sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dos hábitos intrusivos

   



     
    Quando a preferências pelo barulho se transformas em aversão à preferência pelo silêncio?  Poderia iniciar com uma breve metáfora bem comportada sobre uma suposta “página em Branco” (e que ele poderias representar), ou exemplificar com uma reflexão sobre as reticências, seus usos, seus valores de sentidos e suas mistificações no uso da língua. Mas o silêncio a qual me refiro é outro, longe das carnavalescas metáforas ou exageradas intenções metafisicas. O Silêncio a qual me refiro é esse que todos, hoje, esqueceram que existe, aquele que o oposto do barulho, os altíssimos decibéis, os mecânicos, chamada contaminação sonora, agudos, médios e graves. Os mesmos decibéis incômodos que em uma crônica o escritor argentino Ernesto Sabato refletiu, como um sintoma enraizado das novas gerações. De súbito tive certo conforto: alguém diagnosticou a mesma perturbação patológica. Pensei: não estou sozinho.
          Será que existem meios para alcançar o ‘silêncio de Buda’ através da contaminação sonora? Às vezes me flagrava fazendo essa pergunta. Penso que nesse caso sou o melhor adepto da preguiça, pois me falta paciência para tentar fazê-lo. Mas acredito que tal estado de mansidão eu já tenha alcançado quanto estou em um sonâmbulo profundo ao ler qualquer livro que caia em minhas mãos, e que interesse hipnótico venha a provocar. Memorável o dia em que tive a oportunidade de por mais de quatro horas seguida lendo “A Revoada” do Garcia Márquez sem ser atormentado por qualquer tipo de intromissão sonora que não fossem os tilintares do mensageiro dos ventos, ou os, sempre bem vindos, ruídos dos pássaros ao bicarem o telhado.  Perdemos a noção de quietude ou estamos vivendo num momento em que o gosto pelo contaminação sonora, o barulho, tenha se tornado um tipo de valor almejados por quase todos, uma autoafirmação, um pré-requisito para aceitação dos grupos. Se não for adepto ao barulho, és socialmente perturbado, uma pessoa complicada, antipática, um antissocial, um estranho ou uma espécie de maníaco caladão.  Simplificando mais ainda: caso seja um adepto do silêncio, será como um vegano num rodízio de caminhoneiros em pleno sábado ao meio dia.  
       Como ficcionista, ou exercitando essa indefinida pratica de inventar histórias, poderia inventar uma realidade onde as pessoas, por consequência viral ou uma danação divina de uma oitava praga, tenha perdido a capacidade de ouvir, um tipo de apocalipse da surdes – pegando carona no incrível romance de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, poderia manufaturar um ‘Ensaio sobre a surdez’, se é que já não exista. Nunca entendi esse meu distanciamento das complicadas contaminações sonoras, talvez porque o que sempre procurei, a mansidão do inconsciente devesse ser uma consequência paulatina, um processo que se inicia com a ideia da ausência de mundo, ou pelo menos uma simulação interna de que ele não esteja em movimento. Talvez – e este ‘talvez’ seja porque nunca acreditei em certezas, e que o sentimento de decepção, fatalmente, possa acontecer quando essa ‘certeza’ não é confirmada - essa minha estranha obsessão pelo silêncio tenha da motivação para nomear, inocentemente, o titulo do meu primeiro livro de ficções “O silencio das Vespas”. Talvez o gosto e a preferência pela ausência da contaminação sonora seja algum tipo de delírios psicológico que tenha percebido.

                                                                             
                                                                                      Em 17 . 02 . 2017

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