domingo, 19 de janeiro de 2014

Escotilha


           
            
W. Kandisnsky
Acordou lembrando, ser surdo para o mundo não o imunizava do tumulto de olhar para as vísceras apodrecendo dentro de si. Sim, ele continuaria a lembras sempre que o cansaço o norteasse ate cair em profundo sono, e sempre que acordasse.
          Seu dever seria caminhar atrás dos três quarteirões até o centro tipográfico. Escolheu o dia com menor movimentação nas ruas. Não lhe interessava a pouca quantidade, menos pessoas significarias que voltaria mais cedo ao escritório onde, sabidamente, não era bem vindo, ou simplesmente não haveria conveniências que lhe prendesse ao seu birô de fórmica prensada de camadas destacadas nas bordas. Como que devidamente-propositadamente cuidaram para que fosse seu respalde de cotovelos enquanto não viesse sua carta de demissão. Caminha sobre seus passos em velocidade variada mesmo se dando por notar que não era ele quem movimentava sua coordenação motora, pesava consigo, se assim o era, comumente, seus pessoas não estariam percorrendo becos com aglomerados de agencias bancaria e barracas de camelôs vendendo espetos de carnes de gado de terceira. O odor na gordura faziam os líquidos gástricos escorrerem em afluxo o sabor do pão com café que comeu as pressas antes de vir ao trabalho. Escutava um sujeito de camiseta com as costelas esmeado de tão magro gritar que havia sido roubado há pouco instantes e que alguém deveria fazer a respeito, mas era ignorado do por todos por desventura incógnita, “não fez o sinal da cruz antes de sair de casa!” vendedor de espetinho grita. Pensava: uma das utilidades que um curso de filosofia me deu foram os estudos dos deuses metafísicos e como estes, supostamente, podem agir no transladar das artérias de uma rua de agencias bancárias.
           Na lista oficial dos estrangeiros urbanos estava o colombiano que vendia chocolate nas esquinas entre o beco das agências bancárias e a ruas de calçadas largas tinha mais dedicação às práticas austeras para lidar com uma torrente de expressões ranzinzas, mas ao vê-lo assovia uma canção de Wagner descobriu que notas podem ser um imperativo para silenciar as têmperas habituais. Não. Esse episódio não perdurou por alguns segundos, mas por um sétimo de dia que o escriturário tirou para bolar o trabalho e consumir tempo para rende-lhe uma fração de vida do dia que lhe restava, dando ao trabalho de percorrer seu inconsciente para doma-lo, sabendo que seu dever na tipografia foi concebido em sua alma esquerda e os movimentos da rua que o encantava concebido, por retórica corrompida, na sua alma direita. A boca seca atormentada pelo regime do sol, sempre este sol quente e vomitoso.
           Ladeava com a línguas os gosto verde da bile que continuamente gosmava em seu paladar. O gosto lembra, o gosto recorda do acidente que presenciou ao operário que da marquise, uma pancada lhe tirou o sento do gosto, os sabores mesmos, fugiram de sua boca, uma lesão no cérebro. Dádiva da ignorância é o não-pensar, sentir por dias com pensava o individuo que não sentia mais sabores, nem a valsa doce, nem a acidez azeda, nem o seco salgado. Em um momento que a gestualidade das palavras corria ou auxílio de cego do paladar.
           O barulho encandecido das ruas encouraçava as palavras. Não podia gerar conceitos, ou contra-conceitos, afinal não estava ali pra desconcertar o ato de um mendigo que mijava sorridente ao entoar melodias de Bach com o diafragma a garganta levemente contraído. Ele mesmo, em dado momento, desejou sair e urinar na causada de algum supervisor de trabalho, mesmo que estivesse a beira de uma suposta demissão. As criaturas desse mundo transitam mais por entre as resignações e a subjetivação do próprio substantivo, e com isso decretam a construção de uma câmera mortuária escarnicada para objetivação dos próprios adjetivos. Mas o mendigo que mijava entoando músicas de Bach estava sorridente porque não contemplava nenhuma destas posturas, não era resignação ou subjetivação/objetivação, ele era estado evacuativo. Evasão surda para o caos que fluía em suas costas, estando de costas para qualquer hemisfério. O escriturário imaginava o que seria do mendigo que urinava aos entoar a música Bach se, repentinamente, perdesse a audição. Se possuir meia idade já viveu o suficiente para memorizar um repertorio extenso; ou pelo jeito com que ignorava do desmundo a sua volta a teria perdido a tempos. O secreto ouro do mendigo na companhia de Bach era conquistar a adoecer com surdes para o mundo. Mas a covardia lhe revirava o fígado, não teria coragem do enfiar uma agulha nos tímpanos só para agradar a partícula do ego que estava afadigada de ouvir os queixumes de seus companheiros de trabalho. “Ele viveu sua meio idade de descobriu que não decorou suas músicas prediletas, como o mendigo o fez”, diria para si como justa conveniência para sua covardia. Sim. Nos dias que seguiriam após aquele encontro iria escolher outro caminho, mataria uma verdade recém descoberta sobre a surdez dos habitantes do beco das agencias bancárias. Enxergavam que as linhas finais das equações dos pormenores de uma quase verdade era uma erudição maliciosa e fatalista.
