quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Reino em branco





         Se perder no reina da criação não difícil, basta esquecer que ele existe. E será neste momento que sentirá que existe um Eu e uma Natureza. Não me sentia incomodado com o calor do sol em minhas costas, ou a poeira que ofuscava minha vista, ou o odor sufocante da fumaça que vinha da casa ao lado, ou as nauseantes injúrias de dos homens que discutiam sobre uma aposta cujos resultados fora a inimizades reciproca, ou compromissos que não existiam, ou os valores que ainda não haviam chegado. Confesso, era pequeno. Talvez venha daí a facilidade de esquecer que existo: minha indiferença por aquele mosaico de desconcertos que os adultos criavam. Não lembro o dia, nem tão pouco a hora, faz pouca diferença este conhecimento, levando em consideração que dentro o tempo cósmico, que alcança a cifra dos bilhões, a cifra de uma infância tenha pouca relevância, e foi devido a isto que senti que existe um Eu e uma Natureza, mas não sabia por meio de uma consciência. Não sabia se por hábito ou por lucidez, passava aqueles instantes a observar uma aridez que sempre guardei em minhas lembranças. Era fácil ver esta paisagem, morava nas últimas casas dos subúrbios, na fronteira que separava casas e natureza. E neste plano de terra quente, ao final da tarde, ainda podia ver a ondulações da temperatura armazenou no solo durante o dia. Lembrava ser aquela uma semelhança das cenas de um programa de astronomia que assistia todos da TV, e dentro do espaçamento cósmico, não existia muito distanciamento das imagens que os registros astronômicos me mostravam, de planetas com vastas planícies áridas, montanhas piramidais e formas e sombras de seres que nosso mais profundo esforço imaginário é capaz de delinear com 50% de exatidão. Mas era certo, naqueles instantes, de uma pequena solidão de minha infância, eu podia sentir que aquele belíssimo mundo a minha volta. Se perder no reina da criação não é muito difícil, basta esquecer que ele existe. E será neste momento que sentirá que existe um Eu e uma Natureza.  Era um reino em branco onde meus pés tocavam a terra. 

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