Sucede, porém, que o tiro de espingarda não é um fenómeno natural como a queda da noite ou a podridão dos frutos. O tiro de espingarda pressupõe um atirador, e o atirador pressupõe um motivo. Escrutinados os motivos do atirador, descobre-se uma infeliz teia de razões que, todas elas, em maior ou menor grau, remetem para a cor da pele. Eis aí o paradoxo que o texto vinha adiando com elegância: a cor da pele não tem importância nenhuma, salvo quando tem. E tem-na sempre que um homem se arroga no direito de fabricar outro homem por um processo menos melindroso do que o descrito, o processo da recusa, da segregação, da bala.

     Assim, regressa-se à linha de montagem. Verifica-se, com amargura, que os protótipos infusionados de qualidades superiores raramente ascendem aos andares cimeiros do edifício social, a menos que a sua pele possua o tom convencionado pelos que lá moram. Os canais do hábito, do costume e do preconceito, outrora nomeados com distanciamento científico, revelam então a sua verdadeira natureza: não são canais, mas muralhas. E não são neutros, mas seletivos. A circulação contra a corrente é perigosa, sim, mas é duplamente perigosa quando o corpo que a enfrenta traz consigo uma cor que dispensa o rótulo pessoal para ser imediatamente classificada. O homem, produto da linha, habita uma Sociedade que o fabricou e simultaneamente o rejeita se o fabrico incluiu, por descuido ou por malícia do destino, uma pele mais escura que a dos operários da montagem. Tais homens são chamados, em certos manuais de sociologia de pacotilha, de "minorias". O termo é falacioso, porque não se trata de número, trata-se de posição no edifício. Uma minoria pode ser numericamente maioritária; continuará a habitar os andares de baixo enquanto os rótulos e as cores assim o determinarem.

        Manda a honestidade, enfim, reconhecer que a ciência com que se abriu o texto, essa fingida engenharia de carnes, ossos e sangue, essa asséptica distribuição de vísceras e nervos, não passa de um biombo elegante. Por detrás dele, o que há é uma velha e suja teimosia em atribuir à melanina poderes que ela não tem, exceto aqueles que os homens lhes dão. E dão-lhes muitos. Dão-lhes o poder de separar, de humilhar, de matar. Dão-lhes o poder de transformar um tiro de espingarda, ao fim da tarde, num ato político. Portanto, se alguém perguntar, depois de tudo isto, se a cor da pele tem importância, a resposta é dupla: não tem importância nenhuma para a anatomia do produto fabricado; mas tem toda a importância para a arquitetura do edifício onde esse produto é posto a viver. E como o edifício, infelizmente, ainda está de pé, a cor da pele continua a ser, na prática, a primeira e a última das matérias.

    Ora, se a cor da pele tem toda esta importância na prática, cumpre inquirir sobre as razões profundas de tão nociva relevância. Não se encontram, como seria desejável, na química dos tecidos ou na biologia das raças, ciências essas que, quando honestamente praticadas, apenas confirmam a irrelevância original do pigmento. Encontram-se, antes, na economia do edifício a que demos o nome de Sociedade. Porque o edifício, como qualquer construção, assenta em alicerces, e os alicerces, como qualquer suporte, exigem que sobre eles se apoie algo pesado. Esse algo pesado, na maior parte das vezes, é um homem de pele escura. Assim se compreende que os canais do hábito, do costume e do preconceito não sejam meras vias de circulação, mas verdadeiras comportas. Regulam o fluxo dos corpos, retêm uns, aceleram outros, e asseguram que os andares superiores permaneçam arejados, claros e, sobretudo, uniformes. A uniformidade, note-se, não é exigida pela natureza do edifício, que poderia perfeitamente suportar qualquer distribuição cromática, mas pela preguiça dos seus arquitetos e pelo terror dos seus inquilinos mais antigos. Estes, habituados à claridade das varandas de cima, receiam que a descida de outros tons lhes tolde a vista ou lhes contamine o ar. É um medo irracional, mas nem por isso menos eficaz.

      Ao longo dos anos, têm-se ensaiado remédios para este mal. Uns propõem a demolição do edifício e a construção de um novo, de planta revolucionária, onde a circulação seja livre e a cor da pele irrelevante por decreto. Outros, mais moderados, sugerem a abertura de escadas adicionais, a instalação de elevadores, a pintura das paredes com cores neutras que distraiam o olhar. A história ensina, contudo, que os remédios radicais engendram novas opressões, e os remédios tímidos servem apenas para adiar o problema para a geração seguinte. Martin Luther King, compreendendo esta dupla armadilha, optou por um caminho intermédio: o da pressão constante, do corpo colocado nas correntes, do discurso que desnuda a nudez do edifício sem prometer paraísos fáceis. Pagou com o tiro de espingarda. Outros pagaram com a forca, com a fogueira, com a lenta agonia das celas solitárias ou com o esquecimento dos manuais escolares. E no entanto, apesar de tudo, a linha de montagem continua a funcionar. Produzem-se homens novos todos os dias, com carne, ossos, sangue e vísceras cuidadosamente dispostos. A cada lote, pergunta-se: qual será a cor desta pele? E conforme a resposta, o exemplar será conduzido para um andar ou para outro, para uma profissão ou para outra, para uma morte simples ou para uma morte complicada. Os operários da linha, cansados de repetir o gesto, inventam justificações: a genética, o clima, a tradição, a vontade divina. Mas no fundo, no fundo da linha de montagem, onde a carne ainda está quente e o sangue não coagulou, sabe-se a verdade. A verdade é que a cor da pele não tem importância nenhuma, e que é precisamente por isso que lhe dão tanta.

       Resta saber, caro leitor, em que andar do edifício se encontra. Resta saber se a sua pele, quando confrontada com o olhar dos outros, lhe abre portas ou lhes fecha. Resta saber se alguma vez, num desses raros momentos de lucidez que a vida proporciona, olhou para as próprias mãos e perguntou: "Quem fabricou estas mãos? E quem fabricou a mão que fabricou estas mãos?" Se a resposta o incomoda, está no bom caminho. Se a resposta o deixa indiferente, volte ao princípio do texto e recomece a leitura. Porque o homem, esse produto melindroso, só aprende quando a repetição se torna insuportável.

      E a cor da pele, essa, continua a não ter importância nenhuma. Exceto quando tem. Exceto sempre.

 

E. Moura em 08.02.2025

 

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