quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ponto D’interrogação





Por que Sócrates perguntava. Por que caminhava através dos jardins de Atenas perguntando sobre si e transitavam as mesmas perguntas aos seus discípulos abstrusos o por que de tantas perguntas sobre si. Por que acordou um dia a disciplinar-se na disciplina da pergunta. Por que não havia este nascido com o dom das respostas.  Por que Zeus ou Atenas nunca lhe deram a substância-resposta. Quais ditirambos ouvir para silenciar suas perguntas. Qual fruto Ulisses degustou, a desafiar Poseidon e seus congênitos. Por que e o quando a semente de novos deuses criam seus brotos com ervas daninha. Por que desacreditamos em nós e esperamos o próximo dilúvio chorar suas torrentes divinas em nosso certíssimo. Por que sentimos medo de mentir, e tênue instante, mentimos para camuflar nossa falsa coragem. Por que aqueles que roteirizam a maneira como devemos nos comportar é, de fato, o grande antagonista das próprias diretrizes que impõe.  Por que as divindades subjetivas não postularam a existência do macrocosmo. Por que a pedagogia da história é aplicada aos moldes ascendentes, quando seu oposto nos mostra seu entendimento mecânico.  Por que aqueles que exigem pontualidade são os mesmo pontuais. Quais são as virtudes que não são virtuosas. Quantos e quais sentimentos deixaram de serem conceitos. Por que aquele que conforma seu semelhante na cruz como uma dádiva divina, nunca é visto carregando a sua própria. Por que discernimos Ser e o Tempo como arquitetos da modernidade e não somos nem Ser e nem Tempo. Por que exigimos valores que não temos. Por que não atribuímos aos poetas uma fração de crédito pelo desbravo do inconsciente. Por que subvertemos a desventura. Por que exigimos coerência, quando conceituamos que o caos é o princípio de toda ordem. Por que a filosofia pergunta. Por que as perguntas traem nossa falsa certeza das certezas. Por que deixamos de criar nossas próprias aspas. Por que nos confortamos com vírgulas. Por que a função do líder é retalhar uma verdade em subverdades difusas. Por que subsistência é a moda dos consumistas. Por que não usar black-tie define. Por que acreditasse que Sócrates nunca existiu. Por que não cultuamos o absurdo. Por que o absurdo é cultuado. Por que a imaginação pergunta e a religião restringe. Por que o pastor proibiu a pergunta. Por que deixamos de caminhar através do jardim a transitar perguntas entre o silêncio. Por que temos presa para crescer. Por que a republica dos filósofos é irrealizável. Por que o filo não é pop. Por que pop se torna filo. Por que somos naturalmente incompletos. Por alguma palavra apodrecem em verdades dogmáticas. Por que nascemos. Por que crescemos. Por que morremos. Por que transformaram a pergunta em meras disciplinas. Por que o empirismo da sombra e da caverna foi esquecido. Por que o desespero de ser pontuado. Por que a obsessão deve ser pontuada. Por que a desordem deve ser pontuada. Por que a pergunta deve ser pontuada. Por que matamos a pergunta. Por que o como, o quando, o onde, o qual devem ser pontuado. Por que os pontos pausam. Por que os pontos findam.  Por que os pontos exclamam. Por que deixou-se de usar o ponto D’interrogação.   


                                                                       Por Edson Moura, em 15/01/2014                        

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