...foi quando tive contato com a obras de Freud,
“O Mal-estar na Civilização”, meu desencanto sobre os mitos que cultivei sobre o
ser humano civilizado, enfim, caíram em vala profunda, num dia de chuva densa,
dessas que parecem lavar não as ruas mas a própria esperança incrustada nas
pedras da calçada, se pusesse a examinar a cartografia da alma humana, teria
forçosamente de admitir que a contribuição trazida pela psicanálise para o
entendimento da avaria geral a que chamamos doença mental foi, para dizer o
mínimo, um divisor de águas, um corte na carne viva da história, ou, se
preferirmos imagens mais hidráulicas, uma comporta que se abriu para deixar
passar o lodo que até então se escondia sob a superfície plácida da
consciência. A análise freudiana, com aquela sua persistência cirúrgica de quem
não teme o sangue nem o pus, introduz inegavelmente uma nova maneira de pensar
o sofrimento psíquico, não como quem observa um erro de cálculo numa máquina a
vapor, mas como quem lê uma tragédia grega escrita com a tinta invisível dos
nossos desejos mais inconfessáveis.
Foi Freud quem enfatizou a noção de conflito, essa guerra civil
silenciosa que travamos entre as possibilidades efetivas de realização de um
indivíduo, coitado, sempre tão limitadas pela realidade mesquinha, e os
imperativos de um ideal exigente, um tirano interno que nos chicoteia com a
moralidade, abrindo assim o caminho que conduz a valorizar o homem dentro de
sua singularidade, ou seja, dentro da sua irremediável solidão, marcando a
importância do seu discurso, da sua palavra, essa coisa frágil e enganosa, para
a compreensão do sofrimento. Não se pense, contudo, que Freud, no seu afã de
perscrutar as sombras, tenha afastado o valor das descobertas da biologia, não
senhor, ele sabia muito bem que somos feitos de carne, nervos e fluidos, porém
apontava, com o dedo em riste de um profeta ateu, para uma complexidade da
condição humana que elimina toda e qualquer possibilidade de reducionismo, essa
mania simplória de querer explicar a catedral pela pedra ou a sinfonia pela
vibração da corda. Ele chamava a atenção, e como chamava, para o valor que a
sexualidade possui na etiologia das neuroses, mostrando, para escândalo das
almas puritanas que preferiam acreditar que os bebês vinham das cegonhas ou dos
repolhos, como o fato de ser um animal falante leva o ser humano por caminhos
desviantes, atalhos tortuosos e becos sem saída no que toca à possibilidade de
sua realização sexual.
Destaca ainda o fato, terrível e
insofismável, de que, ao ser sempre mediado pela palavra no seu contato com a
realidade, esse homem, esse bípede implume que se julga rei da criação, sofre
uma divisão que a própria palavra impõe, uma cicatriz que nunca fecha. A noção
de inconsciente, central em sua teoria como o sol num sistema planetário de
dores, aponta para essa divisão irrevogável, o homem fala, pensa ele que é o
dono da sua voz, mas é também falado, por trás do que ele diz, na sombra das
suas frases feitas e dos seus lapsos constrangedores, há um dizer que lhe
escapa, um ventríloquo sombrio que sussurra verdades que ele preferiria
ignorar. Que Freud tenha apresentado uma teoria da melancolia é uma questão
discutida, há controvérsias, diriam os acadêmicos ajustando os óculos, alguns
consideram que sim, que o edifício está completo, outros que não, que faltam
tijolos na parede mestra. A verdade, nua e crua como um osso exposto, é que,
diferentemente da neurose obsessiva, com os seus rituais de proteção contra o
caos, da histeria, com o seu teatro de corpos contorcidos, e da paranoia, com
os seus perseguidores imaginários que são mais reais que os vizinhos de porta,
não existe exposição de um caso clínico de melancolia, um "Caso X"
que servisse de mapa para esse território desolado, muito embora a depressão,
essa prima pobre e onipresente, esteja presente como sintoma nos casos
descritos, como uma névoa que se recusa a levantar. Destacando a melancolia do
campo das psicoses, criando a categoria das neuroses narcísicas, Freud introduz
uma maneira de pensar que interroga os limites entre neurose e psicose, essas
fronteiras que são mais porosas do que gostaríamos de admitir, onde um passo em
falso nos leva do simples sofrimento de viver para o abismo da desagregação. A
abordagem da melancolia e o raciocínio que se constitui em torno desta
apresentam-se como um campo privilegiado, se é que se pode chamar de privilégio
o estudo da dor, para a evolução da própria teoria psicanalítica. A fronteira
entre o somático e o psíquico, essa linha tênue onde a carne vira verbo e o
verbo vira úlcera, o paralelo com o afeto do luto, trazendo a questão central
da perda na constituição do humano, pois o que somos nós senão acumuladores de
perdas, faz com que o estudo das depressões nos coloque no caminho do
entendimento da constituição do eu, esse castelo de cartas que construímos
sobre areia movediça. |
| "O eu" - E.Moura. - 2017 |
Freud parte do estudo das chamadas
neuroses atuais, termo que hoje soa antigo como um daguerreótipo, ou seja, a
neurose de angústia e a neurastenia, provocadas, dizia ele sem corar, por uma
vida sexual insatisfatória, o que nos leva a pensar que a humanidade inteira
deve ser neurótica. Ele constata, com a frieza de quem anota a temperatura de
um forno, que a angústia de seus pacientes está relacionada com a sexualidade,
esse motor que ora funciona, ora enguiça. O coito interrompido, por exemplo,
essa prática de frustração programada, é fonte de angústia, mas notem bem, uma
angústia não prolongada ou recordada, ao contrário da histeria que faz da
memória um monumento, assim sendo, sua origem deve ser buscada na esfera física
e não na psíquica, na mecânica dos fluidos e não na dialética dos desejos, ou
seja, é um fator físico da vida sexual que irá produzir a angústia, um acúmulo
de tensão sexual por um bloqueio na descarga, como uma represa que enche até
trincar o concreto. Esse excesso de tensão sexual, não encontrando vazão no
prazer, passa então por um processo de transformação, uma alquimia perversa, e
assim surge a angústia, esse aperto no peito que nos diz que algo vai mal,
muito mal. A partir desse estudo, Freud, incansável tecelão de hipóteses, vai
desenvolver algumas ideias sobre a melancolia. Ele prossegue no raciocínio
econômico e mecanicista, centrado na ideia de represamento ou descarga de
energia física e psíquica, tratando a alma como se fosse uma caldeira prestes a
explodir. Os melancólicos, afirma ele com a gravidade de um juiz proferindo
sentença, apresentam uma espécie de anestesia psíquica, e se na neurose de
angústia o bloqueio é de energia física, no que toca à melancolia há que se
pensar em uma tensão psíquica que não se satisfaz, um desejo que gira em falso.
Os melancólicos, diz ele, são frequentemente anestésicos, não apresentam desejo
de coito, o corpo torna-se um fardo insensível, carecem da sensação de prazer,
o mundo perde a cor e o sabor, mas, e aqui reside o paradoxo cruel, demonstram
uma grande ânsia de amor em sua forma psíquica, uma tensão erótica psíquica que
grita no silêncio do seu isolamento. Freud chega a se referir de doze maneiras
diferentes a esse tipo de sofrimento, vejam só a confusão babilônica,
depressão, depressão periódica, afetos depressivos, depressão periódica branda,
melancolia, melancolia senil, melancolia neurastênica, melancolia histérica,
melancolia genuína aguda, melancolia cíclica, melancolia de angústia, estado de
ânimo tipicamente melancólico, o que nos indica, se não formos cegos, a própria
dificuldade em cernir numa unidade um quadro tão diversificado, assim como uma ausência
de preocupação, talvez deliberada, em estabelecer uma distinção no uso das
palavras melancolia e depressão, como se o nome pouco importasse diante da
devastação. Freud enumera uma série de sintomas, uma litania de desgraças:
apatia, essa morte em vida, inibição, quando a vontade se paralisa, pressão
intracraniana, como se o pensamento pesasse toneladas, dispepsia e insônia, o
corpo recusando o alimento e o descanso, diminuição da autoconfiança, o eu
encolhendo até virar um grão de poeira, expectativas pessimistas, a certeza de
que o futuro é um túnel sem luz, entre outros horrores. E, muito embora não
precisando uma distinção taxativa entre melancolia e depressão, assinala a
presença da "anestesia psíquica" na primeira e sua ausência na
segunda, como se na melancolia a dor fosse tanta que o sujeito deixasse de
sentir, congelado num inverno eterno. Como
eu já disse, ou se não disse digo agora, é importante registrar a interação e
interdependência entre o somático e o psíquico nesse período de descobertas,
quando tudo era novo e assustador. Contudo vale lembrar que, nesse momento,
ainda não existia o conceito de pulsão, essa força motriz que nos empurra para
a vida e para a morte, justamente o conceito que vai ocupar esse lugar de
fronteira, essa terra de ninguém, entre um universo e o outro. Muito embora a
natureza do "grupo sexual psíquico" não seja claramente definida,
sendo ainda uma nebulosa teórica, sobre ele se desenvolve um raciocínio
quantitativo de que é necessário um quantum de excitação somática para que a
energia psíquica seja produzida, a carne alimentando o espírito, o sangue
virando ideia.
Nessa
passagem do físico para o psíquico, o universo das pulsões e das representações
é o que deve ser considerado, pois não somos máquinas a vapor, somos máquinas
de significados. Isso porque é através da representação, da imagem, da palavra,
que a excitação poderá ser dirigida para um objeto externo, amarrando o desejo
ao mundo. As representações do "grupo sexual psíquico" constituem,
pois, passagem obrigatória, pedágio inevitável, para os investimentos objetais.
O melancólico apresenta, no entanto, e aqui a tragédia se revela em toda a sua
extensão, uma insuficiência nesse registro, representações lacunares, como um
livro com páginas arrancadas, brancos, espaçamentos onde o sentido se perde.
Freud refere-se, com uma imagem que arrepia, ao "buraco na esfera
psíquica", uma "hemorragia interna" que se instalaria e
produziria um empobrecimento da excitação, não de sangue, mas de libido, de
vontade de viver. Essa redução, quando intensa, produziria um retraimento no
psiquismo, que por um efeito de sucção, como um ralo que traga a água suja,
levaria os neurônios associados a abandonar sua excitação, produzindo dor, uma
dor física da alma. Quando há excesso e comunicação com os neurônios
associados, estaríamos frente à mania, essa euforia desesperada que é o avesso
da moeda. Essa alternância entre períodos de mania e de melancolia pode ser
explicada porque o primeiro, apresentando um consumo exagerado de excitação,
uma gastança desenfreada de energia vital, determinaria um empobrecimento, uma
falência, que conduziria ao segundo. Essa explicação neuronal é muito curiosa,
dir-se-ia quase profética, se pensarmos nas recentes descobertas da psiquiatria
biológica, que deposita nas falhas dos neurotransmissores, esses mensageiros
químicos, a compreensão da depressão, provando que Freud, mesmo com a sua
metapsicologia poética, já intuía a dança molecular que ocorre no silêncio dos
nossos cérebros.
E.Moura - 13-01-2026
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