quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Fragmento (Desterro)


                                                                                                                                                                                                  
          Vento calmo, quase parado. Dois homens caminhando através da via mais traiçoeira do Território Seco. Sozinhos. Não havia almas para vê-los, nem recordar suas histórias. Sozinhos perambulando através dos zumbidos áridos de uma ventania que não parava. Em suas almas os ecos que os outros nunca cessaram em avisar: “é perigo para matá-los”. Poucas palavras saiam da boca deles. Caminhavam num silêncio morto. As silvas; mandacarus, cirzais, palmas e aveloses, todos habitavam aquela paisagem desde quando o mundo é mundo, quietas, esperando as passadas dos forasteiros. O sol, despreocupado, continuava ardendo, e assim ficaria até os primeiros sussurros do entardecer. Foram avisados que não haveria qualquer ribeiro ou barreiro pelo caminho, mesmo assim seguiam ansiosos, despreocupados, com o gosto da terra impregnada em suas bocas. Procuravam um lugar para descanso, para o sossego, procuravam A Terra onde as Tardes Morrem. Não comiam, nem bebiam há horas, talvez dias. Andavam, apenas.                               
       A ventania parou, o gosta da poeira cessou. Poderiam caminhar com maior rapidez agora. Algumas nuvens juntaram-se umas as outras, mas não havia frieza de chuva. O horizonte vasto, distante de tudo, próximo do nada, aguardava-os como uma danação desconhecida. Vento calmo, quase parado, fortificava repentinamente seu sopro, depois calmo novamente. Tudo era visto. Deles só suspiros de algum descontentamento. Alguém não estava com eles, O Mais Novo, aquele que se perdera pelo caminho. A voz do Velho Manso soado no juízo. Se existia verdade em todo aquele vasto de penúria geográfica esta estaria fugida das formas ou sentidos vivos. Presenciavam vistas como aquela desde o dia que nasceram. O sol esfriando aos poucos, os animais que carregavam a carga, cansados e com uma cauda de baba que escorria sem tocar o chão, rinchavam pedindo arreio, comida, sombra fresca, eles também precisavam parar e descansar o juízo perturbado pelas historias que ouviram na tarde de outrora, ontem talvez, ou numa data perdida, não sabiam em que tempo ouviram, só ouviram. Havia uma catingueira, já avistada de longe, esbelta em tom de verde, o mito descoberto, ainda era sedo para acreditarem. Estranhamento. Estavam no Território Seco, não haveria verde, quando há, é o verde seco, enganador para os olhos, pois não há nesta cena umidade nem alimento. Caminhavam, apenas caminhavam. As passadas dormentes freadas pelo calor, estavam acostumados com a tempera, estavam acostumados com aquela natureza rancorosa. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário