quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Submergidos

          Repetia o mesmo alerta por varias vezes, é melhor não se aproximarem, os galões estão espalhando por todos os lados, derramando aquele solvente escuro que está corroendo a vida do solo. E o alerta seria um retumbe para mais um chamariz do espetáculo sulfúrico do liquido negro que corroía as ervas fuçadoras que atracavam no solo, atrapalhando a crescimento dos sereis de fava. Essa é a melhor maneira de eliminar das erva intrusas, afirmava um dos operadores ao contingente de coletores, plausíveis aos vapores que condensavam uma refração prismática vista a dezenas de hectares de distância. Estáticos, os coletores aguardavam o assentamento da densa nuvem de gases que coagulava no pequeno leito de ervas roxo.
      
         
   O odor viscoso impregnava sobre a pele dos rostos, escorriam lagrimas sujas que rasuravam a visão do final do dia. O supervisor ordenava que todos se aprontassem para arar os campos, recolher os ramos das ervas, deverias ser rápidos, um aroma doce residual da solução entre o solvente negro e as ervas fuçadoras atrairiam os carcarás do final de tarde, e esses, tão acostumados a se alimentarem dos cadáveres, da carne podre, do sangue em estado coalho pelo efeito coagulo, sobrevoavam por instinto o solo ainda vaporoso, farejando o odor de carne podre de corpos invisíveis. O espetáculo do final de tarde era os carcarás surdos dos faros, perdidos em seus instintos básicos, não distinguiam, não rastreavam nem o solvente negro, nem a necrose. Aproximasse o supervisor do turno, com tom aborrecido, gritava para que os trabalhos não fossem interrompidos, deveriam limpar os resíduos de ervas antes de findar o turno; regra da empresa, os coletores diurnos receberiam o solo limpo das ervas, livre da languidez deixada pelo solvente negro, livre dos detritos de ervas intrusas, livre da intromissão dos carcarás cegos do olfato.
        
      O turno diurno não verá. Vista clara, temperatura de cor para os sem tatos, pois suas peles se acostumaram com cores frias. Esquecer é não sentir, mais, as cores quentes. Era a ordem que orientava a supervisão dos coletores. Incógnitos, os coletores só teriam que obedecer. Sem perguntas. Imperava o supervisor ao guia-los até as vielas que ladeavam os campos de ervas intrusas. O suor escorria à medida que as linhas de coletores era organizadas. Sem perguntas. Imperava mais uma vez o supervisor enquanto aravam os resíduos da pequena fração do campo. Os vapores do solvente negro ainda condensavam na terra, respiravam a necrose, respiravam o suor do dia, respiravam as palavras do supervisor, respiravam as normas, respiravam cuidados, respiravam o fluido, o bojo do solvente negro, as narinas contraídas com sabor férreo que escorria nas laterais da boca. Olhos ardiam, e lágrimas escorriam, untando com a sujeira da pele. Não. Aqueles coletores não eram covardes. Mesmo que os vapores do solvente continuasse a condensar em seu corpos, em seus uniformes de brim azulado, os trabalhos continuariam pela madrugada, submergidos nos deveres. O turno diurno chegaria aos primeiros raios. Sem perceberem. Estavam submergidos. 


    

                                                                Por Edson Moura, em 29/01/2014

domingo, 26 de janeiro de 2014

Carcaça de colibri


  Chovia quando as mariposas despedaçadas se acolhiam debaixo dos telhados das casas dormentes, uma carcaça de colibri, que tentava se proteger do frio confuso, apodrecia em meio à umidade da noite. As águas que escorriam através das calhas arrastavam para a pequena viela feita de pedras e barro os odores nauseantes dos dias não chuvosos que haviam sidos depositados em todas as superfícies à volta.  Mariposas se alimentavam dos pequenos ramos que cresciam dos húmus que escorriam do colibri sem saber que seus alvores não durariam mais que dois dias. Chovia quando dois homens corriam, alastrando no chão barrento suas pegadas afoitas até se perderem em suas matérias negras como criaturas que esquecem a própria alma ou como criaturas que esquecem a própria ou os dos pesadelos que tenham criados para eles. Antes mesmo que alguém desse pela presença daquele que fugiam, já se podiam ouvir as lamentações de uma mulher que todos chamavam por Alméria: ‘Pequena sumiu! Alguém levou Pequena!’ O fato de mais uma criança desaparecer em meio à noite já não despertava maiores espantas nos moradores de Amparos, ainda visto que o mesmo seria sentido pela mulher em violentos espasmos de choros, que lhe doíam ao mesmo solavanco de punhais nas próprias veios de carne. Entre os exílios; a morte estaria junto de qualquer recalque trágico para Pequena, desfecho que cai sobre os martírios da dúvida: uma viva criatura desaparecido. Acolhida nas entranhas de trevas que em mais ou menos tempo iria decompor-se no esquecimento, visto que até aqueles dias não encontraram o menor vestígio das outras.

Noites em Amparos tudo parecia decompor a cada chuva, a cada criatura que desaparecia. Aquilo que vem depois seriam os meros arranjos da mesma existência, de uma mesma estação, densamente chuvosa, consumadamente fria. Caiam e se renovavam a cada grito dentro naquele breu. Perguntam por que todos ainda residiam aí, mas era certo que os desaparecidos ainda não foram encontrados. Podiam imaginar como os corpos dos muitos Pequenos poderiam ser encontrados; em que estado de morte, em quem estado de vida. Sabiam quem se o primeiro fosse encontrado, em pouco tempo os outros também poderiam ser rastreados. E assim sendo, noites e lamentos caiam e desconcertava aquela confusa atmosfera, tão impertinente e imperfeita que se confundia com um mau sonho, afinal, todos em Amparos já sonharam com uma chuva de trevas como a que caiu nesta noite. Todos.

O delito em vista ainda consumiria a tranquilidade de Alméria por longas horas adentro. Esta pranteava compulsiva e em soluços loucos pedia em silêncio para que alguém tocasse-a, mesmo sendo este alguém, algum crédulo desvairado em derivas.  Com ou sem vida, para onde teriam levado o corpo dela? É resumido que em noites anteriores, ressaltando meses e anos, muitas mulheres de Amparos se destinaram ao desconhecido, fácil de se pensar que os segundos são diferentes um do outro, e que algum conjure nos fazem acreditar que são todos iguais. Ninguém poderia prever a ordem dos raptos, os dias que estes iriam ocorrer, e nem tão pouco o momento. Por intermédio de mão alheias, colocava seu nome na tabuleta de desaparecidos: “Pequena”, somente, pois assim o era, pequena, e assim a chamavam.

Não há delito sem suspeito e nem tão pouco suspeitados. Não existia a astúcia de um agente investigativo em Almária, mas, seja por ímpeto de suas cóleras ou pelo simples encaixar de evidencias e suspeitas lembrou do que fazia sempre: lembrou de suas casa como estalagem, que aquele era o meio como se mantinha: “não deveria ter ofertado sua casa para aqueles estranhos”, deveria está pensando com o mais profundo arrependimento, mas aceitar peregrinos do Centro nunca acarretou problemas. Tinha essa pista confusa. Não guardava anotações: nem nomes e datas. Recebia o dinheiro, entregava a chave do quarto, limpava e lavava os resíduos da alcova no dia seguinte. Raiva. E os verbos de injuria a castigar os ventos. Como poderia permitir que o sono lhe fizesse perder a Pequena. Não seria sua idade a absorvê-la da conformação; de concede-lhe horas de injúria ao vazio naquela noite. Próxima dela, mas não próxima de suas agonias. A chuva continuava açoitando os telhados das casas, naqueles estalos contínuos que se ampliavam aos instantes que em que Alméria tentava lembrar dos rostos do últimos hospedes que se estalaram em suas casa. Lembrou que foi paga com uma nota de cinquenta, mas de imediato não saberia como aquela nota poderia ajuda-la. Ao certo não saberia como ajudar a si. Poderia facilmente depositar confiança em qualquer pessoa que estivesse a sua frente. Os mais distantes agora compartilhavam de sua agonia sem que antes tivessem qualquer aproximação. Isso acontecia sempre. Se tinham como estranhos durante os júbilos, mas se comungavam quando aconteciam os raptos. Haveriam de se destruírem a cada lastima de seus vizinhos.

