domingo, 26 de janeiro de 2014

Carcaça de colibri


  Chovia quando as mariposas despedaçadas se acolhiam debaixo dos telhados das casas dormentes, uma carcaça de colibri, que tentava se proteger do frio confuso, apodrecia em meio à umidade da noite. As águas que escorriam através das calhas arrastavam para a pequena viela feita de pedras e barro os odores nauseantes dos dias não chuvosos que haviam sidos depositados em todas as superfícies à volta.  Mariposas se alimentavam dos pequenos ramos que cresciam dos húmus que escorriam do colibri sem saber que seus alvores não durariam mais que dois dias. Chovia quando dois homens corriam, alastrando no chão barrento suas pegadas afoitas até se perderem em suas matérias negras como criaturas que esquecem a própria alma ou como criaturas que esquecem a própria ou os dos pesadelos que tenham criados para eles. Antes mesmo que alguém desse pela presença daquele que fugiam, já se podiam ouvir as lamentações de uma mulher que todos chamavam por Alméria: ‘Pequena sumiu! Alguém levou Pequena!’ O fato de mais uma criança desaparecer em meio à noite já não despertava maiores espantas nos moradores de Amparos, ainda visto que o mesmo seria sentido pela mulher em violentos espasmos de choros, que lhe doíam ao mesmo solavanco de punhais nas próprias veios de carne. Entre os exílios; a morte estaria junto de qualquer recalque trágico para Pequena, desfecho que cai sobre os martírios da dúvida: uma viva criatura desaparecido. Acolhida nas entranhas de trevas que em mais ou menos tempo iria decompor-se no esquecimento, visto que até aqueles dias não encontraram o menor vestígio das outras.

Noites em Amparos tudo parecia decompor a cada chuva, a cada criatura que desaparecia. Aquilo que vem depois seriam os meros arranjos da mesma existência, de uma mesma estação, densamente chuvosa, consumadamente fria. Caiam e se renovavam a cada grito dentro naquele breu. Perguntam por que todos ainda residiam aí, mas era certo que os desaparecidos ainda não foram encontrados. Podiam imaginar como os corpos dos muitos Pequenos poderiam ser encontrados; em que estado de morte, em quem estado de vida. Sabiam quem se o primeiro fosse encontrado, em pouco tempo os outros também poderiam ser rastreados. E assim sendo, noites e lamentos caiam e desconcertava aquela confusa atmosfera, tão impertinente e imperfeita que se confundia com um mau sonho, afinal, todos em Amparos já sonharam com uma chuva de trevas como a que caiu nesta noite. Todos.

O delito em vista ainda consumiria a tranquilidade de Alméria por longas horas adentro. Esta pranteava compulsiva e em soluços loucos pedia em silêncio para que alguém tocasse-a, mesmo sendo este alguém, algum crédulo desvairado em derivas.  Com ou sem vida, para onde teriam levado o corpo dela? É resumido que em noites anteriores, ressaltando meses e anos, muitas mulheres de Amparos se destinaram ao desconhecido, fácil de se pensar que os segundos são diferentes um do outro, e que algum conjure nos fazem acreditar que são todos iguais. Ninguém poderia prever a ordem dos raptos, os dias que estes iriam ocorrer, e nem tão pouco o momento. Por intermédio de mão alheias, colocava seu nome na tabuleta de desaparecidos: “Pequena”, somente, pois assim o era, pequena, e assim a chamavam.

Não há delito sem suspeito e nem tão pouco suspeitados. Não existia a astúcia de um agente investigativo em Almária, mas, seja por ímpeto de suas cóleras ou pelo simples encaixar de evidencias e suspeitas lembrou do que fazia sempre: lembrou de suas casa como estalagem, que aquele era o meio como se mantinha: “não deveria ter ofertado sua casa para aqueles estranhos”, deveria está pensando com o mais profundo arrependimento, mas aceitar peregrinos do Centro nunca acarretou problemas. Tinha essa pista confusa. Não guardava anotações: nem nomes e datas. Recebia o dinheiro, entregava a chave do quarto, limpava e lavava os resíduos da alcova no dia seguinte. Raiva. E os verbos de injuria a castigar os ventos. Como poderia permitir que o sono lhe fizesse perder a Pequena. Não seria sua idade a absorvê-la da conformação; de concede-lhe horas de injúria ao vazio naquela noite. Próxima dela, mas não próxima de suas agonias. A chuva continuava açoitando os telhados das casas, naqueles estalos contínuos que se ampliavam aos instantes que em que Alméria tentava lembrar dos rostos do últimos hospedes que se estalaram em suas casa. Lembrou que foi paga com uma nota de cinquenta, mas de imediato não saberia como aquela nota poderia ajuda-la. Ao certo não saberia como ajudar a si. Poderia facilmente depositar confiança em qualquer pessoa que estivesse a sua frente. Os mais distantes agora compartilhavam de sua agonia sem que antes tivessem qualquer aproximação. Isso acontecia sempre. Se tinham como estranhos durante os júbilos, mas se comungavam quando aconteciam os raptos. Haveriam de se destruírem a cada lastima de seus vizinhos.

             
                A saleta estava cheia com pessoas em todos os cantos, imponentes, e era certo que não sabiam por que ali estava. Um homem se aproxima e observa em seu silêncio, como tem de ser os observadores. É propicio que os cálculos de algumas razões quase sempre são cógnitos de terceiros. Lucidez se compõem com palavras não ditas, palavra não gritadas, palavras não ruidosas, e se a ruídos de dores nos verbos, haverão de continuarem ruidosas. Alméria tinha um nome, mas os ruídos de seus verbos apodreceriam durante a noite, junta a carcaça do colibri. O homem que se aproxima a ser o observador enquanto a carcaça do colibri apodrecia em meio à chuva que caia. 



                                          Por Edson Moura, em 26/01/2014 

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