domingo, 8 de junho de 2014

Eis o mundo de fora






      Em “Eis o mundo de fora”, Adrienne Myrtes molda uma narrativa com o escopo de uma linguagem aforística, onde as acepções das vozes dos personagens Irene e Luiz recaem no compassar sinuoso de seus conflitos. Essa concisão de sentidos presentes presente em diálogos que beiram a uma literariedade quase cirúrgica na maneira minuciosa como descreve as cenas do enredo, aproximando da carga prosaica nietzschiana, compactada em parágrafos sinestésicos-conceptistas:
       
     “Comecei a morrer no dia em que nasci, a morte vive em mim desde o início. A morte se fortalece com minha vida. Irene diz que é a morte de algumas células que faz nascerem outras, que a morte não existe e a vida é transformação e sinapses. Que todo fim é o começo de alguma outra coisa afinal, os finais vestem a morte de cores. Irene diz muitas coisas, nem sempre tenho ouvidos. Não gosto de pensar que estou morrendo para me manter vivo. Melhor morrer de vez, ou viver sem ter espaço para armazenar essas ideias. Mas, se Irene estiver certa, e a morte não existir não me sobra muito além de sobreviver aos intermináveis ritos de passagens” (p.23)
        
O ‘inconsciente-célula’, matéria prima que compõe a minúcias de seus textos é o artificie da escritura de Adrienne durante todo o romance. O ambiente é o das sensações, do pensamento, nós vamos construindo o nosso entendimento aos poucos. Um livro denso, como costuma ser com a sua literatura orgânica-psicológica, tangível e, ao mesmo instante, insólita. Sim. Adrienne é uma autora contemporânea. “Eis o mundo de fora” é um romance ‘clandestino’, lapidado com fugas sonoras, sabores e dessabores, conclusões escuras e antíteses acrimoniosas. Mesmo concluindo suas páginas, ainda sentiremos súbitos anseios em retornar seus parágrafos e capítulos, no garimpara de fragmentos, porque estes fomentaram nossa atenção e percebemos, ‘são versos semeados na pele da prosa:

  “O cenário era o mesmo e estava se tornando enxerga-lo de maneiras diversas. A mesinha permanecia no centro da sala e eu, outra vez solitário, sem nem uma rosa para me deixar rubro. Invejando o vazo azul envidraçado que ao menos podia se arranhar nos espinhos da rosa de plástico. A rosa sem cheiro e eu crivado pelas lembrança recentes.” (p.114)


   “Eis o mundo de fora”, de Adrienne Myrtes, é leitura recomendada para todos aqueles que desejam conhecer e aprofundarem com os autores que estão formando cenário literário atual. Romance sintonizado com literatura contemporânea dos autores brasileiros.   


                                                                                                 

                                                                                                           Edson Moura








“Eis o mundo de fora”, de Adrienne Myrtes.  Seu livro fará parte do Projeto “Pilar Literário”. Iniciativa que tem o objetivo incentivar eventos artísticos-literário nos Distrito de Pilar, no Sertão Baiano.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário