Por:
Fome
Não se enganem, ou melhor, não permitam
que o engano lhes sirva de consolo, pois eu não habito apenas o vácuo gástrico,
essa câmara escura e ácida do menino que vende água mineral no semáforo da
PE-160, sob um sol que não apenas ilumina, mas calcina o asfalto e a pele com a
impiedade de um deus antigo e furioso. Vocês, na vossa pressa de classificar o
mundo para que ele caiba nas gavetas estreitas do entendimento, costumam me
desenhar esquelética, suja, uma figura de contornos trágicos com a mão estendida
e os olhos encovados, uma imagem fácil de digerir, se me permitem a ironia
verbal, ou de ignorar enquanto sobem os vidros fumês de suas caminhonetes
climatizadas, protegendo-se não do calor, mas da realidade. Mas eu, devo dizer
com a franqueza de quem não tem nada a perder, sou muito mais sofisticada que
isso, sou antiga como a primeira falta sentida pelo primeiro homem, sou líquida
e me adapto aos recipientes que me contêm, e aqui, nesta Santa Cruz do
Capibaribe onde a poeira do agreste se mistura ao pó do tecido cortado, eu sou
a melhor cliente, a mais assídua, a única que nunca sai de mãos vazias. Eu
caminho, se é que se pode chamar de caminhar o ato de deslizar sem tocar o
chão, pelos corredores largos e artificialmente refrigerados das galerias e
megalojas, esses templos modernos onde o cheiro de tecido novo, com suas notas
químicas de tinta e goma, tenta encobrir, sem sucesso para um olfato apurado
como o meu, o odor acre do suor que o produziu. Aqui, onde o Agreste tenta
desesperadamente esquecer que é seco vestindo-se de lantejoulas, brilhos
sintéticos e linho importado, eu me sinto em casa, não como uma visita
indesejada, mas como a proprietária que vem inspecionar os domínios, sou uma
flâneuse invisível entre araras abarrotadas de poliéster e promessas de
felicidade que se desfazem na primeira lavagem.
Observo, com a paciência de quem tem a
eternidade pela frente, a senhora de salto alto estalando no piso de
porcelanato, um som seco, autoritário, clac, clac, clac, como se cada passo
fosse uma ordem dada ao mundo para que se prostre a seus pés. Ela não tem fome
de pão, o estômago dela está cheio, talvez até demais, dilatado por banquetes
que não nutrem, mas seus olhos, ah, os olhos dela devoram o mundo com uma
voracidade que faria inveja a um náufrago. Ela olha para o manequim na vitrine
não como quem vê uma peça de roupa, um pedaço de pano costurado para proteger o
corpo das intempéries, mas como quem vê um passaporte diplomático, um
salvo-conduto para a terra dos eleitos. Ela está faminta, desesperadamente
faminta por distinção, precisa daquela estampa exclusiva não para cobrir a
nudez, que seria a função lógica, mas para se separar da massa, para erguer um
muro invisível, porém intransponível, entre ela e a costureira que, em algum
facção de garagem mal iluminada, pregou aqueles botões por centavos, engolindo
a poeira do tecido que se deposita nos pulmões como um sedimento de miséria. Eu
acho graça nessa dança macabra, nessa coreografia de desencontros, vocês
criaram rituais tão complexos, labirínticos eu diria, onde o objeto, seja a
calça jeans de corte perfeito, seja o vestido de festa que brilha como uma
promessa falsa, deixa de ser coisa e vira totem, uma divindade menor que exige
sacrifícios diários. A etiqueta, esse pequeno pedaço de papel ou tecido que
pende da roupa como um enforcado, é o preço da alma, o valor de mercado da
existência. Vejo o rapaz pardo, filho de sulanqueiros, mãos calejadas de
carregar fardos que pesam mais que a própria esperança, gastando o que não tem
e o que nunca terá em um tênis de marca importada, um objeto que foi desenhado
em um país frio e fabricado em um país quente por mãos tão exploradas quanto as
de seus pais. Vocês, com vossa lógica cartesiana de quem nunca sentiu o frio da
exclusão, chamam isso de irresponsabilidade, de falta de educação financeira,
eu, que conheço os abismos do desejo humano, chamo de sobrevivência simbólica.
Ele sabe, com a sabedoria instintiva dos animais acuados, que nesta sociedade
de espetáculo, onde parecer é a única forma de ser, se ele não calçar o símbolo
do poder, ele será lido apenas como mão de obra barata, uma engrenagem
substituível na máquina de moer gente. Ele tem fome de ser visto como humano,
e, tragicamente, aprendeu na escola cruel das ruas que a humanidade aqui não é
um direito inalienável, mas uma mercadoria que se compra em doze vezes no
cartão de crédito, com juros que comem o futuro antes mesmo que ele chegue. É
irônico, não é, ou talvez seja apenas trágico, a linha que separa a ironia da
tragédia é tão fina quanto a linha que costura essas roupas, que a cidade
respire confecção, que seus pulmões se encham de fiapos de algodão e poliéster,
que costure para o país inteiro, que vista o Brasil do Oiapoque ao Chuí, mas
que a alma de sua gente ande nua, exposta ao vento frio e cortante da
comparação constante. Ontem, parei ao lado de uma roda de conversa numa
boutique de luxo, um espaço onde o ar condicionado é tão potente que nos faz
esquecer que lá fora o sol queima a caatinga até transformá-la em cinza.
Mulheres de pele clara, ou embranquecidas pelos artifícios da cosmética,
cabelos alisados com a química mais cara que o dinheiro pode comprar, discutiam
as férias na Europa, os vinhos da Toscana, as luzes de Paris, enquanto
ignoravam solenemente, como se fosse um móvel ou uma planta de plástico, a moça
que servia o café. A moça, cujos traços denunciavam a ascendência indígena e
africana desta terra, uma genealogia escrita na pele e negada pela história
oficial, era transparente para elas, um fantasma servindo os vivos. Eu estava
ali, sentada no ombro da servente, sentindo o peso do mundo em suas costas
curvadas, sentindo o ardor de sua invisibilidade queimando mais que café
quente. A fome dela era de dignidade, de um olhar que dissesse, eu te vejo, tu
existes, tu és, mas não, os olhares passavam por ela e iam pousar nas bolsas de
couro legítimo, nos sapatos de sola vermelha. A fome das madames, por sua vez,
era de outra natureza, uma fome de validação mútua, num jogo de espelhos
infinito onde uma precisa da inveja da outra para sentir que existe, pois se
ninguém me inveja, pensam elas no silêncio de seus quartos luxuosos, será que
eu realmente tenho valor, será que a minha felicidade é real se não for
ratificada pelo sofrimento alheio.  |
| "O Filho do Carroceiro" E.M.- 2012 |
A opulência comercial daqui é um banquete
estranho, servido em pratos de ouro para convidados que perderam o paladar. É
um excesso que tenta preencher um vazio que não tem fundo, um buraco negro no
centro do peito que suga carros, casas, roupas, viagens, e continua pedindo
mais, sempre mais, como um deus insaciável que exige sacrifícios humanos.
Quanto mais acumulam, mais famintos parecem, os olhos girando nas órbitas à
procura da próxima aquisição, do próximo fix de dopamina que durará apenas o
tempo de passar o cartão na máquina. Constroem impérios de tecido e concreto,
erguem casas que parecem templos gregos, com colunas jônicas e frontões
neoclássicos, aberrações arquitetônicas no meio da caatinga, mas trancam-se
dentro delas com medo de quem ficou do lado de fora, cercam-se de muros altos,
de cercas elétricas, de câmeras de vigilância, criando prisões de luxo onde a
liberdade é apenas uma palavra bonita gravada em algum quadro na parede da
sala. Eles não percebem, ou fingem não perceber, pois a cegueira voluntária é a
doença mais comum nestas paragens, que eu sou o motor disso tudo, eu sou o
combustível que alimenta a fornalha. Eu sou a Fome de status que faz o
empresário, aquele homem que começou costurando cuecas na sala de casa e hoje
se acha um lorde inglês, humilhar o funcionário para sentir-se rei, para provar
a si mesmo que subiu na vida pisando nas cabeças dos outros. Eu sou a Fome de
pertencimento que faz o adolescente se endividar, vender a própria paz futura,
para ser aceito no grupo, para não ser o pária, o excluído, aquele que usa a
roupa da coleção passada. Eu sou a Fome física, sim, ela também, a velha e boa
fome de calorias, que ainda ronda as periferias poeirentas, o bairro do Rio
Verde, a Palestina, longe das luzes de LED do centro, onde a panela vazia faz
um barulho ensurdecedor, um grito metálico que a música alta das lojas, esse
forró estilizado que fala de amor e traição mas nunca de dor real, tenta abafar
sem sucesso. Às vezes, num momento de descuido,
cruzo o olhar com alguém no espelho de uma vitrine, esse vidro que separa o
desejo da posse. Por um segundo, a fração de tempo que leva para um coração
falhar, a máscara de prosperidade cai, racha como a terra seca do sertão. Vejo
a exaustão, o cansaço milenar de quem corre numa esteira que não sai do lugar,
o medo pânico de perder o que se tem, a angústia de saber que, no fundo, lá
onde a consciência grita quando o sono não vem, todo esse teatro de consumo é
frágil como um fio de linha de má qualidade, pronto a arrebentar na primeira
tensão. O medo de voltar a ser pobre, o medo de ser descoberto como uma fraude,
o medo de que o outro tenha mais, o medo, esse companheiro fiel da fome, está
sempre lá, à espreita.
Eu sorrio, um sorriso sem lábios, um
esgar de satisfação, não por crueldade, mas por constatação. Continuo minha
caminhada, minha procissão solitária pelos corredores da riqueza, me
alimentando da escassez de sentido que permeia cada transação, cada nota
trocada, cada sorriso forçado de vendedor, cada sacola cheia que tenta, em vão,
preencher a vida, tapar os buracos da alma com retalhos de pano. Eu sou a Fome,
a verdadeira regente desta orquestra desafinada. E em Santa Cruz, nesta cidade
que costura o mundo mas rasga a si mesma, o prato está cheio, transbordando de
um vazio que nunca termina, e eu, como sempre, repito o prato, insaciável,
eterna, vossa sombra mais fiel.
E.Moura 26 - 06 - 2004
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