terça-feira, 14 de julho de 2015

Metáfase


           
      
     
          Perdeu a coordenação dos dedos no momento que ajustava as últimas placas de chumbo e manganês no recipiente de fibra plastificado. Foi por um instante. Sentiu uma alfinetada cravar-lhe um zumbido nos flancos dos olhos, apertou a pálpebras com tamanha pressão que sua visão estalou riscos luminosos até cegar a uniformidade da visão. Apoiou-se na bancada de ferramentas, simulando controle sobre o inesperado surto, inflando os pulmões vagarosamente, esperando os batimentos de o coração atenuar. Os supervisores da esteira não perceberam, ou só perceberiam caso fosse perceptível um amontoado dos recipientes ao final dos trilhos da bancada e um homem fosse visto estirado ao chão a debatesse em convulsões, perceberiam quando a aparente ordem da lógica de produção estivesse alcançada algum ápice inesperado, aglomerando expectadores a sentir o sangue trafegar confortável pelas artérias, pela falto de recíproca do trágico desfecho do ajustador de placas de chumbo e manganês não recaírem sobre eles. Não recai nos planos atribuídos ao acaso, também, a função se delinquente homicida. O cloreto de amônia foi inalado durante expediente. Sim. Era esse o prognóstico, os sintomas, alertados no estatuto de segurança. Que pormenores transcendem a prudência, delimitar as necessidades, o empregos e a observações dos supervisores, sempre obscuros e sempre ambíguos.
           O montador de placas recuperava o compasso da respiração, mais três vaporadas de ar e estaria a manusear as ferramentas da bancada. Recuperar a quantificação da cota de montagem, prioridade consciente, e a esta recaia uma maior urgência, menor produção iria sentenciar seu gráfico financeiro a descontos por improdutividade, e ficaria a duas dúzias de recipientes de fibras plásticas mais distantes de suas contas para aposentadorias, no qual se livraria do cádmio e do negro acetilênico que respirou por quase duas décadas, remediando uma alforria intoxicada por lastros químicos. Os prestamentos do imóvel, mesmo com a segurança e a concretude consciente de ter seus valores monetários garantidos em suas economias pessoais, as preocupações vinham e retrocedia nas lembranças dos instantes do surto do frustrado desmaio, uma queda na pressão arterial, imaginou, provocada pela impertinente preocupação. Um operário preste a ceder a um adiamento do prazo para aposentar-se do vício da rotina. Lembrava-se da norma de conduta da fábrica: atestado médico pelo desvio dos estados da saúde provocados por imprudência não contabilizaria tempo de carreira no fichamento de trabalho. Reprimiu os cuidados alertados pelos supervisores: admitia, sim, este, ao pedir-lhe para colocar, incontáveis vezes, o filtro de ar, bloqueando a passagem dos vapores invisíveis do cloreto de amônio através de boca e narinas. Não, os carrascos não eram os supervisores. Azedume metálico na boca, as dores pontiagudas na fronte do crânio, a náusea, a bile que travava-lhe os sabores, a cintilação na vista, o desequilíbrio nos movimentos, os batimentos cardíacos, pensava, envelhecer é isso, perceber a medição do erro pelas pancadas cardíacas.
