domingo, 2 de fevereiro de 2014

Portuário

           Todos se aproximavam para ver a baleia que estava prestes a explodir; não bastou flagelo que a sinuoso movimento das marés lhe deram. Funcionários da comitiva de pesca tentavam afastar os curiosos mais ilícitos sem afronta-los, contradizer as informações sobre a gasificação dos sucos gástricos e do possível espetáculo martírio que este iria proporcionar. Em toda sua extensão gaivotas petiscavam pedaços de gordura que afloravam de suas ranhuras na pele que desidratava, enquanto, de sua boca uma soba escura de plânctons e pequenos peixe escorria através de valetas espalhada pela areia. O portuário sentia-se existindo quando alguma baleia aportava para morrer nas areias onde vigiava desde quando o emprego lhe foi atribuído. A jugar pelo tamanho do animal, se as histórias que ouviu sobre outros encalhamentos, logo iria se formar uma multidão alvoroçada. Estava longe do estaleiro que por meses não recebia navios, nem mesmo os desgarrado, anônimos e a deriva na clandestinidade. O sol estava ameno, e as nuvens se escondiam, sem ameaçar clima tempestuoso. O portuário contradizia-se ao se preocupar em estar longe de seus deveres, observava o corpo da baleia e o formigueiro de gaivotas e pessoas amontoando-se, oníricos para quem podia ver ao longe da enseada. Tomou sua bicicleta como assento a medida que prensava fumo no cachimbo. Ligou o rádio portátil para acompanhar irradiação da eventualidade.
                    
