terça-feira, 21 de outubro de 2014

Incógnito


       
   

  
 
E.Moura
   O cão gritava morte com os olhos, multiplicava o arregalar como se a tristeza já não lhe existisse. Os pêlos empinavam, brotando pontiagudos e disformes, os caninos torcidos pelo grunhido surdo que o instinto lhe ofertou naquele momento. Recuava um movimente, mas sem completar um passo de retrocesso. A sua frente, o porteiro, escorado as parras de ferro do portão, caia, lentamente, tentando lhe disse “procure alguém, rápido”. Um estranho, que transpirava medo, dois disparos com a arma desconexos, não havia lógica da mira.

       Mas houve tempo, sim. O estranho, na moto, como um centauro simbiótico, retirou o capacete, ofereceu-lhe boa noite, ofereceu-lhe a imagem do seu rosto, ate o porteira, sobre o olhar atento do seu cão, perceber que havia caído no fio do mito cortes a cortesia do centauro simbiótico lhe fez sangrar. O cão ouvia o som estourado, seu estômago, já mastigado pela fome da noite, assistia confuso a queda do seu dono. O odor de pólvora e sangue misturava a razão instintiva do olfato. Ainda reticentes pelas palavras do seu dono caído, que não gritava, não chamava pelo seu nome, uma palavra dita desde o seu nascimento. Murmurava gemidos afogados pelo sangue que escorria de sua boca. O tiro certeiro ao romper a fragilidade de uma artéria. Testemunha o último suspiro do porteiro. Lábia os dedos do homem, agora, com a vida fugindo-lhe pelos ferimentos. Farejava forte. Latia como quem esperasse o som do sem seu nome. Tinha um nome, não só “aquele cachorro do porteiro”.
       Todavia só o porteiro o chamava através do seu nome. Não. Seu último suspiro não foi o nome de um ser de sua espécie, alguém que o ajudaria, visto que, uma artéria rasgada por uma bala, lhe estimava uma aceitação da morte, ou, nem uma fervorosa súplica lírica, pomposa, com adornos de absolvição de suas culpas, penúria morta, pois um nome não podia pronunciar. E agora seu próprio narrador esvaia em golfados de sangue. O cão empurrava seu braço com o focinho, tentando arranca-lhe um nome. Confuso, de lado para outro, circundava como alguém que esperava outros virem levanta-lo. Latia alto. E agora mais afoito. Procurava no meio da noite uma ajuda para seu dono. O porteia já não respirava. Não tentava o chamar pelo nome. Um nome que desaparecia pelo ferimento da jugular. Olhava para os espaços da rua onde centauro simbiótico afunilou sua própria presença. Gentio dialética soturna, que banhava com o sangue do porteiro o chão onde lhe servia comida e água. Acostumado a ouviu a voz do porteiro pronunciar seu nome três ou quatro vezes. Curiosos os afastavam. Carros se aproximam e o afugentam com fortes clarões e, juntamente, com sirenes o afugentavam, confuso para seu canto, sem lhe perguntarem o que havia visto. O que diria os olhos de um cão, faminto pela presença de seu dono, ou confuso por não estar mais sendo invocado através dos sons que o chamavam. Perdido. Latia forte para aos curiosos que se amontoavam, talvez, diria que tem um nome que o dialeto dos cães não podem pronunciar na língua dos seres humanos. Seu idioma era a expressão dos sentidos, ensinaram os sons de um nome.                                                                                                                
        Enquanto ouvia os moradores dos apartamentos murmurando o nome do seu dono, poderia imaginar que veio o fim de sua vida ante da morte de seu nome. O que dirá o cão para si: que seu nome morreu primeiro, e sua vida continuava. Os moradores o afugentavam: ‘sai daí, cachorro, sai pra lá’. Afugentado, deitado num canto escuro, encolhido pelo frio, olhava para os confins da rua, refletindo sobre o centauro simbiótico que levou seu nome. Quem via o cão deitados, poderia dizer; ‘o cão está esperando o dono, ele não sabe que ele está morto’. Não o cão não esperava o dono. Apenas esperava o centauro simbiótico.  



   
                                                                                                                                                     Edson Moura



                     

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