quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

“Os Sertões” redescobertos

     
Série de ensaios-relatos sobre os ‘Novos Sertões'  
   
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© Edson Moura
Visitar Canudos, caminhando por suas ruas, pisar em seus calçamentos como alguém que, repentinamente, descobre a possibilidade de (re)descoberta de um fragmento de um passado que nos convoca a  ser (re)escrito. A memória de um conceito teórico lido em nossa literatura acadêmica, truncada para tridimensionalidade de nossos sentidos, estes, presos em uma cela de bibliográfica, conceitos teóricos, puro e simples, são incompletos sem o observável, sem o estudo do Campo. É claro, podemos desfrutarmos dos benefícios da experiência imaginaria, mas o testemunho nos coloca no fronte das observação, o assunto a ser relatado , pois a práxis da presença é o alicerce do conhecimento tanto literário quanto antropológico. O observador, protagonista de uma mundividência-investigativa-cientifica, não limita suas fonte de captação de dados somente aos olhos prostrados, fulgurosamente  ele capta odores e asperezas de superfícies. Sentir que em suas terras ainda reside os ecos de um dos maiores movimentos de contestação de uma ordem vigente: se impôs uma região, a um Estado, em seguida, a uma nação por completo.
      
   Os trabalhos de um narrador ficcional, sempre buscando uma impressão conotativa de seu testemunho, sede lugar rebuscamento do pesquisador. Minunciosamente, catalogando esse contado, transformando-o em relato de um viajante, assim como Darwin, aprofundando-se no cerne da “Terra do Fogo”, descrevendo e enumerando detalhes sobre “As Ilhas Canarias”. O narrador de uma pesquisa etnográfica-literária, germinando e produzindo os veios de raízes ainda desformes e fincados num plano de terras fecundas, mas que necessitadas um cultivo cuidadoso e constante.  
© Edson Moura
       
      Assim surge desse labirinto de referencial bibliográfico multidisciplinar, um chão de histórias, de vozes passadas – bibliográfica, relatos e sombras de um povo quase esquecido- e vozes presente – a gente viva, com que podemos sentar e conversar sobre seus testemunhos da vida do cotidiano local, este, o ponto de partida. Rios de narrativas fluindo, Uma paisagem inexorável no largo da imaginação, brotando do ímpio da própria realidade observável, um estado de presença às vezes calmo, passivo a contemplação, às vezes tenebrosa, às vezes bela, às vezes confusa e opulenta e onerosa. A paisagem de Canudos, esse imenso sertão de dentro, influxo de um social e psicológico tão bem descrito na poesia-prosa de Guimarães Rosa, fala dessa realidade tangível, ainda que metaforizada. “Os Sertões” mostrou jornalístico-literariamente, uma grande tratado da configuração social-étnico-ideológico brasileira. O sertão, o sertanejo, os homens e mulheres pisando o seco do sol, aqueles que buscam seu Terra prometida, esta é Belo Monte, recanto dos oprimidos, o “anticristo republicano” metaforizando uma elite opressora. O rigor analítico-estrutural dirá que o fato “Os Sertões” é um de nossos grandes legados antropológico.   



                         

                                                Edson Moura
 

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