             
                A saleta estava cheia com pessoas em todos os cantos, imponentes, e era certo que não sabiam por que ali estava. Um homem se aproxima e observa em seu silêncio, como tem de ser os observadores. É propicio que os cálculos de algumas razões quase sempre são cógnitos de terceiros. Lucidez se compõem com palavras não ditas, palavra não gritadas, palavras não ruidosas, e se a ruídos de dores nos verbos, haverão de continuarem ruidosas. Alméria tinha um nome, mas os ruídos de seus verbos apodreceriam durante a noite, junta a carcaça do colibri. O homem que se aproxima a ser o observador enquanto a carcaça do colibri apodrecia em meio à chuva que caia. 



                                          Por Edson Moura, em 26/01/2014 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sala 202



       
‘Tolos são encantados pela cortesia’. Dizia o anúncio em letras minúsculas, impresso em formato time e colocado na porta da pequena sala 202 ao lado da sala 201, onde deverias entrar para preencher o formulário da carteira de impressão. Logo abaixo, em letras desfocadas, formato incógnito e tamanho macro, outro aforisma desejava ser lido, mas este iria esperar até a discrição do funcionário que atestaria a veracidade das fotocópias exigidas, visto que a cumplicidade do entendimento dos disseres na porta despertava plural curiosidade, sendo que determinados enigmas são melhores de ser compartilhados com o ímpeto de quem os gerou. Por pouco a distração do funcionário para seus afazeres o alertou para agachar-se e dar uma rápida olhada na segunda sentença que desfasava-se entre os musgos de umidade do rodapé da porta. ‘Caixa de pandora, registro corporativo; 1353’. Leu. Retornou para a poltrona do canto de espera, e mesmo percebendo que o funcionário percebeu seu surto pelos dizeres da porta, não interrompia a mecânica do folhear de documentos. Ele seria o último. E antes mesmo do funcionário terminar de preencher o formulário da carteira de impressão, estava ele mendigado com dissimulação das expressões melancólicas o desejo mudo de ver o que existia na Caixa de pandora, registro corporativo; 1353.
      
       O prazer docente é satisfazer os princípios da onipresença; ter as respostas, sentir as suplicas nos olhos famintos de quem as deseja. O funcionaria percebe o quanto ele estava faminto para saber o que havia por trás da porta da sala 202. O funcionário mostra as chaves e diz que irá revelar o que havia na Caixa de pandora, registro corporativo; 1353 ao terminar o expediente. Segundos após ter carimbado a última página da carteira matriz, o funcionaria o conduzia a sala 202 para que pudesse lhe mostras seu conteúdo: prateleiras repletas de chaves, poucas caixas de documentos, que era o que deveria ser esperado, tudo era odor de cobre sulfetado. Milhares de chaves penduradas e juntadas umas nas outras. A chave da sala 204; onde eram condicionados os registros de conduta afetiva. A sala 205 era reservada aos catálogos de elogios, enumerados e maior ou menor teor de efeito inativo, sendo subdivididos em cores para cada nível de eficiência. A sala 206; destinada a acolher os manuais retóricos, os pequenos opúsculos contendo explicações básicas para ajuste de tonalidade de voz, expressões faciais e um seleção de posturas que poderiam facilitar no desenvolvimento na arte do bom falar. A sala 207; normas de conduta, breve curso para os dogmas do bem vestir, regras e leis de deverias ser seguidas desde seus princípios, a linguagem subjacente da moda regida. A sala 208; também acunhada pelos funcionários de ‘recando da endorfina’, com a função de orientar sobre os neurotransmissores do prazer, relatar sobre as pesquisas mais recentes de como os fatores retóricos produzem boas sensações. A sala 209; também conhecia com ‘a máquina do tempo passado’ fichamento de todos os casos em que a aplicação do pedido de desculpas resultou no processo de figuração e ficcional gerou a ausência de culpa, tem com objetivo mostra a herança deixada pelos romancistas, onde os conceitos de literalidade são analisados e importados para todas as outras salas.
       
      O funcionário escuta a rotina do segurança, o bater de portas e o recolhimento as excedentes do dia. Estava no horário de todos saírem do prédio. Pediu para saírem juntos pois aquela sala, onde eram guardada as chaves das outras salas, tinha seu acesso restringidos pelas normas do departamento. Caixa de pandora, registro corporativo; 1353 foi aberta a um estranho curiosos, que desvendava, em parte, os planos sorrateiros do edifício de registro cívico. Sobrevoou como condor as perspectiva dos dirigentes públicos. Sim foi encantado, não era mais um abutre a migalhar pelo preenchimento da carteira de impressão. Sim entendeu o aforisma da porta da sala 202; ‘Tolos são encantados pela cortesia’.