             Era bem certo que não deixaria de perambular atrás dos becos das agencias bancária enquanto o instituto de transporte não reconstruísse o anel viário que há anos estava desativado por descaso administrativo, esta linha corria través do caminho para tipografia, não deixava de imaginar um agrupamento de operários trabalhando na reconstrução, mas não deixava de desejar que isso não acontecesse. Seu único prazer em dias úteis era os instantes que pensava subjetivamente, quando eliminava a submissão das concretudes. Esse vício subjugador dos mandos e desmandos que em nada diferia os regimes austeros que retomava ao regime de servidão. Poderia inventar uma lenda onde um vírus vampírico sugava-lhe as recordações da época em que não havia compromissos com a concretude da servidão remunerada.
           Onde estava o cheiro do café com canelone que o desfazia dos ruídos ensurdecedores da movimentação do dia. Ainda desgostava a bile com sabor do pão ingerido pela manha e que agora apodrecia dentro das entranhas, pois era assim que via tudo que era ingerido. Ele, quem recebeu a tarefa de ir à tipografia, imaginava o restante de sua espécie com comedores compulsivos dos dejetos processados. Sim, podia sentir sufocado com o que comia, a bile ejaculava de seu tubo digestivo, arranhando sua garganta e o fazia encolher-se dentro do constrangimento de um dissimulado mau hálito. Nunca reclamou com o confeiteiro que preparava e lhe servia o canelone com café, mas enfurecia-se em silêncio com a perda repentina do desejo de saborear a refeição que ai evaporava pelo calor do forno. “As golfadas o atavam sempre que sentava para saborear alguma refeição de bom agrado”, pensava. “Será que é o psicológico”, pensou mais uma vez. Mas educou no habito de sempre com introvertido e dissimulado sorriso de satisfação, ou, fluir um sorriso mentir caloroso era sua forma de não agredir a inocência do confeiteiro. O cinismo é uma contenda silenciosa, negava a gentileza dos bons prezares da educação, quando um súbito sopro escarnecido lhe raspava a boca do abdômen fazendo sacar uma pistola que empunhava apenas em um instante imaginativo. O confeiteiro era inocente, mas estava servindo-o no dado momento da explosão de furor. Não era a primeira vez que acontecia o ataque repentino fúria. Havia percebido essas enfermidades que lhe consumia e a literatura pisco-médica iria desvendar como caso de homicídio cógnito de inocentes. E se perguntava “por que os surtos-frenético de violência só afetava quando sentia o gosto da bile afetava seu paladar, e por que o remédio de escape desses surtos era o ‘se perguntar’”. Antes de pagar a conta rabiscou num pedaço de guardanapo a frase “peço perdão por ter-lhe sentenciado a morte por sua inocência ao saborear o deleitoso canelone com café que você me serviu, grato”.
         Saiu da confeitaria desejando recuperar o guardanapo que milésimos de segundo antes deixou com o confeiteiro, o ato de nobreza do retraimento da própria culpa plantou uma sorrateira e venosa rejeição moral; o confeiteiro não era psicanalista, poderia interpretar aquele bilhete como uma conduta anárquica de um desequilibrado com boa educação formal; enfrentaria o tedioso comichão de se arrepender do arrependimento, e isso faria golfar a bile novamente e Hipócrates sorriria ao ver que a sabor das quatro cores da bile se distinguia pelos efeitos humorístico da espécie alvo de seu estudos. Consegue chegar a porta da tipografia com as roupa e sapatos encharcados de suor. Sentou na saleta de espera após ter entregue o recibo da encomenda dez mil cartões de visita. Antes mesmo que pudesse cair desmaiado pela azia e enjoo provocados pelos vômitos e golfadas que experimentou durante metade do dia, pediu para o segurança trazer um efervescente estomacal. Entendia do os sintomas se tornavam cada vez mais intensos e cada vez menos controláveis. Nem toda música de Wagner ou Bach que podia lembre parecia aliviar o distúrbio gástrico que atacava-lhe nos momentos do empacotamento dos cartões. Iram diagnosticar o problema com o os líquidos biliares como dissimulação de uma doença conveniente da preguiça e não como um prognostico dos efeitos humorístico de Hipócrates. Faria o pacto de gestos benevolente em médio prazo como meio de troca para uma cura; “esse pedido acovardado por salvação, a clemência dos pretensiosos”, alertava para si.

           Abriu os embrulhos onde continha os cartões, recebeu do chefe uma chave no um cartão alçado a um cartão com os dizeres: “Esta chave é para uso exclusivo dos funcionários demitidos por ‘Sufocamento de Hipócrates’”. Principais sintomas: racionalismo gástrico, lucidez olfáctica, humores auditivos. Ao final do corredor 17 verá uma escotilha que o conduzirá para fora do edifício. Sim. Era uma escotilha, e estava aberta.         


                                                                            Por Edson Moura, em 19/01/2014      

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