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Hoje
saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão. Mas talvez o
saber não fosse senão uma outra forma de não ver. Porque o que eu queria, em
criança, não era propriamente uma explicação, dessas que os adultos guardam nos
livros e repetem com paciência de quem já desistiu de espantar-se. O que eu
queria era um instante roubado ao mundo, um segundo em que as coisas se
esquecessem de mim tão profundamente que se mostrassem enfim como são quando
não há ninguém. E isso, percebo agora, nunca acontecerá. Não porque as coisas
sejam espertas ou maliciosas, mas porque a solidão de uma coisa é uma ideia que
não suporta testemunhas. No momento exato em que alguém a observa, mesmo que
por artifício ou por acaso, essa solidão desfaz-se, como se dissolve um sonho
ao abrir-se a porta do quarto.
Ainda
assim, continuo a pensar nas tardes da minha infância, quando me escondia atrás
do sofá da sala e ficava imóvel, contendo a respiração, à espera de que os
móveis se mexessem ou que as sombras no chão ganhassem vida. Nenhum móvel se
moveu nunca, mas eu jurava que, no preciso instante em que pestanejava, o mundo
dava um pequeno salto. Talvez fosse verdade. Talvez o pestanejar seja a única
fenda por onde a realidade escapa ao nosso domínio, o único gesto que as coisas
reconhecem como trégua. Porque os olhos fechados são uma espécie de habitação
às escuras: dentro dela, a luz não existe, mas também não existe a mentira de
que a luz é tudo o que há.
E se a escuridão é o outro lado da luz,
então ver é também uma forma de não ver. Ver é escolher uma face, ignorar a
outra, convencer-se de que a face visível é a verdadeira. Ora, eu não quero
isso. Prefiro a antiga pergunta das manhãs, essa companheira incómoda que me
segue de quarto em quarto: “Como serão as coisas quando não estamos a olhar
para elas?”. Não quero a resposta. Quero o espanto de não a ter. Porque talvez
as coisas, quando não estão a ser vistas, não sejam coisas nenhumas. Talvez
sejam apenas a possibilidade de virem a ser, um rumor no limite da atenção, uma
quase que recua sempre que alguém se aproxima.
De
resto, quem sou eu para exigir que o mundo se mostre por inteiro? As coisas têm
o direito ao seu lado oculto, à sua face secreta, à sua pequena eternidade sem
olhos. E eu, que já fui criança e já fui adolescente, e que agora sou apenas um
homem sentado numa cozinha ao anoitecer, aprendo enfim a conviver com a
interrogação. Apago a luz. A escuridão volta a encher a sala, não chega,
instala-se como uma respiração antiga. E penso: eis as coisas, finalmente
sozinhas. Eis o mundo como ele é quando não me vê. E por um breve, brevíssimo
instante, quase acredito que sim.
E.Moura em 24.03.2026


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