santo Antônio acende as suas luzes artificiais. É noite, ou quase noite, e as letras douradas brilham no escuro como se fossem feitas de fogo. "Garanta o futuro", diz o letreiro. "Garanta o sucesso." As palavras piscam, alternam, convidam os pais que passam na avenida a matricularem os seus filhos naquela instituição de excelência, naquele templo da elite local, naquele lugar onde as crianças aprendem a ser os futuros juízes, engenheiros e médicos que governarão Santa Cruz do Calvário. Os que estão ali, na multidão, não olham para o letreiro. Têm os olhos postos na cabana de madeira podre, na luz da vela que se apaga, no silêncio que sai pela porta entreaberta. Mas o letreiro está lá. Está sempre lá. Brilha todas as noites, como uma promessa, como uma ameaça, como um lembrete de que o mundo é dividido em dois: os que garantem o futuro e os que não têm futuro para garantir.

           E no futuro de ninguém, ali naquele instante, haverá esquecimento. Não porque os alunos ricos se lembrem para sempre da velha que morreu na cabana de madeira podre. Eles esquecerão, provavelmente, assim que voltarem para as suas casas, assim que tomarem banho e vestirem pijamas limpos, assim que o pai perguntar o que aprenderam na escola. Mas o corpo, o corpo não esquece. Há coisas que se gravam na carne, que se instalam nos ossos, que ficam ali, adormecidas, à espera de um momento para despertar. O menino que entregou a nota de vinte reais, esse, talvez se lembre. A menina de tranças que perdeu a sandália, talvez se lembre. O menino de óculos, filho do juiz, que falava em eutanásia como quem fala do tempo, talvez se lembre. Não hoje, não amanhã, mas daqui a vinte ou trinta anos, quando forem adultos, quando tiverem os seus próprios filhos, quando olharem para o mundo com olhos que já viram mais do que gostariam de ter visto, algo vai fazer click, e eles vão lembrar-se daquela tarde, daquele entardecer, daquela velha que morreu com a barriga cheia, com a mão de uma amiga na sua, com o sorriso nos lábios. E vão saber, talvez pela primeira vez, que o futuro que lhes garantiram não é o único futuro possível. Que há outros futuros, outros destinos, outras maneiras de viver e de morrer. E que, no fundo, a morte é a única coisa que realmente iguala os homens, não os iguala no poder, nem na riqueza, nem na felicidade, mas iguala na finitude, na certeza de que um dia, cedo ou tarde, também eles terão de fechar os olhos e partir.

        Dentro da cabana, a vela apaga-se. O pavio, que já ardia curto, afoga-se na cera derretida, e a chama estremece uma última vez e morre. A escuridão é quase total, apenas a luz difusa do letreiro lá longe penetra pelas frestas da madeira, desenhando riscos ténues no chão de terra batida. Jaci ainda segura a mão de Gerusa, mas agora a mão está fria. Não treme mais. O pulso não pulsa. O peito não sobe nem desce. Gerusa partiu. Foi-se como se vai o vento, como se apaga uma vela, como se termina uma canção. Jaci inclina-se, beija a testa da amiga, e murmura: "Adeus, Gerusa. Até um dia." O Doutor Alexandre guarda a seringa na maleta, fecha os fechos com o mesmo clique seco, e levanta-se. Olha para Jaci, hesita um segundo, como se quisesse dizer alguma coisa, mas depois decide que não há palavras. Aperta o ombro da velha, um gesto rápido, quase impessoal, e sai. A multidão, ao vê-lo sair, agita-se, mas ninguém pergunta nada. Não é preciso. O rosto do médico, à luz do letreiro, está pálido, cansado, e há nele uma expressão que nem todos sabem ler, mas que todos sentem: é o cansaço de quem carrega o peso de decisões que não deviam ser suas. Ele atravessa o corredor humano, entra no carro prateado, liga o motor, e vai embora. O rádio dos guardas chia. Os cães voltam a ladrar. A multidão, lentamente, começa a dispersar-se, como água que escorre por uma fenda. E a noite, enfim, cai sobre a Vila do Papelão, trazendo consigo o frio, o silêncio, e a certeza de que, amanhã, o sol vai nascer de novo, e as barracas vão continuar ali, e os carrinhos de mão vão continuar a percorrer as ruas de terra batida, e a vida, apesar de tudo, vai continuar. Mas na memória de todos os que estiveram ali, naquela tarde, naquele entardecer, naquele momento em que a morte passou e deixou um rastro de silêncio e de lágrimas, alguma coisa ficou. Uma pergunta talvez. Uma dúvida. Um incómodo. O princípio de uma consciência. E isso, pensaria Jaci, se ainda tivesse forças para pensar, isso já é qualquer coisa. É quase nada. Mas na Vila do Papelão, o quase nada é muitas vezes tudo o que se tem.




Edson Moura - 06.08.2002





 

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