       As estações de rádio surtaram o encadeamento da programação habitual para noticiar a peculiaridade do fato, visto que era empiricamente calculável que a soma da massa corpórea dos habitantes de uma típica vila de pescadores séria menor a massa corpórea de uma baleia-azul, e seria este o apogeu da audiência nas horas que se estendiam.  Os vendedores de iguarias, equipados com caçambas de coleta, se amontoavam a uma distância das toneladas do cadáver esperando impacientes o estouro, para em seguida talhar as partes de maior ou menor nobreza para composições gastronômicas dos restaurantes beira-mar, ou, no mais lucrativo dos atributos baleeiro, os efeitos farmacêuticos de sua cartilagem, que contava nos registros dos alquimistas orientas como uma pedra filosofal para tratamento dos enfermiços distúrbios provocados pela falta de cálcio. A proposição do portuário era de um dia poder estratificar os derivados de baleias encalhadas, ou poder usufruir dos estratos farmoquímicos dessa mamífero marinho. Mas sua prioridade, nos instantes que sentia-se existindo, era ver o aglomerado de repórteres que disputavam as urgências ou qualquer exclusividade patologia do pandemônio em volta do corpo da baleia. Gravadores e microfones era ajustados, enquanto candidatos ao bombardeio de entrevistas eram pré-selecionados por suposta idade, suposto melhor nível cognitivo, suposto equacionamento dos preceitos de belo e não aceitável esteticamente, e dentro das micro fatalidades de suposições do processo seletivo para o ajuste do gosto dos repórteres, seriam escolhidos o que estavam o os mais aptos em aspecto. Chefes das equipes de reportagem recebiam notificações para se prepararem para o pronunciamento oficial do gestor de comércio da vila que estava pontualmente agendado para o meio dia. Poderão aproveitar comunhão baleira que se avolumava a media que os minutos corriam. Os supervisores de reportagens deram início ao projeto de instalar telas de recepção de imagens para o momento em que o gestor de comércio da vila iria transmitir-lhes as boas novas. O portuário continuava observando a multidão se aglomerando nas enseadas como arquibancada apoteótica de domingo. Socava o fumo na boca do cachimbo, expectando, com uma austeridade jocosa, e um leve sorriso dissimulado, prostrado na bicicleta, imaginando qual notícia, fruto de sua complacência contratual, o gestor de comércio poderia proferir em meio à prospecção de euforia triunfante.                                             
        As hélices do moinho giravam com maior velocidade. As nuvens carregadas se misturavam e se agrupavam, dificultando os técnicos na montagem da tela de recepção de imagens. Grupo de pessoas estendiam lonas à beira de barracas para se protegerem do mal tempo que se formava. Em pouco tempo uma grande porção se acuaram em baixo das lonas, se protegendo da força dos ventos que sopravam a uma velocidade que o som emitido distorcia o silêncio desordenado do otimismo eufórico do evento que se tornava mais ébrio a medida que a imaginação era aquecida pela imprudência. A baleia estava preste a explodir e sobrava otimismo em todo o episódio. A apoteose necrótica atraiu observadores de outros distritos, as enseadas rasas, que antes eram usadas para movimentação de esportes marítimos, sedia seu atributo de arena. A distração gracejava todas as classes, desde o pesador de camarões ao chefe administrativo da vila.   
        A baleia-azul estava prestes a explodir. O odor salino da maresia aumentava em comparada medida ao tempo em que seu corpo ia se decompondo. Os veículos de emissoras de TV aproximavam para fazerem os registros televisionado do acontecimento que doutrinou a congregação entre gaivotas famintas e as pretensões do entretenimento baleeiro. Os primeiros a serem entrevistados foram os curiosos, posto que a urgência por informação em momentos caóticos seja o libídino da presunção.  
         A baleia-azul estava prestes a explodir. Um menino desgarrados de seus responsáveis, e esquecendo das cautelas previamente instituídas pela dedução dos riscos, empilhou-se no abdômen do mamífero gigantesco estendido, levantou os braços em propensa extensão, acenou para todos que estavam a circundar sua vaidade de ter conquistado o cume do animal morto. A concentração dos cinegrafista, que até então, era toda ela voltada para a coleta de depoimentos prodigiosos sobre as lendas que vinhas se formando ao longo de dia, voltam-se para o micro espetáculo lúdico que agora iria preencher as filmagens para o noticiário dos próximos plantões. O menino subvertia a cautela dos adultos com sua audácia juvenil, em pouco tempo outros três ou quatro estavam soltos, deslizando de um lado a outro. A criatura dormia apodrecendo. Um baleeiro iniciava os riscos em sua pele, separando as virtuais partes nobres enquanto outro tentava afastar as gaivotas famintas e os garotos imprudentes. E quanto maior os descuido com a suposta explosão, maior o ceticismo ao fato de não ser seguro estar em sua proximidade. Uma gaivota disputava com baleeiro um pedaço da nadadeira esquerda enquanto o cinegrafista focava o decoro da disputa. Os expectadores disputavam os melhores ângulos para registos de poses fotográficas. Um agente de saúde tentava em vão alertar sobre uma possível contágio bactericida marinho, que, supostamente, poderia infectar alguém. Mas pelo descuido advindo hipnótico dos instantes lúdicos que o corpo da baleia proporcionava os avisos eram totalmente em vão. Nem mesmo quando alguém, mais atento com concretude da lógica do que com a histeria que cegava a prudência, afirmava ter escutado um ronco abdominal, alertou a multidão sobre os espasmo sísmico que poderia traduzir-se como cuidado, afastem-se. O agrupamento de defesa civil contentou em permanecer onde se colocaram desde o momento que chegaram,  comprem-se as ordem que lhe são ordenadas, cativados pela inocência da amenidade; não se posicionariam em alarme por uma calamidade que ainda