segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Estado deserto

   
       
*(W. Kandinsky)* 
 O estado deserto o seduzia, e sobre ele somente três segundos para cada instante. Se estivesse construindo uma história, a sua própria, quem sabe, estaria virando suas páginas sem as ler, sem prestar sentido aos significados imediatamente compreendidos. O estado deserto jamais lhe cobrava impostos, dividendos, quitação de promessas ou pormenores menos ou mais convenientes. Era assim que nomeava seus momentos na orla. Despreocupado desde o dia de sua grande descoberta, numa manhã vazia, de poucos pensamentos coléricos, de poucas dívidas cobradas, de pouco passado, de futuro calado, sim, o estado deserto o seduzia. O oceano era desluzido, deveria ser sem brilho, como uma lâmpada velha a emitir luz fosca. Manhã de sol escondido, manhã de nuvens negras de tempestade que sorrateira ameaçava os espectadores das areis da orla que amontoavam feito feras confusas, buscando seu lugar ao sol das ansiedades, deixando-se morrer a cada momentos que não percebem que o sol não era tão belo como acreditavam ser. A assim sendo, como deveria ser feito. Via a lírica do céu apodrecendo enquanto a multidão que disputava um pequeno metro quadrado nas areias fotografavam as gaivotas com os bicos empapados com as entranhas de uma baleia encalhada desde o nascer da manhã.
        Comprimia mais um punhado de fumo no cachimbo entes mesmos do restante se transformar em resíduos de brasa, antes que qualquer súbito de notícia, qualquer acontecimento rasteiro, de ímpeto frívolo ou alarmante vinda do pequeno que rádio dependurado a sorte despreocupada, não há não o colocaria nas paginas dos significados imediatamente compreendidos, era certo pensar que quanto mais caminhava entre os significados, mais se distanciava dos sentidos, como perdido num labirinto de paredes de gritos surdos, com olhos atentos, mas tateando com uma bengala cega. Todos tem um diagnostico para algum sentido, todos sentidos são diagnosticados sem qualquer. Nunca procurou sentido no sabor amargo da fumaça úmida do fumo que aspirava, brincava em seus pulmões, e expelia baforadas aliviando-se com a neurotoxina recreativa. Caminhar entre seus instantes entes, com passos inertes, ignorando que existia para outros, tudo que os estado deserto era, essa amontoado de razões desvairadas, enfermas-aleatórias. Não sentia-se existindo quando estava pensando. Os sonhos não tecem sentido. Esse ensaio de incoerências que sãos as tentativas de tecer um signo para tudo que é desvendado.

      Os ventos que sopravam na orla crivavam os sinais da transmissão, o som raspado ruía com a mudança de intensidade. A orla continuaria existindo mesmo sem os sinais de notícias. Não ouviria o quem deveria ouvir, os bons conselheiros transversais, os messias modernos mergulhados em sua própria graça. E o corpo da baleia encalhada, que continuava a apodrecer, e a multidão que declaravam o monopólio das areias. O sol só luzia, sem exalar calor. E o estado deserto que sempre o seduzia, e sobre ele somente aqueles três segundos para cada instante, diluía a cada instante. Construía uma história, a sua própria, como em si sempre construiu, quem sabe suas páginas foram virados, sem prestar sentido aos significados imediatamente compreendidos. O estado deserto jamais lhe cobrava impostos, dividendos, quitação de promessas ou pormenores menos ou mais convenientes. Era assim que nomeava seus momentos na orla. Sim estava certo. Ele sentia-se existindo.  


                                                                     
                                                                                    Por Edson Moura, em 20/01/2014          

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