                                                         
                                                               Por Edson Moura, em 25/01/2014 

   
                                                                                       

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Estado deserto

   
       
*(W. Kandinsky)* 
 O estado deserto o seduzia, e sobre ele somente três segundos para cada instante. Se estivesse construindo uma história, a sua própria, quem sabe, estaria virando suas páginas sem as ler, sem prestar sentido aos significados imediatamente compreendidos. O estado deserto jamais lhe cobrava impostos, dividendos, quitação de promessas ou pormenores menos ou mais convenientes. Era assim que nomeava seus momentos na orla. Despreocupado desde o dia de sua grande descoberta, numa manhã vazia, de poucos pensamentos coléricos, de poucas dívidas cobradas, de pouco passado, de futuro calado, sim, o estado deserto o seduzia. O oceano era desluzido, deveria ser sem brilho, como uma lâmpada velha a emitir luz fosca. Manhã de sol escondido, manhã de nuvens negras de tempestade que sorrateira ameaçava os espectadores das areis da orla que amontoavam feito feras confusas, buscando seu lugar ao sol das ansiedades, deixando-se morrer a cada momentos que não percebem que o sol não era tão belo como acreditavam ser. A assim sendo, como deveria ser feito. Via a lírica do céu apodrecendo enquanto a multidão que disputava um pequeno metro quadrado nas areias fotografavam as gaivotas com os bicos empapados com as entranhas de uma baleia encalhada desde o nascer da manhã.
        Comprimia mais um punhado de fumo no cachimbo entes mesmos do restante se transformar em resíduos de brasa, antes que qualquer súbito de notícia, qualquer acontecimento rasteiro, de ímpeto frívolo ou alarmante vinda do pequeno que rádio dependurado a sorte despreocupada, não há não o colocaria nas paginas dos significados imediatamente compreendidos, era certo pensar que quanto mais caminhava entre os significados, mais se distanciava dos sentidos, como perdido num labirinto de paredes de gritos surdos, com olhos atentos, mas tateando com uma bengala cega. Todos tem um diagnostico para algum sentido, todos sentidos são diagnosticados sem qualquer. Nunca procurou sentido no sabor amargo da fumaça úmida do fumo que aspirava, brincava em seus pulmões, e expelia baforadas aliviando-se com a neurotoxina recreativa. Caminhar entre seus instantes entes, com passos inertes, ignorando que existia para outros, tudo que os estado deserto era, essa amontoado de razões desvairadas, enfermas-aleatórias. Não sentia-se existindo quando estava pensando. Os sonhos não tecem sentido. Esse ensaio de incoerências que sãos as tentativas de tecer um signo para tudo que é desvendado.

      Os ventos que sopravam na orla crivavam os sinais da transmissão, o som raspado ruía com a mudança de intensidade. A orla continuaria existindo mesmo sem os sinais de notícias. Não ouviria o quem deveria ouvir, os bons conselheiros transversais, os messias modernos mergulhados em sua própria graça. E o corpo da baleia encalhada, que continuava a apodrecer, e a multidão que declaravam o monopólio das areias. O sol só luzia, sem exalar calor. E o estado deserto que sempre o seduzia, e sobre ele somente aqueles três segundos para cada instante, diluía a cada instante. Construía uma história, a sua própria, como em si sempre construiu, quem sabe suas páginas foram virados, sem prestar sentido aos significados imediatamente compreendidos. O estado deserto jamais lhe cobrava impostos, dividendos, quitação de promessas ou pormenores menos ou mais convenientes. Era assim que nomeava seus momentos na orla. Sim estava certo. Ele sentia-se existindo.  


                                                                     
                                                                                    Por Edson Moura, em 20/01/2014          

domingo, 19 de janeiro de 2014

Escotilha


           
            
W. Kandisnsky
Acordou lembrando, ser surdo para o mundo não o imunizava do tumulto de olhar para as vísceras apodrecendo dentro de si. Sim, ele continuaria a lembras sempre que o cansaço o norteasse ate cair em profundo sono, e sempre que acordasse.
          Seu dever seria caminhar atrás dos três quarteirões até o centro tipográfico. Escolheu o dia com menor movimentação nas ruas. Não lhe interessava a pouca quantidade, menos pessoas significarias que voltaria mais cedo ao escritório onde, sabidamente, não era bem vindo, ou simplesmente não haveria conveniências que lhe prendesse ao seu birô de fórmica prensada de camadas destacadas nas bordas. Como que devidamente-propositadamente cuidaram para que fosse seu respalde de cotovelos enquanto não viesse sua carta de demissão. Caminha sobre seus passos em velocidade variada mesmo se dando por notar que não era ele quem movimentava sua coordenação motora, pesava consigo, se assim o era, comumente, seus pessoas não estariam percorrendo becos com aglomerados de agencias bancaria e barracas de camelôs vendendo espetos de carnes de gado de terceira. O odor na gordura faziam os líquidos gástricos escorrerem em afluxo o sabor do pão com café que comeu as pressas antes de vir ao trabalho. Escutava um sujeito de camiseta com as costelas esmeado de tão magro gritar que havia sido roubado há pouco instantes e que alguém deveria fazer a respeito, mas era ignorado do por todos por desventura incógnita, “não fez o sinal da cruz antes de sair de casa!” vendedor de espetinho grita. Pensava: uma das utilidades que um curso de filosofia me deu foram os estudos dos deuses metafísicos e como estes, supostamente, podem agir no transladar das artérias de uma rua de agencias bancárias.
           Na lista oficial dos estrangeiros urbanos estava o colombiano que vendia chocolate nas esquinas entre o beco das agências bancárias e a ruas de calçadas largas tinha mais dedicação às práticas austeras para lidar com uma torrente de expressões ranzinzas, mas ao vê-lo assovia uma canção de Wagner descobriu que notas podem ser um imperativo para silenciar as têmperas habituais. Não. Esse episódio não perdurou por alguns segundos, mas por um sétimo de dia que o escriturário tirou para bolar o trabalho e consumir tempo para rende-lhe uma fração de vida do dia que lhe restava, dando ao trabalho de percorrer seu inconsciente para doma-lo, sabendo que seu dever na tipografia foi concebido em sua alma esquerda e os movimentos da rua que o encantava concebido, por retórica corrompida, na sua alma direita. A boca seca atormentada pelo regime do sol, sempre este sol quente e vomitoso.
           Ladeava com a línguas os gosto verde da bile que continuamente gosmava em seu paladar. O gosto lembra, o gosto recorda do acidente que presenciou ao operário que da marquise, uma pancada lhe tirou o sento do gosto, os sabores mesmos, fugiram de sua boca, uma lesão no cérebro. Dádiva da ignorância é o não-pensar, sentir por dias com pensava o individuo que não sentia mais sabores, nem a valsa doce, nem a acidez azeda, nem o seco salgado. Em um momento que a gestualidade das palavras corria ou auxílio de cego do paladar.
           O barulho encandecido das ruas encouraçava as palavras. Não podia gerar conceitos, ou contra-conceitos, afinal não estava ali pra desconcertar o ato de um mendigo que mijava sorridente ao entoar melodias de Bach com o diafragma a garganta levemente contraído. Ele mesmo, em dado momento, desejou sair e urinar na causada de algum supervisor de trabalho, mesmo que estivesse a beira de uma suposta demissão. As criaturas desse mundo transitam mais por entre as resignações e a subjetivação do próprio substantivo, e com isso decretam a construção de uma câmera mortuária escarnicada para objetivação dos próprios adjetivos. Mas o mendigo que mijava entoando músicas de Bach estava sorridente porque não contemplava nenhuma destas posturas, não era resignação ou subjetivação/objetivação, ele era estado evacuativo. Evasão surda para o caos que fluía em suas costas, estando de costas para qualquer hemisfério. O escriturário imaginava o que seria do mendigo que urinava aos entoar a música Bach se, repentinamente, perdesse a audição. Se possuir meia idade já viveu o suficiente para memorizar um repertorio extenso; ou pelo jeito com que ignorava do desmundo a sua volta a teria perdido a tempos. O secreto ouro do mendigo na companhia de Bach era conquistar a adoecer com surdes para o mundo. Mas a covardia lhe revirava o fígado, não teria coragem do enfiar uma agulha nos tímpanos só para agradar a partícula do ego que estava afadigada de ouvir os queixumes de seus companheiros de trabalho. “Ele viveu sua meio idade de descobriu que não decorou suas músicas prediletas, como o mendigo o fez”, diria para si como justa conveniência para sua covardia. Sim. Nos dias que seguiriam após aquele encontro iria escolher outro caminho, mataria uma verdade recém descoberta sobre a surdez dos habitantes do beco das agencias bancárias. Enxergavam que as linhas finais das equações dos pormenores de uma quase verdade era uma erudição maliciosa e fatalista.
             Era bem certo que não deixaria de perambular atrás dos becos das agencias bancária enquanto o instituto de transporte não reconstruísse o anel viário que há anos estava desativado por descaso administrativo, esta linha corria través do caminho para tipografia, não deixava de imaginar um agrupamento de operários trabalhando na reconstrução, mas não deixava de desejar que isso não acontecesse. Seu único prazer em dias úteis era os instantes que pensava subjetivamente, quando eliminava a submissão das concretudes. Esse vício subjugador dos mandos e desmandos que em nada diferia os regimes austeros que retomava ao regime de servidão. Poderia inventar uma lenda onde um vírus vampírico sugava-lhe as recordações da época em que não havia compromissos com a concretude da servidão remunerada.
           Onde estava o cheiro do café com canelone que o desfazia dos ruídos ensurdecedores da movimentação do dia. Ainda desgostava a bile com sabor do pão ingerido pela manha e que agora apodrecia dentro das entranhas, pois era assim que via tudo que era ingerido. Ele, quem recebeu a tarefa de ir à tipografia, imaginava o restante de sua espécie com comedores compulsivos dos dejetos processados. Sim, podia sentir sufocado com o que comia, a bile ejaculava de seu tubo digestivo, arranhando sua garganta e o fazia encolher-se dentro do constrangimento de um dissimulado mau hálito. Nunca reclamou com o confeiteiro que preparava e lhe servia o canelone com café, mas enfurecia-se em silêncio com a perda repentina do desejo de saborear a refeição que ai evaporava pelo calor do forno. “As golfadas o atavam sempre que sentava para saborear alguma refeição de bom agrado”, pensava. “Será que é o psicológico”, pensou mais uma vez. Mas educou no habito de sempre com introvertido e dissimulado sorriso de satisfação, ou, fluir um sorriso mentir caloroso era sua forma de não agredir a inocência do confeiteiro. O cinismo é uma contenda silenciosa, negava a gentileza dos bons prezares da educação, quando um súbito sopro escarnecido lhe raspava a boca do abdômen fazendo sacar uma pistola que empunhava apenas em um instante imaginativo. O confeiteiro era inocente, mas estava servindo-o no dado momento da explosão de furor. Não era a primeira vez que acontecia o ataque repentino fúria. Havia percebido essas enfermidades que lhe consumia e a literatura pisco-médica iria desvendar como caso de homicídio cógnito de inocentes. E se perguntava “por que os surtos-frenético de violência só afetava quando sentia o gosto da bile afetava seu paladar, e por que o remédio de escape desses surtos era o ‘se perguntar’”. Antes de pagar a conta rabiscou num pedaço de guardanapo a frase “peço perdão por ter-lhe sentenciado a morte por sua inocência ao saborear o deleitoso canelone com café que você me serviu, grato”.
         Saiu da confeitaria desejando recuperar o guardanapo que milésimos de segundo antes deixou com o confeiteiro, o ato de nobreza do retraimento da própria culpa plantou uma sorrateira e venosa rejeição moral; o confeiteiro não era psicanalista, poderia interpretar aquele bilhete como uma conduta anárquica de um desequilibrado com boa educação formal; enfrentaria o tedioso comichão de se arrepender do arrependimento, e isso faria golfar a bile novamente e Hipócrates sorriria ao ver que a sabor das quatro cores da bile se distinguia pelos efeitos humorístico da espécie alvo de seu estudos. Consegue chegar a porta da tipografia com as roupa e sapatos encharcados de suor. Sentou na saleta de espera após ter entregue o recibo da encomenda dez mil cartões de visita. Antes mesmo que pudesse cair desmaiado pela azia e enjoo provocados pelos vômitos e golfadas que experimentou durante metade do dia, pediu para o segurança trazer um efervescente estomacal. Entendia do os sintomas se tornavam cada vez mais intensos e cada vez menos controláveis. Nem toda música de Wagner ou Bach que podia lembre parecia aliviar o distúrbio gástrico que atacava-lhe nos momentos do empacotamento dos cartões. Iram diagnosticar o problema com o os líquidos biliares como dissimulação de uma doença conveniente da preguiça e não como um prognostico dos efeitos humorístico de Hipócrates. Faria o pacto de gestos benevolente em médio prazo como meio de troca para uma cura; “esse pedido acovardado por salvação, a clemência dos pretensiosos”, alertava para si.