não tinha acontecido; havia quem poderia chamar de ordem o reordenamento  do caos organizado pelo fluxo dos incidentes dantescos. A tela de recepção de imagens começava apresentar os primeiros gráficos da transmissão do gestor de comércio. Um murmúrio desarranjado de espantos saudaram as centelhas da tela. O som dos autofones anunciavam as melodias tumbastes da vinheta do governo da vila baleeira. Durante os minutos que seguiam, repetidas vezes a vinheta se exibia, como um entidades que preparava a chegada de seu messias. Não chovia. O vento soprava forte, o céu escurecido pelas nuvens cinzas carregas, ondas se avolumando, quebrando com tamanha intensidade que não se podia mais ouvir as vinhetas do governo da vila dos autofones. O portuária reajustava o volume do seu rádio, há tempos que perdeu sua relação com as notícias sobre o governo da vila, há tempos cansou de priorizar afagos dos elogios e das benevolências indecorosas que afagavam mais que os elogios, há tempos cansou de ouvir as melodias, romantizadas Podia-se imagina:              
          “Os correspondentes das emissoras de TV começaram a receber telegramas aos montes. Com as orientações sobre a nova dinâmica dos governos. Uma nova ordem instaurava-se no país. As corporações armamentistas anunciava autonomia do governo, com produção em andamento, com oferta e procura de empregos e um novo mercado formado por pais em processo de firmamento político. A compra da produção seria eminente e crescente. Não faltaria emprego. A renda per capta aumentaria vertiginosamente a ponto de nossa cultura se reverencia da e copiada por outros países. A fábrica de carabinas de traria uma nova perspectiva para os habitantes da vila baleeira. Consequentemente uma maior renda significaria maior consumos, outras industrias aportarias na vila. A documentão contendo a analise especulativa os benefícios da fábrica, alimentavam uma estimativa onerosa sobre as mudanças na vila. “                                 
         O estado deserto o seduzia, e sobre ele somente três segundos para cada instante. Se estivesse construindo uma história, a sua própria, quem sabe, estaria virando suas páginas sem as ler, sem prestar sentido aos significados imediatamente compreendidos. O estado deserto jamais lhe cobrava impostos, dividendos, quitação de promessas ou pormenores menos ou mais convenientes. Era assim que nomeava seus momentos na orla. Despreocupado desde o dia de sua grande descoberta, numa manhã vazia, de poucos pensamentos coléricos, de poucas dívidas cobradas, de pouco passado, de futuro calado, sim, o estado deserto o seduzia. O oceano era desluzido, deveria ser sem brilho, como uma lâmpada velha a emitir luz fosca. Manhã de sol escondido, manhã de nuvens negras de tempestade que sorrateira ameaçava os espectadores das areis da orla que amontoavam feito feras confusas, buscando seu lugar ao sol das ansiedades, deixando-se morrer a cada momentos que não percebem que o sol não era tão belo como acreditavam ser. A assim sendo, como deveria ser feito. Via a lírica do céu apodrecendo enquanto a multidão que disputava um pequeno metro quadrado nas areias fotografavam as gaivotas com os bicos empapados com as entranhas de uma baleia encalhada desde o nascer da manhã.
        Comprimia mais um punhado de fumo no cachimbo entes mesmos do restante se transformar em resíduos de brasa, antes que qualquer súbito de notícia, qualquer acontecimento rasteiro, de ímpeto frívolo ou alarmante vinda do pequeno que rádio dependurado a sorte despreocupada, não há não o colocaria nas paginas dos significados imediatamente compreendidos, era certo pensar que quanto mais caminhava entre os significados, mais se distanciava dos sentidos, como perdido num labirinto de paredes de gritos surdos, com olhos atentos, mas tateando com uma bengala cega. Todos tem um diagnostico para algum sentido, todos sentidos são diagnosticados sem qualquer. Nunca procurou sentido no sabor amargo da fumaça úmida do fumo que aspirava, brincava em seus pulmões, e expelia baforadas aliviando-se com a neurotoxina recreativa. Caminhar entre seus instantes entes, com passos inertes, ignorando que existia para outros, tudo que os estado deserto era, essa amontoado de razões desvairadas, enfermas-aleatórias. Não sentia-se existindo quando estava pensando. Os sonhos não tecem sentido. Esse ensaio de incoerências que sãos as tentativas de tecer um signo para tudo que é desvendado.
      Os ventos que sopravam na orla crivavam os sinais da transmissão, o som raspado ruía com a mudança de intensidade. A orla continuaria existindo mesmo sem os sinais de notícias. Não ouviria o quem deveria ouvir, os bons conselheiros transversais, os messias modernos mergulhados em sua própria graça. E o corpo da baleia encalhada, que continuava a apodrecer, e a multidão que declaravam o monopólio das areias. O sol só luzia, sem exalar calor. E o estado deserto que sempre o seduzia, e sobre ele somente aqueles três segundos para cada instante, diluía a cada instante. Construía uma história, a sua própria, como em si sempre construiu, quem sabe suas páginas foram virados, sem prestar sentido aos significados imediatamente compreendidos. O estado deserto jamais lhe cobrava impostos, dividendos, quitação de promessas ou pormenores menos ou mais convenientes. Era assim que nomeava seus momentos na orla. Sim estava certo. Ele sentia-se existindo.

           A baleia explodiu. As gaivotas avançavam movidas pelo banquete espoado nas areias. Todos se afastaram movidos pelo final dos poucos segundos que puderam. Todos esqueceram os poucos segundos que puderam ver. Um breve tape de 3 segundos foi editado e exibido no jornal da noite. E o portuário sempre preso em sua bicicleta. Só olhava.    

                                                                        
                                                   Por Edson Moura, em 02/02/2014          

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