            Antes mesmo de se recuperar do surto, engolia a saliva grosso, afogando-se em toses secas. Apoiava as duas mãos na bancada novamente, fixando um olha piedoso ao primeiro que apontou atenção. Pensava. Envelhecer e essa instância sensitiva de amadurecer os remorsos, essa interligação dos sentidos através dos surtos de enfermidades. Mas tudo passa, repetia e máxima para si enquanto inflava as ultimas respirações. Lembrou mais uma vez. Envelhecer é aperfeiçoar a retórica do otimismo, escondia suas proficiências. A enfermaria, lembrou, no percurso para portaria. Sua checagem estava atrasada, levaria apenas poucos minutos para um rápido exame. Recuou as gavetas da bancada, olhou os últimos traves de segurança, a esteira parada, as placas de chumbo e manganês ajustadas nos recipientes plásticos restantes. Todos se agrupavam. O montador esperava a dispersão do aglomerado. Um a um, até restar-lhe o corredor livre. Percebia que os odor do negro de acetileno amenizava, a medida que se aproximava do pátio frontal. Confessava, perdido em outras confissões, nunca perceber esse sutileza, que esta tem esse nome pelo perpassar silencioso e gentio como carcome a percepção, que num breve descuidos de inconsciente começou a notou os comichões que salientavam sua pele. Deveria ser alérgico a cádmio, umedecia as placas de manganês no processe de montagem, não usou luvas nos últimos dias. Balbuciava sigilos antes de entra no ambulatório. É imprevisível o porvindouro, pensava com essa postura, como um álibi atenuante para qualquer diagnóstico que a atendente do ambulatório lhe prestasse. Entrou na sala que cheirava a esterilização. Suplicou com uma melancólica soturna nos olhos à imponência desdenhadora da atendente, assim se construía a reciproca: um diálogo de concordâncias de repúdio e cortesia, com a conformidade como desfecho. “O que está sentindo,” perguntou a atendente, entregando ao montador um fichamento para ser preenchido, enquanto olhava para a enfermeira, bocejando resíduos da sua pestana, desconfiança nos ponteiros do relógio, “essa hora”, reclamava em meio ao flagrante de sua função. “Tive dores nas laterais da cabeça, hoje, no trabalho,” admitia o montador de placas. “Só isso, uma dor de cabeça passa com aspirina,” retorquia a enfermeira enquanto checava as variações da pressão arterial, “sem muito alarme para sua idade,” tranquilizava-o. “E esta inflamação, aqui,” estirou o braço, mostrando as saliências avermelhadas, que em uma segunda observação constava um farpa de pele ressecada que entre arrancava-se como uma minúscula chaga intrusa. “Deve ser uma queimadura cicatrizando, você se machucou no trabalho,” interrogava a enfermeira enquanto carimbava o receituário de seu paciente. “Pode ter sido reação alérgica ao cádmio”, sugeria esse segundo diagnóstico, ao passo que, em medicina, as hipóteses do senso comum seriam apenas são hipóteses, apenas. “Não encontrei problema, e quanto as dores de cabeça coloquei um analgésico no receituário, aqui, pegue, vá descansar.” Com pressa desdenhosa, a enfermeira, abruptamente, concluiu seu expediente.
            A fábrica fecharia os portões em poucos minutos. Saiu com os olhos fixados nas saliências da pele. Poucas horas e elas se esparramavam em tamanho. Não comichavam como uma alergia rotineira. Mas as farpas apontavam com maior abertura. Notou rachaduras nas periferias da chaga. Um aglomerado de operários se distraindo, dissolvendo álcool nas palavras que murmuravam. Era o momento de desconexão com realidade. Era o momento que não existia o porvir ou o medo. Onde sentidos se perdiam no sem sentido, e fluíam em nos breves instantes que colhiam a umidade da noite que caia. O montador de placas aproxima do grupo, sendo recebido com alegrias sonambulas e copos de teflon. Costumava beber umas poucas doses ante de voltar para casa, esquecer o dia de trabalho as lembras do surto que teve. Quando sentiu o segundo gole de vodca arrastando garganta à dentro perdeu as reticências de sua insegurança, despiu o braço da manga do jaleco da empresa deixando exposta a saliências, que nos momentos que seguiam o curso das horas crescia sua preocupação. “Veja, alergia a cádmio, ficou vermelho e agora está crescendo feridas.” Mostrou para o companheiro com expressão azeda, a melancolia alheia é uma porta para pretensões mais austeras. “Não vejo nada”, respondia o homem, entortando um sorriso declinado de estranhamento. A desaprovação do homem alimentava um súbito alívio. Deveria ser exagero o que via, pensou. A enfermeira e o homem melancólico não viram a anormalidade da pele, lembrou. Uma infecção subcutânea não seria, não sentia ardor de febre, deduziu. Sentiu a saliência diminuir, poderias ser um efeito produzido pela baixa luminosidade, ou a reação alérgicas não passou de lapso de medo, vestígio do surto. Interrogava a outros, em meio aos berros de gargalhas, ninguém prestou-lhe afirmativas se sim o não. Interrompia a noite na quarta dose como o costume costumava avisar que era hora de retornar para casa. Despediu-se sem maiores afetividade, apenas com leve declinar de cabeça, não mais, não menos. Maiores cortesias são quase sempre acompanhadas por desconfianças e reciprocas flébeis. Não queria se sentir como jogral que ri ao ser insulto pela desconfiança.
           Uma ofensa pela gentileza, a qual recolheria a opacidade do contragolpe. Percebia que todos o desdenhavam na brandura da camaradagem. Seria esse um dos sentidos das gentilezas, colocar rédeas no ímpeto, atenuar o frenesi da fragilidade das intepretações mais desentendidas, ou silenciar-se para pôr em curso a continuidade qualquer ordem que achava ser justa. Guardar indagações antes da aposentadoria, guardar rancores antes da aposentadoria, guardar expressões antes da aposentadoria, guardar as incapacidades antes da aposentadoria, e, para sempre lembrar, guardar as saliências antes da aposentadoria. A porta da casa rangia quando a empurrou, quebrou a tranquilidade dos cômodos vazios, diria que a ausência de algo é sempre uma maneira abstrata de preservar a ordem, diria que a escuridão dos cômodos representaria a uma calma sentida apenas em trevas, diria, quando eu ativar o interruptor e as luz acenderem, contaminando toda sua casa com ruídos luminosos, nasceria uma cosmologia retraída, implosão de inconsciência, primeiro o verbo acender, depois o desejo pelo opaco e sombrio, tudo numa calma que ele deleitava em seu próprio silêncio. Desligou alguns interruptores, deixando apenas a silhuetas de algumas moveis, olhar com a tatear das mãos. No banheiro, desarrumado e cheirando a sabão velho, despiu-se observando a lembrança das inconclusões do dia, o surto, o desdém da enfermeira e as falsas cortesias dos outros operários. Olhos sonolentos. Friccionava com sabão o loca da saliência. Pouca luz, não conseguia ver ou analisar as melhoras ou pioras. Largou-se na conformidade, a exaustão prevalecia frente aos cuidados. Seguia pelo corredor, na direção do cômodo onde estava sua cama, quando notou que na cozinha havia sinais de infiltrações pelas paredes. Observou antes de ir à fábrica as rachaduras de brotavam nas laterais da pia e fogão. Surpreendeu a si pela própria negligência. Embriagado pelo cansaço, tateou as rachaduras, investigando as infiltrações até um pedaço do acabamento descolar, deixando a cadência dos tijolos amostra.

            A casa se desfazia pela falta de cuidados, espalhado ao chão os pedaços da alvenaria apodrecida. Sua casa apodrecia. Veredicto dos fungos, umidade e calor. A curiosidade retirava se sono, a obsessão tira o sono, as descobertas latentes. Mas deixaria o desfecho para outro momento. As descobertas parasitam a serenidade, a serem estas micro gêneses das descuidadas loucuras e experimentava nas horas de noites altas. O montador de placas adormeceu esquecendo o mistifório que possa ter provocado as infiltrações da parede. Sepultado nos prazeres da ausência de sua consciência. Ausentou as preocupações nas horas que seguiram. Aquele horizonte que calmaria que nunca se lembrava, que experimentava todas as noites. Se assim lhe permitisse cairia no sono todas as horas do dia se assim lhe permitisse acordar em estado de enferma brusquidão, no ápice de cada sono para ver se os recibos das prestações da casa estavam todos em corriqueira ordem. A velhice não é sábia, pensava. Por breves intuitos percebia que o exercício de esperar o tempo não lhe trouce menos terrores, não trouce menos apreensões. Desde sempre, visto o sempre intitulava qualquer medição não percebida ou não posta em cronograma, acordava no meio da noite para revirar as gavetas a procura dos recibos das prestações da casa. Os impostos ou hipotecas eram conferidos, ritual de todas as madrugadas, perdido num labirinto de precauções. Engenhou, calado, que as noites que seguirão seria tudo diferente, tudo mudado a partir da noite que percebeu que seu sono. Uma promessa íntima era um vício entre tantos outras. Por fim a madrugada terminaria com as primeiras aluminações da alvorada chegando-lhe. Envelhecer era fatiga-se através da luta do descanso, pensava. Andou de um estremo a outra da casa, procurando pincel e cal para preparar argamassa e esconder as rachaduras na parede. Reparou que existiam outras na extensão entre a cozinha os cômodos. Outras, mais discretas, brotando dos caibros da sala principal. Faria a manutenção onde requereria maior urgência. Uma casa digna requer cuidados. Lamentava o descuido. Desde o dia que efetuou a compra, nunca se preocupou em observa as falhas do imóvel. O concreto não reclama as enfermidades do tempo, não reclama o envelhecimento, não reclama das ansiedades, e ouvia esse raciocínio as lembras no antigo dono da casa, das histórias que lhe contaram os vendedores, um solitário que morreu sem testemunhas. Seu corpo foi encontrado pelo fedor que exalava, os vizinhos encontraram seu corpo apodrecido.
             Foi consumido pela solidão, costumava ouvir essa frase dos poucos a quem prestasse alguma atenção. Apodreceu pelo isolamento. Morreu de complicações provocadas pela diabete, primeiro seu sangue, depois seus órgãos, seguido de uma cegueira parcial. Mas o senso culpou a solidão, coimo um pecado indesfrutável, é proibido estar só, dizem. Pensava estar condenado pelo mesmo senso. Que assim o fosse, repetia conformado, melhor viver pelas incertezas próprias do que pelas regras bem mensuradas do medo do porvir. Mas não deixava de sentir-se inarticulado quando lhe alertavam sobre qualquer eventual necessidade de companheirismo. Tinha de admitir que as pessoas fossem guiadas pelos ditos do senso, a desobediência é um gesto repudiado pelo simples fato de representar uma partícula do que todos nomeiam de conquista do livre-arbítrio. Sempre que alguém lhe perguntava sobre o por quê de estar vivendo em uma casa de um morto cadáver solitário, optava pela resposta mais desdenhosa que encontrava, a que não tinha outra casa de melhor acesso, é claro que a evidência da resposta mais honesta era de querer não ouvir outra voz, a não ser a sua própria, tenha em cognitivo que a liberdade ofende com escárnio os que não a tem, e sabia que seus vizinhos reprovariam sua sinceridade. O senso obrigava-lhe a mentir. Percebia que as corteses mentiras mantinham o equilibro do convívio com as pessoas do bairro, uma política que o mantinha afastado de maiores problemas causado por qualquer tipo de rumor.
              A imaginação é um campo fértil para o perjúrio. Enquanto terminava de misturar a argamassa sentia, por sutileza do súbito, os comichões roendo a pele de seu braço. Desta vez as saliências vermelhas escureciam seu tom, copilando um rubro coagulado, as rachaduras secas da periferia mostrava nas profundidade a carne, formando ranhuras venais que se bifurcavam em múltiplas vias. Largou a espátula a percorrer nos cômodos a procura de iodo e ataduras. A enfermidade agravou-se pelo descuido. Borrifava o iodo, desastrosamente, em toda extensão do ferimento, enquanto comprimia com gaze e algodão. Agora outras partes do braço apresentavam indícios de inflamação, não estava ali antes. As saliências vermelhas se alastraram como um efeito viral, ou uma infecção que não ardia. Não era dia de seu expediente na fábrica, a enfermeira não atende a operários que estivessem fora de horário de trabalho. O posto de saúde só começaria a prestar serviço ao meio dia. Iria esperar até o horário de abertura. Teria tempo para reparar as rachaduras da casa. O reboco estava pronto. Com a espátula na mão, fixava a argamassa nas deteriorações dos caibros, primeiramente. Depois seguiria para cozinha. Levando pouco tempo. Resolveria o problema das erosões da casa e seguiria para o posto de saúde. Alergia ao negro de acetilênico, concluía para si. Só poderia ser. Passou todos aqueles anos em contado, manipulando com as mãos nuas e sem a máscara de proteção. Quando por fim o último chapisco de argamassa foi expelido, sua respiração trouce um zumbido que percorria toda a circunferência do crânio. Novamente a mesma sensação sentida na fabrica. Um mulher pressiona sua mão no ombro, apoiando e perguntando interrogando seu nome. O montador de placas aponta-lhe um olhar confuso. Esquecendo as dores de cabeça que reapareceram e o assolavam novamente. “Que acontece”, perguntou ele a mulher. Ainda nauseado pelas súbitas dores, levantou em brusquidão, dissimulando vigor e tentando esconder sua enfermidade. “Não foi nada, só uma leve tonteira que senti, deve a circulação, passei muito tempo na mesma posição,” respondeu o montador de placas, com uma postura de imponência para melhor acobertar-se de um possível interrogatório. “A porta estava aberta, aí, entrei para perguntar se tinha visto as condições da frente da casa.” Espantado com a afirmação da mulher, foi averiguar que ela havia dito. De fato: a varanda estava repleta de rachaduras. Não tinha prestado maiores atenções. Ainda sobrou um pouco de argamassa. Perguntava, sussurrando “como havia reparado antes”. Não escondia sua apreensão ao ver as paredes da casa se desfazendo.
