quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Submergidos

          Repetia o mesmo alerta por varias vezes, é melhor não se aproximarem, os galões estão espalhando por todos os lados, derramando aquele solvente escuro que está corroendo a vida do solo. E o alerta seria um retumbe para mais um chamariz do espetáculo sulfúrico do liquido negro que corroía as ervas fuçadoras que atracavam no solo, atrapalhando a crescimento dos sereis de fava. Essa é a melhor maneira de eliminar das erva intrusas, afirmava um dos operadores ao contingente de coletores, plausíveis aos vapores que condensavam uma refração prismática vista a dezenas de hectares de distância. Estáticos, os coletores aguardavam o assentamento da densa nuvem de gases que coagulava no pequeno leito de ervas roxo.
      
         
   O odor viscoso impregnava sobre a pele dos rostos, escorriam lagrimas sujas que rasuravam a visão do final do dia. O supervisor ordenava que todos se aprontassem para arar os campos, recolher os ramos das ervas, deverias ser rápidos, um aroma doce residual da solução entre o solvente negro e as ervas fuçadoras atrairiam os carcarás do final de tarde, e esses, tão acostumados a se alimentarem dos cadáveres, da carne podre, do sangue em estado coalho pelo efeito coagulo, sobrevoavam por instinto o solo ainda vaporoso, farejando o odor de carne podre de corpos invisíveis. O espetáculo do final de tarde era os carcarás surdos dos faros, perdidos em seus instintos básicos, não distinguiam, não rastreavam nem o solvente negro, nem a necrose. Aproximasse o supervisor do turno, com tom aborrecido, gritava para que os trabalhos não fossem interrompidos, deveriam limpar os resíduos de ervas antes de findar o turno; regra da empresa, os coletores diurnos receberiam o solo limpo das ervas, livre da languidez deixada pelo solvente negro, livre dos detritos de ervas intrusas, livre da intromissão dos carcarás cegos do olfato.
        
      O turno diurno não verá. Vista clara, temperatura de cor para os sem tatos, pois suas peles se acostumaram com cores frias. Esquecer é não sentir, mais, as cores quentes. Era a ordem que orientava a supervisão dos coletores. Incógnitos, os coletores só teriam que obedecer. Sem perguntas. Imperava o supervisor ao guia-los até as vielas que ladeavam os campos de ervas intrusas. O suor escorria à medida que as linhas de coletores era organizadas. Sem perguntas. Imperava mais uma vez o supervisor enquanto aravam os resíduos da pequena fração do campo. Os vapores do solvente negro ainda condensavam na terra, respiravam a necrose, respiravam o suor do dia, respiravam as palavras do supervisor, respiravam as normas, respiravam cuidados, respiravam o fluido, o bojo do solvente negro, as narinas contraídas com sabor férreo que escorria nas laterais da boca. Olhos ardiam, e lágrimas escorriam, untando com a sujeira da pele. Não. Aqueles coletores não eram covardes. Mesmo que os vapores do solvente continuasse a condensar em seu corpos, em seus uniformes de brim azulado, os trabalhos continuariam pela madrugada, submergidos nos deveres. O turno diurno chegaria aos primeiros raios. Sem perceberem. Estavam submergidos. 


    

                                                                Por Edson Moura, em 29/01/2014

Um comentário: