sábado, 25 de janeiro de 2014

Sala 202



       
‘Tolos são encantados pela cortesia’. Dizia o anúncio em letras minúsculas, impresso em formato time e colocado na porta da pequena sala 202 ao lado da sala 201, onde deverias entrar para preencher o formulário da carteira de impressão. Logo abaixo, em letras desfocadas, formato incógnito e tamanho macro, outro aforisma desejava ser lido, mas este iria esperar até a discrição do funcionário que atestaria a veracidade das fotocópias exigidas, visto que a cumplicidade do entendimento dos disseres na porta despertava plural curiosidade, sendo que determinados enigmas são melhores de ser compartilhados com o ímpeto de quem os gerou. Por pouco a distração do funcionário para seus afazeres o alertou para agachar-se e dar uma rápida olhada na segunda sentença que desfasava-se entre os musgos de umidade do rodapé da porta. ‘Caixa de pandora, registro corporativo; 1353’. Leu. Retornou para a poltrona do canto de espera, e mesmo percebendo que o funcionário percebeu seu surto pelos dizeres da porta, não interrompia a mecânica do folhear de documentos. Ele seria o último. E antes mesmo do funcionário terminar de preencher o formulário da carteira de impressão, estava ele mendigado com dissimulação das expressões melancólicas o desejo mudo de ver o que existia na Caixa de pandora, registro corporativo; 1353.
      
       O prazer docente é satisfazer os princípios da onipresença; ter as respostas, sentir as suplicas nos olhos famintos de quem as deseja. O funcionaria percebe o quanto ele estava faminto para saber o que havia por trás da porta da sala 202. O funcionário mostra as chaves e diz que irá revelar o que havia na Caixa de pandora, registro corporativo; 1353 ao terminar o expediente. Segundos após ter carimbado a última página da carteira matriz, o funcionaria o conduzia a sala 202 para que pudesse lhe mostras seu conteúdo: prateleiras repletas de chaves, poucas caixas de documentos, que era o que deveria ser esperado, tudo era odor de cobre sulfetado. Milhares de chaves penduradas e juntadas umas nas outras. A chave da sala 204; onde eram condicionados os registros de conduta afetiva. A sala 205 era reservada aos catálogos de elogios, enumerados e maior ou menor teor de efeito inativo, sendo subdivididos em cores para cada nível de eficiência. A sala 206; destinada a acolher os manuais retóricos, os pequenos opúsculos contendo explicações básicas para ajuste de tonalidade de voz, expressões faciais e um seleção de posturas que poderiam facilitar no desenvolvimento na arte do bom falar. A sala 207; normas de conduta, breve curso para os dogmas do bem vestir, regras e leis de deverias ser seguidas desde seus princípios, a linguagem subjacente da moda regida. A sala 208; também acunhada pelos funcionários de ‘recando da endorfina’, com a função de orientar sobre os neurotransmissores do prazer, relatar sobre as pesquisas mais recentes de como os fatores retóricos produzem boas sensações. A sala 209; também conhecia com ‘a máquina do tempo passado’ fichamento de todos os casos em que a aplicação do pedido de desculpas resultou no processo de figuração e ficcional gerou a ausência de culpa, tem com objetivo mostra a herança deixada pelos romancistas, onde os conceitos de literalidade são analisados e importados para todas as outras salas.
       
      O funcionário escuta a rotina do segurança, o bater de portas e o recolhimento as excedentes do dia. Estava no horário de todos saírem do prédio. Pediu para saírem juntos pois aquela sala, onde eram guardada as chaves das outras salas, tinha seu acesso restringidos pelas normas do departamento. Caixa de pandora, registro corporativo; 1353 foi aberta a um estranho curiosos, que desvendava, em parte, os planos sorrateiros do edifício de registro cívico. Sobrevoou como condor as perspectiva dos dirigentes públicos. Sim foi encantado, não era mais um abutre a migalhar pelo preenchimento da carteira de impressão. Sim entendeu o aforisma da porta da sala 202; ‘Tolos são encantados pela cortesia’.


                                                         
                                                               Por Edson Moura, em 25/01/2014 

   
                                                                                       

Um comentário:

  1. A rara cortesia um dia será validada pelos corredores públicos e privados também? nem a rara é valorada num mundo onde, já hoje prevalecem os ascos.

    Jorge

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