            O tempo, pensava, escapou de vista. A umidade, pensava, é uma anarquia invisível. Não prestou maiores considerações pela mulher que lhe preveniu em restaurar outra parte da casa. Tapou, grosseiramente, o quanto pode pela escassez da argamassa. Não agradeceu a mulher pelo súbito obsequio de interromper seus sintomas, ofendia-se com cortesias, repulsava demonstrando com silêncio das palavras e movimentos de aprovação com o pescoço. Mas antes que a mulher sair, mostrou-lhe as saliências da pele, última remissão antes de ir ao posto fazer os exames. “O que pode ser”. Perguntava, escondendo as culpas do seu desprezo pela mulher. “Pode ser o que” replicara a pergunta, tentando entender e analisando minunciosamente a parte do braço mostrado pelo. “Não vejo nada de estranho” respondia a mulher. “Começou ontem com uma mancha vermelha e agora está ferindo a pele. Hoje apareceram outras. Logo mais irei ao posto fazer exames”. Estendeu os detalhes esperando uma maior condolência, ou qualquer sugestão, vinda da mulher, que lhe amenizasse a ansiedade. “Não vejo nada”, insistia, cortando suas atenções para o montador de placas. Lembrou-se dos recibos de pagamento da casa, o próximo deveria ser pago antes do final do mês. A lembrança veio em plana luz do dia, fugindo da madrugada, como era o costume. A argamassa terminou e deveria comprar mais antes que os estabelecimentos baixassem as portas.
            Quase no horário do atendimento no posto de saúde começar. Deixou a restauração de lado, prontificou as ordens da casa, trancou portas e janelas, avisou, ligeiramente, a algumas pessoas da vizinhança que voltaria rápido. Espera que fosse uma rotina sem maiores gravidades e que um tratamento adequado seria suficiente para prestar-lhe melhoras. Poucos pacientes na fila de espera, se cartão de seguro social estava em dias com as cobranças. A atendente do posto não lhe agradou, falava em espasmos de bruteza. “Pacientes desse posto são como crianças, tem que repetir várias vezes o mesmo conselho até que entendam,” queixava-se para as quatro direções cardeais ou para qualquer indigente que prestasse atenções. O montador de placas não poderia lhe culpar pela crueza da impaciência, poderia pensar que estivesse a tanto tempo projetando no preenchimento das fichas de pacientes seu estados de melancolia. Residências de tratamento da saúde é uma espécie de limbo, uma fronteira, sentasse perdido em dúvida ao entrar e aliviado ao sair. Cheiro de álcool e curativos, cheiro de desinfetante barato, uma copia de um quadro da santa-ceia e um crucifixo ornamentando a recepção, paredes sujas e desbotando as primeiras cascas de tinta. A recepcionista o chama com o mesmo tom de rancor que exalava contra os outros que o sequenciaram. Limitou-se apenas a responder o questionário de identificação, sem outros pormenores. Na placa fixada na parte superior da porta estava escrito ‘clínico geral’, supunha que nessa generalidade estivesse o diagnóstico, ou as causas, das saliências do montador de placas. O clínico era um homem de ações lentas, despreocupado com qualquer turbulência na rotina, sonolência nas palavras e nos olhos. Um rádio compacto com volume de som sutilmente alteado para distrai-lo com assuntos que não fossem as recorrências do posto de saúde e que não o atrapalha-se nas consultas. Pensou não haver nenhuma possiblidade do clínico exalar uma lágrima de aflição, outra vez o estranho senso que desejava clemência que o persegui a transforma-lhe naquele estado confuso de infância.
             A piedade não vigorava na postura do clínico, nem para os maus ou bons diagnósticos. Ao prestar a conclusão do exame, o clínico, disparou uma leve fúria contra o paciente a sua frente, sim, existe uma fúria leve, aquele tipo que tempestua sem agressão física: “angustia não minha especialidade, nem tão pouco delírios, o senhor não tem problemas de pele.” Diagnostico reprovado, ou a ausência da enfermidade que o montador de placas. O que seria mais confuso que um diagnóstico com a ausência de veredictos era um implicação irônica por angústia. “Mas não vou precisar tomar nem medicamento?” Perguntava preocupado com possíveis pioras. “Você não tem nada, nenhuma doença, só tem que descansar.” O clínico o acompanhava até a porta com uma simpatia dissimulada, impelindo-o com um sorriso forçado que escondia uma leve afobação em retirar um volume da sala de clínica geral. Agora um especialista lhe dizia que não existiam sintomas observáveis. Antes a enfermeira mal humorada, depois o senso banal mulher intrometida e agora o clínico. Tão vago quanto polifônico era aquela ausência de comunhão com uma verdade confusa que experimentava nas últimas horas. Saiu do posto de saúde sem despedir-se ou prestar qualquer atenção para atendente.  Lembrou que tinha que comprar argamassa para conclusão dos reparos nas paredes. Lembrava dos recibos, lembrava dos dias que restavam para sua aposentadoria, lembrava dos olhares desconfiados dos supervisores da esteira, lembrava do cádmio, do cloreto de amônia e do negro de acetileno, lembrava da casa que estava sob a vigilância da mulher que se intrometeu em seus espasmos de dores de cabeça, lembrou de olhar para o braço e continuar vendo, e quanto mais se afastava do posto de saúde mais intenso ia ficando as saliências. “Deve ser a temperatura do sol”, pensava. Na loja de alvenaria solicitava a quantidade de cal necessária para as providencias das restaurações da casa. Recuperava o controle da respiração. Tinha pressa. Tinha tarefas para o resto do dia.
          Ao estirar o braço esquerdo para entregar o pagamento ao caixa da loja de alvenaria percebia que novas saliências. Agora eram ambos os braços afetados. Perguntou a jovem, que esta lhe entregou o troco, o que ela via em seu braço, “não vejo nada”, respondia, como já havia caído no consume partiu em direções do vendedor da loja, “não vejo nada” respondia, também. Supondo pela hipótese de que outras partes do corpo, além dos braços, estivesse sob o domínio das saliências vermelhas, correu na direção do banheiro do estabelecimento, despindo-se e molhando o rosto com gestos afoitos de alguém descobrira seu ceticismo com diagnósticos de profissionais da saúde. Sim. Estava doente. Não. Não estava. Se digladiando na frente do pequeno espelho em um banheiro que entrou antes, seu rival mais infame: suas abstrações. Nem toda água enxaguando em seu rosto parecia amenizar sua tensão. A casa, lembrou. Precisava retornar o mais rápido que pudesse. Não se importava em levar, ele mesmo, os fardos de cal. Tinha pressa. O serviço de entrega da loja de alvenaria demoraria e não teria tempo de executar as restaurações, e no cronograma de sua vontade, deveria ser realizado naquele dia. Ao destrancar a porta, recuou alguns passos para conferir o tamanho das rachaduras a serem reparadas. Uma enorme lasca de reboco desabou quando estava em consulta, deixando a parede nua, com a textura dos tijolos amostra e gerando veios de rachadura em quase toda a extensão da parede.
            Continuou mexendo a massa de cal, mas ainda lembrando das saliências, que agora estava enraizando para suas pernas, tronco e pescoço. Não comichavam. Em poucas horas as saliências mudaram para erosões de pele. Assim a primeira mostrando as texturas carnosas mais profundas. Sendo tratados com iodo, algodão e gaze, envolto com ataduras ou qualquer tido de faixa que pudesse evitar exposição. Queria concluir as restaurações antes do anoitecer, mas novas deformações na caiação antiga iam surgindo conforme o montador de placas reparava outras. Anoitece e o último chapisco e atirado. Anoitece e seu corpo envolvido pelo último metro de gaze que lhe restava. Abria a gaveta dos recibos das prestações conferindo um a um, queria dormir sem ter que acordar no meio da madrugada a ter que cumprir o ritual de todas as madrugadas. Sentou no sofá e iniciou o conferir dos talões mais antigos. Percebendo que a cada foco de olhar as rachaduras aumentavam. Não tinha mais argamassa. Seu corpo afogado pelas saliências vermelha a observar sua casa num estada de metáfase do continuo. Poderia ser esse o primeiro caso em alguém se dissolve junto com a própria casa, imaginou.
          
   O montador de placas assistia tocava as paredes notando que as formas das erosões das saliências vermelhas correspondiam com os contornos dos tijolos da parede. Tijolos rubor, escondidos. Por si, repentinamente, sentia-se atraído pelas formas dos tijolos. Começou a arrancar as rachaduras a desvendar, primeiramente toda a parede da sala. Fixado pelo espanto de ver a semelhança das rachaduras com as erosões da saliência vermelha. Separava a pele de seu corpo, assim com separava a o reboco dos tijolos até esquecer a madrugada chegou e ele não mais se preocupava em olhar os recibos das prestações, os documentos da sua aposentadoria, a mulher que interrompia suas dores de cabeça, o cádmio, o cloreto de amônia e o negro de acetileno. Não amanhecer seguinte uma mulher fixava uma placa com os dizeres “Vende-se esta casa”. Seguido de um senhor que lhe perguntava sobre a vizinhança.
        “É uma casa para quem gosta de sossego.” Respondia, caminhando na direção de um vento que soprou repentinamente.



                                                                                     Texto e fotos: Edson Moura 

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