           Abriu os embrulhos onde continha os cartões, recebeu do chefe uma chave no um cartão alçado a um cartão com os dizeres: “Esta chave é para uso exclusivo dos funcionários demitidos por ‘Sufocamento de Hipócrates’”. Principais sintomas: racionalismo gástrico, lucidez olfáctica, humores auditivos. Ao final do corredor 17 verá uma escotilha que o conduzirá para fora do edifício. Sim. Era uma escotilha, e estava aberta.         


                                                                            Por Edson Moura, em 19/01/2014      

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ponto D’interrogação





Por que Sócrates perguntava. Por que caminhava através dos jardins de Atenas perguntando sobre si e transitavam as mesmas perguntas aos seus discípulos abstrusos o por que de tantas perguntas sobre si. Por que acordou um dia a disciplinar-se na disciplina da pergunta. Por que não havia este nascido com o dom das respostas.  Por que Zeus ou Atenas nunca lhe deram a substância-resposta. Quais ditirambos ouvir para silenciar suas perguntas. Qual fruto Ulisses degustou, a desafiar Poseidon e seus congênitos. Por que e o quando a semente de novos deuses criam seus brotos com ervas daninha. Por que desacreditamos em nós e esperamos o próximo dilúvio chorar suas torrentes divinas em nosso certíssimo. Por que sentimos medo de mentir, e tênue instante, mentimos para camuflar nossa falsa coragem. Por que aqueles que roteirizam a maneira como devemos nos comportar é, de fato, o grande antagonista das próprias diretrizes que impõe.  Por que as divindades subjetivas não postularam a existência do macrocosmo. Por que a pedagogia da história é aplicada aos moldes ascendentes, quando seu oposto nos mostra seu entendimento mecânico.  Por que aqueles que exigem pontualidade são os mesmo pontuais. Quais são as virtudes que não são virtuosas. Quantos e quais sentimentos deixaram de serem conceitos. Por que aquele que conforma seu semelhante na cruz como uma dádiva divina, nunca é visto carregando a sua própria. Por que discernimos Ser e o Tempo como arquitetos da modernidade e não somos nem Ser e nem Tempo. Por que exigimos valores que não temos. Por que não atribuímos aos poetas uma fração de crédito pelo desbravo do inconsciente. Por que subvertemos a desventura. Por que exigimos coerência, quando conceituamos que o caos é o princípio de toda ordem. Por que a filosofia pergunta. Por que as perguntas traem nossa falsa certeza das certezas. Por que deixamos de criar nossas próprias aspas. Por que nos confortamos com vírgulas. Por que a função do líder é retalhar uma verdade em subverdades difusas. Por que subsistência é a moda dos consumistas. Por que não usar black-tie define. Por que acreditasse que Sócrates nunca existiu. Por que não cultuamos o absurdo. Por que o absurdo é cultuado. Por que a imaginação pergunta e a religião restringe. Por que o pastor proibiu a pergunta. Por que deixamos de caminhar através do jardim a transitar perguntas entre o silêncio. Por que temos presa para crescer. Por que a republica dos filósofos é irrealizável. Por que o filo não é pop. Por que pop se torna filo. Por que somos naturalmente incompletos. Por alguma palavra apodrecem em verdades dogmáticas. Por que nascemos. Por que crescemos. Por que morremos. Por que transformaram a pergunta em meras disciplinas. Por que o empirismo da sombra e da caverna foi esquecido. Por que o desespero de ser pontuado. Por que a obsessão deve ser pontuada. Por que a desordem deve ser pontuada. Por que a pergunta deve ser pontuada. Por que matamos a pergunta. Por que o como, o quando, o onde, o qual devem ser pontuado. Por que os pontos pausam. Por que os pontos findam.  Por que os pontos exclamam. Por que deixou-se de usar o ponto D’interrogação.   


                                                                       Por Edson Moura, em 15/01/2014